Passado, Presente ou Futuro
2 Capitulo II
Quanto à reunião convocada por Quíron, eu tinha que participar. A Mia foi chamar os conselheiros dos chalés, coisa que eu não havia entendido, mas não tinha problema, entenderia depois. Bem, se o motivo da reunião era eu e a minha chegada, nada mais justo que eu participasse para saber. Eu podia ter perdido a memória, mas não fiquei idiota por isso. Sabia que o que quer que eles falassem sobre mim, poderia ser importante. Poderiam deduzir algo sobre o meu passado ou até mesmo me conhecer.
Depois de mostrar ao Quíron que eu estava bem e sem mais dores de cabeça, ainda tive que implorar para participar da reunião, e, com a ajuda do Pablo – Fernando na verdade era o segundo nome dele e costumavam chamá-lo pelo primeiro –, Quíron foi convencido a aceitar.
— Você é bastante insistente, pequena. – Pablo comentou comigo assim conseguimos convencer Quíron me permitir participar.
— Talvez seja. De qualquer forma, tenho que começar por alguma coisa, preciso me descobrir de algum jeito. – eu respondi sinceramente.
— E com certeza o filme de orientação não vai servir nada pra você...
— O que?– perguntei, confusa.
— Nada. Quanto a se descobrir, já te digo que tu é insistente. Já é um começo. – ele sorriu– Bem, tenho que buscar meu irmão. Ele é meu co conselheiro. Meu cocô–nselheiro. – eu comecei a rir– Ele é um cara muito legal, você vai gostar dele. – ele olhou o relógio – Temos 10 minutos. Vamos.
—Mas será que eu posso ir? Quer dizer, sei lá.
—Eu lhe protegerei, milady. Como um verdadeiro cavalheiro.– ele disse, fazendo uma reverência que mais parecia que ele estava com dor de barriga.
— Muito obrigada pela gentileza, senhor. – retribuí a reverência mas, pela risada dele, a minha foi pior que a dele.
—Vambora. – ele segurou meu braço e me puxou corredor afora, escada abaixo, até sair da casa.
—Nossa! Que lugar lindo!– eu exclamei.
Os enormes campos de morangos que eu havia visto pela janela não eram nada comparados a tudo aquilo, aquela vastidão de grama, pessoas e imponentes construções.
Logo a frente se encontrava uma quadra de vôlei. O que realmente me chamou atenção foram os garotos e garotas jogando, com o mesmo número de garotos ou garotas pra cada time, eles não me pareciam nada amadores. A direita, no topo da colina havia um enorme e majestoso pinheiro, quer dizer, eu não acho que sairia por aí elogiando árvores, mas aquela era incrivelmente alta e bonita.
Depois de corrermos um pouco consegui avistar mais semideuses, a maioria deles extremamente bonitos e loiros, carregando tintas e pincéis e cuidando de armas, como arcos, todos personalizados. Um grupo de garotos e garotas focados tecia algo que eu não consegui distinguir exatamente. Mais à frente, algumas meninas muito bonitas brincavam de fazer plantas crescerem, literalmente. Tomei um susto com aquilo. Quase parei pra observá-las, mas continuei o caminho, pois o Pablo não ia parar.
— É lindo mesmo. – ele respondeu. – Você vai ter tempo pra apreciar a vista mais tarde, agora a gente tem que correr pra buscar meu irmão. – ele agarrou meu braço de novo e saiu correndo novamente, me puxando. Assim que ele percebeu que eu estava correndo no mesmo ritmo que ele, me soltou, e continuamos correndo, eu apreciando toda a vista que tive da janela da casa, mas mais de perto.
Era muito bom correr, me trazia uma sensação de paz e liberdade, era como se eu estivesse correndo pela primeira vez, mesmo obviamente, a julgar por meus hematomas e cortes, não sendo a primeira vez. Ele começou a diminuir a velocidade, e percebi que estávamos chegando.
Era um lugar evidentemente para arquearia. Havia alvos para todo lado, arcos pendurados em uma parede, aljavas jogadas pelo chão, e flechas –todas completamente diferentes– jogadas dentro de coisas parecidas com baldes, não sei. Vi também alguns garotos altos e loiros praticando, mas pareciam mais brincando ou talvez brigando. Havia também, isolado dos outros garotos, um garoto alto, de cabelos escuros e barba rala, olhos castanhos tão focados em sua tarefa, que refletiam o alvo, com o círculo central do alvo, bem na retina. Era hipnotizante o ver tão compenetrado, e mais ainda, quando ele soltou a flecha bem no meio do alvo. Com apenas um meio sorriso como comemoração, ele se virou para pegar outra flecha em sua aljava.
—IRMÃOZINHO!– Pablo gritou, olhando para o garoto que atirava.
O garoto apenas se virou para olhar para seu irmão, com um olhar que dizia "agora você espera porque estou ocupado", voltou o olhar para o alvo e soltou outra flecha que dividiu a flecha anterior, ainda no alvo, no meio. Pablo me puxou até mais perto do garoto.
—Oi, Pa...– ele parou de falar quando me viu. Imaginei que deveria ser muito estranho ver o Pablo com uma garota. Ou talvez ele tivesse apenas me achado feia. –... blo.– Pablo começou a rir
—Irmãozinho, esta é a Ella. – se virou para mim– Ella, este é o Fernando, meu irmãozinho.
— Hm... Oi Ella. – Fernando se virou rapidamente para o Pablo– O que houve?
— Co-mo as-sim eu não posso vir aqui ver meu gato irmãozinho atirando com um belo arquinho uma linda flechinha?– Pablo respondeu, irônico.
— Como assim vocês são irmãos? Não se parecem nem um pouco. Como assim o nome dos dois é Fernando? Eu to perdida aqui. – eu disse.
— Vem cá que eu te dou um GPS, delícia!– um dos garotos gritou para mim e eu arregalei os olhos. Ele era branco de cabelos negros e lisos, jogados nos olhos, também negros, o que o destacava no grupo loiro. Não posso negar que era muito lindo. Devo ter ficado vermelha, porque senti meu rosto quente.
— Não se preocupe, filhos de Apolo são uns babacas muitas vezes. – Fernando se virou para o garoto – NÃO É, JAKE?– Fernando gritou – Me chame de Fernando e chame-o de Pablo e tudo resolvido.
— CALA ESSA BOCA, FERNANDO!– Jake gritou.
— TAMBÉM TE AMAMOS, OTÁRIO. –Pablo gritou de volta, formando um coração com os dedos e erguendo em direção ao Jake.
— Esse Jake é cego?– os dois me olharam com a mesma expressão curiosa, que mostrava como os olhos dos dois eram parecidos – Porque delícia... Quer saber? Esqueçam. – eles riram
— Galera, ta na hora. Vamos chegar atrasados e o Quíron vai me matar por não estar lá com você, Ella. – Pablo disse, olhando para o relógio– E não, o Jake enxerga perfeitamente bem.
— Hora de que? Enxerga o que?– Fernando perguntou.
— Vamos, Nando. Viemos aqui pra te chamar, e você vem com a gente. – segurei a mão dele e o puxei, com o Pablo à frente, já correndo.
— Pra onde, gente?– Fernando perguntou
— Reunião! Anfiteatro!– Pablo gritou de longe.
— Aonde é isso, cara?– eu sussurrei para mim mesma.
— É logo ali– Fernando apontou. Como ele me ouviu?– Quer apostar uma corrida?– ele falou, me cutucando.
— Ta brincando? Mas é claro. – eu respondi
Começamos a correr como se nada nos impedisse, afinal, nada impedia mesmo. O vento acariciava meus cabelos e eu nem me importava se eles estariam bagunçados ao final da corrida. Naquela hora eu nem me importava mais com memórias, não me importava com nada, apenas com correr mais e mais rápido. Eu já tinha passado o Pablo, mas o Fernando ainda estava na minha cola, bem pertinho. Eu não tinha entendido aonde era o tal anfiteatro, e acabei correndo para o lado errado, mas o Pablo me corrigiu e continuamos. Mesmo com a desvantagem de ter errado o caminho, chegamos quase ao mesmo tempo, todos os três. No fim, eu estava exausta e muito feliz.
O Pablo entrou antes, chamando a maior atenção.
— O PABLOTOSO CHEGOU NESTA BAGAÇA!– ele gritou.
Eu e o Fernando começamos a rir, não só nós dois, mas praticamente todos os outros adolescentes que já estavam lá. Só o Quíron não riu, pelo contrário até.
— O "Pablotoso" está atrasado. Cinco minutos de atraso. – Quíron brigou.
— Me desculpe senhor, houveram alguns imprevistos. Mas estamos aqui agora. Podemos iniciar. – Pablo respondeu, educadamente.
Os dois se dirigiram a um canto do anfiteatro. Eu fiquei sem saber para onde ir, e tinham muitas pessoas lá, todas olharam para mim por um instante e continuaram a conversar. Parei para prestar atenção em cada grupo separadamente.
Um garoto loiro alto e magro de lindos olhos azuis ria com a Mia, o Guilherme estava ao lado dela, conversando também.
— Lyu, PARA, PARA!– Mia dizia enquanto riam.
Uma garota branca, de cabelos e olhos negros usando uma cartola preta estava sentada perto do Quíron, e já conversava com o Pablo.
— Sim, Maria, já estamos cientes disso.– Quíron se dirigia a ela, seriamente.
Outra garota, baixa, muito bonita, de olhos castanhos, estava com um copo na mão e gargalhava com um garoto pálido e de olhos, cabelos e roupas pretas e com duas garotas, ambas de cabelos lisos e muito pretos, mas uma vestia uma roupa colorida e a outra, mais magra, toda de preto, com uma blusa preta escrita em branco "Your Favorite Worst Nightmare".
Um garoto muito lindo, de olhos verdes como o mar e cabelos negros, conversava com uma garota branca de cabelos lisos e compridos, franja, que usava um piercing no nariz, outra garota de olhos castanhos bem claros, cabelos cacheados um pouco mais escuros que os olhos, e com outros dois garotos, um de cabelo liso e castanho, de olhos levemente puxados e o outro um tanto parecido com o primeiro, mas de castanhos e penetrantes olhos e pequenos cachos nos cabelos.
— Vine, não se atreva. –a garota de piercing falou para o garoto de olhos castanhos.
— Tenho certeza que ele se atreve, Pinheiro – o de cabelo liso falou.
— Ah, Davi– o de olhos castanhos, provavelmente o Vine, falou para o mais alto– você estraga a graça assim. – e o Vine empurrou o Davi
— Will? Ta legal?– a garota de cabelos cacheados perguntou ao garoto de olhos verdes que olhava pra alguém que não consegui identificar quem era, era como se ele não estivesse lá.
— To sim, obrigado por perguntar, Mapa.
Uma garota andava por todos os lados, conversando com todos e rindo muito, ela era morena, de cabelos castanhos e olhos bem pretos.
— Calma gente! Tem Neila pra todo mundo aqui. – ela dizia enquanto andava para outro lado mesmo parecendo que a maioria dos presentes não requisitava sua presença.
Vi dois garotos aparentemente pregando peças, um altamente gostoso, digo, alto e loiro, de olhos azuis e outro nem tão alto, de cabelos castanhos cacheados e olhos também castanhos, com uma carinha de criança bagunceira.
— Roberto, shiu. – o loiro disse
— Ah, shiu pra você, Felipe. – Roberto disse, empurrando o Felipe e começando uma briga de empurrões.
Uma garota de cabelos ondulados e olhos cor de mel conversava com o Nando.
— Ah, Deb, não pode ser. – o Nando disse
— Eu posso fazer o quê?– e eles riram
Haviam muitos adolescentes lá, mal consegui prestar atenção em todos. Sinceramente, todos lá eram muito interessantes, e pareciam uma grande família feliz. Quíron me chamou e me sentei ao lado dele.
— Podemos começar a reunião agora. – Quíron anunciou.
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