Notas iniciais
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Acordei novamente na mesma maca em que estivera mais cedo na ala hospitalar. Lembrei-me rapidamente dos acontecimentos do caça e nem me arrisquei a olhar para a direita. A primeira coisa que fiz foi olhar pela janela para me certificar de que ainda era noite. Ainda era, a não ser que tivessem se passado vinte e quatro horas. Olhei à minha volta e percebi o quão diferente um lugar poderia ficar quando cheio de pessoas. Embora todos lá precisassem de cuidados médicos, traziam vida ao lugar, de certo modo, calor humano, e até alegria. As pessoas lá podiam estar machucadas — umas tinham ferimentos leves, que eu mal conseguia ver, e outras, do tipo grave, com carne viva e tudo -, mas não perdiam o humor, grande parte dos adolescentes ria ou fazia brincadeiras com outros, ou simplesmente conversava.

– Você acordou.

– Nossa. Jura? Acho que não. -respondi antes de percebi quem falava comigo.

– Eu disse que ela não tinha nada a ver com a Lilly, Gu. — a Nick falou, aparecendo em meu campo de visão, segurando uma bandeja cheia de curativos e remédios.

Ela passou correndo para outra maca e me virei para onde ela estava olhando antes. Gustavo estava lá, sentado em uma cadeira ao lado esquerdo da minha maca, com sangue seco pelo rosto. Reparando melhor, sua camisa, que antes era verde lisa, estava toda estilizada de vermelho. Sangue.

– Você está bem, Gus? — perguntei, preocupada.

Acabei esquecendo o ombro machucado e tentei me sentar. Acabei soltando alguns xingamentos que fizeram o Gu franzir a testa e arregalar os olhos, mas logo ele entendeu.

– Estou mais preocupado com você. Meus ferimentos foram em maioria superficiais. Como se sente? — ele perguntou, se inclinando para chegar mais perto de mim.

– Me sinto um lixo. Não servi para nada a não ser atrapalhar meu próprio time. — a verdade era que eu não queria preocupá-lo ainda mais dizendo o quanto aquela merda de ombro doía. Queimava mais do que quando a lâmina entrou. O corte em meu antebraço cujo Rafaela havia desferido, já estava seco, assim como minha mão cortada pela espada do Will.

– Não serviu? — ele riu. — Você rendeu o melhor esgrimista do Acampamento e ainda alertou à defesa que haviam inimigos por perto. Sem você não teríamos ganhado, Ella.

– Que? Rendi? Alertei? Ganhamos? — a confusão tomava conta da minha mente. Eu lembrava de ter lutado contra o Will, mas ele havia me vencido. Duas vezes. Nunca avisei a ninguém de que tinham inimigos perto, e se tivéssemos ganhado mesmo, o mérito seria de quem pegou a bandeira, não meu.

– Pelo relatório da defesa, quando eles chegaram lá, Will estava de joelhos, e eles só haviam chegado lá por terem ouvido seus gritos. Qual foi a expressão que usaram mesmo? Ah. "Insanamente ensurdecedores".

– Eita.

– E sim, ganhamos. A Maria, o Pablo, o Avila e eu descobrimos a localização da bandeira inimiga rapidamente e logo partimos para lá. Foi uma luta divertida...

– Mas eles não foram páreo para nós. — Pablo completou.

– Oi, Miojo. — o cumprimentei, sorrindo.

– Eu te abraçaria bem forte se pudesse, sabe disso, né Mioja? — ele me presenteou com meu sorriso preferido dele, cheio de alegria e afeto.

– Nick me advertiu com muita ênfase para que eu não fizesse isso. Na verdade, ela praticamente me ditou um manual. — disse Gustavo.

– Ela fica muito brava quando não seguimos suas regras. Ela quase fincou sua lança elétrica no meu peito uma vez que eu quebrei a perna e tentei andar. — Pablo falou, rindo.

– Eu levantaria se ao menos conseguisse. Mas eu sinto como se a adaga ainda estivesse aí, mas sendo retirada e colocada, como uma serra.

– Ai. — eles responderam em uníssono.

– Mas ficarei bem assim que comer um daqueles quadradinhos deliciosos. — sorri.

– Ambrosia? — Pablo perguntou.

– É, por quê? — respondi

– Como você conhece ambrosia, Ella? — Gustavo perguntou.

– Ah, eu co... — comecei, mas logo lembrei que ninguém deveria saber do incidente com o Lyu, muito menos do meu abuso de ambrosia. — Conheci pela Nick, ela me mostrou uma vez. — menti, e pareceu que eles acreditaram, pois logo mudaram de assunto.

– Ah. Pablo, você não está atrasado para a festa?

– Festa? Ah. Eu não vou. Vou ficar aqui com a Ella. — Pablo respondeu ao Gustavo, puxando outra cadeira e se sentando ao lado do outro.

– Não sei que festa é essa, mas sei que ambos vão. Ninguém vai ficar aqui se entediando por minha casa enquanto poderiam estar se divertindo. — ordenei.

– Não é nada, Ella. Eu já fui a todas as festas da fogueira. — Pablo falou.

– Exatamente. Vai perder uma por minha causa? Nada disso. De jeito nenhum.

– Eu vou sobreviver.

– E eu vou te odiar o resto da minha vida. Vai agora, Pablo.

– Mas... — ele começou, mas não havia muito que dizer. Fazer o que se eu sou impossível?

– Fica tranquilo. Eu vou passar a noite com ela. — Gustavo o tranquilizou.

Embora eu quisesse muito expulsar o Gus também, se ele não ficasse, Pablo não iria. Um de cada vez, pensei. Pablo beijou minha testa e saiu.

– Não vai não. — afirmei, assim que Pablo saiu da ala hospitalar.

– E quem vai me impedir? — Gustavo me respondeu, num tom de afronta.

– Tudo bem. — quase dei de ombros, mas por causa do ferimento, me segurei. — Espero que se importe bastante com o fato de que eu vou te odiar o resto da minha vida.

– Amigos são pra isso. — ele respondeu, sorrindo.

Fechei os olhos já que não poderia me virar nem nada do tipo.

– Se não tivermos em quem nos apoiarmos, Ella, não tem como suportar. Pessoas estão aqui para isso. O nome usado para essas pessoas é "amigos". São aqueles que te enchem o saco, mas você não sobreviveria sem eles. São aqueles que por mais que você diga que odeia, na verdade ama muito.

– Você se acha muito. Como tem tanta certeza que eu te amo? Eu te conheci ontem. — perguntei, fingindo indiferença.

– Você também se conheceu ontem, Ella. Mas eu não disse que você me ama. Você acabou de dizer.

– Não me lembro disso.

– Como quiser. — ele respondeu, dando de ombros. — Minha namorada não vai se importar se eu ficar. — Essa era nova. Tudo bem que ele era um garoto incrível e exemplar e muita coisa, mas na verdade nunca passou pela minha cabeça que ele tinha uma namorada. Não que fosse importante. Não que não fosse. Acho que ele percebeu minha surpresa. — Por que o espanto? Eu também posso namorar.

– Não é por causa disso o espanto. — menti. — É porque você pretende passar a noite com outra garota e acha que sua namorada não vai se importar com isso. — nossa, eu era boa mesmo em inventar rápido.

– Ella, relacionamentos se baseiam em confiança. Ela confia em mim tanto quanto eu confio nela.

– Há quanto tempo vocês se conhecem? — resolvi que mudar o rumo do assunto me daria mais tempo para encontrar argumentos que o convencessem a ir embora.

– Desde que eu cheguei aqui, no Acampamento. Há uns 9 anos, quase.

– Nossa. Vocês estão juntos há esse tempo todo?

– Não. Estamos juntos há 5 anos. Mas desde antes de começarmos a namorar ela era minha amiga. Eu cheguei ao Acampamento com ela, e estava muito mal na época. Eu tinha 8 anos e ela 7. Eu tinha acabado de ver minha mãe ser assassinada na minha frente por um ortros e ela fugia do orfanato em que morava. Sabe, ela me apoiou demais, sempre.

– Eu sinto muito, Gus. Pela sua mãe, eu...

– Não tinha como saber, mas obrigado. Na verdade nem é muito comum as pessoas daqui prestarem os pêsames.

– Que? Por que não?

– Ser semideus não é algo que temos como escolher ser ou não, tampouco é fácil. É uma vida triste e cheia de perdas, apesar de termos muitos momentos de felicidade, porque é uma vida de destruição e perigo. — então sua expressão seria virou um sorriso. — Obviamente é muito divertido grande parte do tempo. Ser um semideus também tem suas vantagens.

Sorri também. Até ali, todas as pessoas que eu havia conhecido lá, tinham um passado triste, com mortes ou algo do gênero. Era lindo ver que eles realmente passavam por cima de tudo e ainda conseguiam encontrar felicidade. Menos o Will, aparentemente.

– Quero ser uma semideusa. — disse, com convicção.

– Você é, Ella. — ele me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais estúpida do mundo.

– Eu sei, Gus. Mas eu quero. Quero mesmo. Fico feliz por ser. — e era verdade. Eu tinha algo a que me agarrar, afinal. Como a Nick tinha me dito, "Uma pessoa pode perder sua memória, mas não perde quem é", e o fato de eu ser uma semideusa nunca deixaria de existir. Não era algo com conjugação. Sem passado, presente ou futuro, apenas semideusa, sempre. — E como nessa vida precisamos aproveitar cada dia como se fosse o último, vá encontrar a sua namorada. Eu vou ficar bem, prometo.

– Ella, não vou te deixar sozinha. — ele teimou.

– Ela não vai ficar sozinha. — uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar se manifestou. Maravilha. Valeu, Will.

Notas finais
Pra quem não conhece, Ortros era um cão bicéfalo oriundo da mitologia grega. Tido como o mais feroz cão de guarda da antiguidade, sua cauda era uma serpente. Sua mãe, Equidna era uma mulher-serpente e seu pai, Tifão, possuia cabeça de cavalo. Ortro era irmão do cão Cérbero que guardava o Hades. Ortro era mascote de Gerião, gigante de três corpos, seis asas e seis braços, pastor de um dos maiores e melhores rebanhos de todo continente africano. Ortro vigiava seu gado, na ilha de Eritéia, onde Hércules o matou, para cumprir o seu décimo trabalho. Há quem diga que o dono original de Ortro foi Atlas, o titã que carregava a Terra nos ombros. Conta a lenda que depois de ter sido morto por Hércules, Ortro ascendeu aos céus e transformou-se na estrela Sírius (Estrela do Cão), que é a estrela mais brilhante do céu noturno.