Pela Princesa - Interativa
4 As Rosas e Seus Espinhos
Notas iniciais
j a r d i m d e c i m a
Como era costume na Campina, aquele era mais um dia ensolarado e bem agradável, especialmente na sede da Casa Tyrell. A brisa fresca que vinha do rio Vago fazia com que as folhas nas copas das árvores se movessem em um ritmo constante, mas calmo. Os pequenos passarinhos de cores distintas entoavam belas canções e misturavam-se no céu com nuvens esparsas. Tais fatores levavam os moradores daquele palácio de verão a aproveitarem a manhã nos jardins belíssimos que davam nome ao lugar.
Assim fizeram Lady Alerie Tyrell e seu neto Fuchs, aproveitando a sombra de um grande carvalho antigo e retorcido pelo tempo para disputarem mais uma de suas inúmeras partidas de xadrez. Os placares daquelas pequenas disputas sempre variavam ao longo dos anos, já que tanto o jovem lorde quanto a matriarca anciã eram exímios nas artes do tabuleiro.
Naquela manhã em específico era Alerie quem tinha a vantagem.
— Você está distraído. — A mulher comentou observando o neto movimentar um dos peões brancos e perder a peça automaticamente depois. — Não me diga que passou a noite mais uma vez em suas… distrações sexuais.
Ela fora simplória ao sussurrar sobre os casos que Fuchs tinha com os rapazes e as damas do Jardim. A avó dele odiava aquilo e o lorde não pôde conter um de seus sorrisos galanteadores, como quase todas as coisas que ele fazia e que davam a ele a fama de gracioso.
— Não seja tão julgadora, vovó. — Ele pediu movendo uma de suas peças. — A senhora já deveria ter superado tal assunto.
— Não sei como faria isso, sendo que suas aventuras podem se desenvolver em algo mais drástico, ou pior ainda, um escândalo. — A mais velha respondeu com cautela, porque, enquanto odiava as práticas do neto favorito também o amava mais do que alguns de seus próprios filhos. — Já basta tudo o que a sua irmã nos fez passar com os Lannisters…
Alerie não terminou sua frase fatídica, pois o casamento de Eleonora com o falecido Loren Lannister havia se tornado um tabu entre os Tyrell e entre as pessoas que habitavam Jardim de Cima. Fuchs engoliu em seco e deixou o assunto morrer ali, apenas abrindo totalmente os ombros largos para deixar sua postura ainda mais perfeita na cadeira.
— A senhora não me disse o motivo de ter me chamado nesta bela manhã para um jogo de xadrez. — Lorde Tyrell comentou pegando um peão da avó que combateu o ataque dele roubando mais uma peça do tabuleiro preto e branco. — Teria haver com a Princesa Alyssana?
Ele fora rápido em sugerir tal tópico, pois sabia que aquilo era o que movimentava Westeros nos últimos dias desde que o Rei anunciara tal notícia a Corte. Os Tyrell ainda ficaram sabendo antes que a maioria das pessoas, já que a filha de seu tio Mane, Niana, havia ouvido a grande notícia no mesmo momento que a Rainha Rhaerys, pois era uma das damas que cercava Vossa Graça.
— Ora, eu não poderia apenas querer desfrutar de um bom xadrez com meu querido neto? — A tonalidade humorística em sua voz dizia o contrário.
— Eu te conheço bem demais para saber que seu tempo é deveras precioso, vovó. — Respondeu demonstrando não apenas esperteza, mas o quanto já havia aprendido sobre a mulher que praticamente comandava aquela casa desde que havia se casado com o falecido Lorde Axel. — Vamos me diga, descobriu algo novo? Algo que poderá nos ajudar ou colocar nossa casa na frente de todas as outras?
Eram muitas possibilidades, vias que Fuchs queria se aproveitar rapidamente caso lhe ajudasse na busca pela princesa. Afinal ele era jurado por lealdade a proteger a família real e ainda havia o pequeno fato de que quem encontrasse a princesa poderia se casar com ela. Um Tyrell ao lado do trono e não apenas debaixo dele parecia um sonho muito palpável no momento. Um que o jovem Fuchs estava disposto a agarrar com mãos firmes.
— Nada de muito concreto, apenas rumores e mais rumores, segredos sendo levados ao vento e muitos blefes. — A senhora comentou com certo desgosto e por um momento deixando os lábios repuxados com amargura. — Disseram que um homem qualquer com uma moça de cabelos prateados foram até a Fortaleza Vermelha dias atrás, a moça foi descoberta como uma das prostitutas da Rua da Seda e foi preciso a intervenção da Mão para que ambos não fossem executados pelo fogo de dragão.
Fuchs semicerrou os olhos perante a informação e o movimento estratégico que teria que fazer na próxima jogada.
— A ira do Rei não pode ser contida com facilidade, todavia ao menos agora provavelmente não teremos mais casos falsos de pessoas tentando empurrar qualquer menina de descendência valiriana até o Trono de Ferro. — Ele acrescentou com perspicácia. — E sobre os rumores da debandada Baratheon até a capital?
— Tudo indica que é verdade e eu não esperaria menos de Ottis. — Um leve riso foi audível na mesa que dividam vindo da mulher. — Os veados seriam os primeiros a colocar todos os homens que possuem atrás da princesa desaparecida.
— O que implica a vantagem que eles terão, já que a senhora não vai me deixar lançar nossos cavaleiros por Westeros. — Havia algo de estranho ali, pois as ideias dele e de sua avó estavam quase sempre alinhadas, então era difícil para ele ouvir um não em algo que acreditava ser o correto.
— Não necessariamente, números não serão o ponto nessa busca. — Alerie estava começando a ter o jogo na mão dela. — Informação, isso sim é o ponto principal.
— Vovó, o que a senhora está querendo implicar? — Ele normalmente já teria desvendado o que a mais velha sugeria, mas ela estava realmente misteriosa e pensativa aquela manhã.
Alerie juntou as duas mãos sobre o colo, focando no neto que havia moldado ao longo dos anos. As feições eram as das mais belas, com o cabelo castanho Tyrell, os olhos expressivos e profundos, o queixo quadrado que demonstrava força e nobreza. Além de uma esperteza gritante e toda a cortesia inegável que conquistava a todos. Tudo o que havia deixado ele na posição de honra aos olhos da Senhora Tyrell e tomado o lugar de Eleonora como preferida dela, principalmente.
— Sua prima Niana não será de grande serventia em Porto Real, ela sabe escutar e reportar, mas nada além disso. — A avó dele fora rápida dessa vez, sem pestanejos ou tentando se demorar em seus pensamentos. — Se você quiser realmente se casar com a princesa, o casamento de mais honra e poder que poderia conseguir, teria que ir até Porto Real, viver na corte e jogar o maior jogo que existe.
O rosto dele se iluminou de certa forma.
— Ainda assim, vejo receio em sua voz, o que não entendo já que a senhora me preparou toda a vida para a política e sobre como me envolver no meio dela.
Ela concordou com um leve aceno.
— E tenho você como nosso maior trunfo, a rosa mais dourada de nosso jardim. — Havia emoção em sua voz e Fuchs foi compelido a se aproximar, colocando a mão firme sobre a cheia de manchas da avó. — Entretanto, ainda tenho medo do que pode acontecer quando você finalmente sair das minhas asas, ou melhor, dos meus espinhos.
Os dois riram e ele voltou a se sentar corretamente quando Alerie pareceu se recompor, voltando a seu jogo.
— Se realmente for para a casa dos dragões, terá que usar tudo o que te ensinei ao longo dos anos e ser melhor que todos eles, meu querido. — Ela o alertou com certa rigidez, apenas porque o amava e sabia o quanto perigoso era na capital. Um dos motivos dela nunca mais ter colocado os pés lá desde seu tempo de moça. — Todos com sonho de se elevar na vida estarão lutando para achar a princesa e absolutamente todos farão o que for preciso para chegar até o objetivo.
Ele compreendia, até bem demais.
— Eu não vou falhar, vovó. — Fuchs afirmou por fim e usou seu último movimento, encurralou o rei de Alerie e ganhou o jogo.
♜
Já era fim de tarde quando Eleonora adentrou na tina e afundou até o queixo na água quente. O calor envolveu Lady Tyrell a medida que o que vinha do sol ia se esvaindo para dar lugar a noite serena que rodeava Jardim de Cima. Ela não precisou dar a ordem para as criadas saírem, todas já haviam aprendido em como agradar a sua senhora. Assim, a garota ficou sozinha com os próprios pensamentos venenosos.
Se aprumou para ficar mais confortável e deixou a respiração mais calma.
Teria muito o que fazer ainda aquela noite e precisava estar pronta para enfrentar a família que em momentos estaria no banquete de despedida a Fuchs, seu único irmão. Ela já havia entendido que algo estava estranho quando percebeu a avó e o irmão conversando pela manhã durante sua caminhada pelos jardins, notando como Lorde Tyrell havia consolado Alerie por alguns segundos, o que não era comum. Então mais tarde havia ouvido da boca da mãe, que ela tanto desgostava, que o irmão dela estava indo para Porto Real, iria para a capital e ela de forma alguma ficaria em Jardim de Cima.
Havia muito a ganhar naquela viagem para a Fortaleza Vermelha e Eleonora não deixaria a oportunidade passar, ainda mais quando esteve pedindo para se mudar para a corte há muito tempo. Porém, Lady Alerie havia impedido isso, ela bem sabia, colocando murmúrios no ouvido de Fuchs que era fraco demais para discordar da matriarca daquela família que tentava controlar a todos. Eleo não seria mais uma a ficar presa nos espinhos da velha e iria fazer o que fosse necessário para estar pronta quando a comitiva de seu irmão fosse partir.
Ela pegou a esponja ensaboada e começou a passar pelos braços com calma, aproveitando o banho.
Lady Tyrell teve de ser rápida quando descobriu que Fuchs iria partir na manhã seguinte, ela já imaginava que momento ou outro a velha rosa murcha iria mandar o jovem lorde para ir atrás de Alyssana. E Eleonora só podia agradecer para a alma mal intencionada que havia sequestrado a princesa e ajudado ela a conseguir uma das coisas que tanto queria: se livrar de Fuchs e do poder que ele possuía como Senhor da Campina. Havia apenas uma posição que poderia ser maior que a que ser irmão já possuía, e era a de rei consorte, se Fuchs se casasse com Alyssana teria que abandonar o título Tyrell e receber o nome Targaryen, como a lei criada por Daenerys I dizia. O título, castelo e poder passariam para o próximo varão na linha de sucessão, que era Garen, o tio que ela desgostava tanto.
Entretanto, depois de Garen vinha Garth, o primo dela que não passava de músculos e um rostinho bonito. Se ela se casasse com ele, finalmente poderia se tornar a Senhora Tyrell, já que o sexo impedia que conseguisse tal coisa por si só. Não seria difícil para ela se livrar do tio depois que estivesse vasada com Garth. Finalmente Eleonora estaria acima da avó e poderia se livrar a influência de idosa na vida de todos que moravam naquele castelo. Era um belo futuro, todavia ela tinha que achar a garota sumida primeiro e ajudar seu irmão a se casar com a mesma.
Uma batida leve na porta fez com que Eleo abrisse os olhos que ela nem havia percebido que tinha fechado. E só havia uma pessoa que a nobre estava esperando aquela noite, alguém com algo muito especial que ela precisava colocar as mãos quanto antes.
— Entre. — Mandou rapidamente e a porta de seu quarto se abriu revelando um criado jovem que servia a sua tia Raven. Tinha uma cara cheia de espinhas, era bobo e andava desajeitado, ainda mais quando vinha carregando uma pequena caixinha de madeira nas mãos que tremiam. — Alguém o viu?
— Não, mi-mi-milady. — Ela revirou os olhos quando ele gaguejou e achou irritante a maneira como o criado tentava não olhar para o corpo desnudo de Eleo.
— Muito bem. — Eleonora se levantou, mostrando ao garoto toda a exuberância que seu corpo de donzela possuía. O longo cabelo castanho grudando em suas costas e a água escorrendo por sua pele. A boca dele ficou aberta como um estúpido e ele ainda achou que fosse receber mais um beijo dela quando Eleo se aproximou pegando a pequena caixa e a chave que vinha junto, pois os lábios grandes demais para um rosto tão pequeno se comprimiram em um bico tosco. — Fez muito bem.
Ele pareceu ficar confuso por não receber mais um pequeno prêmio, já que Eleonora havia precisado apenas de grudar os lábios nos dele e de alguma apalpação para que o garoto fizesse tudo o que desejava. Porém, agora ela não se rebaixaria mais quando já tinha o que queria e não precisaria mais do rapaz horroroso. O dispensou com uma mão e ele tentou rebater, mas engoliu em seco e deu meia volta com o olhar mortal que lhe lançou.
Eleonora se secou rapidamente, sedenta para abrir a caixa. Colocou um de seus roupões de seda clara e se sentou em sua grande cama.
A chave girou sem problemas e lhe deu acesso a um pequeno monte de cartas, todas já abertas e lidas, todas com o selo dourado dos Tyrell quebrado. Aquelas eram correspondências entre sua tia Raven e sua prima Niana, que era uma dama na corte. Havia muitas nuances entre a ida de sua prima para a corte e os motivos envolvendo isso, Eleonora sempre havia desconfiado disso e do motivo de Alerie ter deixado uma garota boba ter tomado tal lugar de honra ao lado da família real. Ela começou a devorar as palavras com pura ganância.
Havia muito ali e Eleo não poderia ter ficado mais feliz com rumores confirmados sobre chás da lua, um cavaleiro nada honrado e o real motivo de sua prima ter ido para a corte.
♖
Fuchs encontrou o irmão no septo.
Gard estava vestido com seus roupões de acólito, acendendo as velas dentro da construção de tijolos brancos e chão polido que mesmo a noite era possível ter vislumbres do próprio reflexo. As estátuas de mármores encararam o seu caminhar lento e seu irmão mais novo fez o mesmo quando escutou o barulho de suas botas negras.
— Veio se redimir de todos os pecados a esta hora, caro irmão? — Ambos riram do comentário antes de trocarem um abraço.
O bastardo de Willas, pai de Fuchs e Eleonora, às vezes parecia muito mais a ele um verdadeiro irmão do que a própria Eleo era para ele. Ambos se deram bem desde o princípio, quando brincavam com espadas de madeira pelo jardim ou quando praticavam falcoaria juntos nos campos ao redor de Jardim de Cima. Fuchs até costumava prometer ao irmão que um dia lhe daria terras quando eram mais novos, porém isso não pôde ser concretizado quando Alerie decidiu que mandar Gard para as Fé dos Sete era o melhor.
O atual Lorde Tyrell tinha sido contra a ideia, já que aquela decisão da avó vinha do puro medo de um dia Gard questionar sua própria soberania algum dia, coisa que ele nunca conseguia ver acontecendo. Mas, no fim a decisão da senhora havia sobrepujado a do jovem. Ao menos havia conseguido que o irmão continuasse em Jardim de Cima.
— Não, apenas quis lhe convidar para o banquete que irá começar em instantes.
— Banquete? — Gard uniu as sobrancelhas em dúvida antes de acrescentar com um sorriso zombeteiro. — Mais alguma prima que eu não lembro o nome ficou grávida?
— Pode ter certeza que os festejos seriam maiores se esse fosse o caso, mas não. — Limpou a garganta antes de continuar, falando com certo orgulho de sua mais nova aventura que desbravaria a partir da manhã do dia seguinte. — Será em minha honra, ou melhor, para minha partida, irei para a corte.
— Oooh. — Gard exclamou deixando as velas de lado por alguns segundos. — A velha Alerie finalmente deixou você bater as asas, finalmente?!
— Não seja bobo! — Fuchs falou prendendo a cabeça do irmão entre os braços e bagunçando o cabelo que agora ele mantinha curto por conta da nova posição. Gard fugiu segundos depois, ainda tendo força nos braços.
— Não pode dizer que não é verdade.
Fuchs deixou um sorriso cobrir sua face, embora estivesse um pouco desconcertado com o comentário.
— Nossa avó sabe o que faz.
— Sua avó! Ela nunca me considerou, mas pelo menos nunca me destratou como a Rosa. — Gard comentou usando o apelido que havia dado para Eleonora. Eleo era a Rosa e ele o Cravo, tudo por contas das discussões que ambos tinham constantemente desde sempre. — Afinal, como Eleonora reagiu quando soube que você iria para a corte e ela não?
— Mamãe me disse que ela não esboçou reação, o que me deixa mais preocupado do que se ela tivesse destruído o quarto em fúria. — Fuchs arrumou a blusa que havia se amassado um pouco e mudou o assunto para o motivo que realmente lhe havia trago até aquele septo. — Então, vem ou não?
— Passo. — Gard respondeu acabando com as expectativas do irmão mais velho. — Metade das pessoas naquela mesa não iriam me querer lá, ainda mais com você indo embora preciso ficar na linha, caso contrário vou ser mandado para o Septo Estrelado em Vilavelha.
— Não se preocupe, vovó não faria isso, ela sabe o quanto me importo com você e como te quero por perto.
Gard deu de ombros, sem realmente acreditar naquilo.
— Aproveite o banquete por mim e me diga se Eleonora fizer um drama depois.
Fuchs deixou uma gargalhada sair antes de dar as costas.
— Ela sempre faz um drama.
♜
Mesmo com a notícia repentina do banquete os cozinheiros haviam sido exímios em preparar um manjar digno. Um grande faisão dominava a mesa, cercado de legumes e verduras banhados com molho dourado, saladas rodeavam carne de veado e javali nas extremidades. Tudo isso enquanto o vinho doce da Árvore fluía pelas taças sempre cheias.
Todos pareciam felizes aquela noite, até mesmo Garen e Margaery, os tios de Fuchs que invejavam a posição do sobrinho. Talvez por conta do álcool que deixava a mente mais leve ou apenas pelo fato de Lorde Tyrell estar indo embora de Jardim de Cima. O Cavaleiro dos Cravos sabia que era, na verdade, uma mistura de ambas as coisas, mas preferia apenas aproveitar a última noite em casa e com a família antes de ir em sua missão de encontrar Alyssana.
Um tilintar foi ouvido por todo o cômodo quando Alerie bateu seu garfo prateado contra o cálice. Todos pararam de comer e deixaram os ouvidos atentos para o que a matriarca iria dizer a seguir.
— Como todos bem sabem… — A mais velha ali começou com seu tom calmo, sem elevar a voz, pois ninguém ousaria fazer barulho enquanto a mesma tinha a palavra. — Fuchs está partindo pela manhã e irá cumprir seu dever como um bom cavaleiro leal à coroa, indo buscar o paradeiro de nossa amada princesa. Porém, ao mesmo tempo, ele tem obrigações aqui na Campina que não pode deixar de lado.
A avó dele lançou um olhar dizendo que era sua deixa e Fuchs se levantou, levantando o cálice na direção do tio Garen.
— Por isso, meu tio. — Começou com um belo sorriso amistoso. — Que enquanto eu estiver fora, você que será o Protetor do Sul.
A notícia pegou o Tyrell de surpresa, que levou alguns segundos para digerir a mudança repentina e agradecer com uma leve reverência de cabeça. O que fora mais que Fuchs já havia recebido dele durante toda a vida.
— Aceito com honra. — As palavras foram singelas, mas aparentemente verdadeiras. A mãe de Fuchs bateu palmas, o que fez com que toda a mesa a seguisse.
Aquilo havia sido pensado por Fuchs, já que a avó dele não gostara da ideia de dar tanto poder ao filho que ela sabia ser ambicioso demais. Alerie havia sugerido passar o título para Mane, que já era o castelão e muito mais maleável. Porém, Lorde Tyrell pensou diferente, acreditando que aquele punhado de poder seria o suficiente para o tio ficar na linha e brincar com o novo título enquanto ele fazia algo mais importante. No fim, era o melhor a se fazer por mais que a matriarca da família não pensasse da mesma forma que ele.
As palmas pararam quando a porta do salão foi escancarada por duas mãos pequenas.
Eleonora adentrou com toda a impotência que sua baixa estatura permitia, seguida do barulho cortante e ritmado de seu salto batendo contra o chão. Vinha vestida em seda cor vinho, um decote anguloso mostrando mais do que devia de seu torso. O cabelo preso em um penteado alto, formado por tranças que se prendiam ao redor de sua cabeça como uma coroa que ela nunca poderia realmente ter. Seus lábios pequenos se uniam em sorriso malicioso à medida que o rosto observava os parentes reunidos.
— Sinto-me ofendida por não terem esperado por mim. — Avisou com uma expressão afetada, uma das mãos indo ao encontro do peito em uma manifestação forçada de incômodo. Os pés a levaram até o espaço vazio em frente a Fuchs e a mãe deles.
— Fui até seu quarto, não estava lá. — Lira, mãe dela que parecia apenas ter dado à luz para Fuchs e o enchia de favoritismo, lembrou com a face de pedra.
Eleonora realmente não estava, tinha ido preparar suas coisas para a viagem que ela estava certa que iria participar. Mesmo que os estragos necessários para aquilo fossem grandes.
— Ainda assim, não me aguardarem nem um pouco soa insensível, não acha, vovó?
Alerie apenas ignorou a neta tomando um gole de seu vinho. Os outros membros da família também tentaram ignorar o comentário com silêncio.
— Enfim, ouvi palmas antes de chegar, qual o motivo?
— Eu acabei de deixar o título e responsabilidades de Protetor do Sul com nosso tio Garen. — Fuchs fora bondoso em respondê-la e tentar deixar a entrada dramática de sua irmã sumir do local.
— Oh, fico feliz por você, titio! — Ela levantou a taça em comemoração e Garen apenas responder com outro aceno, dessa vez bem mais frio. Eleo não se importava realmente, sempre odiara o tio paterno e a esposa odiosa que possuía. — Eu realmente creio que não haveria pessoa mais qualificada, ainda mais quando outros membros da família…
A sementinha fora plantada no meio da conversa, trazendo a atenção de todos ali para a fala de Eleonora. A garota finalmente tinha atenção que tanto almejava. Agora, cabia a ela fazer com que os espinhos brotassem.
— Bom, apenas quero dizer que nem todos poderiam ser dignos de tal confiança.
— O que está querendo insinuar? — Alerie rebateu irritada com os joguinhos da neta.
Eleonora sorriu ainda mais, deixando a aparência de uma raposa sorrateira nela.
— Eu descobri rumores terríveis, eu nunca poderia acreditar que eram verdade até ver com meus próprios olhos. — Ela pausou um pouco, sabendo que tinha o controle da conversa. — Descobri que minha querida prima Niana, que eu amo muitíssimo, não é tão pura como acreditava e isso rachou meu pobre coração.
Seu tio Mane engoliu em seco e sua tia Raven levou uma mão a boca, em completo choque. O primo mais novo dela, Harlen, apenas olhava de um para o outro, sem saber o que estava acontecendo ao certo. Garen, Margaery e o filho Garth pareciam vestir máscaras de ferro, sem se abalar. A mãe dela e Fuchs traziam desconforto, e Alerie era o puro ódio.
— Estas são acusações sérias, Eleonora. — A matriarca avisou rapidamente, querendo desmenti-la quanto antes. Porém, Eleo tinha provas consigo.
— Acha que não sei disso, vovó? — Rebateu calmamente. Poderia não ser tão boa no xadrez como ela e Fuchs, mas era ainda melhor nesse outro jogo do que os dois. — Por isso mesmo que disse que vi com meus próprios olhos.
Eleonora retirou a carta de dentro da manga longa de seu vestido e jogou na mesa para quem quisesse ler. Lira fora a primeira a pegar o pedaço amarelado de pergaminho em um pulo, vendo que ela dizia a verdade.
— Niana, sempre tão doce e bondosa, mas ainda assim deflorada pelo primeiro cavaleiro belo que encontrou. — A garota Tyrell lançou um olhar marcante para o irmão, revirando assuntos do passado que ele tentava esquecer. — Parece que realmente existem algumas coisas que são de família.
Alerie ainda estava raivosa, entretanto o bom senso ainda existia nela, não importava o quão velha fosse.
— O que quer com isso? Apenas abalar mais nossa família? Já não basta tudo o que aconteceu com os Lannisters?!
Fora um golpe baixo comentar sobre o casamento de Eleonora, pois aquele tabu nunca era mencionado dentro daquele castelo. Porém, Eleo não se deixou abater nem um pouco, continuando com o sorriso em face antes de responder.
— Pelo contrário! — Seu tom de voz mantinha a entonação de surpresa perante as acusações. — Eu apenas penso no melhor para a família a para a pobre Niana.
Ela lançou um olhar para os pais da menina que pareciam ainda chocados com a revelação que tentaram esconder com a ajuda de Alerie por anos. Sendo que o motivo da Tyrell ter ido para a corte fora apenas com o intuito de abafar os rumores e garantir que ficasse bem longe de Jardim de Cima, afinal as rosas tinham uma imagem para manter perante Westeros.
— Imaginem se as pessoas descobrissem o que aconteceu? Ou se começassem a espalhar rumores sobre a pureza de minha querida prima? Uma dama da própria Rainha Rhaerys que não é mais casta? Seria um escândalo sem precedentes!
Alerie uniu as mãos sobre o colo, impaciente e incomodada.
— Ainda não disse o ponto de tudo isso.
É claro que não, o que ela realmente queria, viria a seguir.
— Obviamente que isso não pode continuar da mesma forma e que Niana não poderá permanecer sendo dama na corte com o risco de manchar o nome da família. — O tempo dela ficar presa nos arbustos espinhosos da avó havia acabado por fim. — Ela precisa voltar para casa onde poderá viver na tutela dos pais e da senhora e outra pessoa deverá ir ocupar a posição dela, pois é claro que não faríamos a desonra de deixar o lugar da mesma vago.
Já estava bem claro para todos o que Eleonora queria dizer e não havia nada que pudessem fazer para impedi-la. O que Alerie teria para segurá-la ali? Trancar ela nas masmorras? Fuchs nunca permitia por mais que pudesse estar contrariado pelas ações dela no momento. Eleo tinha o controle e conseguiria o que queria finalmente.
— Amanhã, quando Fuchs partir, eu estarei com meu irmão e ocuparei fielmente o lugar de minha prima ao lado de Vossa Graça. Os dragões e os cortesãos ficarão totalmente embriagados com o perfume das rosas.
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