Pela Princesa - Interativa
21 Mais Alto Que A Honra
Notas iniciais
v i l a g a i v o t a
— Há quanto tempo que os seguidores de R’hllor estão vindo para cá?
Lorde Arthur questionou com as costas voltadas para o Senhor daquele lugar, observando a rua de paralelepidos na frente da Torre das Gaivotas. Pela janela conseguia perceber o ritmo da cidade portuária diminuir gradativamente, enquanto o sol ia se pôr e as pessoas voltavam para suas casas após outro dia de trabalho. Alguns talvez se perguntando onde estaria Lorde Arryn que havia passado pelos portões naquela manhã.
— Semanas, talvez meses. — Lorde Shett respondeu, ainda de pé em respeito ao seu suserano e se perguntando quando poderia ter seu escritório de volta para si. — Quando percebemos a cidade já estava lotada com eles. Vindos de todos os lugares, pregando blasfêmias e profecias.
— Blasfêmias e profecias que o povo escuta da mesma forma. — Arthur relembrou cerrando os punhos que mantinha atrás das costas. — Eu vi as multidões que se reúnem atrás deles quando cheguei aqui. Você falhou em deixar que isso crescesse tanto.
— O que queria que eu fizesse? Mandasse escorraçá-los pelas ruas?
O Senhor Arryn se virou em um movimento rápido dos pés, com os olhos contrariados.
— Perdão, milorde. — O homem mais velho se retratou rapidamente, abaixando a cabeça em respeito e medo. — Não foi minha intenção.
— Se não sabia o que fazer, deveria ter contatado o Ninho mais cedo, não esperado a situação ficar da forma que está. — Ele respondeu se voltando para a janela alta e percebendo o grupo que estava subindo a colina até a torre. As vestes escarlates e os mantos sangue diziam tudo o que ele precisava saber. — Agora tenho que vir até aqui e resolver essa bagunça.
Arthur caminhou até a mesa longa de carvalho e tomou a cadeira que deveria ser de Shett, observando o desgosto tomar conta da face do velho que não sabia esconder as próprias emoções. O jovem lorde fez sinal com a mão para a porta do escritório.
— Desça e diga a minha guarda que mande apenas uma pessoa entrar para falar por todos, não quero aqueles fanáticos tomando conta da torre. — Artie ordenou com a voz que sabia não deixar espaço para qualquer recusa. Voltou a falar quando o homem já estava quase fora. — E Lorde Shett, peça para eles ficarem alertas.
O homem concordou com um aceno da cabeça, partindo escadas abaixo.
Ele aguardou com paciência, mas a mente estava incessante.
Uma pequena parte de si mesmo temia os objetivos e rumos daquela noite, enquanto a outra maior trazia apenas a confiança de que ele resolveria tudo corretamente, como havia feito toda sua vida. Ele era o Lorde e Protetor do Leste desde a morte do pai, porém nunca havia encontrado verdadeiro empecilho a seu governo, um desafio que o tenha impedido de prosseguir.
Por isso, não sabia ao certo que era aquele sentimento que fazia sua barriga dar voltas.
A porta se abriu.
Três figuras vermelhas entraram.
Ele franziu as feições rígidas e bem definidas, incomodado por suas ordens terem sido contrariadas.
— Pensei ter ordenado a passagem de apenas uma pessoa. —Perguntou com uma sobrancelha erguida.
A mulher alta e austera que estava à frente sorriu, como se ele fosse uma criança boba. Ele a lembrava de sua mãe, entretanto apenas as partes que ele desgostava, o que fez Artir já não gostar dela imediatamente a partir daquele momento.
— Não poderíamos deixar nossa protegida vir até aqui sem proteção. — Ela explicou com a voz eloquente, voz de quem pregava às multidões e era ouvida até nos cantos mais longínquos de uma grande praça. — Mas, não se preocupe, esperaremos do lado de fora.
A mulher saiu seguida de um homem que escondia uma armadura vermelha debaixo dos mantos da mesma cor.
Deixando apenas ele e o terceiro ser, pequeno em grandes roupas escarlates que a escondiam.
O manto que cobria sua cabeça e obstruía suas feições foi o primeiro a cair, revelando o cabelo prateado e chamativo. Arthur se segurou para não demonstrar surpresa, para não parecer um bobo tomado pelo primeiro impulso de gritar princesa. Na verdade, apenas focou-se nos detalhes, nos olhos violetas, tão característicos e intensos, que destrincharam ele com a mesma intensidade, ambos se encarando e tomando notas na mente.
Alyssana tirou o manto das costas, cansada de se esconder.
— Você não está morta afinal. — Arthur disse primeiro, feliz por não ter se deixado levar pela surpresa como a maioria das pessoa teria feito.
— Você é muito perspicaz, milorde. — Ela rebateu, um sorriso brincando nos lábios rosados.
— O que uma princesa procurada está fazendo com um bando de sacerdotes vermelhos? — Ele perguntou antes que ela ditasse o rumo daquela conversa. Sua mente trabalhando incessantemente, pensando se já deveria mandar seus homens entrarem escada acima, porém se lembrou de quem guardava a porta. Cerrou o maxilar definido, se sentindo acuado. — E mais importante, o que vossa alteza quer comigo?
Ela caminhou, tirando o cabelo do penteado complicado e deixando que as madeixas únicas caíssem pelos ombros e vestido justo, deixando sua aparência menos da realeza e mais selvagem. Era bela como apenas as valirianas conseguiam ser, donas de encantos quase etéreos e cheias de mistérios com seus olhos coloridos. Alyssana tinha consciência de seu charme e o que ela poderia ganhar com ele, quem ela poderia ganhar.
— Eu não estou com os sacerdotes, eles estão comigo. — Ela corrigiu levando uma mão até a jarra de vinho que havia em cima da mesa, enchendo duas taças, a princesa tomou um gole, ele não moveu um músculo. — Precisava me encontrar com você, por isso todos estão aqui.
Lorde Arryn a observou contrariado e cheio de dúvidas.
— Você é sinônimo de problemas no momento. — Ele disse devagar, usando um tom baixo da voz masculina, não poderia deixá-la dominá-lo com papo furado. Sabia que sua intenção era seduzi-lo de alguma forma, Arthur só não sabia para quê. — O reino inteiro está atrás de você.
— E Milorde foi o único que não mandou todos seus vassalos atrás de mim.
Ele piscou, a única demonstração de sua surpresa.
Alys continuou com um sorriso vitorioso brincando nos lábios rosados.
— O único que não quer a recompensa, o único que já tem tudo o que quer e precisa. — A voz dela parecia cantar as palavras como o canto de uma sereia. — O único que não vai correndo lamber qualquer migalha que o Rei jogue no chão.
— Seu pai. — Ele relembrou.
A carreta no rosto dela foi o suficiente para entender o luto, raiva e desprezo.
Arthur podia dizer que estava intrigado, instigado e curioso. Precisava de seu autocontrole para não lançar todas as perguntas que tinha boca a fora.
— Aquele monstro eu nunca considerei meu pai e nunca vou considerar. — Alyssana explicou bebendo mais de seu vinho em um único gole e mostrando outra carreta, dessa vez por conta do álcool ardendo em sua garganta e do desgosto presente em sua alma. — Ele é o motivo de eu estar aqui, fugindo de todos.
— Como assim?
Ela suspirou, estava cansada, não queria contar aquela história e não iria contar tudo, apenas o suficiente para fisgá-lo. Precisava dele, era o par mais prático, mais poderoso e talvez o menos manipulável, mas ainda assim a melhor opção.
— Quem se arriscaria a invadir Pedra do Dragão e sequestrar a princesa?
— Isso é o Westeros se pergunta desde que você desapareceu. — Lorde Arryn relembrou.
— O objetivo nunca foi me sequestrar, foi meu matar.
A face Arthur continuou pedra e ela soube que precisaria de mais do que imaginou quando decidiu que seria ele. Não importava quantas previsões a sacerdotisa desse, ainda assim algo devia ser feito para que o futuro previsto fosse alcançado.
— Aegon nunca me quis no trono, nunca quis que eu fosse a herdeira, principalmente depois de Aerion nascer. — Ela explicou e sua mente só conseguiu voltar para casa, para sua mãe e para a criança que a aguardava lá. — Ele mandou o assassino para Pedra do Dragão, ele que mandou me matarem. Ele é o motivo de tudo isso.
Arthur riu com escárnio.
— Por que o Rei faria isso? Apenas para você não ser Rainha? Não parece arriscado demais?
— Ele faria pelo que eu fiz anos atrás. — Ela tomou mais do vinho, era a única forma de contar tudo de forma rápida, sem deixar as lágrimas tomar conta de si.
Alyssana suspirou, deixou o ar sair e o puxou de volta com força.
— Eu tive um filho há onze anos. — Confessou deixando a informação dominar o ambiente por segundos, deixando ele digeri-la. — Um menino que ele nunca conseguiu dar ao reino. Por isso ele sempre me odiou, por isso ele quis me matar anos atrás. — Alyssana se lembrou e fechou os olhos por alguns segundos, para afastar as memórias ruins da mente. Ela não contaria toda a verdade, era demais e ela não tinha confiança em Arthur Arryn, talvez nunca confiasse. Mas, precisava dele. — Ele não conseguiu, não quando minha mãe interveio e eu apenas fui banida para Pedra do Dragão. Meu filho, Lucas, foi criado na corte, como bastardo do Rei.
— Um filho? Um herdeiro homem? — Perguntou mais para si mesmo do que a ela, tentando entender e decidir se era pura verdade. — Filho de quem?
— Não importa.
— É claro que importa, quem é o pai da criança.
Alyssana negou com a cabeça, fechando as mãos ao redor dos braços da cadeira.
— Não pergunte sobre isso, de mim não terá qualquer resposta.
Arthur sorriu, coçando o queixo enquanto sentia a vontade cômica de rir daquela situação. Daquela confissão que parecia tudo, menos crível.
— Isso parece loucura.
— E o que seria, se não a loucura Targaryen que todos adoram comentar sobre?
— E por que ele quis te matar apenas agora? Por que esperar tantos anos?
Alyssana olhou para longe, pela janela até onde os sacerdotes estavam.
Voltou semanas em suas memórias, há uma noite chuvosa em Pedra do Dragão. O assassino subindo a ilha rochosa, ela de frente a sua janela, olhando a chuva e os trovões. Ela abraçou a tormenta naquele dia, abraçou a guerra e a força. Decidiu que não iria morrer, que iria lutar por sua vida e pela vida que tinha criado dentro de si.
— Porque eu finalmente estava pronta para matá-lo e tomar a minha coroa.
Não foi difícil juntar os pontos a partir daí.
— Os sacerdotes vermelhos, eles estão se juntando, por você…
— O povo os escuta e eles fazem todos culparem o rei, seja por uma estação que faltou peixes ou pela enchente de um rio. — Ela conta tocando o rubi em formato de coração no pescoço, quase como se o sentisse pulsar da mesma forma que o músculo dentro de seu peito. — Quando o momento chegar, Westeros se levantará por mim.
Arthur finalmente tomou o vinho de seu cálice. Reis e rainhas, crianças e princesas. Era assim que os Targaryen eram e são, desde o Conquistador. Apenas brincando com todos acima das cabeças de todos, prontos para soltar o fogo dos dragões, por isso o Arryn os odiava. Uma guerra estava espreitando Westeros e ainda assim ele não sabia o Alyssana queria com ele verdadeiramente, qual era o papel dele naquela bagunça. E mais importante, o que ele deveria escolher.
— Qual o meu papel nisso tudo?
— Eu preciso de um marido.
Simples e rápida, precisa como havia decidido antes. Não devia dar tempo demais para ele se decidir, tempo para ele desistir. O ódio flamejante pelos Targaryen deveria ser usado contra o pai dela e qualquer outro que fosse apoiador dele, porém Alys não poderia deixar tal sentimento se voltar contra ela.
Não ainda.
— Eu? — Não era uma pergunta, era confusão apenas.
— O Vale é um dos mais prósperos reinos de Westeros, seu exército é grande e não entra em conflitos há dezenas de anos. Meus sacerdotes me dizem que seus vassalos anseiam por ação, que seu povo quer partir pelos Portão Sangrento. — As palavras dela precisavam ser fortes e chegar até o convencimento. — E como eu disse, você foi o único que não foi correndo após o chamado do rei.
— Então, deve entender minha falta de amor pela coroa.
— Se coloque contra ela.
— Insatisfação não quer dizer entrar em guerra e virar um rebelde. — Artie respondeu rapidamente. — Você fala como se já tivesse ganhado. Uma rebelião pode levar anos, muito menos considerando os dragões que voam na capital. É necessário recursos, planejamento. Você fala como se quisesse que eu levantasse meus estandartes e começasse a marchar amanhã.
— Eu sei que vou ganhar. — Ela fala com tanta certeza que ele quase chega a acreditar. — Os sacerdotes viram nas chamas, eles já me viram coroada.
Arthur riu em escárnio, se levantando da mesa e levando as mãos aos cabelos. Loucura, aquilo era pura loucura.
Alyssana suspirou levemente.
— Meu pai não contratou qualquer assassino para me matar. — Alys esclareceu chamando a atenção dele novamente. — Ele mandou acharem um em Braavos, um homem sem rosto. — Arthur já havia estudado muitos anos atrás e ouvido as histórias, ninguém sobrevive a eles de acordo com as histórias. — Sabe como eu sobrevivi? Por causa de R’hllor, ele mostrou minha morte e como evitá-la. Se não fossem os sacerdotes eu nem estaria aqui, conversando contigo.
— Mesmo assim, você quer demais. — Falou quase como se estivesse sozinho, pensando nos prós e contras que aprendeu a medir durante sua vida como lorde. — Uma guerra não é vencida assim, um reino contra todos os outros.
— Eu nunca disse que lutaríamos sozinhos.
— E quem virá ao nosso lado?
— Os leões não colocam os pés na capital faz anos e desgostam tanto do rei quanto você, eles se levantaram por mim, principalmente quando Lorde Lannister souber que poderá perder uma das coisas que mais lhe vale. — O par violeta parecia inflamado de chamas de um futuro incerto. — O Norte não irá se envolver, não quando eles lutam contra sua própria guerra civil.
— Do que você está falando?
— Do futuro! — Ela exclamou se irritando e se levantando, indo até ele. Levou as mãos até sua face, o segurando com precisão e fazendo o jovem lorde encará-la. — Mesmo sendo tão esperto, não consegue entender? Eu já sei o resultado da guerra. Eu irei vencer!
Arthur olha para ela, percebendo que ela realmente acreditava no que dizia.
Ele se afastou, ainda sentindo o calor de suas mãos em sua face.
— E quanto ao seu filho?
— O que tem ele? — Alys questiona, recuando um pouco, preocupada.
— Você quer casar comigo, o que será de nossos herdeiros e seu bastardo?
— Não fale dele assim! — Ela pede mais alto do que deveria, se recompondo em seguida. — Ele será legitimado e se tornará rei após minha morte, nossos… filhos seguiram a ordem que já existe, sendo príncipes de Pedra do Dragão após Lucas ser coroado, sendo herdeiros do vale.
— Quero rotas comerciais exclusivas, terras fora do Vale, na fronteira com as Terras Fluviais… — Ele diz antes mesmo de perceber que estava aceitando, sendo convencido.
Ela o cala com uma mão.
— Tudo isso pode ser ajeitado, isso se você concordar, se for o meu Rei Consorte e for a guerra por mim.
Arthur pensa novamente no que aquilo traria de bom e ruim. Parecia cômico, que logo ele, a pessoa que menos gostava do governo dos Targaryen estivesse cogitando se casar com uma. Entretanto, dentro dele sempre houve uma chama contra a coroa, ele nunca teria tido a coragem de se rebelar por si só, porém ali havia uma verdadeira chance de se tornar rei que nunca foi cogitada. De mudar Westeros com a visão dele, de trazer riquezas para o Vale como nunca antes.
O Arryn sabia que ele não era o único que desgostava do rei e de seu governo, como todos apenas se mantinham na linha por conta das feras cuspidoras de fogo. Conseguia ver seu nome escrito na história escrita pelos meistres como um grande rebelde que salvou Westeros das mãos de um homem cruel, que queria matar a própria filha. Era lúdico, mas quase palpável, era o que ele queria. Ser lembrado, ser grande, não apenas como um bom lorde, mas quem sabe um grande Rei Consorte.
Alguém que mudou um continente inteiro.
Naquele momento, se casar com a princesa parecia até um preço pequeno a se pagar por tudo que conseguiria no futuro. Não pensou em sua mãe e em tudo o que ela diria quando ambos se encontrassem novamente, não pensou em suas irmãs ou seu irmã, em parte nem pensou em seu povo. Apenas ficou embriagado com a glória futura.
Por isso, ele disse sim em um murmúrio rouco.
Enquanto descia as escadas com Alyssana, se pegou perguntando o que teria sido dele se tivesse dito não. Só conseguiu observar as lâminas afiadas nas bainhas dos sacerdotes.
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