Pela Princesa - Interativa
2 Dragões Negros
Notas iniciais
s o l a r e s t i v a l
Daeron não se surpreendeu quando a carta de seu pai sobre o desaparecimento da princesa chegou por intermédio de asas negras. O herdeiro de Solarestival havia sonhado com a prima noites antes, havia visto uma tormenta, navios balançando e um rosto familiar sumindo no meio da chuva. “Alyssana tinha sido sequestrada”, fora o que o rei dissera e o que seu pai avisara em suas palavras rígidas e diretas. Mas Daeron duvidava muito daquilo.
Ele conhecia a prima bem demais para saber que ela não teria sido levada sem lutar e que Pedra do Dragão era devidamente fortificada para ter sido invadida. Ou uma pessoa extremamente habilidosa teria que ter feito tal coisa, isso o deixava com certa preocupação. Coisa que devia ter se demonstrado em sua face, pois Daerys, sua irmã, questionou sobre o conteúdo no pergaminho.
— Alyssana, nossa prima está desaparecida. — O Targaryen que possuía cabelos tão negros como piche respondeu rapidamente.
A outra descendente de Aegon I ficou desconcertada e o garfo ficou preso com força em suas mãos pequenas. Daerys não gostava da prima deles, isso em parte por conta dela ter ciúmes dele com a Princesa de Pedra do Dragão, já que ambos trocavam cartas constantemente e haviam se aproximado na época que ele foi até a ilha para domar o próprio dragão.
— E o que mais papai escreveu? — Os olhos violetas dela refletiam um misto de ira e ansiedade.
— Que ele me quer em Porto Real o mais rápido possível. — Os dedos dele começaram a tamborilar na mesa do café da manhã. Ele observou enquanto a irmã deixava os talheres de lado e levantou-se de sua cadeira.
— Obviamente. — A raiva de Daerys era quase palpável no ambiente. — E você não deve levar muito para voar até a Corte.
— Não devo deixar nosso pai esperando, ele com certeza tem planos com os quais eu devo estar incluído.
Ela virou-se rapidamente fazendo com que as madeixas negras que estavam soltas em seu penteado se sacudissem com o movimento. A Targaryen se direcionou até uma das grandes janelas altas que deixavam a luz da manhã entrar no palácio de verão. Daeron não sabia se devia ir até ela ou não, na verdade, fazia algum tempo desde que o rapaz tinha noção do que fazer em relação à irmã.
— Você vai me deixar, por ela… — Tinha frustração em seu tom baixo, porém a acidez e o ciúme ocultavam isso.
Daeron por fim decidiu se levantar lentamente, ainda ansioso por conta de seus próximos passos. Ele se sentia desleixado e temeroso ao lado da irmã, isso em grande parte por conta da culpa que sentia pelo fato de ter se deixado cair nas investidas dela. Havia começado após a morte da mãe deles, quando ambos estavam frágeis, devastados e carentes. Agora ele não sabia se cair nos encantos dela era apenas para suprir a solidão ou porque ele era fraco demais para se esquivar da personalidade forte de Daerys.
Ele tocou no ombro da irmã e a mesma virou-se, os lábios dela estavam contra os dele antes que Daeron pudesse reagir. O herdeiro de Solarestival não respondeu à boca dela e a segurou pelos ombros, a colocando para longe.
— Não vá! — Fora quase um grasnado cheio de ferocidade da garota e que fez com que ele recuasse dois passos.
— Sabe que não posso fazer isso, nosso pai…
— Ele que faça o que bem entender ou que vá procurar a maldita da Alyssana ele mesmo! — As palavras dela jorravam ódio e ele não gostou da maneira como a irmã falou da prima deles.
— Pois bem, se precisar ficar com raiva de mim, que fique, mas não diga tais coisas de Alys.
Ela bateu os pés no chão em uma atitude completamente infantil e saiu do pequeno salão em um redemoinho de vermelho e preto.
Daeron deixou o ar sair de seus pulmões com calma e foi até uma das mesinhas encostadas na parede. Serviu um cálice de vinho dornes, que era o favorito dele. Depois sentou-se em seu cadeirão novamente, o assento que pertencia a seu pai, a Mão do Rei, Lorde Aemond, mas que ele ocupava enquanto o patriarca permanecia na capital. Daeron estava cansado dos caminhos que a vida dele estava tomando. Sua mãe nunca que estaria orgulhosa do que a família estava se tornando.
Lady Daena havia sido o pilar que matinha todos eles unidos sob o teto de Solarestival, mas agora que ela havia partido todos estavam no meio do caos. Aemond havia se afastado ainda mais, à medida que tentava reverter todo o mal que Aegon fazia enquanto ocupava aquele trono horroroso. Ele e Daerys viviam naquele castelo, tinham cedido a um relacionamento que ele se sentia culpado, por mais que fosse comum na família dele o casamento entre irmãos. E Aelor, o mais novo, fazia meses que ele não colocava os pés em casa e eles apenas sabiam que o mesmo não estava morto por conta dos relatos de seu dragão indo de um lugar a outro por Westeros.
Não eram mais a família que Daena havia deixado para trás.
Daeron tomou o último gole de seu vinho forte, sabendo que tinha de preparar o palácio para sua partida e que não demoraria muito para que ele tivesse que cortar o céu sob as asas de Stormcloud, seu dragão. Ele deixou o copo e tentou pensar nos afazeres que teria pela frente, assim não ficaria tão concentrado na irmã, no pai, no irmão ou ainda na prima desaparecida.
♖
p o r t o r e a l
Aemond Targaryen saiu da sala do Pequeno Conselho mais atarefado do que quando havia entrado.
A cidade estava efervescente com o fluxo de pessoas que estava vindo para a capital na busca pela princesa desaparecida. Todas as tabernas estavam lotadas, roubos estavam mais frequentes e até havia ocorrido o assassinato de um Manto Dourado dentro de qualquer bordel na Rua da Seda. Todos assuntos que ele teria de tratar pessoalmente já que ele era a Mão e o Rei não parecia disposto a levantar de sua cama desde que havia achado sua mais nova amante vinda de uma caravana lysena. Pelos Sete, como ele odiava Aegon.
Se surpreendia por ter sido amigo do primo quando ambos eram jovens e sem as responsabilidades que mantinham hoje em dia, ou ao menos as que ele possuía. Toda a relação havia se deteriorado quando Aegon desposou Rhaerys, a mulher que ele amara na juventude, e depois fora apenas ladeira abaixo com a coroação dele. Aemond até duvidava de que o motivo do Rei ter dado a ele o broche dourado não fora por sua competência, mas sim apenas porque ele odiava demais todos os outros membros de sua corte para dar a qualquer um deles tal poder.
De qualquer forma, nada adiantava continuar pensando nas piores coisas do Rei dos Sete Reinos quando ele tinha tanto com que cuidar. Porém, primeiro ele teria que ir ver uma pessoa muito mais importante.
O Targaryen de Solarestival seguiu descendo escadas e passando por corredores abafados pelo calor de Porto Real, que ele tanto odiava, já que era o oposto da brisa fresca de seu próprio castelo. Mas aquela era apenas outra das pequenas coisas que não gostava naquele lugar. Seu andar ágil, mesmo que para uma pessoa de sua idade, o guiou direto para um dos jardins da fortaleza perto da Arcada das Donzelas. Ali ele encontrou quem procurava.
Sua prima, a Rainha dos Sete Reinos, Rhaerys. Ou apenas Rhae, como ele a chamava longe dos ouvidos atentos dos cortesãos.
Como era de costume Sor Daemon Targaryen, um dos muitos Targaryen das Terras da Coroa, estava de guarda, já que ele era o escudo juramentado do Príncipe Aerion. Além de ser um dos poucos membros da guarda real que ainda tinham dignidade e honra. O homem alto e esculpido numa expressão séria permanecia próximo a uma coluna e os olhos sempre atentos aos arredores, por isso que ele foi o primeiro a notá-lo ali e lhe direcionar um aceno. A Rainha apenas percebeu sua presença quando ele estava próximo da tenda onde ela se sentava em uma cadeira pequena.
— Também veio fugir de seus problemas? — Ela questionou calmamente, a voz num tom cansado, como toda a expressão de Rhae demonstrava. O tom escuro debaixo dos olhos dela mostravam as noites mal dormidas e o cabelo prateado apenas preso folgadamente transmitia a falta de vontade da Targaryen de estar apresentável nos últimos dias. Tudo aquilo por conta da filha que ela não sabia onde estava junto com todos os outros problemas que assolavam a vida de Rhaerys desde o dia que ela veio para a Fortaleza Vermelha em sua mocidade.
— Temo que o único jeito de fugir deles sejam voltando para nossa casa.
Nossa casa, as duas palavras soavam amargas para ela, já que Solarestival, o lugar onde ela havia crescido ao lado de Aemond, não poderia mais ser considerado seu lar.
— Você ao menos tem a possibilidade de voltar quando quiser, eu estou presa aqui pela coroa e pelo matrimônio. — Ela estava mais fechada naquele dia, mas Aemond não poderia culpá-la, a vida havia sido difícil para aquela mulher e agora tudo parecia piorar com a situação da princesa. — Eu te aconselhei tantas vezes a largar esse maldito broche e voltar para sua família, eles perderam a mãe pela doença e o pai pelo poder.
Aemond não gostava quando ela falava daquele jeito, principalmente porque muito era verdade.
— Ir embora e deixar o reino ruir ainda mais? Quem você acha que virá depois de mim se eu largar o meu posto? Um Martell para fazer a vontade de Selaena? Ou pior ainda, um Tyrell para babar nas bolas de Aegon ainda mais?
Rhaerys o calou com um olhar cortante de suas íris púrpuras, pois ambos sabiam que aquela não era maneira de falar sobre o rei, não por respeito, apenas por conta do medo.
— Isso se ele me der a chance de sair daqui vivo…
— Ele não te mataria, Aegon ainda é são e sabe que isso causaria mais problemas do que ele poderia lidar com fogo e sangue.
Aemond apenas concordou com um aceno para acabar com aquele tópico, por mais que tivesse dúvidas sobre o que Aegon faria ou deixaria de fazer.
— O que você veio fazer aqui de qualquer forma? Teve notícias de Alyssana? — Havia esperança tanto na voz quanto na expressão da prima de Aemond, pois ele sabia o quanto ela queria apenas a mínima chance de saber que sua filha estava bem ou voltando para Pedra do Dragão. A Mão do Rei ainda sabia que ela se arrependia amargamente por ter deixado Aegon mandá-la para a ilha quando a menina tinha apenas quatorze dias de seu nome.
Ele tinha ido até à prima para deixá-la a par do que havia descoberto até o momento, mesmo que fossem coisas que não a deixaria feliz.
— Infelizmente não. — Fora difícil para ele ver a esperança se esvair de Rhaerys com suas próprias palavras, mas não adiantava nada ele suprir sonhos que não existiam. — O capitão da guarda revirou o castelo e todos os cantos ilha, não há o mínimo sinal da Princesa. Ninguém sabe como um mercenário ou qualquer um poderia ter entrado no castelo tão bem guardado e há dúvidas de que ela foi realmente sequestrada.
— Como? — A rainha pareceu se agitar.
— Imaginamos que a sua filha não teria sido levada a força facilmente, o próprio capitão afirmou isso com veemência. Ele acha que ela pode ter ido por conta própria ou por outro motivo que desconhecemos. — Ele contou todos os fatos que já havia reunido no pouco tempo que conseguiu para investigar, tudo o que ele pretendia contar a Daeron assim que ele pusesse os pés na capital.
— Isso não é verdade. — Ela comentou soltando a expressão mais uma vez e se perdendo na risada de Aerion que brincava na grama esverdejante.
— Como pode ter tanta certeza?
— O dragão ainda está lá.
A Rainha se referia a Syrax, o dragão que pertenceu apenas a gloriosa Rainha Rhaenyra, a maior fera da geração e que era a montaria da princesa Alyssana.
— Perdão Rhae, mas ainda não entendo.
Rhaerys deixou de observar seu único filho para focar sua atenção em seu primo e antigo amado.
— Ela amava o dragão dela como se fosse uma parte si mesma, Alyssana nunca partiria sem ela.
Aemond segurou um suspiro cansado. Onde quer que Alyssana tivesse sido levada ou não, ele precisava descobrir o paradeiro da princesa e precisava que fosse Daeron o cavaleiro a resgatá-la, para que assim seu herdeiro virasse o prometido da garota. Dessa forma Aegon não poderia negar a mão da filha para o filho mais velho de Aemond, que o Rei sempre achou impuro demais para ser parte da família real. Tudo aquilo para compensar todos os anos que sua família fora menosprezada.
Ele precisava achar Alyssana.
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