Paz
6 Seis
As batidas do sino me assombram. Ele está pendurado no topo do poço. O vento é forte lá no alto. Aqui, as paredes estreitas e úmidas causam arrepios. Por que me jogastes no fundo do poço, querido?
Ouço os insetos me rodearem. Não quero abrir os olhos. Sussurro teu nome, peço ajuda. Tira-me daqui! O que fiz, para que deixes os vermes roerem minha carne? Entregar meu coração foi tão errado assim? Só pude te oferecer amor, só amor...
O cano fino, aos meus pés, começa a jorrar água. Vais me deixar afogar?
O líquido sobe lentamente. Tão torturante... Os arranhões, nas pernas, queimam. Bato as mãos na parede, a saída está longe, além do meu alcance. Podes me ajudar? Não precisa estender a mão. Fales uma palavra e voarei ao teu encontro. Será que podes?
Ah, o medo... Tive medo de te perder, meu bem, mas acabei me perdendo. Te perdi juntamente. Tudo está perdido. Tento não chorar mais, meu pranto só ajudaria a água a subir. Mas como não chorar, sabendo que jogastes na lama o que me fazia sorrir?
Não sinto desespero. A saída mais rápida é a rendição, não é? Deixo as pernas fraquejarem e me entrego aos vermes. Afogo a paz, o amor, os sonhos. Assim como afogastes a mim com palavras.
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