Pela Princesa - Interativa
10 Corações em Corte
Notas iniciais
p o r t o r e a l
Sienglinde Martell não gostava da capital.
A maior cidade do continente era quente, muito diferente do calor de Dorne que era sempre suprimido pela brisa fresca do mar. O ar dali fedia a peixe ou aos dejetos das ruas íngremes e apertadas mais abaixo na Colina de Aegon. Até mesmo a noite era abafada e ela suava mais do que de dia, enquanto sonhava em voltar para sua cama sempre fresca durante o luar dornense.
Pelo menos a comida aqui não é tão apimentada.
A herdeira Martell pensou enquanto comia um pedaço de seu faisão, que não era cheio de especiarias ou pimentas como em casa, sempre fazendo o estômago sensível dela protestar. E também podia desfrutar da presença agradável de Elrie, como fazia naquele momento enquanto se sentava próxima da irmã mais nova. A outra filha de Selaena narrava como havia sido seu dia na sala de costura e como haviam tido o vislumbre da Rainha no lugar depois de tantos dias com a mulher trancada em seus aposentos. O marido de Elrie, Coryn Velaryon, ouvia tudo apaticamente.
Sieglinde não conseguia deixar de lançar olhares rápidos e incisivos no esposo de sua irmã. Seu coração queria palpitar mais rápido, não por conta de qualquer desejo perverso, mas por lembranças. A Casa Velaryon também descendia de Valíria e ela tentava buscar qualquer semelhança entre o homem sentado à sua frente e Gaemon, o Targaryen que ela amou e perdeu há tantos anos. Ou então tentava ver se Daevon, seu único filho com o homem que perdeu, também observava o homem sentado à mesa com o mesmo objetivo que ela. Afinal, o infante Sand era mais esperto e atento do que os outros garotos de sua idade.
Sieglinde deixou as memórias de lado para focar nas palavras animadas e polidas de sua irmã.
— Ah, Sif… — Ela continuou, usando o apelido dado a ela pela família. — Você deveria ter estado lá, Vossa Graça é sempre tão doce. É uma pena que tenha se afastado do resto da corte, após…
Elrie se segurou, percebendo que entrava em assunto delicado e que Sieglinde já havia percebido do que se tratava.
— Desde que a Princesa Alyssana desapareceu. — A Herdeira do Sol não teve pena em tocar no assunto, como ela tinha observado muitos dos cortesãos fazerem desde que haviam chegado ali. Ela achava irracional, fingir que nada aconteceu era quase cômico quando a fortaleza estava lotada apenas por conta da herdeira Targaryen.
Sua irmã olhou para ela e seu marido também, como se pedindo para que não repetisse. Apenas Daevon continuou focado em seus grãos, embora ela soubesse que ele mantinha os ouvidos bem atentos ao que era dito ao seu redor.
Elrie molhou os lábios antes de falar em quase um sussurro.
— Sim, Vossa Graça ficou muito abatida com a notícia. — A dornesa comentou enquanto remexia a comida na louça branca. — Todos ficamos, a princesa era amada por muitos.
— Você chegou a conhecê-la? — Sif gostaria de saber, já que a mesma nunca havia colocado os olhos na mulher que um dia deveria reinar sobre toda Westeros, influenciado diretamente Dorne. Isso caso fosse realmente encontrada nas próximas semanas ou quem sabe meses.
— Apenas de relance. — Sua irmã respondeu agora já deixando a comida de lado. — Ela vivia na ilha, como todos bem sabem. Desde que foi embora, ainda uma moça e nunca mais colocou os pés aqui. Eu estou aqui na corte há apenas dois anos, mas já ouvi muito sobre ela e já visitei Pedra do Dragão com a Rainha Rhaerys algumas raras vezes. Foi onde consegui ver um pouco dela.
— E então? — A Martell estava quase se inclinando sobre a mesa em busca de respostas com sede por informações, sendo impedida apenas pela etiqueta.
— Não tenho muito o que dizer, Sif. — Disse causando certo desapontamento em Sieglinde. — Ela parecia feliz sempre que a mãe conseguia vê-la, mas era reservada com quem não conhecia e voava muito em seu dragão, como você e…
Elrie levou uma mão a boca, quase repreendendo a si mesma por achar ter tocado em outro assunto delicado.
Sieglinde também havia sentido o que era ver o mundo do alto, nas asas do dragão de seu falecido amado. Sobre Lançassolar e com o vento nos cabelos. Quando era jovem e cheia de paixão por um Targaryen que havia vindo morar em Dorne após perder toda a família. A mais velha não conseguiu deixar de olhar para o filho, a última parte de Gaemon que ainda estava naquele mundo. A dor ainda ardia no peito quando percebia que após tantos anos ainda não havia superado e se perguntava se um dia conseguiria. Daevon a olhava de volta, com seus olhos azuis idênticos ao do pai.
— Acho que já está na hora de nos recolhermos. — Avisou levantando-se e sendo seguida por seu filho sem ao menos precisar pedir, pois ele sempre era rápido em decifrar o que a mãe queria sem o uso de palavras.
A irmã lhe lançou um olhar abatido, um pedido de desculpas silencioso, mas significativo. Sif apenas acenou dispensando qualquer mágoa, afinal já faziam anos desde que havia perdido Gaemon para a guerra. O peso ainda permanecia, mas ela não poderia ficar magoada com qualquer menção a ele ou coisas que a lembravam do que havia perdido. Muito menos com Elrie, a mais doce entre as crias Martell e que nunca queria causar tristeza a ninguém que rodeava.
A porta se fechou atrás dela sutilmente.
Os aposentos pessoais de sua irmã eram próximos do dela e de Daevon. Sendo que toda a Fortaleza Vermelha havia sido picotada como os Sete Reinos há tantos séculos atrás. Casas dominavam quartos ou alas inteiras, outros escolhiam espaços específicos durante o dia para manterem guarda e olhos atentos. Ele tentava ficar a par do que conseguia, enquanto buscava cumprir os próprios objetivos.
Uma antecâmara pequena e aconchegante guardava as portas para seus quartos.
Ela seguiu com o filho para o quarto dele, ajudando-o a tirar as roupas e trocar por peças mais leves para a noite. Deitou-se na cama dele, acariciando o cabelo loiro que havia herdado do pai, que não havia nascido com o prateado ou púrpura comum aos Targaryen.
— O que está achando de Porto Real? — Questionou baixo, esperando até que dormisse.
— Eu prefiro nossa casa. — O garoto confessou com um meio sorriso.
— Eu também.
A resposta dela fora sincera e com um pouco de divertimento. Sendo que Sieglinde havia vivido por anos do outro lado do mar, por conta dos laços que o falecido e amado pai dela tinha com Essos por ser um nobre de Tyrosh. Tinha vivido experiências únicas, conhecido pessoas estranhas, amigáveis ou odiáveis, ido a toda sorte de templo, viajado em cima de cavalos e elefantes. Porém, no fim nada se comparava a Dorne e a sensação de ter toda a família por perto.
Por isso que tinha trago Daevon consigo, não teria conseguido largar ele por tanto tempo.
— Eu sinto falta de Darrin. — Comentou se referindo ao tio, o irmão mais novo de Sif. Apenas três anos mais velho do que Daevon. — É claro que também tenho saudade de vovó e de tia Jaelyn, até mesmo de Sor Benjicot. — Ele completou rapidamente. — Mas eu sinto que seria mais divertido se ele tivesse vindo também, para explorar comigo o castelo.
— Eu entendo. — Ela respondeu sem parar de alisar os cabelos dourados. Trazer Darrin nunca fora uma opção, Selaena nunca teria permitido, sendo que a mesma nem queria que ela mesma tivesse viajado. — Já visitou muitos lugares?
— Não muitos, eu gostaria de ver os crânios dos dragões. — Pediu mais baixo, tanto pelo sono que já estava vindo e pelo fato das feras lembrarem sua mãe do pai falecido, o que fazia com que Sieglinde sempre desviasse do assunto.
— Bom, amanhã de manhã, durante o banquete no Grande Salão você poderá observá-los o quanto quiser.
— Obrigado, mamãe. — Ele terminou antes de realmente parar de falar qualquer coisa, com apenas o som de sua respiração leve sendo audível.
Ela ainda continuou observando, notando cada vez mais o quanto era parecido com Gaemon. Tinha pouco dela além da altura considerável para a idade e a inteligência, porém o resto vinha do pai. Sendo uma lembrança constante e, ao mesmo tempo, uma dádiva. A última parte dele naquele mundo, que ambos haviam criado juntos antes dele a deixar sozinha, morrendo nas costas de um dragão longe de Sieglinde. Sem ao menos saber que tinha um filho crescendo no ventre dela.
Apenas observar Daevon a enchia de motivação e puro amor.
Havia saído de Dorne por causa dele e por ele. Mesmo contra a opinião da mãe, que não achava certo ver a herdeira sair de Lançassolar em um momento tão conturbado em Westeros. As duas haviam tido uma das piores discussões, chegando ao ponto dela elevar a voz para a própria mãe. Porém, no final da discussão Sif tivera uma ideia gravada na mente e que nem a Princesa de Dorne poderia tirá-la de lá. Então ela tinha pegado o barco mais rápido que achou e navegou pelo Mar Estreito rumo a capital em contradição a Selaena Martell, até a missão de achar a princesa e conseguir uma barganha que trouxesse o que realmente queria. Já que não se importava com terras, títulos ou as recompensas oferecidas por Aegon.
Tudo era por Daevon.
As mulheres de Westeros sempre tinham escolhas feitos por outros. Por seus pais, irmãos ou lordes mais poderosos. Porém, quando se tornavam mães isso mudava. As escolhas viravam por seus filhos, mesmo que tais escolhas venham a trazer dor ou sofrimento, mas ainda assim as escolhas continuarão sendo pelas crianças.
E, se tudo desse certo, quando eles voltassem para Dorne seu filho não seria mais um Sand e sim um completo Martell. O Herdeiro de Dorne depois de Sieglinde, o futuro de sua casa, o caminho criado por ela e Gaemon.
♖
Ao contrário das suposições de Aemond, o Rei não deu qualquer importância para a chegada de Daeron ao castelo. Isso deixou o herdeiro de Solarestival mais tranquilo, porém ainda assim permaneceu na corte por mais alguns dias antes de ter que partir para Pedra do Dragão. Dessa forma, aquele era o único motivo de se encontrar em pé no meio daquele banquete.
Era quase o final da manhã, então até os nobres mais ociosos estavam despertos.
O salão parecia uma passarela de cores. Vermelho e preto, verde e dourado, amarelo e preto, laranja e mais dourado. Todos os nobres que haviam vindo até a Fortaleza Vermelha tinham vindo prestigiar o pequeno banquete que Vossa Graça havia proporcionado para seus lordes e ladys, todos ali com o mesmo objetivo: achar Alyssana. A coisa que Aegon havia mandado todos fazer, porém que ele mesmo não levantava um dedo para ajudar.
Bebeu um pouco de sua cidra, tentando tirar o pensamento amargo da cabeça.
Não gostava muito de tais eventos, por mais que se saísse eloquentemente em seu papel ao lado de seu pai. Entretanto, era o melhor que podia fazer para esvaziar a mente da ansiedade e da insônia causada por seus sonhos cada vez mais estranhos. Daeron sabia que tinha olheiras e esperava que nenhum nobre tivesse a falta de decoro para ressaltar isso à medida que a Mão ia cumprimentá-los, pois sabia que ainda faltava muito até que Aemond deixasse de andar de um lado para o outro carregando seus dois filhos.
Ele olhava para Aelor de soslaio, ainda sentido uma mistura de raiva e confusão.
A chegada do mais novo tinha sido uma surpresa tanto para o pai quanto para ele. Tinha surgido no meio da comitiva de Borys Baratheon, como uma grande ironia do destino criado pelos Sete. Estampava um sorriso galanteador e pouca-vergonha na cara, afinal tinha viajado por Westeros sem dar notícias por semanas e de repente aparecia na Corte sem qualquer convite ou aviso.
Aemond tinha ficado furioso.
Mas, as aparências eram mais importantes. Por isso que ambos vestiam preto brocado com detalhes em vermelho, correntes prateadas e broches desenhados em formato de dragões como os que voavam no céu naquele momento ou os crânios que os observavam macabramente. Os dois irmãos se alinharam quando o pai parou diante de Lorde Baratheon, seu filho mais velho e mais homens da Terra da Tempestade.
— A Mão do Rei. — Ottis comentou com certo nível de desdenho. Ambos não se gostavam por conta de conflitos em seus interesses. Aemond nunca concordou com o tamanho de poder que Aegon deixava Ottis manter tão perto das Terras da Coroa, enquanto o Senhor de Ponta Tempestade não gostava nem um pouco do Targaryen como Mão.
— Lorde Ottis, gostaria de agradecer por ter trago tantos homens consigo em busca de nossa amada e perdida princesa. — Aemond falou se referindo ao acampamento dourado que se aglomeravam sobre as muralhas da cidade, todos leais a Ponta Tempestade.
— É o mínimo e o certo a se fazer. — O homem bradou batendo um punho no peito ainda largo, mesmo com a idade. — A honra dos Targaryen e de Vossa Graça foi manchada com tamanha afronta, se eu puser a mão no desgraçado que…
— Irá trazê-lo perante a justiça de Vossa Majestade, para enfrentar o julgamento banal e, por fim, o fogo dos dragões. — A Mão o interrompeu e seus filhos trocaram olhares rápidos, a tensão crescendo mais do que deveria.
— Claro. — Ottis murmurou entre dentes cerrados, visivelmente contrariado.
— Aproveitem o banquete.
Daeron lançou um olhar calmo para Borys, haviam se conhecido quando ele mesmo foi escudeiro em Ponta Tempestade. Não eram próximos, mas amigáveis o suficiente para trocarem um aceno respeitoso. Aelor fora menos contido, dando dois tapas no ombro firme do Baratheon, que não foi retribuído, antes deles partirem perante o próximo grupo de cortesões.
Ele apenas cumprimentou rapidamente Lorde Velaryon e sua esposa dornesa, perdendo-se novamente em seus pensamentos e seus sonhos. Se lembrava de ter tais coisas o atormentado desde pequeno e que sua única confidente fora sua mãe, que o contou sobre os Sonhos dos Dragões. Mas Daena havia partido e agora ele ainda levava tal sofrimento consigo, sem poder contar para ninguém com medo de o acusarem da loucura dos Targaryen. Porém, era difícil ignorá-los quando vinham mais fortes e mais vívidos, principalmente desde que Alyssanava havia sumido.
Daeron começara a temer fechar os olhos a noite.
— Daerys vai ficar furiosa quando souber que é a única presa em casa. — Aelor riu com a voz baixa para não atrapalhar o pai e receber uma reprimenda depois.
O herdeiro piscou saindo dos pesadelos e focando-se no irmão mais novo. Era melhor enfrentar Aelor e seus dilemas do que a própria mente.
— Não se você não for maldoso o bastante para conta a ela. — Rebateu prontamente ainda calmo e distante.
Se lembrava de quando os dois eram próximos, verdadeiros irmãos. Quando eram crianças em Solarestival e o mundo muito menos complicado. Aquele tempo bom foi se desfazendo em brasas, com Daeron e Aelor se distanciando cada vez mais por conta principalmente da mudança do mais novo. O cavaleiro se afastou completamente do resto da família após a morte da mãe deles.
Daeron queria apenas que fossem amigos novamente.
— Eu aposto uma moeda de ouro que ela viria voando, mesmo sem o consentimento de nosso pai. — Aelor gostava de apostar, mas perdia mais do que ganhava. Por isso que não ganhava mais uma mesada farta, apenas o mínimo para não morrer na sarjeta enquanto estava fora de Solarestival. Daeron temia do que seria o tesouro de sua família se ele ficasse em alguma hipótese no cargo.
— Ela não seria tão impulsiva.
Aelor mostrou os dentes mais uma vez, desta vez tão debochado que suas covinhas ficaram marcadas nas bochechas.
— Parece que dormir na mesma cama que nossa irmã não o fez conhecê-la melhor.
Por um segundo uma onda de fúria o atingiu, quase impossível de manter a postura ereta e o rosto sereno. Entretanto, ele se lembrou de quem era e de como seu irmão podia ser odioso quando queria. Apenas limpou seu cálice em um gole longo e achou outro foco para sua atenção quando avistou a Rainha Rhaerys aparecendo por fim.
Até mesmo seu pai havia virado a cabeça, se perdendo no meio da politicagem.
Ela não vestia preto e escarlate como o resto da família, mas completo branco como os Mantos Brancos que vinham atrás de si. Suas damas a rodeavam em mais cores entre verde, dourado e até vermelho. O filho vinha segurando em sua mão e Sor Daemon mantinha a guarda de ambos como sempre fazia. Todos os olhos se focaram nela e, se o Rei se incomodou com ela vestir tais cores, não falou nada, apenas continuou observando tudo de seu trono nas alturas.
Aemond logo voltou a sua fala natural, indo a outro nobre.
Daeron esqueceu do irmão e não se importou com qualquer outro comentário que pudesse fazer. Sabendo que Aelor queria apenas o provocar e o herdeiro não deixaria que a raiva tomasse conta de sua cabeça. Tomou foco em cumprimentar quem se apresentasse em sua frente, seguir o pai e repetir o processo quase natural depois de tanto tempo sendo feito e refeito. Fora até abrupto quando Aemond os dispensou perto da mesa farta de comida.
— Não criem confusão. — A fala do prateado fora para os dois, mas os olhos violetas apenas se focaram em Aelor. Que não respondeu nada na frente do pai, mas saiu de perto quase arrastando as botas pelo chão.
Daeron não foi atrás de mais ninguém após isso, preocupado demais com a viagem que teria de fazer e com as memórias das noites mal dormidas. Talvez até já fosse embora do banquete, se recolhendo para os aposentos. Porém, fora por conta de sua mente poluída que não percebeu quando a Rainha se aproximou a passos leves.
— Você realmente cresceu. — Foi a primeira coisa que ela disse, sem qualquer formalidade digna da capital ou de títulos.
Ele era sempre mais formal.
— Vossa Graça. — Murmurou se voltando para uma reverência esperada.
Ela o impediu com uma mão leve e um sorriso incrivelmente verdadeiro para um lugar onde todos apenas fingiam emoções. Rhaerys não parecia pronta para entrar numa conversa da corte, cheia de politicagem e segundas intenções, aparentando que queria realmente apenas conversar com ele.
— Você é família, tão nobre quanto eu. — Ela relembrou unindo as mãos a frente do corpo. Ele percebeu que ela também tinha olheiras profundas, mas a dela foram escondidas não muito bem por pó branco. — Ambos viemos do mesmo lugar.
— É claro… — Daeron murmurou se lembrando daquele fato, que a Rainha era de Solarestival, nascida e criada no mesmo castelo que ele. Prima do pai dele e ambos foram próximos na juventude, ou mais do que próximos, como muitas línguas gostavam de sussurrar.
— Está gostando do banquete? — Rhaerys questionou olhando ao redor para as pessoas que conversavam ao longe ou as que encaravam abertamente.
— Sim. — Mentiu o melhor que pôde.
Ela mostrou um olhar afiado antes de estender o braço.
— Seu pai já te libertou das formalidades?
— Sim. — Respondeu a mesma coisa, ainda bobo por ter a Rainha conversando com ele.
— Então me acompanhe, Daeron. — Não havia espaço para desculpas ou uma negação na fala dela.
Por isso ele entrelaçou seu braço no dela.
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A sala do trono era uma mistura de cores e nobres adornados.
Sieglinde era uma dessas pessoas. Os cabelos castanhos vinham presos num penteado alto e adornado com uma presilha dourada, assim como os braceletes que guardavam seus pulsos e a corrente de sóis que pendia em seu pescoço. O vestido de seda leve alaranjada se misturava com o tom de pele claro herdado do pai vindo de Essos, diferente da oliva de Selaena. A peça se movendo graciosamente enquanto cabia perfeitamente sem seu corpo sem muitas curvas.
Os passos dela eram leves e a levavam para o centro.
Alguns olhos se voltaram para ela, mas a herdeira de Dorne não se abalou para nenhum deles. Havia sido preparada a vida toda para estar no topo, inabalável a julgamento e expressões tortas. Não seria agora que se quebraria perante uma corte venenosa. Por isso começou a caminhar pelo meio do salão tranquilamente, com o filho em seu encalço.
— Mamãe, já posso ir?
Ela se virou rapidamente, sabendo que ele queria ver os crânios espalhados pelo lugar.
Uma parte de si não queria que ele saísse de seu campo de visão, ainda mais com pessoas em que ela não confiava de forma alguma. Muitas já deveriam saber da bastardia de seu filho e ela não queria de forma alguma que alguém tentasse aborrecê-lo de alguma forma. Entretanto, não seria ela a colocar uma coleira na pessoa que mais amava.
— Não demore muito. — Avisou passando a mão por uma das bochechas e lançou um olhar rápido para uma ama a serviço de sua casa, para que ficasse de olho nele, principalmente num lugar nada calmo como num banquete real.
A mulher dornesa suspirou discretamente assim que os cabelos dourados de Daevon sumiram no meio da multidão. O ambiente barulhento a incomodava, mas ela teria que aturá-lo como sempre fizera ao longo da vida. Precisava conversar com pessoas, conhecer pessoas, se aliar a pessoas. Tudo o que acontecia apenas em eventos e banquetes como aquele.
Sif voltou sua atenção para o homem mais importante em Westeros.
O Rei observava todos do alto de suas espadas retorcidas e ainda assim afiadas. Ela não sabia muito dele ou dos outros membros da realeza além do que Elrie narrava em suas cartas destinadas à família em Lançassolar. Sendo que a Martell mais nova não era uma fonte confiável quando tinha uma opinião tão doce mesmo das pessoas mais odiáveis. Por isso que Sieglinde tinha um pé atrás com o Rei e sua família, sabendo que o futuro de Dorne poderia depender do que aconteceria nos próximos anos com aquelas pessoas. Sem os Targaryen e seus dragões para manter os outros reinos na coleira tudo poderia voltar ao caos que ela já tinha lido muitas vezes em seus livros, as guerras sanguinárias e contínuas antes da Conquista.
Um futuro que ela não queria para seu filho.
Vossa Graça possuía uma face estranha, misturada na luz que passavam pelos vitrais coloridos atrás do trono. Ela não conseguia distinguir se era neutralidade ou desgosto, estava muito longe para perceber atentamente. Porém, não foi difícil encarar o sorriso estampado que Fuchs Tyrell tinha para ela enquanto se aproximava com passos ligeiros e precisos, sem se esbarrar em ninguém que aparecia em seu caminho.
Ela abriu ainda mais os ombros, melhorando a postura que já era perfeita.
— Prima. — O beijo na mão dela foi rápido e delicado, enquanto os olhos dele passaram mais tempo observando ela de cima a baixo. — Está definitivamente estonteante esta manhã.
— Primo. — Começou deixando um leve sorriso amigável escapar para se equivaler com o largo do Tyrell. — Posso dizer o mesmo de você.
Comentou indicando o gibão verde relva coberto por espinhos dourados. Todos símbolos de poder que os nobres aprendiam a usar desde infantes.
— Faz um bom tempo que não a vejo. — Ele murmurou como se tentando imaginar a última vez que tal encontro raro tinha acontecido.
— Desde o funeral de seu pai. — Sieglinde o ajudou finalmente, o que abalou um pouco do sorriso largo.
Ela mal se lembrava de tal momento, era nova demais. Ambos apenas adolescentes com casas unidas por um casamento planejado pela avó dele e o avô dela. Fuchs era meio Martell, filho de Lira Martell, mesmo que hoje a mesma fosse tão Tyrell quanto os habitantes de Jardim de Cima. Não mandava sequer uma carta para sua irmã em Lançassolar, porém as formalidades marcadas pelo sangue compartilhado ainda se mantinham, mesmo que Selaena e Alerie tivessem sonhos e objetivos muito diferentes para suas casas.
As duas mulheres por anos se mantiveram numa disputa por poder e regalias da Coroa. E Sif se questionava caso aquilo fosse ser transmitido para ela e Fuchs um dia, quando ambos estivessem soberanos sobre suas terras.
Ele a respondeu depois de alguns segundos desconfortáveis.
— Sim, gostaria que pudéssemos ter nos encontrado em outras situações menos deprimentes. — O herdeiro da Campina falou em tom baixo, sem um sorriso, porém ainda lutando para segurar a expressão alegre.
— E onde está vossa irmã? — Questionou mudando sabiamente de assunto.
Se ela mal se lembrava de Fuchs, Eleonora era um borrão ainda maior.
— Provavelmente se enturmando com suas novas amigas, ela é uma dama da rainha agora, caso já não saiba. — Ele explicou rodando a cabeça pelo salão. Eleonora não estava em nenhum lugar próximo. — Uma de suas irmãs também tem tal honra, correto?
— Sim, Elrie.
— Os Sete são bondosos. — O Cavaleiro dos Cravos respondeu.
— São sim. — A Herdeira do Sol concordou com cautela, achando que aquele era um momento para usar menos da politicagem e mais da arte da guerra singela apenas pela troca de palavras. — Porém, soube que tinha outra prima aqui antes servindo Vossa Majestade. O que aconteceu com ela?
O silêncio atacou a dupla, enquanto o Tyrell abria um sorriso leve, mas sem muito divertimento agora.
— Ela estava começando a ficar indisposta na corte, por isso achou melhor voltar para Jardim de Cima. — Ele respondeu e ela não conseguiu perceber uma mentira na entonação da voz, por mais que soubesse que aquela história era mais sombria do que o garoto deixava transparecer. — Para perto da família.
Sif moveu a cabeça em um aceno.
— E você veio para longe, com objetivos bem claros. — Ela alfinetou mais uma vez, tentando achar algo de útil, que pudesse usar no grande jogo que era a corte.
— Também não preciso perguntar o motivo de sua vinda para Porto Real. — O Tyrell disse antes que ela pudesse dizer outra coisa incisiva.
— E eu não preciso questionar os seus.
A resposta pareceu o divertir.
— Não posso deixar de servir meu rei. — Ele explicou levantando o olhar rapidamente para o trono.
— Assim como agradar sua avó. — Sif completou focando nos olhos castanho-claro.
O sorriso voltou para a face dele.
— Da mesma forma que você está aqui para agradar à Senhora Selaena.
Ele não poderia estar mais errado. Sieglinde estava ali apenas por Daevon, nada mais ou nada menos. Porém, não diria tais coisas abertamente, não confiava em Fuchs e em ninguém que a rodeava naquele momento. Por isso sobraram apenas palavras já treinadas antes.
— Terras tão próximas da coroa e títulos, tudo seria perfeito para Dorne. — Ela mentiu. Dorne não precisava de um pedaço pequeno e pobre tão longe da sede de seu poder. Além de já serem ricos o bastante com o governo impecável da mãe dela. — Quem sabe meu irmão mais novo não poderia se tornar um ganhar um título secundário como os Targaryen de Solarestival.
Fuchs mostrou mais uma vez os dentes em divertimento.
— Primeiro terá que achar a princesa, cara prima.
— Não precisa me lembrar do óbvio. — Foi dura como as montanhas do norte de seu reino, como era necessário algumas vezes. Porém, o rapaz a sua frente não pareceu se importar.
— Você tem modos exóticos, prima. — Disse pegando uma bebida qualquer que passava nas mãos de uma criada. — Tão quanto seu próprio nome.
— Meu pai veio do outro lado do mundo e foi ele quem me batizou de acordo com sua cultura. — Ela explicou o que todos em Lançassolar já sabiam. — Agora qual a sua desculpa?
Ele tomou um gole rápido do cálice prateado, o sorriso divertido de Fuchs parecia em seu ápice.
— Espero que aproveite sua estadia na corte. — Ele virou, mas voltou a ela antes que pudesse desaparecer. — Talvez pudéssemos jogar uma partida de xadrez, quando estiver livre.
Sieglinde preferia cyvasse.
Porém, ela meneou a cabeça deixando que o primo partisse.
Não estava ali para aproveitar coisa alguma ou fingir estar interessada em jogos como o Tyrell, precisava seguir com seus objetivos o mais rápido possível. A princesa ainda estava desaparecida e todos os nobres na corte buscavam por ela naquele momento. Sieglinde teria que ser mais rápida do que todos eles. Seu filho necessitava dela, precisava ser legitimado e dependia que ela usasse todo o poder a sua disposição para achar Alyssana na frente dos nobres que a cercavam.
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A Rainha o levou até uma área da fortaleza que ele não conhecia muito bem.
Não haviam olhos curiosos ou nobres querendo atenção, apenas o céu azul acima deles e jardins verdes quando chegaram até o lugar em que ela o trouxe. O lembrava de uma estufa de inverno como a de Solarestival, com hastes metálicas e vidros que refletiam o sol. Porém, não achou nenhum vegetal ou verdura quando entrou, apenas gaiolas douradas e muitos pássaros.
Daeron olhou pasmo para a quantidade de animais ali presentes. De muitas cores e cantos diferenciados, ele se encolheu quando um grupo passou voando por sua cabeça. Rhaerys apenas continuou caminhando, já tendo uma das aves em seu ombro.
— Quando eu era bem pequena e ainda vivia em Solarestival. — Ela começou dando de comer ao pequeno ser com a própria mão. — Achava que eles eram parentes dos dragões, primos distantes como eu era dos Targaryen de Porto Real.
Ele continuou observando, sem saber o que dizer ou qual era o objetivo da mulher em trazê-lo ali.
— O mundo era mais simples naquela época, quando eu podia correr pelos corredores e brincar na água do lago até o sol se pôr. — Ela sorriu deixando o pássaro em um poleiro e se virando para ele, os olhos pareciam mais afiados do que uma espada e queriam algo dele, disso Daeron sabia agora. — Como você e Alyssana faziam.
Ele se lembrava também. Fazia anos já, mas a memória ainda voltava fresca dos momentos em que a prima vinha da capital passar temporadas no castelo. Daeron e seus irmãos se uniam com a prima para passar dias sem preocupações, ocupados apenas com risadas e diversão. Tudo isso não poderia parecer mais distante agora. Aelor havia se afastado e virado um ser odioso na maior parte do tempo, Daerys havia deixado o amor fraternal de lado para algo que ele não sabia lidar desde a morte da mãe e agora Alys havia sumido.
Deixando ele mais sozinho do que nunca.
— Antes dela ir para Pedra do Dragão. — Ele lembrou rapidamente.
Rhaerys pareceu também voltar às próprias lembranças, se sentando em um banco.
— Sim, nunca vou me perdoar por ter deixado ela partir e viver todos esses anos sozinha naquela ilha tenebrosa. — Os lábios dela se comprimiam em uma linha fina e rígida, a voz voltou depois quase em um sussurro. — Talvez se tivesse lutado com Aegon, feito mais…
Ele tirou o peso de uma perna para a outra, visivelmente perdido no rumo da conversa.
A Rainha se recompôs, voltando a atenção para o outro Targaryen.
— Isso não importa mais. — Ela estava mais rígida do que nunca, porém cansada também. Era possível ver que a coluna se mantinha ereta, mas os ombros caídos. As olheiras mostravam como ela mal dormia, igual a ele. Porém, enquanto Daeron tinha pesadelos, ela passava as noites em claro por preocupação. — O importante é que ela está desaparecida, sumiu sem deixar nenhum vestígio e nenhuma dessas pessoas vão fazer mais do que o mínimo. Dizem que fariam de tudo diante do trono, porém apenas querem as recompensas que foram anunciadas. Ela não se importam se vão encontrar minha filha viva ou apenas...
A Rainha parou, a garganta ardendo e se fechando.
— Todos querem algo de nós, do que a coroa pode oferecer. — A fala voltou embargada com o choro. — Menos você.
Ele piscou surpreso, ela continuou.
— Você sempre foi próximo de minha filha, da minha Alys, gostava dela como um verdadeiro primo e sem se importar com títulos ou um casamento por interesse que seu pai sempre almejou para vocês dois. — Rhaerys se aproximou, sem nenhum decoro exigido da nobreza. Ele percebia que as mãos tremiam, seja pela falta de sono ou pela emoção. — Por isso, preciso que me prometa Daeron, prometa que vai fazer tudo o que puder pela minha filha, eu…
A voz dela vinha quebrada e os olhos cheios de lágrimas.
— Eu preciso da minha filha de volta, não me perdoaria se não a visse novamente. Não depois de não proteger ela quando ela mais precisou. — Ela respirou fundo tomando todo o ar que lhe faltava aos pulmões. Ele segurou os braços próximos delas, a ajudando a se manter firme, ainda sem esboçar nada além da surpresa e de tristeza por vê-la daquela forma. — Seu pai sempre se importou com o poder e ainda se importa, por isso que ele aceitou ser a Mão de uma pessoa que odeia, abandonado vocês num castelo vazio e cheio de luto. Não posso mais confiar nem mesmo nele. Mas, posso em você!
A mão dela foi até sua bochecha.
— Me dê sua palavra, que vai achá-la e trazê-la de volta. Ou… ao menos tentar.
Ele a encarou profundamente, os olhos violetas tão próximos que conseguia vê-los dilatar em desespero de uma mãe. Daeron se perguntava o porquê de uma mãe levar tantos arrependimentos em relação à filha e o que havia acontecido com Alyssana que ela nunca havia contado a ele. O tanto que ele não sabia o assustava.
Porém, havia apenas uma resposta para ser dada.
— Eu prometo.
Rhaerys apenas se aliviou quando ele respondeu, deixando um suspiro escapar. O abraço veio depois, algo que ele não recebia há tanto tempo. Porém, veio como necessário e ele envolveu a mulher enquanto ela deixava os últimos soluços sumirem.
— Você me lembra sua mãe, em tantas maneiras…
Ele abriu a boca, mas nada saiu. Ninguém nunca havia dito aquilo para ele, nem mesmo seu pai e no fundo significava mais do que tudo. Daeron queria perguntar o porquê, afinal há muito tempo atrás Daena e Rhaerys haviam sido amigas próximas. Antes do casamento de ambas e do que havia acontecido no meio. Entretanto, a Rainha o largou finalmente, dando fim aquela conversa.
— Volte para o banquete antes que seu pai note que sumiu. — Ela voltou com o ar monárquico que carregava quando queria.
Ele se preparou para dar as costas.
— E Daeron. — O Targaryen parou com o chamado, virando apenas a cabeça. — Obrigada.
O herdeiro de Solarestival respondeu com um aceno antes de voltar para o ar fresco fora do aviário.
Ele sentia como se tivesse cometido algo muito errado e grande ao se encontrar com a Rainha daquela forma. Se perguntava caso deveria contar o que havia acontecido ao pai, embora sua consciência gritava para que não. Daeron respirou fundo três vezes seguidas, se perguntando aonde que Alyssana havia se metido e o que seria dele se realmente a encontrasse.
Parou com tais pensamentos apenas quando avistou um canteiro de flores azuis.
Sua mente pulou de um problema para outro, voltando para seus sonhos perturbadores da noite passada. Se lembrava de ter visto um lobo negro e gigante correndo pela neve limpida e chegando numa delicada rosa azul no meio da imensidão branca e estéril. O animal havia arrancado a rosa com as mandíbulas fortes, sangrando por conta dos espinhos que protegem o caule. Demorou para arrancá-la do chão pois a planta tinha raízes profundas naquele lugar e não queria ser levada. Mas, por fim a fera havia vencido e pegado a rosa, deixando um rastro de sangue por onde corria. Um borrão vinha depois disso, mas ele se lembrava de uma alcateia perseguindo o lobo com rugidos e uivos estridentes, um mar tempestuoso se elevando dum penhasco e ele gritando para que o lobo não pulasse.
Fora em vão, o lobo pulou no meio das ondas revoltadas.
Ele acordou naquela manhã com a garganta rouca, depois de tanto gritar em seus sonhos.
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