Passado, Presente ou Futuro
14 Capítulo XIV
Notas iniciais
Ei Will. — Gustavo se levantou e o cumprimentou.
Eu vou ficar com ela. Pode ir tranquilo, Gu. — Will disse, se sentando na cadeira antes ocupada pelo Gustavo.
O encorajei assentindo com a cabeça, fazendo meu ombro doer pra merda. O pior de tudo foi que o Gus realmente saiu. Eu não queria ficar sozinha com o Will, mas também não queria prender o Gus, então o deixei ir. Tudo bem que sozinha não era a palavra, até porque haviam várias outras pessoas ali. Incluindo a Nick, que depois de algum tempo apareceu e me entregou um pedaço de ambrosia, ignorando o olhar de culpado do Will. Eu mesma que já estava me irritando com aquele olhar imaginei que saco não era para ela se lembrar do Chris toda vez que olhava para o Will. Triste. Mas mesmo assim eu não abri a boca. Se ele quisesse um diálogo, poderia muito bem começar um. Ele tinha cordas vocais para falar, não?
Você está bem? — ele perguntou um tempo depois que Nick se afastou.
O que você acha, William? — respondi, seca. A verdade era que eu estava até um pouco melhor. Surpreendi-me com a eficácia da ambrosia contra minhas dores. Ainda eram fortes, mas não insuportáveis quanto antes. Até cogitei me sentar, mas não com o Will ali. Ou talvez até fosse uma ideia boa, mostrar a ele que eu estava bem, não melhor que ele, mas... Então lembrei. Eu o havia subjugado, o fiz sangrar por toda parte, mas olhando para ele, eu não via nada grave. O corte que eu havia feito em seu rosto logo começaria a cicatrizar e como se fosse possível, de alguma forma muito estranha, ele ficava ainda mais bonito com aquilo. Tentei me sentar, com dificuldade, e ele percebeu, me ajudando.
Acho que não muito. — constatou.
Estou bem.
Eu também estou, obrigado pela pergunta.
Ah, me desculpe, mas eu não estou preocupada com você. — respondi. — Pois é, não sou um amor, como a Lilly, então supere.
Quase me arrependi por ter mencionado a Lilly quando vi o choque em sua expressão quando o fiz, mas não. Não foi algo em que pensei antes, simplesmente saiu. Eu estava com raiva. Ele devia ter me contado dela, não era algo que ninguém deveria ter escondido de mim.
Que-Quem te contou? — ele gaguejou.
E importa? Eu não sou ela, Will. Sei disso. — me virei com cuidado, pois não aguentava encarar seus olhos, que transmitiam tantos sentimentos ao mesmo tempo. — Então pode ir e me deixar aqui, do mesmo jeito que você fez mais cedo. Prática leva à perfeição afinal de contas, não?
Okay. Talvez eu tivesse sido um pouco dura demais, mas o que ele fizera comigo fora pior. Ou não?
Ella... — ele sussurrou meu nome acariciando meu rosto com as costas da mão.
Will, eu não sou... — comecei, mas fui interrompida.
Você acha que eu não sei? Apesar de ter tido minhas dúvidas no começo... — ele encolheu os ombros — Eu soube quando fomos à Casa Grande falar com você. Sua... personalidade é completamente diferente de como ela era.
Eu ri. Personalidade. Arrogância e teimosia, ele quis dizer. Do tipo "Foda se, quer um balão?". Mas o que eu ainda não entendia...
Por que você me beijou então? — perguntei.
Eu não sei. Eu só pisquei e quando percebi, bem...
Não inventa, Will. — o interrompi — Você fez isso duas vezes.
Não estou inventando, Ella. Eu te vi, e você era igual a ela. Doeu, mas de alguma forma me atraiu.
Ela não morreu, não é?
Ele ficou quieto e olhou para baixo, exatamente como a Nick disse: "Quando mencionavam o nome dela, ele ficava completamente mudo.". No fim das contas, nem importava mais se ela estava viva ou morta, ela não estava ali, e isso doía nele.
Eu sinto muito, Will. Muito mesmo. — disse, reprimindo o impulso de acariciar seus cabelos.
Ele olhou para mim e entendi. Ele não queria mais sofrer por ela, tampouco queria me usar apenas para isso, ele gostava de mim, e apesar de ser algo completamente sem sentido, isso estava estampado em seus olhos verdes. Ele se aproximou e segurou minha nuca com cuidado. Nossos lábios se tocaram e eu senti algo diferente. Não era simplesmente a emoção do momento, eu sentia que havia algo a mais, lá no fundo, algo que eu nunca conseguiria explicar, mas que era bom.
Eu não vou e nem quero comparar as duas. No momento, o que eu quero é você, Ella.
Precipitado? Eu sei. Era até um tanto estranho e assustador, mas eu estava realmente começando a gostar dele, então deixei que ele me beijasse mais uma vez, dando ênfase em sua última frase. Afinal de contas, não era nada do tipo "Vamos estar casados pela manhã".
Meu ombro começou a doer de novo e me afastei, o deixando com uma expressão confusa. Ri.
Meu ombro. — expliquei
Ele assentiu com a cabeça e saiu. Finalmente sozinha, pensei. Mas ele logo voltou com algo na mão.
Você não pode comer muito disso, ou vai se queimar, explodir, sei lá o quê. — ele disse, me entregando mais um pedaço de ambrosia.
Comi sem falar nada, a sensação quente me invadindo novamente fazendo a dor passar. Se eu fosse realmente queimar de dentro para fora, acho que precisaria de muito mais daquilo, pois eu havia comido 4 ao todo e nada. "O que não mata, engorda". Talvez fosse até uma lenda, para economizar ambrosia talvez. Lembrei-me do curativo que nem tivera coragem de olhar. As ataduras estavam quase completamente vermelhas de sangue e cobriam meu ombro todo, com duas faixas contornando meu peito para que meu ombro não se movesse. Comecei a desenrolar as ataduras e Will bateu na minha mão.
O que você acha que está fazendo?
Tirando o que está me incomodando, o que parece?
Claro que está machucando, a adaga atravessou, Ella.
A adaga fez o quê?
Atravessou, você sabe, entrou nas costas e saiu...
Eu sei o que é atravessar!
A Deb não precisava ter feito aquilo, ela estava nervosa e quando te viu cortando meu rosto... Não entendi muito bem o que houve, mas quando você desmaiou, a adaga desenterrou um pouco e foi o que te salvou, apesar de...
NICK! — gritei.
Ela apareceu imediatamente e eu apontei para o meu ombro.
Ai, santa Atena! Tenho que trocar isso! — ela disse e saiu correndo.
Isso vai ser feio, vai ficar para ver, Will?
Como resposta ele se levantou, e embora eu achasse que ele iria embora, ele deu a volta na maca e entrelaçou seus dedos aos meus da minha mão direita.
Eu vou ficar com você. — ele respondeu, com ternura.
A Nick voltou e fechei os olhos, apenas sentia a faixa se desenrolando e os dedos dela. Foquei-me nos dedos do Will entrelaçados aos meus quando o ferimento começou a arder. Aparentemente ela pingava alguma coisa — que imaginei ser a mesma coisa que ela havia usado em minha perna — que ardia mais que tudo. Mordi o lábio inferior com força até sentir um gosto metálico. Lágrimas escorreram de meus olhos e Will secou todas.
Vou ter que enfaixar de novo, não quer olhar? — Nick perguntou, olhando para mim com o mesmo olhar de quando minha perna praticamente se curou sozinha.
O certo seria eu pensar que não, que deveria ser muito nojento e... Olhei. Achei bem melhor do que imaginava, o ferimento mostrava a carne, o sangue havia sido completamente estancado, e embora parecesse ter dois centímetros de diâmetro, parecia já ter começado a cicatrizar. Apesar de que nas costas estaria bem pior.
Olhei para o outro lado e devo ter adormecido, pois daquele dia, não me lembro de mais nada.
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