P.O.V DULCE MARIA

Voltar à realidade depois daquele fim de semana foi doloroso. Mesmo trocando inúmeras mensagens com minha irmã para saber como a Mapi estava, eu não conseguia afastar o sentimento de culpa por querer ser feliz longe da minha menina. Havia algo quase egoísta em buscar minha própria felicidade, enquanto sabia que precisaria lidar com as mudanças que vinham pela frente — e elas não seriam fáceis.

Introduzir o Christopher na nossa vida de outra forma, agora, seria uma verdadeira novela. Durante a turnê, eles conviveram, mas a dinâmica era diferente. Agora, ele estaria cada vez mais presente, dentro de nossa casa, participando do dia a dia, e Mapi passaria mais tempo com ele do que com o pai. A simples ideia já me deixava ansiosa. Como eu explicaria para ela que seu pai não estaria mais aqui todos os dias? Que agora teria duas casas para ir... ou melhor, três, se contássemos com a de Christopher.

E por falar na Mapi, Christopher estava ansioso para estar com ela, para nos ver como uma pequena família, finalmente. Mas pedi que ele esperasse um pouco. Eu precisava primeiro ter essa conversa delicada com minha filha. Precisava preparar não só a Mapi, mas também minha família. Explicar que, apesar de tudo, a felicidade estava me tocando de novo, e que as coisas seriam diferentes a partir de agora.

Depois de buscar minha princesa na creche, decidi que era hora de dar o primeiro passo. Liguei para minha mãe e minhas irmãs, convidando-as para passarem a tarde comigo e ficarem para o jantar. Eu precisava dividir com elas o que estava acontecendo, contar tudo e, claro, pedir conselhos. Ninguém melhor do que minha família para me ajudar a navegar essa fase delicada.

Assim que chegaram, o ambiente já ficou mais leve. Minha mãe entrou com aquele sorriso acolhedor que sempre me traz paz, enquanto minhas irmãs faziam festa com a Mapi, enchendo a sala de risadas e brincadeiras. Era reconfortante ter a energia delas ali, mas o peso do que eu precisava contar ainda pairava sobre mim.

No jantar, minha mãe e minhas irmãs estavam todas reunidas ao redor da mesa. Era um momento aconchegante, mas também tenso. Eu sabia que o assunto que traria à tona seria delicado, e não tinha certeza de como elas reagiriam.

O aroma do ensopado que minha mãe preparou preenchia a casa, e as conversas, inicialmente leves, fluíam sem grandes preocupações. No entanto, eu sabia que em algum momento teria que abordar o que vinha acontecendo na minha vida.

— Mãe, meninas — comecei, enquanto mexia distraidamente na comida —, tem algo que preciso contar a vocês... Eu e o Paco estamos nos divorciando.

Houve um silêncio momentâneo, e eu senti todos os olhares sobre mim. A primeira a se manifestar foi Blanca, minha irmã mais velha, sempre prática e direta.

— Finalmente! — disse ela, sem rodeios, enquanto cruzava os braços. — Você já deveria ter feito isso há tempos, Dulce. Não era justo para você continuar assim, vivendo uma relação que já não funcionava.

Minha mãe, por outro lado, parecia mais comedida, como sempre. Ela suspirou fundo, ajeitando o guardanapo sobre o colo.

— Dulce, eu entendo que a situação com o Paco se tornou insustentável, mas vocês têm uma filha... — Sua voz era calma, mas preocupada. — Como a Mapi vai reagir? Como ela vai lidar com essa mudança?

— Eu sei, mãe — respondi, olhando para baixo. — É exatamente por isso que demorei tanto. Não queria causar esse impacto nela. Mas a verdade é que continuar assim, fingindo que está tudo bem, seria pior a longo prazo. O Paco... Ele mudou muito nos últimos anos. Mesmo tentando se reaproximar da Mapi recentemente, o nosso casamento já não faz sentido.

— Você está certa — disse Claudia, minha irmã do meio, sempre a mais sensível. — Crianças percebem quando as coisas não estão bem entre os pais. Se você não está feliz, a Mapi vai sentir isso.

Minha mãe assentiu, concordando em parte, mas ainda pensativa. Ela me observava com aqueles olhos que sempre captavam mais do que eu dizia.

— E o Christopher? — Ela finalmente perguntou, com uma cautela que eu reconhecia. — Ele faz parte dessa decisão, não é?

As meninas trocaram olhares curiosos. Elas sabiam, em algum nível, que algo estava acontecendo entre mim e ele, mas eu nunca havia contado com detalhes.

— Sim... — admiti, sentindo um leve calor subir ao rosto. — Nos reaproximamos. E não é algo recente, já faz tempo que a gente sente algo um pelo outro e vocês sabem disso, mesmo antes do divórcio. Eu sei que é complicado, ainda mais agora com a Mapi envolvida, mas... com ele, eu me sinto eu mesma. É como se tudo finalmente estivesse no lugar.

— E como você pretende apresentar isso pra Mapi? — Blanca perguntou, sempre pragmática. — Porque ela vai perceber que o Christopher vai estar cada vez mais presente.

— Vou conversar com ela quando for o momento certo — respondi, tentando parecer confiante. — O Christopher está ansioso para estar ao nosso lado, mas eu pedi que ele espere um pouco, para que eu possa resolver as coisas com calma.

Minha mãe me olhou longamente, e eu sabia que, apesar de todas as preocupações, ela entendia o que eu estava tentando fazer. Ela sabia como o amor por Christopher nunca havia desaparecido, mesmo que nunca tivéssemos falado sobre isso abertamente.

— Dulce, você sempre foi uma boa mãe, e sei que tomará a melhor decisão para a Mapi — disse minha mãe, estendendo a mão sobre a mesa para tocar a minha. — Apenas tenha paciência. Essas transições são difíceis para todos.

Blanca sorriu e me abraçou de lado.

— E nós estamos aqui para o que você precisar, tá? Se a Mapi precisar de apoio, se você precisar de um tempo, é só falar.

O apoio delas, no final das contas, era o que eu precisava ouvir.

Depois da conversa, senti um peso saindo dos meus ombros. Era um alívio ter o apoio da minha família, mesmo com as preocupações que naturalmente vinham junto. Eu sabia que a jornada à frente não seria fácil, mas, pelo menos, tinha a certeza de que não estava sozinha.

Depois do jantar, todos se espalharam pela sala. Minha mãe ajudava a Mapi a organizar os brinquedos, enquanto Blanca e Claudia discutiam sobre o último episódio de uma série que eu não acompanhava. Eu me peguei pensando em como seria a próxima conversa difícil, aquela com a Mapi.

Assim que as meninas saíram, levei minha filha para o quarto. Ela estava cansada, mas ainda com energia suficiente para me contar sobre o fim de semana com as tias. Eu me sentei ao lado dela na cama, observando seus pequenos gestos enquanto ela falava animada sobre a viagem.

Enquanto colocava a Mapi na cama, eu sabia que estava prestes a ter uma conversa delicada com ela. Ajeitei os travesseiros e me sentei ao seu lado, tentando encontrar as palavras certas para explicar o que vinha acontecendo. Ela olhava para mim com os olhos grandes e curiosos, esperando que eu dissesse algo.

— Mamãe, eu amei o final de semana com a tia Blanca e a vovó — ela disse, quebrando o silêncio. — A gente nadou, e a tia fez bolo de chocolate!

— Que bom que você se divertiu, meu amor — sorri, acariciando seus cabelos. — Eu fiquei com saudades de você.

Ela me deu aquele sorriso puro que sempre me derretia, mas logo eu sabia que era hora de mudar o tom da conversa.

— Mapi, tem algumas coisas que a mamãe precisa conversar com você — comecei devagar, tentando ser o mais suave possível.

Ela se ajeitou na cama, agora com uma expressão mais atenta.

— Lembra que o papai não tem passado muito tempo aqui em casa?

Ela assentiu com a cabeça, já esperando o que viria a seguir.

— Então, o papai vai morar em uma outra casa agora. Isso significa que ele não vai mais dormir aqui com a gente.

Os olhinhos dela franziram levemente, e eu sabia que ela estava tentando processar a informação.

— Mas isso não muda o quanto ele te ama — acrescentei rapidamente. — Você vai poder vê-lo sempre, e vai ter duas casas agora, uma com a mamãe e outra com o papai.

Ela ficou quieta por um momento, e eu estava pronta para responder qualquer pergunta que viesse. Então, com uma voz suave, ela perguntou:

— E o tio Chris, mamãe? Ele vai ficar aqui com a gente?

Eu me surpreendi com a pergunta direta. Mapi era mais observadora do que eu imaginava. Durante a turnê, ela e Christopher desenvolveram uma amizade especial, e ela claramente notava a proximidade entre nós dois. A pergunta me pegou de surpresa, mas ela não parecia confusa, apenas curiosa.

— O tio Chris... ele vai passar mais tempo com a gente sim, amorzinho — expliquei, sorrindo com carinho. — Ele gosta muito de você e da mamãe. E a mamãe gosta muito dele também.

— Eu gosto do tio Chris — ela disse, sem hesitar, com um sorriso tranquilo. — Ele sempre me faz rir.

Eu ri junto, sentindo um grande alívio por ela estar aceitando tão bem essa nova fase.

— Fico feliz que você goste dele. Ele gosta muito de brincar com você, sabia? — Eu a envolvi em um abraço apertado, sentindo uma tranquilidade tomar conta de mim. — E ele vai estar sempre por perto quando você quiser brincar ou conversar.

— Igual na turnê, né? — Ela perguntou, sonolenta, já se aninhando no travesseiro.

— Exatamente, igual na turnê — murmurei, beijando sua testa. — Mas agora, vai descansar, meu amor. Amanhã é um novo dia, e a mamãe vai estar aqui com você sempre.

Ela sorriu e fechou os olhos, se aconchegando no travesseiro com a mesma paz de sempre. Eu fiquei ao lado dela por mais alguns minutos, observando seu rostinho tranquilo, antes de finalmente me levantar e sair do quarto, certa de que estava dando o melhor passo para todos nós.

Antes de entrar no meu quarto, ouvi um barulho de algo quebrando na cozinha. Achei estranho, já que a equipe que trabalha aqui havia ido embora. Não estava com medo, pois, para entrar na casa, é necessário ter o código da porta, e o porteiro tem que autorizar a entrada no condomínio.

Se não fossem os funcionários, a única possibilidade seria o Paco, e eu realmente esperava que não fosse ele. Se fosse, significaria que ele teria exagerado na bebida e estaria tentando fazer alguma cena, algo que eu não estava disposta a lidar após um final de semana maravilhoso.

Ao chegar na cozinha, lá estava ele, recolhendo os cacos de vidro de uma jarra que havia quebrado.

— Paco, o que você está fazendo aqui? — perguntei, tentando manter a calma.

— Vim conversar com você. — Ele exalava o cheiro forte de álcool, e eu sabia que a situação não acabaria bem. — Já que nem esperou a cama esfriar e já foi ficar com outro.

— Você está louco? Do que está falando? — questionei, confusa.

— Do Christopher, claro. Nem assinamos o divórcio e você já foi correndo para transar com ele.

— Paco, você sabia desde o início sobre o Christopher. Eu não fiquei com ele enquanto você ainda estava aqui, em respeito a você. Mas nunca neguei que me envolveria com ele, e você sabe disso.

— Não importa, Dulce. Eu teria ficado na minha se você tivesse feito a sua parte e mantido isso oculto até assinarmos os papéis.

— Eu estou mantendo isso oculto, ninguém sabe sobre o divórcio — menti — nem mesmo minha família. Conversei com a Mapi hoje sobre isso.

— Não, Dulce, você não manteve oculto. Esse final de semana, recebi uma foto sua com ele em uma praça no condomínio em La Condesa.

— De quem?

— Não importa de quem. Se você ainda pretende manter essa falsa imagem de santa, precisa ter mais cuidado. Não quero ser chamado de corno e muito menos ter que pagar para calar a boca das pessoas enquanto você vive a sua felicidade.

— Você não precisa se preocupar com dinheiro. Amanhã, irei devolver tudo o que você gastou. Não quero nada pendente com você.

— Não estou preocupado com dinheiro. Só não quero que você esfregue a sua felicidade na minha cara. Só não seja uma vadia sem coração comigo.

— Olhe como você está falando comigo, eu sou a mãe da sua filha e mereço respeito.

Ele parecia irritado, mas também um pouco surpreso com a minha reação firme. Respirou fundo e tentou se recompor.

— Dulce, eu só... — Ele hesitou, a raiva dando lugar à frustração. — Eu só não quero que isso seja uma provocação.

— Paco, não é uma provocação. É a minha vida, e eu tenho o direito de vivê-la como bem entender. Se não consegue lidar com isso, talvez seja hora de você se afastar e deixar de tentar controlar o que é meu.

Ele olhou para mim com uma expressão de dor e, sem mais palavras, pegou o restante dos cacos e saiu da cozinha. O barulho da porta se fechando ecoou pela casa, e eu fiquei ali, respirando fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções que Paco havia despertado.

Fiquei na cozinha por alguns minutos, sentindo a tensão se dissipar lentamente. Olhei ao redor, tentando recuperar o equilíbrio depois da cena inesperada. A jarra quebrada era um lembrete doloroso de que, mesmo após a separação, o caos ainda fazia parte da minha vida.

Peguei a vassoura e a pá para limpar os cacos de vidro que restavam, um gesto simbólico para restabelecer a ordem na minha casa e na minha mente. Enquanto limpava, minha mente corria sobre o que acabara de acontecer. Paco parecia estar no limite, mas eu precisava manter minha postura firme e clara. Não podia permitir que ele usasse o divórcio como uma arma contra mim ou tentasse ditar as regras da minha vida.

Pensei bastante antes de entrar no meu quarto e decidi que o melhor seria voltar para o quarto da Mapi e dormir com ela. Ao entrar, a vi tão tranquila e serena, e isso me fez perceber o quanto ela era um presente precioso na minha vida. Eu precisava lutar por mim mesma e, acima de tudo, por ela.

Ao me acomodar ao lado de Mapi, peguei meu telefone e fui direto ao álbum oculto. Encontrei a foto do show no dia do aniversário dela. Notei que, na imagem, eu havia cortado todos, deixando apenas eu, ela e o Christopher. Decidi que aquela seria minha nova foto de papel de parede. Sabia que haveria novas memórias e fotos no futuro, mas por enquanto, aquela imagem representava tudo o que eu valorizava.

Maria Paula e Christopher eram o meu verdadeiro lar. Independentemente de onde eu estivesse, enquanto estivesse com eles, eu sentiria que estava em casa.

"'Cause they say home is where your heart is set in stone
It's where you go when you're alone, it's where you go to rest your bones, it's not just where you lay your head, it's not just where you make your bed. As long as we're together, does it matter where we go?"

Notas finais
Hi everyone, como estão? Quando eu crescer eu quero uma filha tão inteligente como a Mapi, a nossa princesa observa tudo e ama a mãe que tem. Pacolino como sempre adora estragar o dia dos outros, mas nada mais abala nosso mundinho Vondy, meus amores.