FRANCES

O despertador ainda não tinha tocado mas eu já experimentava a minha quinta saia. Nada combinava com nada, mais ainda depois de uma noite praticamente sem dormir. Meu cérebro não desligou dos acontecimentos da noite e da conversa com Dominic, mesmo que ela tenha durado poucos minutos, apenas. A ideia de que um hóspede, um garoto, me afetasse, era inconveniente. Nada poderia me perturbar, aquele emprego no Keller era muito importante para ser desperdiçado por bobagens.

Mas as coisas não estavam saindo como planejado. Desisti de insistir no sono às seis da manhã e testei quase todo o guarda-roupa, sem sucesso em escolher a roupa perfeita para o dia. As saias não vestiam bem, ou não tinham a cor que eu queria. Os vestidos estavam desatualizados — eram de três verões atrás e alguns já apresentavam os sinais do tempo, com partes gastas. Odiava tudo que tinha para vestir e esse sentimento não era verdadeiro há dois dias, apenas.

Atrasada, vesti qualquer coisa e arrisquei uma maquiagem mais leve, com menos brilho e cores mais suaves. Prendi os cabelos cacheados, calcei as sandálias favoritas e fingi que me sentia perfeita. Eram sete e vinte quando cheguei ao refeitório — todos os meus colegas já estavam lá e ninguém nem conseguia fingir que ignorava meu atraso. Jordan levantou-se para me receber e correu para me servir um café preto e amargo, do jeito que eu gostava.

— Noite ruim?

— Considerando que não dormi praticamente, noite péssima.

— Precisamos parar de fazer bagunça no seu espaço. Da próxima vez, usamos o galpão.

— Não foi isso, Jordie. Obrigada pelo café, provavelmente começarei o dia às oito. Já consigo ver hóspedes rodeando o salão de dança.

— Espero que eles queiram apenas dançar. — Alicia disparou. — Esse verão está difícil, só tem gente asquerosa hospedada aqui.

Suspirei. Eu não era preconceituosa como minha colega cantora, estava acostumada a hóspedes mais velhos e ao que eles eventualmente pretendiam que eu oferecesse extra-classe. Mas discordava veementemente da ideia de que não havia ninguém interessante no hotel. A família Mendez rompia com aquele estigma que costumava ocupar os verões do Keller.

— Seus filhos já chegaram, também.

Dominic apontou para o lado de fora e lá estavam Mercedes e Roberto Mendez. A menina continuava agarrada ao celular e o jovem não parecia tão animado — mas não pude notar que ele não estava lá. A ausência de Rafael fez com que perdesse totalmente o interesse pelo cenário. Aquela seria, provavelmente, mais uma aula como as outras.

Engoli a comida e o café e despedi-me dos colegas. De todos os empregados do hotel, eu era a que mais tinha demanda. O Keller tinha fama de possuir os melhores dançarinos de música latina e no final da temporada havia um grande baile, o que fazia com que os hóspedes desejassem aprender alguns passos para acompanhar as festividades. Eventualmente, Dominic me auxiliava com os alunos, mas ele também tinha sua própria demanda — de outras naturezas, inclusive.

— Bom dia, professora.

Roberto me abordou na entrada do salão. Ele não era tão lindo quanto Rafael, mas os dois eram bastante parecidos. Podia jurar que tinham a mesma idade, mas as semelhanças não eram muito profundas. Não tinha o mesmo cheiro, o mesmo sorriso; Roberto não emitia a mesma vibração. Sem a menor vontade de retomar os pensamentos de algumas horas atrás, limitei-me a sorrir e a respondê-lo com atenção.

— Vamos dançar o cha-cha hoje, Sr. Mendez?

— Roberto, por favor. Se dançar isso daí me fizer conseguir umas garotas nesse verão, estou dentro.

— E onde você viu garotas nesse lugar horrível, Roberto?

Ora, quem diria, Mercedes tinha voz! Achei graça da atitude deselegante da jovem — ela parecia genuinamente desinteressada em qualquer coisa que acontecesse e não estivesse em seu celular.

— Na piscina sempre há jovens. — Sugeri. — Os mais velhos costumam fazer dança e mímicas, mas os mais novos só querem sol e os esportes. Vocês precisam ir para o outro lado.

Apontei na direção em que se podia avistar pessoas jogando vôlei, e também uma grande piscina cheia de gente. Aquele era um local que eu pouco frequentava, já que meus clientes eram quase todos maiores de cinquenta anos e não praticavam futebol, vôlei ou tênis.

— Quer dar uma volta por lá, Mercedes?

— Vocês podem ir, eu não contarei nada aos pais de vocês.

Pisquei e Roberto sorriu com gratidão — depois, tomou o telefone da irmã e a arrastou para o paraíso da juventude. Não que o Keller fosse frequentado por adolescentes, mas era possível encontrar gente da idade daqueles dois. Não deixaria que perdessem tempo com danças de salão que pareciam não interessar a nenhum dos dois.

A manhã transcorreu exatamente como todas as manhãs no Keller, a som do ritmo latino, muito sol e alunos com pouquíssima aptidão para a dança. Mesmo assim, mantive-me prestando atenção no lado de fora, não me importei com erros, tropeços ou pisadas no pé — meu pé, invariavelmente. Esperava ver quem não tinha aparecido ainda, o bendito hóspede que não tinha o menor senso se limites e que invadiu descaradamente nossa festinha na noite anterior — aquele que tinha tirado meu sono, Rafael Mendez.

Ele não apareceu durante todo o período de aulas. Já passava de meio dia quando despedi-me do último aluno — o Sr. Gordon — e desliguei o som e a luz do salão. Estava com fome e não sabia se procurava alguém para almoçar comigo ou se saía para comprar roupas novas, mesmo sem ter dinheiro sobrando para isso. Como fazer compras era uma terapia válida, peguei a bolsa e os documentos e fui para a frente do hotel esperar o ônibus que levaria hóspedes para a cidade.

Olhava no relógio a cada minuto até que ouvi uma buzina tentando atrair atenção. Como não tinha mais ninguém no ponto, só poderiam estar buzinando para mim.

— Boa tarde, professora.

A voz. Segurei um sorriso que tentou aparecer em meus lábios, mas meus olhos não resistiram em encarar Rafael Mendez dentro de um conversível vermelho, o carro mais clichê de todos os atores de Hollywood. Não fazia ideia de quem era aquele rapaz, mas ele tinha todos os acessórios para chamar atenção para si.

— Boa tarde, Sr. Mendez. Vai passear?

— Tenho que ir até a cidade enviar um documento. O que faz aqui fora; pensei que estivesse em aulas.

— Até uma professora precisa comer.

— Então vamos comer.

— Vamos?

— Sim. Você está indo para a cidade, ou não estaria no ponto aguardando. Eu estou indo para a cidade, mas tenho um carro que é mais rápido. Podemos ir juntos, almoçar, fazer o que precisamos e voltar para o hotel. É um bom plano, não acha?

Parecia um bom plano, mas eu não tinha certeza se era adequado. Tinha ouvido bem o que Dominic disse e prometido que não me envolveria com o hóspede, o que significava recusar aquele tipo de convite. Ele era extremamente conveniente, no entanto, já que reunia minhas necessidades em um só momento. Por algum motivo, entre o desejo de comprar e a fome, eu também queria passar algum tempo com Rafael — mesmo que fosse um desejo indevido.

Envolver-me com hóspedes sempre foi uma coisa que fiz, apesar de tudo. Eles me davam dinheiro e eu oferecia algo além das aulas. Não gostava disso, nem de lembrar disso, mas ajudou-me a manter o emprego e a pagar as contas. Tornou-se uma constante, algo que sempre acontecia nos verões — exclusivamente no Keller. Porém, não parecia ser a mesma coisa que Rafael queria. Ele era diferente dos outros com quem eu já tinha me relacionado.

— Tudo bem, Sr. Mendez. Vou aceitar sua carona.

Ele saiu do carro e abriu a porta para que eu entrasse. Os assentos de couro claro eram confortáveis — seria muito mais agradável viajar alguns quilômetros em boa companhia e ouvindo música.

— Rafael. Você pode me chamar de Rafael.

Sorri e coloquei o cinto de segurança. Não dava para resistir mais. Ele arrancou com o veículo e logo estávamos na rodovia, em direção a Los Angeles.

— Posso fazer uma pergunta? Se veio com o ônibus, como tem um carro para dirigir?

— Pedi que o entregassem, hoje. Não gosto de depender dos horários dos outros, acostumei-me a ser muito independente.

— Entendo. E você deve ser muito importante, também, para conseguir esse tipo de coisa.

— Você não faz mesmo ideia de quem eu seja?

Rafael falava sem tirar os olhos da estrada. Peguei-me observando seu perfil e tentando imaginar por que eu deveria conhecê-lo, ou saber qualquer coisa sobre ele. Vi-me mais uma vez hipnotizada por sua beleza única, por quem eu nunca deveria sentir-me tão atraída.

— Não, eu não faço. Isso deve me fazer perder vários pontos, certo?

— Claro que não, está tudo bem. — Ele sorriu. — Eu trabalho em Hollywood, faço séries de TV. Por algum motivo, acabamos achando que todo mundo assiste os programas da CBS.

— Não assisto muitos programas de TV, costumo ter outras atividades que me consomem muito tempo.

— Você trabalha com dança ou faz isso apenas no verão?

— Já tentei viver da dança, mas não caí nas graças dos musicais em Nova Iorque. Acabei vindo para Los Angeles e também não tive sucesso em Hollywood. Restou-me trabalhar em lanchonetes e dançar no Keller, todo verão. Faço isso há quatro anos.

— É uma pena que não tenham reconhecido seu talento, você dança muito bem.

— Ainda não me viu dançar de verdade, Sr. Mendez… Rafael.

— Então acredito que precise de algumas aulas, para descobrir como se dança de verdade.

Rimos e continuamos a conversar durante o trajeto. Rafael aumentou o som para preencher o ambiente com ritmos latinos um pouco diferentes do que eu usava para dançar, mas que adorava cantar. Músicas românticas que eu não esperava que um homem gostasse de ouvir — talvez ele estivesse apenas sendo gentil para que eu ficasse satisfeita. A viagem de meia hora transcorreu espontaneamente, como se Rafael fosse um velho conhecido ou um amigo, alguém com quem pudesse conversar sem restrições — ele era confortável.

Chegamos em Los Angeles já próximo de uma da tarde, e Rafael precisou subir a capota do veículo. O sol estava muito quente — e eu, esquecida, não tinha passado filtro solar. Ele conduziu o carro por algumas ruas e estacionou. Não reconheci imediatamente onde estávamos.

— Vamos almoçar, estou morto de fome. Acho que nossos compromissos podem esperar.

— E onde pretende almoçar? — Olhei ao redor, fechando a porta do carro. — Não vejo nenhum restaurante por aqui.

— Que sorte a minha, você ainda não foi ao Cavatina. Tenho certeza que se surpreenderá com o menu.

Eu conhecia aquele nome, mas tudo que via eram prédios imponentes, nada parecidos com os lugares que eu frequentava. Aquele restaurante era cinco estrelas. Rafael ofereceu a o braço para que o acompanhasse enquanto eu ainda estava um pouco atordoada com a proposta.

— Eu não vim preparada para almoçar em um restaurante como esse, Rafael. Não estou vestida de acordo e não tenho…

— Frances. Você está linda, não precisa se preocupar com a aparência. E com mais nada, eu estou te convidando.

Os olhos dele eram expressivos, como se pudessem falar sem a necessidade de palavras. Castanhos como o tronco das árvores no outono, profundos, deixavam a emoção transbordar. Pude compreender por que ele era ator, afinal — sua manifestação corporal era vibrante. E eu estava muito, mas muito ferrada, mesmo. Segurei em seu braço e aceitei ser conduzida por dentro do Sunset Marquis Hotel, onde ficava o famoso Cavatina. Eu não estava, definitivamente, acostumada a lugares como aquele.

O almoço foi tão agradável quanto a viagem. Rafael escolheu os pratos e um vinho leve para acompanhar, e me permiti inclusive degustar a sobremesa. Levamos quase duas horas comendo e conversando os mais variados assuntos — a maioria relacionada ao mundo da fama, que ainda não tinha experimentado.

— Aonde você precisa ir?

Ele perguntou, depois que já estávamos saindo do restaurante.

— Estou muito atrasada. Melhor resolver o que você precisa fazer e depois voltamos para o hotel.

— Vamos, Frances, o que veio fazer em Los Angeles, hoje?

— Queria comprar algumas roupas. Estou precisando de vestuário novo para o verão.

— Excelente! Vou a Beverly Hills levar um contrato e você pode dar um passeio pelas lojas enquanto espera. O que acha?

Sorri novamente e o encarei. Havia uma ingenuidade inocente no olhar de Rafael que me fazia acreditar que ele realmente não entendia a minha condição financeira precária. Ele parecia rico, por isso todas as pessoas deveriam ser ricas também.

— Eu acho uma boa ideia.

Não valia a pena debater aquele assunto. Rafael ligou o carro e acelerou pelas ruas da cidade, já que decidi não tentar explicar que não podia pagar pelas roupas que vendiam em Beverly Hills — era mais fácil dizer que não gostei de nada ou que não tinha o que estava procurando. O almoço já tinha valido o tempo gasto fora do Keller, mesmo que eu precisasse explicar a todos onde tinha ido — e a mentira que contaria já estava sendo elaborada desde que aceitei entrar no conversível.

Quase engasguei ao perceber que tínhamos estacionado na entrada da Rodeo Drive. Rafael indicou que iria ao prédio em frente e me deixou para explorar a rua mais cara e exclusiva da cidade. Deu vontade de rir — eu não tinha condições para pagar nem mesmo um lenço comprado ali. Mas era uma oportunidade de passear por marcas famosas e experimentar roupas com preços impagáveis. Teria meu momento digno de Uma Linda Mulher.

Diverti-me com vestidos elegantes e sapatos de design original e não comprei nada, sempre dando a desculpa de que a modelagem não serviu ou que não era bem o estilo que estava procurando. Estava dentro de uma loja Prada quando ele reapareceu, como se pudesse me rastrear para saber onde me encontrar.

— E então, fez boas compras?

— Infelizmente, não achei o que precisava.

— Você está muito bem nesse vestido.

Ele apontou para mim, que desfilava na frente do espelho com um traje rosa pálido que combinava com o tom moreno da minha pele — mas que custava o dobro do meu salário de garçonete.

— Concordo, mas não posso usá-lo para trabalhar e não tenho ocasião que peça algo tão chique.

Entrei no provador e vesti novamente minha saia e blusa, para depois devolver a peça de roupa para a vendedora e agradecer. Recebi bastante simpatia naquela tarde, apesar de não ter gasto um centavo em nenhum lugar. Era hora de voltar para o Keller, enfim. Já passava das dezesseis horas e eu estava, mais uma vez, muito ferrada — todos notariam minha ausência e precisaria dar explicações muito bem dadas a Dominic e Jordan, meus cães de guarda.

— Obrigado pela companhia, Frances. Foi bastante agradável.

Rafael disse, ao parar no estacionamento do hotel.

— Obrigada pelo almoço. Nunca tinha ido a um restaurante como aquele, será inesquecível.

Ele então se aproximou, segurou minha mão direita e a beijou. Depois, afastou-se na direção da entrada, deixando-me totalmente perdida — mais uma vez — no meio do estacionamento. Vestindo jeans e um blazer despojado, Rafael lembrava os rebeldes de filmes dos anos cinquenta, um pouco distante da figura esperada de Hollywood no século XXI. E o seu comportamento de cavalheiro era surpreendente até para um homem de vinte e oito anos — era a sua idade, revelada depois de muitas tentativas, durante o passeio. Ele era mais velho do que eu esperava, porque aparentava ser muito jovem.

Realmente, Dominic tinha razão e eu estava passando dos limites com o hóspede. Não era por causa do atraso ou do sumiço durante a tarde. O que eu sentia por Rafael não podia mais ser escondido, o que eu queria não era mais segredo. Meu corpo reagia à presença dele e qualquer um iria perceber fatalmente que não precisava nem de um empurrãozinho para se atirar em seus braços — bastava que ele os erguesse, porque eu já estava completamente rendida.