Pela Princesa - Interativa
5 Princesa de Ferro
Notas iniciais
i l h a s d e f e r r o
O Serpente Marinha cortava as águas turbulentas e tempestuosas que rodeavam as ilhas com rapidez. Era um navio veloz, menor do que os de guerra que o pai dela comandava e feito para longas viagens. Assim, Kyra Greyjoy sabia que não demoraria muito para chegar até em casa, até a velha e nada calorosa Pyke, que era o único lugar que a capitã poderia chamar de lar.
Kyra olhou por cima do ombro quando notou os passos se aproximando na madeira polida da embarcação.
Torben Fregar se aproximou mostrando um sorriso de canto que ele apenas direcionava a ela. O cabelo castanho, que ele pintava com tintas exóticas na cor verde-água, estava bagunçado pelo vento, deixando a aparência dele caótica. Ainda mais quando vinha vestindo roupas folgadas a amarrotadas depois de aventura que ambos tiveram na cama noite passada. Ainda deveria haver marcas das unhas dela nas costas largas dele, ela não se arrependia e sabia que ele muito menos.
— Então, faz um tempo desde que pisamos em Pyke. — Ele relembrou colocando a mão grande na cintura dela, que Kyra tirou com um tapa rapidamente. Já que ela não gostava de mostrar a relação de ambos na frente da tripulação, todos sabiam que era ele quem dividia sua cabine, mas isso não significa que a capitã conhecida como a Princesa de Ferro não possuía uma reputação para manter.
A nascida de ferro virou para observar o bravosi de frente, observando os olhos mel que eram o oposto dos azuis dela. Eles eram um “casal” diferente para qualquer um, até mesmo entre os piratas de sua tripulação que tinham as histórias mais mirabolantes. As mechas vermelhas dela, vindas da mãe, que estavam quase sempre escondidas pelo chapéu surrado que a mulher usava, em contraste com o pintado dele. Mesmo assim, com as diferenças, se complementavam de certa forma.
E pensar que parte da guerra que as ilhas se encontravam naquele momento era por conta dela ter continuado amando ele. Desde que veio para Pyke com o pai, para ensinar ela a arte da dança das águas executada pelos dançarinos de Bravos.
— Realmente, nossos encontros com os inimigos demoraram mais do que esperava. — Kyra se referia aos inimigos de seu avô e que ela tentava derrotar no mar desde que a guerra civil começara. Estavam fracos e o navio dela um pouco danificado pelo último saque em Harlaw que não saira como ela imaginara. — Mas, finalmente estamos voltando e dessa vez com algo mais concreto do que algumas vitórias.
Torben a olhou desconfiado.
— Você realmente acredita em tudo isso sobre a princesa?
— Você não? Todos em Lannisporto disseram a mesma coisa, o rei vai dar uma recompensa para quem achar ela. — Kyra relembrou de tudo o que havia ouvido no bordel pela boca da bastarda Lannister e ainda por toda a cidade que efervescia com pessoas querendo partir para Porto Real. — Eu não me importo com terras ou um título, mas tenho certeza que posso trocar tudo isso pelo apoio da coroa. Apenas um cavaleiro de dragão seria o suficiente para queimar toda a frota de Harlaw. Ganharíamos!
Era um bom plano, mas ela ainda precisava convencer o pai e principalmente o avô a deixar ela ir. Já que da última vez que ela resolvera atravessar o mar sem dizer nada, não havia dado muito certo. Se conseguisse a benção deles, partiria rapidamente e entraria na missão de achar a garota. Torben concordou com um aceno, ainda não totalmente convencido.
Os dois pararam de conversar quando Davos Drumm, seu intendente correu apressado até eles.
— Capitã! Navio inimigo a bombordo! — Ele exclamou e ela não levou mais do que segundos para avistar o ponto no horizonte que apenas crescia em direção ao Serpente Marinha. Sabia que eram inimigos por conta das velas pretas que indicavam serem da Casa Harlaw, visível mesmo a distância.
— Vão nos alcançar… — Torben avisou algo que ela já sabia.
— Preparar para o ataque! — Kyra gritou a plenos pulmões e o navio imediatamente tomou vida como um coração pulsante que batia rapidamente. Os arqueiros incendiários se posicionaram no convés, enquanto os outros nascidos de ferro pegavam em aço para lutar. A tripulação dela estava em desvantagem, pois muitos ainda estavam feridos da última luta em território inimigo.
De qualquer forma, ela já havia passado por coisas piores.
O navio inimigo chegava cada vez mais próximo, sendo que naquele momento já era possível visualizar a foice prateada no meio da vela preta. Além dos inúmeros nascidos de ferro que estavam se preparando para atacar. Kyra se posicionou ao lado dos arqueiros.
— Preparar! — Gritou a ordem e os arqueiros queimaram a ponta das flechas, posicionando os projéteis no arco. — Fogo!
O céu ainda azulado foi transpassado por riscos em amarelo, vermelho e laranja. Uma chuva que começou a açoitar o navio que agora estava quase do lado deles, com o auxílio do vento que estava a favor deles naquele momento. Infelizmente eles não tiveram danos significativos, já que eles se protegeram com os escudos e não teve nenhum foco de incêndio no convés.
— Merda. — Kyra reclamou quando ambos os navios colidiram lado a lado, fazendo que todos se desequilibrassem.
Cordas com arpões foram jogadas, se fincando no convés de madeira, fazendo com que os dois navios ficassem ligados. Pontes de madeira fizeram com que a invasão começasse.
Kyra bravejava ordens e seu imediato repetia tudo para que nada fosse perdido. Ela já tinha sua espada esguia em mãos, desviando dos homens que queriam atacá-la. A maioria vinha até a Greyjoy quando percebiam quem ela era, pegar a filha de Hoster daria uma bela história e quem sabe alguma recompensa. Porém, pegar a mulher era uma história completamente diferente. A capitã desviava com facilidade dos ataques brutos e sem técnica alguma, o corpo leve e esguio dela desviava de machados e espadas. Quando os cansava Kyra apenas finalizava com uma estocada rápida no pescoço ou coração, perto de uma das artérias importantes. Nenhum deles era um verdadeiro oponente para a Princesa de Ferro.
A tripulação do Serpente Marinha também lutava com garra. Os guerreiros batiam de frente contra os outros nascidos de ferro, os arqueiros atacavam de longe ainda tentando queimar o navio inimigo que já tinha pontos em chamas. Torben lutava com tanta leveza quanto ela, já que ele era outro dançarino das águas, movendo-se com maestria e dando golpes certeiros.
Ela se encontrava no calor da batalha, perto das pranchas que conectavam os barcos quando viu uma pessoa diferente no meio da pequena multidão. Vinha com um grande escudo pintado de preto e prata, jogando todos em seu caminho para longe. Parecia ter dois metros e se feito apenas de músculos rígidos como aço valiriano. O cabelo negro e longo estava pingando com sangue das pessoas que ele matava com golpes feios e fundos vindos de seu machado de guerra. Os olhos se fixaram nela assim que a percebeu na frente de batalha que aqueles dois barcos haviam se transformado.
Ela se lembrava vagamente do rosto quadrado e da barba por fazer.
— A Viúva Vermelha… — A voz grave do homem trazia desgosto ao pronunciar um dos muitos títulos que eram dados a Kyra. — Te levar pelos cabelos até Dez Torres vai ser o mínimo pela morte do frouxo do meu primo que não soube colocar você na linha.
Agora ela se lembrava melhor de onde vinha a lembrança daquele rosto. Tinha visto o mesmo no casamento dela com Vayon e em outras poucas ocasiões. Era um dos muitos membros da Casa Harlaw e suas ramificações.
— Quero ver você tentar! — Ela provocou e colocou um sorriso sarcástico na face.
O primeiro golpe do machado cortou apenas ar, pois ela desviou com maestria. O segundo conseguiu cortar uma parte do blusão frouxo que ela usava, pois a lâmina estava realmente afiada, mas ainda assim não chegou a tirar sangue da Greyjoy.
— É o melhor que poder fazer? — Kyra costumava brincar com seus oponentes daquela forma, principalmente quando eram homens de cabeça oca que sempre achavam que tinham a vantagem contra ela. Sabia que iriam se irritar por não conseguirem pegar ela e acabariam começando a atacar loucamente sem estratégia, então ela se aproveitaria para ser melhor que eles golpeando com destreza.
Aquele Harlaw não era diferente e foi para cima dela com força bruta depois de seu comentário. Seu machado cortava o espaço que ela deixava vazio após se esquivar e seu escudo apenas servia para atrasar Kyra que não conseguia um ponto de abertura. Ainda assim, ela tinha a vantagem, era mais rápida e não havia feito o mínimo esforço até o momento. Se continuasse daquela forma…
Kyra esbarrou em um inimigo por conta do pouco espaço que tinha ali. O outro nascido de ferro tentou atacá-la, ela desviou, porém recebeu um golpe vindo do escudo do Harlaw que a desequilibrou. A capitã caiu de costas após escorregar no sangue que manchava seu convés, que ela sempre fazia os marujos manterem limpo. O seu grande inimigo sorriu achando que tinha garantido vitória, usou de sua arma para tentar decepar seu braço. Foi fácil novamente para ela desviar usando do chão molhado para mover-se com as costas. O machado ficou preso na madeira grossa do convés e ele labutou para tentar puxar o objeto de volta.
Ela aproveitou para tentar escapar daquela situação nada agradável.
Chutou bem no joelho dele, o que causou o que esperava: ele também perdeu o equilíbrio e despencou. O problema foi quando o homem a segurou, impedindo dela se levantar e caindo em bem em cima dela.
A capitã do Serpente Marinha gemeu com o peso misturado com o impacto. Os pulmões dela reclamaram e Kyra puxou o ar drasticamente com a boca. Escutou alguém gritar seu nome, mas não deu importância quando percebeu que ainda tinha um gigante dentro de si. A batalha ainda acontecia ao seu redor, com pessoas gritando e outras morrendo, sangue sendo jorrado e aço cortando pele. Kyra tinha seu próprio demônio no momento.
Tentou escorregar para longe do peso que a sufocava, mas ele prendia suas pernas com as panturrilhas fortes. Uma das mãos ainda tentava tirar o machado do chão enquanto a outra segurava sua mão esquerda. Ela tentava se debater, mas eu corpo esguio e magro não faria diferença contra todos os músculos que a enclausuravam. O Harlaw conseguiu puxar sua arma da madeira e sorriu, mostrando os dentes amarelos e tortos, enquanto ela libertou uma das pernas que puxou até a altura da barriga. Puxou o pequeno punhal que guardava na bota em questões de segundo enquanto ele levantava o machado pronto para matá-la de uma vez. Mais uma vez Kyra fora mais rápida, cravando o pequeno punhal no pescoço dele tirando sangue e vendo a vida dele se esvair.
Tentou lutar contra o sangramento em vão, caindo em cima dela novamente para nunca mais acordar.
Kyra girou o corpo grande para o lado. Sua face estava manchada de respingos carmesins e sua roupa estava suja, fedendo a maresia e carnifica. Os inimigos ainda vivos desistiram após ver seu líder morrer na mão da capitã inimiga, correndo de volta a seu navio e saindo do alcance deles. À medida que sua tripulação gritava pela vitória. Ela sorriu passando os olhos pelo convés, Torben sorria de volta para ela, também manchado de vermelho.
Até mesmo Olyvar, o cozinheiro do navio, tinha um cutelo em uma mão e uma frigideira na outra. Ele mais do que todos os outros pulava de alegria por ter saído vivo daquela situação, já que não era conhecido por ser um bom lutador. Davos passou por ele desviando do cutelo que girava pelo ar, chegando até ela.
— E agora capitã?
— Contem os mortos e preparem para jogar os nossos homens caídos ao mar esta noite, para que o Deus Afogado possa recebê-los nos salões submarinos. — Ela suspirou, viva de mais uma batalha e sabendo que nem de longe aquela seria a última. — E mantenham o ritmo, rumo para casa.
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p y k e
Kyra e sua tripulação já haviam se despedido dos poucos homens mortos no embate. Todos fizeram uma pequena prece ao Deus Afogado, entoada principalmente por ela, apenas palavras que ela havia visto seu pai dizer desde que era pequena e que ela sabia que o mesmo tinha ouvido do avô dela. Os homens foram jogados ao mar turbulento, prontos para serem recebidos pelo que lhes aguardava nas profundezas.
Desembarcaram em Fidalporto depois.
No meio da noite a minúscula cidade portuária, que ainda era a maior das Ilhas, estava quieta e serena. Com um pouco de burburinho vindo da única taberna que estava sempre aberta, sendo ouvido algumas poucas cantigas obscenas dos homens que deveriam estar mais bêbados do que acordados. Ela ignorou tudo aquilo, deixando sua tripulação cuidando do navio e que os homens pudessem se afogar em luxúrias enquanto ela fazia a parte importante.
Precisava de uma montaria.
Andou pelas vielas escuras à procura de um cavalo ou burro que pudesse pegar emprestado, já que ninguém se importaria realmente. Ela iria trazer o animal de volta quando terminasse o que precisava em Pyke. De qualquer forma, não precisou pegar nada de ninguém, pois encontrou uma pessoa inesperada e ela tinha uma montaria pronta para partir.
— Ryon! — Exclamou do meio da escuridão e o primo dela semicerrou os olhos levando alguns segundos para perceber quem vinha do meio das sombras.
— Kyra?! — A surpresa dele fez ela rir um pouco. — O que está fazendo aqui? Pensei que estava saqueando Harlaw e as ilhas inimigas.
— E eu estava, mas tivemos contratempos. — Ela se aproximou do cavalo de carga que o primo usava, uma das poucas raças que era forte o suficiente para subir e descer os morros rochosos das ilhas sem quebrar as patas. — Podemos conversar no caminho? Tenho que chegar em casa.
O primo deu a mão a ela, que aceitou pulando para frente dele. Ambos dividiam a montaria sem grande alarde, talvez a esposa de Ryon ficasse encabulada se pudesse vê-los agora. Mas, os dois Greyjoy não tinham os mesmos tabus do povo do continente ou ainda qualquer sentimento um pelo outro que não fosse fraternal, além de uma amizade sólida construída pelos anos.
— O que você veio fazer aqui embaixo?
— Vim trazer uma mensagem do nosso avô para Lorde Botley. — Ele respondeu sem grandes adendos, o que foi deixa para ela tocar em assuntos mais importantes.
— Preciso que dê uma olhada no Serpente Marinha, tivemos alguns danos. — Pediu ao primo, pois o mesmo era o melhor construtor de embarcações da ilha. Sabia usar muito bem a pouca madeira que conseguiam do Bosque de Ferro. E era quase perfeito o que podia produzir quando conseguia colocar a mão em uma madeira boa vindo das florestas do resto de Westeros.
— Amanhã quando o dia raiar. — Ele prometeu incentivando o animal a começar a escalada para fora do pequeno lugar e rumo ao castelo da família deles. — E então, não deveria demorar mais para voltar? Você me disse que voltaria apenas quando tivesse um bom número de Harlaws mortos.
— Matei um hoje! Parecia um boi de tão grande. — Se vangloriou como uma boa nascida de ferro, ainda se lembrando do peso do homem em cima de si.
— Eu não duvido disso.
— Mas enfim, não por isso que voltei. — Começou se lembrando da série de fatos que a trazia agora até Pyke. — Tínhamos avistado muitos navios novos dos bastardos ao redor da ilha, conseguimos atacar alguns pontos e pegar alguns grãos de um celeiro antes de termos que partir. Fui pega por alguns navios e tive que desviar da minha rota. Uma tempestade pegou o Serpente Marinha no meio disso e tivemos que ir até Ilha Leal para abastecer, daí continuamos descendo as Terras Ocidentais até Lannisporto e aí que as coisas mudaram.
Ryon ouvia tudo sem interromper ela, talvez fosse por isso que o casamento dele com Grace Tyrell tivesse dado certo. E olha que a mulher dele falava o dobro do que qualquer pessoa nas ilhas falaria em apenas um dia.
— Tivemos que ancorar o navio próximo à cidade, numa enseada, já que eles ainda não deixam os nascidos de ferro chegarem perto. Passamos a tarde comprando as coisas importantes e ouvimos coisas interessantes ao longo do dia, mas achamos que fosse mentira até que a noite fomos encher a cara.
— Nenhuma novidade até aí.
Ela deu uma cotovelada no estômago dele, fazendo com que parasse de rir igual um abestalhado.
— Enfim, conversa vai e conversa vem, até que uma bastarda Lannister entra na taberna. Ela era bonita igual às damas dos castelos, cabelos dourados e olhos verdes como apenas os leões possuem. — Kyra falava enquanto a imagem da mulher voltava a sua mente. — Não havia dúvida de quem eram os parentes dela. E havia algo a mais também, por isso que chamou minha atenção.
— Por favor, se você levou ela para a cama, pule essa parte.
Kyra ignorou os comentários do primo.
— Eu paguei uma bebida para ela, mas ela recusou. Disse que não podia encher a cara, porque tinha uma missão e deveria partir no dia seguinte. Não uma missão qualquer primo, uma busca pela princesa que está desaparecida.
— Como?! — Era difícil demais de acreditar naquilo, já que nada acontecia realmente com os dragões, porque todos acreditavam que eles eram intocáveis.
— Pois é, esse eram os rumores que estavam rodeando Lannisporto o dia inteiro. Agora, vindo da boca de uma bastarda Lannister, não havia mais dúvidas. Nossa princesa Targaryen está desaparecida e eu vou atrás dela Ryon, pode apostar nisso.
O primo deveria estar com uma face de espanto ainda e continuou enchendo ela de perguntas durante todo o resto do percurso, até que finalmente conseguiram ver a monstruosidade que era Pyke aquela noite. Sendo atormentada por raios que cortavam o céu escuro e a chuva que banhou eles enquanto entravam pelos portões.
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Chovia a fúria do Deus Afogado do lado de fora, fazendo todo o castelo tremer com as ondas gigantes e os trovões capazes de abalar montanhas. Ainda assim, mesmo estando doente e cansado fora que o avô dela, Lorde Harren Greyjoy, havia saído de sua cama para subir na Cadeira de Pedra do Mar e discordar do plano de Kyra.
— Atravessar o mar atrás de uma princesa Targaryen? Nunca! — Rugia com a pouca força que seus pulmões velhos ainda possuíam. Os braços finos e cheios de veias se moviam lentamente no braço do trono para mostrar toda sua frustração. — Aqueles prateados nunca moveram um dedo para o nosso lado e nenhuma neta minha irá rastejar até o Trono de Ferro por causa de uma garota desaparecida.
O pai de Kyra, Hoster, estava à direita do assento que um dia seria dele. Dia que poderia ser não muito distante, por conta da saúde de Harren, ou que nunca viria se a insurreição da Casa Harlaw esmagasse as lulas de Pyke. Ela esperava que o pai fosse discutir da mesma forma que o velho enfermo, mas havia algo de diferente em suas feições e ela não sabia muito bem o que era.
A mulher deu dois passos a frente, mostrando que não tinha o sangue ralo do povo do continente, vindo do lado de sua mãe.
— Por isso mesmo, eles nunca deveram nada para nós e nunca irão realmente, mas se conseguirmos a recompensa… — Ela imaginava a vitória finalmente caindo na mão dela, poderia resolver tudo e voltar para aquelas ilhas como uma salvadora. — Nosso triunfo será garantido com o apoio dos dragões
Harren mexeu a boca quase sem dentes com desgosto.
— Triunfo que não estaríamos atrás se você não tivesse atravessado a espada pelo coração de seu marido!
Kyra suspirou, cansada daquela discussão mais uma vez.
Ela realmente havia matado Vayon, mas ela ainda se lembrava como estava cansada das brigas e de ter que lutar com o próprio marido quase todos os dias. O cheiro de bebida que estava sempre empregado no homem, as vozes alteradas, a grande mão levantada… Kyra não fora moldada pelo pai para aguentar tudo aquilo calada, por isso que sempre rebateu o falecido marido em todas as discussões desde que o mesmo havia voltado da guerra. Levando ao que havia acontecido e a guerra civil em que se encontravam.
— Todos aqui sabemos que teríamos explodido em guerra de uma forma ou de outra. — Uma meia verdade, pois ninguém saberia o que realmente poderia ter acontecido, mas ela se agarrava aquela hipótese sempre. — Mas agora, precisamos colocar um fim nisso.
Os olhos azuis esverdeados, turbulentos como o mar das ilhas, se encontraram com o do pai. Não sabia que encontraria apoio ali, porém precisava tentar de qualquer forma. Harren iria colocar um ponto final na conversa, mas Hoster levou a mão firme até o ombro do pai.
— Perderíamos uma grande capitã se você fosse até a capital. Até agora não perdeu uma batalha contra nossos inimigos, o mar é seu lugar, não do outro lado do mundo numa corte que não se interessa com os nascidos de ferro. — As palavras de Hoster costumvam ser duras, como ele mesmo.
— Eu irei fazer eles ganharem interesse, saberei como me virar. — Disse com a mesma firmeza do pai. — Sempre soube.
— Mesmo assim, o que garante que outra pessoa não vai chegar até a princesa primeiro? — Era uma dúvida que habitava a cabeça de todos que iam até Porto Real.
— Como bem sabe, meu pai, eu sou a Princesa de Ferro. — O título conseguiu tirar um sorriso até mesmo do avô rabugento. — E não queremos saber quem realmente achou a princesa, mas quem vai levar ela até os pés do Trono de Ferro. Eu não me importaria de tirar a princesa das mãos de quem quer que ache a garota primeiro.
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