Passado, Presente ou Futuro
1 Capítulo I
Notas iniciais
—... sim, eu te aviso.- foi a primeira coisa que eu ouvi.
Eu estava deitada, de olhos fechados e ouvidos bem abertos. Não tinha a menor noção do que estava acontecendo e estava com muito medo de abrir os olhos. Não me lembrava de onde estava ou como havia chegado lá e continuava a ouvir duas vozes num diálogo, mas aparentemente uma das vozes estava muito longe e não era muito nítida.
—... mas é claro. Entendo perfeitamente, só acho que seria mais prudente... sim, claro.- falou a voz nítida
Tomei coragem e abri os olhos vagarosamente, ainda com muito medo. Teto reto e branco, com apenas duas lâmpadas, ambas acesas. Fui baixando o olhar e vi paredes também brancas, com quadros, janelas, um espelho, e na parede oposta à maca em que estava deitada, uma porta entreaberta, dando em um corredor de onde as vozes vinham e a luz do quarto invadia em um feixe. Ainda sem me mexer, movimentando apenas os olhos, vi, pela janela, que não estava no térreo, e vi também campos de morangos se estendendo por uma colina, a qual dava a impressão de ser o apoio do sol, como se ele fosse sair rolando de lá de cima. Resolvi movimentar meus dedos, abrindo e fechando as mãos. Tentei me lembrar da última coisa que havia acontecido. Nada. Dor de cabeça. Absolutamente nada. Mais dor de cabeça. Uma escuridão na minha mente, e eu não entendia nada.
Sentei-me, me sentindo muito tonta, e acabei fazendo barulho. Aparentemente, aquela maca estava lá improvisada, não fazia parte do cenário e não estava muito bem colocada, tanto que rangeu muito alto assim que eu coloquei meus pés no chão. A aquela altura, qualquer pessoa a 1 km de distância ouviria a maca desmoronando.
A porta, antes entreaberta, foi aberta e uma criatura entrou no quarto. Ele era alto, muito alto mesmo. Tinha cabelos grisalhos e uma barba por fazer. Seus olhos transmitiam preocupação e carinho. Bem, sem mencionar que, da cintura para baixo, ele era um cavalo. Tipo, um cavalo mesmo. E lindo. De crina branca e lustrosa, e cascos recém-escovados.
— Olá, eu sou o Quíron. Não se preocupe, você está segura agora. — era a voz que vinha de fora do quarto. A voz nítida que eu havia ouvido.
— Err... Olá. — arregalei os olhos. Fiquei espantada ao não reconhecer minha voz, ou meu corpo refletido no espelho ao meu lado. Meus cabelos eram loiros, estavam bagunçados, minha pele era quase pálida e meus olhos verdes, apesar de tudo, não parecia tão atraente assim, na verdade, não era nem muito bonita. Estava com alguns cortes e hematomas no corpo, o que não me preocupava muito, mas queria saber como os consegui. Usava uma camisa vermelha escrita "The Flash" em amarelo logo acima de um raio – também amarelo – e um short jeans. A blusa estava bem rasgada e o short estava praticamente verde de tantas folhas e espinhos agarrados.
— Como se chama minha querida?- Quíron perguntou
— Eu, err... anh.. — comecei a tentar me lembrar do meu nome, de alguma coisa, de qualquer coisa, e quanto mais eu tentava me lembrar, mais minha cabeça doía.
— Está tudo bem. Pode me dizer seu nome.
— Não...
— Claro que pode, nada a impede.
— Você não está entendendo! Eu...- minha cabeça parecia que ia explodir e o quarto não parava de girar. Caí de joelhos no chão, com os dedos entrelaçados no cabelo, segurando minha cabeça. Senti muita dor e tudo o que consegui fazer foi gritar.
No momento em que eu gritei, não ou ouvi nenhum som, apenas me senti sendo jogada contra a parede, e assim que encostei nela, ouvi meu grito, como se o som tivesse demorado até sair, e ouvi também outro barulho muito alto. Como o de um algo pesado sendo arremessado contra a parede. Não desmaiei, apenas fiquei de olhos fechados, sentindo a dor passando lentamente.
Assim que abri os olhos, havia na minha frente, uma garota alta e magra, de lindos olhos castanhos, óculos estilo aviador, cabelos nem tão curtos, nem tão compridos, que usava uma calça comprida e uma camisa amarela escrita "STAR WARS". Sua expressão era uma mistura de preocupação com espanto. Ela olhou para o Quíron e logo para mim. Eu não sabia o que fazer, apenas senti as lágrimas caindo no meu rosto.
— O que você fez, garota??- perguntou outra garota, esta baixa, de olhos castanhos e cabelos compridos, usando um vestido florido amarelo, que eu não tinha visto entrar até ela falar, indignada.
Eu não tinha a menor ideia do que deveria fazer, nem do que havia feito, mas aparentemente, aquele Quíron, agora desacordado e estirado na parede, era muito querido por elas e eu provavelmente seria punida por machucá-lo. A única coisa que me veio à cabeça foi correr. Foi o que eu fiz. Mas na porta, encostado ao batente, havia um garoto muito grande – alto e um tanto gordo –, de olhos castanhos levemente puxados e cabelo espetado pra cima castanho escuro que estava parado, que segurou meus pulsos quando eu tentei sair.
— Quem é você, garota?- a menina alta perguntou.
Eu só conseguia chorar. Olhei para cima, para os olhos do garoto, e ele me encarando de volta, hesitou, soltou meus pulsos e me abraçou. Devolvi o abraço e ficamos assim. Por mais que fosse muito estranho mesmo pra mim o fato de eu estar abraçando um garoto que eu não conhecia, ainda mais naquelas circunstâncias, naquela hora, foi como se eu o conhecesse desde sempre e ele estivesse me confortando, bem, estava. Ainda assim eu não conseguia parar de chorar.
— Rafaela. — Quíron chamou.
— Ain, deu ruim. – a garota baixa falou consigo mesma e logo se virou para ele — Senhor?
— Chame o conselheiro de Hefesto. – assim que ele terminou de falar ela já estava correndo passando por mim e pelo garoto que ainda me abraçava.
— Senhor? – a garota alta chamou Quíron.
— Eu não sei, Mia. – ele falou como se estivesse respondendo a uma pergunta feita por ela mentalmente. – Dessa vez realmente sei muito pouco, mas sei que há algo nessa menina. Algo muito importante. – eu sabia que ele estava falando de mim, mas ainda não entendia metade do que eles estavam falando.
O garoto fazia carinho na minha cabeça e a garota olhava para ele, como se ele estivesse fazendo algo errado. Eu a entendia. Ou ao menos eu acho.
— A Babu chegou? – a Mariana perguntou.
— Não creio que a Bárbara volte. Ela encontrou um lugar onde é feliz. Que os deuses estejam com ela. – Quíron respondeu
— Isso quer dizer que só teremos um conselheiro? – ela perguntou, mas Quíron não pôde responder.
— Senhor Quíron, mandou me chamar? – falou um garoto que acabava de chegar, muito alto, moreno, de lindos cachinhos como molas enroladas, olhos castanhos e cheio de cicatrizes nas mãos e por partes dos braços. Ele usava uma camisa laranja com estampa de um cavalo com asas, escrito "Acampamento Meio-Sangue". Ele olhou pra mim e para o garoto que ainda fazia carinho na minha cabeça.
— Sim, Fernando. – Convoque uma reunião. – Quíron falou
— Claro. Pra quando?
— Ontem.
— Em 20 minutos, senhor. – ele se virou para mim e se dirigiu ao garoto. – Quem é essa, Guilherme?
— Ela apareceu na Colina mais cedo. Estava desacordada. Theo a trouxe para cá. Quando ela acordou, disse que não se lembrava de nada. – Quíron respondeu.
— De nada mesmo. – emendei. –Não consigo lembrar nada de antes de eu chegar aqui. Fiquei assustada, me desculpe... É Quíron, né? Desculpem-me. – tive a necessidade de dizer alguma coisa, não aguentava mais chorar e algo no Fernando, me fazia querer contar tudo a ele.
— Está tudo bem, pequena. – Fernando falou. –Só acho que ela vai ficar por aqui, mesmo porque ela é semideusa, ou não passaria pelas fronteiras.
— Você não tem nome? –Guilherme perguntou
— Hm, não consigo... Acho que não. — respondi decepcionada por não ter nada que pudesse chamar de meu, nem ao menos um nome.
— Não precisa se desculpar
— Claro que tem. Ela, ela... – Pablo falou, pensativo.
— Mas Ella? – Mariana falou, sem olhar para mim.
— Ella é um nome legal, Mia. – Fernando falou para a Mariana, e eu sorri, feliz não apenas pelo nome, mas porque vi naquele lugar, naquelas pessoas, amigos, família, algo que eu não me lembrava de ter.
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