Partituras e Cartas de Amor
9 #09 Capítulo à Eduarda, com todo o amor
Notas iniciais
Blaine e Kurt continuavam abraçados em silêncio. O mais velho alternava em afagar os cachos rebeldes do irmão e em beijar o canto dos seus lábios para mostrar que estava tudo bem, que aquele ataque de pânico logo iria embora e tudo ficaria bem. A respiração do Anderson se estabilizou algum tempo depois, mas nenhum dos dois ousou em sair do abraço. Já havia anoitecido quando Burt resolveu entrar no quarto e descobrir o motivo de ter chegado em casa com Carole e ter encontrado apenas Finn no primeiro piso.
Seus olhos marejaram ao ver os filhos abraçados em um sono não muito pesado. Finalmente, depois de tanto tempo, ele poderia dizer que tinha paz em casa. E era inacreditável como as coisas se acertaram imediatamente após a entrada de Carole e Finn na família. Como se todos os anos de brigas que haviam se passado era apenas um reflexo da alma do pai dos garotos, uma eterna bagunça. Mas agora havia Carole.
Sorriu de canto dos lábios e fechou a porta sem tentar fazer muito barulho.
Os olhos hazel se abriram lentamente e encontraram a escuridão na parte interna do quarto. Nem sequer uma luz iluminava o lugar e o silêncio rodeava a casa. O coração do Anderson ainda estava pesado, como se estivesse quebrado em dezenas de pedaços, mas o suspiro fundo do garoto ao seu lado na cama conseguiu tirar um sorriso dos lábios de Blaine. Seu irmão dormia tranquilamente abraçado à um travesseiro.
Blaine se levantou silenciosamente da cama e saiu do quarto, encontrando a mesma escuridão no corredor do segundo piso. O silêncio havia ido embora e agora o garoto podia ouvir o novo meio-irmão roncar com alarde no quarto ao lado. Desceu as escadas de dois degraus por vez e chegou ao comodo debaixo, que tinha sobre o balcão da cozinha uma travessa de vidro com uma quantidade generosa de lasanha com um bilhete mal escrito dizendo que aquela era a janta de Blaine e Kurt, se eles quisessem dormir.
Seu estômago roncava e o calor da noite era insuportável. Blaine tirou sua camiseta polo e tirou as pantufas, vestindo agora apenas uma calça jeans escuras. Pegou a travessa e a colocou no microondas, não se importando em tirar sua quantidade em um prato. Com a fome que estava, poderia muito bem comer sua parte e a de Kurt. Dois minutos no aparelho e silenciosamente colocou seu prato sobre a bancada, procurando alguma jarra com suco na geladeira.
– Blaine? — Disse uma voz aguda no pé da escada, procurando por qualquer feixe de luz que indicasse a presença do irmão, que havia esquecido de ligar a luz da cozinha.
– Aqui. — Disse em um tom baixo, não querendo acordar o resto da casa. Ao ver a luz do cômodo ser acesa, seu olhar se encontrou com o do Hummel. — Você está com fome? Papai e Carole deixaram lasanha do jantar.
– Não, eu estou bem. — Se aproximou com cuidado. — Você está melhor? Acordei assim que você fechou a porta do quarto. — Os olhos de Kurt passaram inconscientemente pelo peito desnudo do irmão.
– Na verdade, não. — Blaine suspirou, se sentando na banqueta e encarando Kurt como quem buscasse um abraço entre olhares. — Como se encara um término como esse? Como devemos agir depois disso?
– Be, eu nunca tive um namorado sério. — Kurt sorriu sem graça e se aproximou ainda mais do irmão, tendo certeza que ele não estava usando a raiva para se defender dessa vez, então Kurt continuou se aproximando. — Eu não sei te aconselhar sobre términos de namoro quando eu mesmo nunca tive um sério. Mas eu sei o que Rachel passava com os homens que ela namorava, e acredite, não há nada melhor pra curar do que seguir em frente. — Compartilhou um sorriso terno por alguns instantes. — E encher a cara, claro. — Gargalhou baixo no final.
– Não moramos em Nova Iorque, Kurt. — Disse entrando na brincadeira e se permitindo a colocar um sorriso no rosto. — Não podemos sair de casa às... — Seus olhos rolaram para o pequeno relógio de parede da cozinha. — ...duas e treze da madrugada e encontrar um bar aberto. Estamos em Lima. Você tem sorte se encontrar um aberto às onze da noite. — Zombou.
– Quando eu morava aqui, lembro que nosso pai guardava no porão algumas garrafas de vinho que ele ganhava do poker dos amigos. — Kurt sorriu fraco com a ideia de beber com seu irmão.
– Ficar de porre com vinho? Você está falando sério? — Blaine gargalhou e caminhou até o microondas que apitaria a alguns segundos. — Essa ideia é absurdamente estúpida.
– Você que sabe. — Kurt deu meia volta. — Eu vou buscar algumas pra mim. Estou precisando mesmo beber alguma coisa que não seja suco de laranja. — Se referiu ao copo que Blaine levava à boca. Era o único liquido que havia naquela casa há dias. Então a silhueta do irmão mais velho sumiu pela pequena porta ao lado da escada que levava até a pequena adega no porão da casa.
Blaine encarou o microondas por alguns segundos, com sua lasanha de queijo e brócolis borbulhando. Encarou seu suco de laranja e fechou os olhos, pondo sua mente em onde Joey estaria nesse momento. Bom... Não havia nada de mais aproveitar um pouco a adega esquecida de seu pai, certo? Afinal, Burt não sentiria falta de uma ou duas garrafas, certo?!
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Três garrafas de vinho e algumas doses de um uísque velho depois, os irmãos conversavam sobre um jogo de sinuca que haviam participado em 2008.
O clima entre os garotos era descontraído e ambos ainda estavam no porão que havia sido reformado anos atrás para servir de quarto para Kurt em sua fase de rebeldia nível noviça rebelde. O Anderson estava obviamente mais embriagado que Kurt, afinal, um adolescente da idade de Blaine não conseguia processar tanto alcool em tão pouco tempo, mas o garoto de cabelos encaracolados parecia não se importar. Quem o via daquele jeito, mal podia acreditar que aquele garoto teve um ataque de pânico aos prantos minutos atrás.
– Eu acho que você deveria parar por aqui. — Disse Kurt ao ver Blaine ir até a estante de vinhos escolher outra garrafa para abrir. — Vamos, coloque sua camisa e vamos dormir. — Disse zeloso.
– Não fode, Kurt. — Gritou. — Eu sou um porre sóbrio. Talvez seja por isso que Joey não quis ficar comigo. A melhor versão de mim é essa, então aproveita seu irmão legal. — Disse exalando um bafo de álcool no rosto do irmão, se virando para escolher sua proxima bebida.
– Blaine... — Hesitou em virar o irmão. Sabia que se o Hummel pai pegasse os dois garotos acabando com sua safra de vinho, seria uma mês trancafiados naquele quarto. — Você tem quinze anos. Você vai ter uma vida inteira pra poder beber. Eu não sabia que você gostava tanto assim de álcool... — Disse se afastando e deixando o irmão finalmente agarrar uma garrafa.
– A tragédia que eu chamo de vida me fez assim.
Kurt rolou os olhos com o drama desnecessário do irmão e tomou a garrafa de vinho de 1942 de suas mãos. Aquele vinho havia sido o mesmo vinho do casamento de Elizabeth e Burt. O Hummel trocou a garrafa por uma outra qualquer e pôs meia-taça para Blaine, advertindo que aquela seria a última.
A baixa música rolava e o relógio agora marcava quatro horas da manhã. Blaine estava sentado no encosto do sofá enquanto Kurt estava encostado em um pilar de madeira, mexendo em seu celular enquanto narrava à Rachel o que acontecia com o irmão por mensagens. O silêncio foi quebrado por Blaine.
– Joey é um otário. Eu deveria telefoná-lo e falar algumas verdades...
Kurt sorriu para si mesmo e guardou o celular no bolso.
– Tudo bem, chegamos ao estágio quatro do porre, a vontade de ligar para o ex-namorado. E conhecendo bem esse estágio, porque Rachel é a rainha dele, você acordaria amanhã com uma dor de cabeça enorme e um arrependimento maior ainda. — Desencostou do pilar e caminhou até o irmão. — E eu vou te impedir de fazer isso. Vamos, me dê seu celular. — Estendeu a mão.
Blaine revirou os olhos e aceitou, entregando seu aparelho para o garoto de olhos azuis. Seu corpo havia mais senso que sua mente, que estava completamente vaga por causa do álcool ainda em seu sangue.
– Podemos ir dormir? Está tarde e quero acordar antes que o papai para preparar algo bem gorduroso pra você. A ressaca vai ser enorme, acredite.
O Anderson bufou assentindo e soltando sua taça vazia sobre o estofado de couro velho, e logo alcançou a mão estendida do Hummel que o puxou pra longe do sofá fazendo-o ficar em pé. No impulso do puxar, Blaine ficou bem próximo de Kurt, com o rosto próximo de seu pescoço.
– Kurt... — Sussurrou.
– O que foi? Vamos, Blaine. — Dizia o Hummel já preocupado com a hora.
– Você tem o mesmo perfume que Joey. — Disse afundando o rosto no pescoço do irmão, cheirando lentamente aquela essência misturada com suor que o deixava louco. Fungou mais algumas vezes, encostando a lateral de sua bochecha na curva do pescoço de Kurt, se aproveitando em ser mais baixo que o moreno. Suas mãos circulavam agora a cintura do irmão.
– O-o que?! — Disse Kurt desconcertado ao ver o irmão colando o corpo no seu. Demorou menos de dois segundos para Kurt voltar ao mundo real. — Blaine, vamos. Você bebeu demais e está imaginando coisas...
Blaine ignorou o irmão com os braços em seus biceps tentando afastá-lo e continuou a cheirar aquele perfume que estava acostumado a ficar grudado em si depois de uma noite de amassos. Colou seu corpo ainda mais no de Kurt, esquecendo por alguns instantes que ele era seu irmão. Blaine ainda estava sem camisa e por alguns instantes pensou estar com Joey, querendo fazer o ex-namorado ficar também. Suas mãos se esgueiraram até a barra da camiseta do outro garoto naquele cômodo, entrando por debaixo e passando pelo peitoral pálido do Hummel.
– Blaine, agora chega. — Kurt suspirou fundo e afastou Blaine, encarando seus olhos hazel com as pupilas dilatadas. — Você está bêbado e está começando a invadir o meu espaço. Vamos dormir antes que você resolva tirar a roupa e sair pelado pela estrada.
Kurt tinha bebido algumas taças de vinho e algumas doses de uísque também, mas ainda tinha a consciência que aquele ali era o seu irmão. Seu pequeno Blaine, que mesmo bêbado, sem camisa e tão colado ao seu corpo, cheirando seu pescoço com tesão, ainda era seu irmão. Os braços do Hummel não foram o suficiente para afastá-lo. Logo Blaine havia dado um jeito em voltar ao abraço com Kurt, com seu nariz roçando a curva do pescoço do irmão.
– Blaine, eu não sou Joey. — Advertiu tomando uma distância.
– Então finja ser.
Blaine sorriu fraco e se aproximou novamente e deu uma respirada forte, absorvendo qualquer último cheiro daquele perfume. Suas mãos levaram as de Kurt até sua cintura e antes que o Hummel pudesse entender o que aconteceria a seguir, os lábios do pequeno Anderson estavam nos de Kurt. O beijo não teve resposta e antes que Blaine pudesse pensar em colocar a língua na boca do irmão, Kurt o afastara com um pouco de brutalidade.
– Blaine! — Advertiu irritado, sabendo que aquilo havia sido tudo sua culpa que dera a ideia de que beber seria uma ótima opção. Kurt só não sabia o quão assanhado o irmão ficava com uma gota de álcool no sangue.
O Anderson encarou o garoto pálido por alguns segundos e foi até a escada sem pronunciar uma palavra, subindo e indo até seu quarto. O outro Hummel ficou ali por alguns minutos, tentando entender o quão aquilo era errado e como faria agora para esconder mais uma coisa do irmão, que provavelmente acordaria sem ao menos se lembrar da noite anterior.
Sua mente voltou vagarosamente até a noite em que havia sido acordado com a mão do irmão em seu membro. Logo os pensamentos iam até segundos atrás quando Blaine tinha as mãos percorrendo seu peito por baixo da camisa, e logo em seguida o beijo. No arrepio que Kurt sentiu ao ver um homem tão próximo adorar o cheiro de seu perfume. Por alguns segundos seu corpo se esquecera de que aquele havia sido seu irmão e sua calça começava a ficar apertada.
Como um choque de realidade o atingindo, Kurt parou de pensar aquelas coisas e pôs-se a arrumar o cômodo. Após tudo terminado, subiu as escadas que davam acesso ao primeiro piso e desligou o interruptor, e com ele todas as promiscuidades que haviam acontecido ali embaixo.
[...]
O garoto de cabelos encaracolados abriu os olhos rapidamente ao som do despertador, como quem acordasse de um pesadelo. Porém aquilo era diferente, ele nem ao menos havia sonhado com algo. Sua cabeça doía como se tivesse sido acertado por uma bigorna como nos antigos desenhos animados. O cheiro de seu hálito alcoólico lhe deu uma pista do que seria aquela perturbação em apenas enxergar a luz solar. Virou-se e encarou o irmão o olhando curioso, sentado no banco próximo a janela segurando um livro qualquer que estava na metade.
– Ressaca? — Perguntou num tom baixo e Blaine assentiu lentamente. — Vou buscar alguma coisa pra você comer. Já são duas da tarde, mas acho que posso te preparar alguma coisa com bastante gordura. — Disse enquanto largava seu livro e caminhava até a porta.
– Kurt. — Chamou.
– Sim?
– Você poderia deixar pra fazer isso depois e ficar comigo aqui um pouco? E-eu quero conversar. Pedir desculpas. — Disse num tom baixo, tentando saber de onde aquela consciência havia saído, já que sua mente ainda estava em eterno sono.
O Hummel assentiu e se sentou do lado esquerdo da cama, encarando Blaine preguiçosamente encará-lo.
– Me lembre de nunca mais te oferecer qualquer tipo de bebida.
– Me desculpe por ter te beijado. — Assumiu cortando o irmão, que ficou ainda mais pálido que o normal. Um rubor pequeno em suas bochechas começavam a aumentar. Kurt sentiu o coração pesar e se aconchegou mais no colchão, deitando sua cabeça no travesseiro e encarando o irmão, que estava na mesma posição.
– Pela quantidade de bebida que você tomou, acho um milagre você se lembrar de qualquer coisa que tenha acontecido ontem. — Brincou tentando fugir do assunto, ainda desconfortável.
– Eu prometo que não vou mais fazer qualquer coisa que invada seu espaço. Não sei o que aconteceu comigo, não lembro as coisas ao certo, mas me lembro de acordar com essa enorme culpa em minhas costas... — Dizia fazendo esforço, já que a dor de cabeça e o mal estar lhe consumiam.
– Está tudo bem, deve ter sido por causa do perfume de Joey.
– Perfume de Joey? — Perguntou confuso.
– Sim, você disse ontem que eu usava o mesmo perfume que Joey. — Encarou os olhos hazel. — E eu entendo, você sente sua falta e está carente. Não foi nada de mais, aquilo morre aqui. — Blaine sorriu sincero.
– Queria também agradecer por cuidar de mim quando eu estava apavorado. — Dizia com sinceridade, a vontade de conversar com o irmão. — Tudo que você fez, as palavras que me disse e o jeito que me tratou, os beijos para me acalmar... Você fez muito bem. Eu precisava daquilo.
– É pra coisas assim que irmãos mais velhos servem. — Sorriu em retribuição, involuntariamente se deitando mais perto de Blaine. — Digo, se você quisesse que Joey fosse espancado para aprender uma lição, deveria pedir isso para alguém como o Finnigan do quarto ao lado. Mas quando quiser conselhos, um abraço ou qualquer outra coisa, eu estou aqui. — Sorriu. — Até mesmo pra dar uns beijos. — Gargalhou baixo na última parte, vendo o irmão sorrir envergonhado.
– Você nunca vai me deixar esquecer isso, vai?!
– Meu irmãozinho bêbado tentando ficar comigo? Não, absolutamente não. — Kurt gargalhou. — Porém não aconteceu nada demais. Somos família, e quando pequenos sempre nos cumprimentamos com selinhos. Não acredito que tenha sido tão estranho assim, Be. — Disse com o olhar fixado. — Talvez seja por causa da distância e da briga, mas olhe, não tem nada de mais. — O mais velho se aproximou e capturou os lábios do irmão por alguns segundos e depois se afastou, como um olhar despreocupado.
– Eu não quero voltar brigar com você, K.
– Eu também não, pequeno. — Kurt sorriu e viu Blaine abrir um pequeno sorriso também, não forçando muito os músculos do rosto para não piorar a reação da ressaca. — Você quer algo para melhorar a dor?
– Não, acho que vou deitar mais um pouco. Costuma funcionar comigo.
– Tudo bem. Você sabe onde me encontrar. Na sua janela, lendo aquele livro chato do fundamental. — Sorriu ao ver Blaine fechar os olhos reagindo à buzina de algum carro que passava na rua naquele momento. — Da proxima vez lembre de não beber tanto assim.
– Você parece o Joey falando essas coisas. — Disse pressionando as têmporas. Demorou poucos segundos ate Blaine se realizar do que havia falado e de como sentia falta do zelo do ex-namorado em cima de si. Seus olhos lutavam para não marejarem. Não na frente de Kurt.
O irmão notou o semblante triste do Anderson logo após citar o ex-namorado e sentiu necessidade de ninar Blaine novamente. Se pudesse, quebraria a cara de Joey. Sabia que aquele drama de término duraria no máximo uma semana e logo Blaine estaria superando, mas não podia conviver com a ideia de que Joey havia largado um garoto tão legal como seu irmão.
– Durma. — Disse o Hummel de olhos azuis, se aproximando do irmão e lhe depositando um beijo na bochecha. Blaine abriu os olhos imediatamente e encontrou Kurt perto, com sua imensidão azul no olhar.
Se inclinou e capturou os lábios de Kurt em um selinho carinhoso.
– Obrigado. — Sussurrou ao se desvencilhar e fechar os olhos.
Kurt suspirou feliz ao ver o irmão se ajeitar na cama para dormir com um pequeno sorriso nos lábios. Estava sendo deveras interessante aquela situação. Não que antes não considerasse Blaine um irmão, mas agora agiam como se não houvesse tido nenhuma briga. Os conselhos, as conversas e até os selinhos haviam voltado e tudo parecia bem. E, depois de muito tempo, Kurt finalmente se lembrava do calor que era ter uma família.
"Faltava apenas quatro semanas para o início do ano de 2010. Blaine fechou sua mala e correu até a sala animado com a viagem. Era a primeira vez que o garoto dormiria fora de casa, no acampamento da aula de música do colégio. Alguns professores haviam organizado essa viagem para convencer os alunos de que a música estava em todo lugar, até mesmo no silêncio noturno de uma floresta, onde os passarinhos assoviavam dormindo.
Burt havia se despedido do filho mais cedo e estava na oficina cuidando da demanda de carros. As pessoas precavidas haviam mandado seus carros para uma revisão antes do ano novo para poderem ter uma viagem tranquila, e assim o serviço era muito para Burt ter algum tempo com os filhos. Kurt havia ficado encarregado de ficar até a chegada do ônibus e se certificar de que estava tudo certo com Blaine.
Embora o adolescente relutasse muito, ele não queria que o irmão fosse naquela viagem. Seria a primeira vez desde a morte da mãe que Blaine não dormiria em casa, e o fato de Richard estar lá apenas o incomodava mais.
– Vamos, K. O ônibus já está chegando, eu consegui vê-lo do segundo andar. Ele está a duas quadras daqui. Por favor, me deixe ir logo. — Dizia manhento. As malas nas mãos e os documentos com a assinatura de Burt, tudo conforme a professora havia pedido e checado três vezes.
– Be, por favor, tome cuidado nessa viagem. — Disse zeloso caminhando com o irmão até a porta de casa, vendo o ônibus surgir na curva do fim da rua. — Não saia de perto da professora e não perca sua mochila de vista.
– Eu não sou mais criança, Kurt. — Cruzou os braços na altura do peito.
– Tudo bem. — O mais velho sorriu. — Se cuida, mocinho. — Disse ao ver o ônibus parando em frente à sua casa e a professora descendo as escadas para ajudar o pequeno Anderson com a mala. Sorrindo de coração apertado, Kurt depositou um estalado beijo na testa do irmão.
– Na testa? Você está bravo comigo? — Perguntou curioso.
– Como assim? — Kurt não entendeu.
– Você nunca me dá beijo na testa, você sabe. — Rolou os olhos irritado com a demora do irmão.
Kurt sorriu. Ele e Blaine, desde um natal anos atrás, só se despediam com selinhos rápidos. Lembrava do jeito que Elizabeth cuidava de Kurt, com selinhos que demonstravam amor e afeto de um jeito que nenhum outro abraço demonstraria. Um dia Kurt resolveu aderir com Blaine e ele gostou, desde então davam selinho para demonstrar que se importavam. O que Kurt achou divertido foi ver que, mesmo rodeado dos colegas de classe, Blaine não se importou em dar um selinho no irmão. Era uma coisa de família, não havia do que se envergonhar, certo?
– E então...? — Blaine bateu os pés.
Kurt suspirou em uma risada fraca e levantou o queixo do irmão, dando um selinho rápido e desejando uma boa viagem. Blaine logo abriu um sorriso enorme e correu até a entrada do ônibus. Era engraçado as coisas da vida e como, daqui a alguns anos, eles cresceriam e continuariam com a tradição familiar."
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