Pedaços Transformados
237 Não apenas
não apenas
setembro, dois dias depois
O punho de Ashton nem tocou a porta e ela foi aberta. Ele ficou por um momento, com a mão no ar, olhando para a mãe de Calum na sua frente e sendo olhado pela mãe de Calum. Ela era... parecida com ele.
Olhos escuros, cabelos pretos e algo na... áurea dela (ele devia estar passando muito tempo com Julie para estar pensando nessas coisas) e na forma como Kora estava séria, mas parecia estar se divertido — Ashton sempre achou que isso fosse algo que Calum havia aprendido com Liz, mas... talvez... não apenas.
—Namorado da Julie? — murmurou Kora, monótona.
O garoto que Kora nunca imaginou que fosse namorar Julie (ele era muito... normal; sem cabelos coloridos, sem piercing, sem nada de anormal e mal comportado, rebelde), encarou-a chocado.
—Como você... — balbuciou ele.
Kora balançou a cabeça em negação — ela não estava surpresa por Julie ter feito justamente o contrário do que esperava, embora... O que aquele garoto tinha na cabeça para namorar alguém como Julie?
—Julie – gritou Kora. – Seu namo...
—Querida – interrompeu Ashton, sorrindo logo em seguida para Kora em desculpas. E um pouco em flerte. – Ch-gue-ei – cantarolou ele.
Julie bufou do alto, revirando os olhos, simplesmente... Ela não tinha palavras para descrever como se sentia. Era simplesmente... ultrajante a maneira como Kora olhava para ela, esperando uma reação. Julie odiava como e quando as pessoas olhavam assim para ela, esperando algo mais do que podia dar, do que queria dar. Julie Hemmings não tinha vontade de satisfazer o desejo de ninguém, com certeza não o de Kora, mas parecia que era algo mais forte do que si e ela não conseguia decepcionar sua platéia quando sua platéia esperava uma performance.
Jogando o cabelo por cima do ombro antes de entrar no personagem, Julie ofegou, levando as mãos trêmulas a boca e mal se ouvir dizendo:
—Coração.
Tropeçando nos primeiros degraus e então correndo desesperada, Julie derrapou no piso e caiu nos braços abertos de Ashton, que a esperava. Soluçando, tremendo, rindo descontrolada, Julie não achava que foi sua melhor apresentação, mas ela estava improvisando. E não era exigente — quanto menor a exigência, menor a decepção, não que Julie se importasse com o tamanho da decepção, mas ela gostava do fato de não cobrar muito de si e ser mais maravilhosa do que esperava.
—Eu estava com tanta saudade — murmurou Julie audívelmente para Kora, sua voz saindo embargada e um pouco abafada pelo ombro dele. — Eu não consegui dormir, eu não conseguir comer, eu não...
—O que é isso, Julie? — zombou Ashton, revirando os olhos para Kora. — Nós dormimos juntos anteontem.
—Não caia na dela — avisou Calum. — Ela estava me abraçando de forma insuportavelmente melosa durante a noite toda.
—E passou a noite toda comendo – completou Luke.
—E assaltou a geladeira de madrugada.
—Calum. — Julie afastou-se de Ashton, grata, para olhá-lo. — Qual é o seu problema? Hoje você está sendo in-su-por-ta-vel-mente — silabou ela — dedo duro.
—Hã. — Calum franziu a testa, olhando de um para o outro e para a forma como Luke tinha as sobrancelhas levantadas, numa concordância silenciosa. Por que só ele estava sendo acusado? — É verdade — murmurou. — Qual é o meu problema? — questionou-se, assombrado. Sua primeira reação não podia ser que nem a de Luke e acusar primeiro, defender-se depois.
—Tudo bem, querido. — Julie bateu no ombro dele. — Todos têm problemas às vezes. O que é, Luke?
—Hum?
—Qual é o problema?
—Calum que precisa dizer algo, não eu.
—Eu decido quem precisa dizer o quê e quando. E agora é a sua vez.
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