Notas iniciais
Antes eu tinha pensamento que "eu estou bem" era mentira, que nunca era ou seria verdade, mas não é verdade - você diz isso porque quer que seja verdade e não porque é mentira, é aquela história de repita até acreditar, até ser verdade.

eu estou bem

setembro, um dia depois

—Você está bem? Você está confortável? Você quer mais um travesseiro? Quanto é um mais um, menos dois, mais dois, menos três?

—Zero? — tentou Calum. Qual era o primeiro número mesmo?

—Eeee.. — Kora parou, o travesseiro levantado enquanto refletia sobre a pergunta que fez. — Eu não lembro.

Calum deu um pequeno sorriso para ela, rindo um pouco de si, dela, deles. Como eles acabaram desse jeito? Como eles se tornaram estranhos um para o outro? Ele a amava, ele amava sua mãe, porque se via tanto nela, sentia que eles eram iguais, perdidos e sem saber o que fazer, quem ser. Ele teve sorte de ter encontrado pessoas maravilhosas que o ajudaram e o ajudavam quando precisava, mas sua mãe não teve.

Às vezes Calum queria fazer algo por ela, queria ter coragem de sentar-se e dizer o que sentia, de dizer o que ela precisava ouvir.

Calum definitivamente queria ajudar sua mãe a sair desse poço sem fim de lamentações e tristeza, de perda e ruína, contudo ele sabia que fraco e duvidava que tivesse forças para isso, ele temia puxar-se para dentro ao invés de colocá-la para fora.

—Está tudo bem, mãe. Eu estou bem. Você ouviu... — É, ele não sabia quem ela ouviu. Ela falou com o médico? — Liz é que nem Julie e Julie é uma idiota, então... — Calum não gostava de chamar Liz de idiota, era um desrespeito, mas afirmar que Julie era idiota e sugerir que elas eram iguais? Isso era amor, na sua opinião. — Ela exagerou um pouco aqui, diminuiu um pouco ali, mas eu estou bem.

—Sim — acenou Kora, piscando para afastar as lágrimas. — Você está. — Inclinando-se para frente, ela beijou-o, suspirando de alívio ao senti-lo quente e vivo. — Boa noite, querida.