Pedaços Transformados
236 Perdeu
perdeu
setembro, dois dias depois
Sua casa devia ser algo como ponto de encontro, pensou Kora, surpresa demais por isso está acontecendo para reagir — isso nunca havia acontecido antes. Jovem atrás de jovem, batendo na sua porta? Era a primeira vez.
Primeiro, chegou uma garota que nunca viu na vida. Baixa, morena e tímida. Perguntando se aquela era a casa de Calum Hood.
Kora nunca a viu na vida.
Por um momento, ficou chocada demais para falar, para reagir, porque... Aquela garota estava atrás do seu filho?
—Calum! Tem alguém aqui que...
—Já vou! — gritou seu filho em retorno.
—Ele já vem — repetiu Kora, embabascada. — Você é amiga de Calum?
—Hã... é... — balbuciou ela.
—Eu sou Kora — apresentou-se. — Mãe dele.
—Eu sei. — A garota sorriu. Oh, era mais sério do que Kora imaginava para ela saber. — Eu sou Demi. — Como se refletisse se diria ou não, Demi completou, um pouco corada: — Amiga de Julie.
—Você? — piscou Kora. — Amiga. De Julie. — Era bom de mais para ser verdade. — Meus pêsames.
—Ah, Demi — disse Calum, surpreso. — Vou chamar... Quer saber? Não vou. — Calum sorriu, como se Demi fosse sua visita e estivesse ali por ele. (Ela estava.) — Ela vai descer daqui a pouco. Acordou agora — explicou. — Luke fez panquecas, quer?
—Me ganhou quando disse que Luke fez a comida — disse Demi. — Espere. — Ela parou. — Não é mais uma experiência dele, é? Para ver se pode substituir...
—Foi uma vez — defendeu-se Luke, descendo as escadas ofendido. Mate alguém uma vez e então você vira um assassino. — E porque Michael disse que era intolerante à lactose, eu queria ser um bom amigo e...
—Eu o fiz prometer nada de experiências duvidosas — interrompeu Calum. Se não ficariam ali o dia todo. E ele queria comer. Mais. Panquecas era o seu prato favorito. Pan-que-cas! Pan-que-cas!- Vamos!
Calum liderou o caminho e já que não tinha nada para fazer, Kora os seguiu. Ou seguiria se não batessem novamente na porta. Qual era o problema desse povo ultimamente? Não sabia entrar sem bater? Ela estava cansada de abrir portas.
—Hum. — Kora não conhecia aquele garoto de cabelo azul na sua frente. — Você é...
—O que você desejar que eu seja — cantou o estranho, apoiando-se na porta e passando a mão no cabelo. Flertando. Completamente. Totalmente.
Kora revirou os olhos, suspirando desgostosa. É, ela tinha sua resposta, mas perguntou mesmo assim.
—Amigo da Julie? — perguntou. Ele parecia ser um dos amigos dela. Calum era muito comportado para ter amigos de cabelo colorido e depois daquela garota ser amiga de Julie, Kora não duvidava de mais nada. — Ou talvez você seja o namo...
—Eu sou Michael.
—Ah, o amigo de Luke. — Kora abriu espaço para ele. — Ele está na cozinha — ela apontou.
—Obrigada, doci...
—Pare de dar em cima da minha mãe, Michael! — gritou Calum.
—Da minha pode — zombou Luke. — Não é?
—Isso é que nem dizer que Julie não pode se defender — retrucou Calum. Luke discordava. — Liz é mais do que capaz de colocar Michael no lugar dele.
Kora não sabia o que isso significava dela — ela não era capaz de se defender? Embora, sim, Julie podia se defender melhor do que qualquer um e Liz era de quem ela havia herdado isso e Kora não chegava nem perto (nunca). Nunca. Ela não era CAPAZ de se defender.
—Ah. — Michael parou, lembrando-se (ele lembrava-se sem precisar "se lembrar"). — O verdadeiro namorado da Julie está vindo — avisou ele.
—Por que? — Kora ouviu seu filho murmurar e podia ouvi-lo revirar os olhos para Demi. — Você é o falso?
—Como você sabe? — questionou Luke.
—Ele ligou para mim e disse que vocês estavam aqui.
—Ele está mentindo — disse Demi, sem parar de mastigar. — Nós viemos juntos, só que eles decidiram apostar se Kora os reconheceria.
—Hum? — Kora levantou as sobrancelhas, não numa pergunta silenciosa, mas numa surpresa aterrorizante e não esperada
Demi deu de ombros.
—Liz é um mal exemplo.
—Então quando chegar Ashton, lembre-se, por favor. — Mike sorriu. — Namorado da Julie.
Kora suspirou. Adolescentes. Ela não tinha tido isso na sua vida, e alguma parte de si, talvez todas as partes, gostava daquilo.
(Kora perguntava-se quanto perdeu até aquele momento.)
(Até aquele momento.)
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