RAFAEL

Precisava de uma ducha fria, depois de ter passado a tarde inteira me controlando para não fazer nada inapropriado. Foi muita sorte encontrar a linda professora esperando por uma forma de chegar à cidade, mais sorte ainda eu estar de carro. Fiquei com a sensação de que ela não se impressionou com meu conversível ou com minha lábia e sinceramente não saberia dizer como conquistar uma mulher como ela. Frances era mais madura e independente, não tinha nada a ver com o tipo com o qual estava acostumado. Perseguidoras de cifras e fama.

Só que ela me deixava louco e eu tinha que fazer alguma coisa quanto a isso. Não estava acostumado a deixar para lá quando queria algo, e eu a queria. Talvez não fosse tão simples, já que pertencíamos a universos diferentes, mas nunca me importei com essas coisas. Convidei-a para almoçar, mostrei meu melhor lado, o lado do jovem que pode ser um homem. Mas ela não pareceu, realmente, ter se impressionado muito.

Estava absorto em pensamentos mirabolantes quanto a porta bateu, fazendo um estrondo, e vi meu irmão gêmeo chegando, agitado.

— Rafael. Você ficou doido? Desapareceu sem avisar a mãe… ela encheu o saco o dia inteiro!

— Sem drama, Roberto. Eu não desapareci e deixei bem avisado que iria a Los Angeles resolver umas pendências contratuais. O que queria que fizesse, eu tinha que deixar o bendito contrato na gravadora!

— Só não precisava levar a tarde inteira. Sabe que horas são; que horas você chegou?

Desliguei o chuveiro e enrolei-me na toalha, bem pouco incomodado com a hora. Estava de férias, achava que não precisaria ficar de olho no relógio. Estava me sentindo um pouco melhor, porque antes meu corpo ardia em fogo. Pensei que a água aplacaria meu desejo, mas isso não aconteceu.

— Beto, vocês não controlam meus horários nem minha vida. Diga isso para a mãe, da próxima vez.

— Não, diga isso, você. Cansei de ficar no meio dessa confusão. Agora confesse por que demorou tanto.

— Fui almoçar, perdi a hora. Pretendia ter chegado mais cedo.

— Sozinho?

— O que te interessa com quem almocei?

— Nada, apenas curiosidade, já que estavam procurando a professora de dança pelo hotel. Ela desapareceu exatamente quando você saiu para resolver suas pendências.

— Ela estava comigo, fomos ao Cavatina.

Sorri para Roberto e abri a mala para escolher alguma coisa para a noite. Algumas de minhas roupas estavam no guarda-roupas do quarto, mas a maioria ainda dentro da mala. Eu odiava arrumar ou desarrumar malas, se tivesse como contratar esse serviço, pagaria bem.

— Você levou a professora para almoçar em um dos restaurantes mais caros e românticos da cidade? E ela aceitou? Sem mais, nem menos?

— Claro que ela aceitou; qualquer pessoa aceitaria, Beto. Não veja coisas onde elas não estão. Agora vá tomar um banho, você está fedendo. Lutou com porcos essa tarde?

— Não, descobri o paraíso. Só não vou implicar com esse seu romance porque foi a professora que me apresentou o melhor lugar desse hotel — o outro lado.

Não entendi o que ele estava falando, mas sabia que era melhor deixar Roberto em paz para ter reciprocidade. Se eu não pegasse no seu pé, ele não pegaria no meu e assim seríamos os dois felizes. Ele continuaria pajeando Mercedes e eu poderia fugir das investidas dos nossos pais sempre que possível. Depois descolava alguns convites para festas de celebridades e ele ficava muito feliz.

Percebi que estava bem indeciso sobre o que vestir. Nada servia e nada ficava bom, tudo era inadequado para… uma noite com os empregados do hotel. Eu devia estar mesmo ficando maluco, mas, por algum motivo, sentia-me competindo com dois homens que, definitivamente, não me deixariam vencer sem uma luta difícil. Eles já tinham me dado uma mostra na noite anterior, então eu não estava brincando. Frances não era difícil simplesmente por ser Frances, mas por ter dois cães de guarda muito bons.

Tinha que jantar com os pais e, bem provavelmente, participar de alguma atividade patética em família antes de desaparecer no nevoeiro. Jeans e malha era uma escolha segura e que não levantaria suspeitas, mesmo que eu me arrependesse dela, depois.