Partituras e Cartas de Amor
5 #05 Me deixe em paz
Notas iniciais
Blaine não havia conseguido voltar a dormir depois do "episódio" da noite anterior. E você se engana se pensou que ele havia voltado para a cama para dormir com o irmão, não, Blaine havia descido as escadas e tentado dormir no sofá.
O moreno viu pelo pano fino da cortina o sol aparecendo aos poucos no topo do céu e logo os vizinhos começarem a acordar e saírem de casa para irem aos seus respectivos trabalho em pleno feriado.
Blaine tentava pensar em outras coisas, mas sua mente acabava voltando àqueles momentos aterrorizantes da noite anterior. Ele não fazia ideia de como aquilo havia acontecido, e como conseguiria encarar o irmão depois disso. Se bem que não seria algo muito difícil, já que Blaine e Kurt quase nunca passavam tempo juntos. Talvez isso ajudasse o Anderson a esquecer essa história.
Passos na escada tiraram a atenção do pequeno Hummel. Kurt descia as escadas sonolento, vestindo uma calça um tanto apertada para ser do pijama e uma regata preta, que marcava a pele ainda mais clara, puxara esse traço de Elizabeth. Kurt, ao ver o irmão o encarando, congelou aos pés da escada. Como um flashback, toda a noite anterior voltara em sua mente. Era possível que aquilo poderia ter sido apenas um sonho? Ou realmente seu irmão mais novo passou dos limites e tocou em... partes privadas...?
– Bom dia. — Kurt quebrou o gelo, tentando adivinhar se havia sido apenas um sonho ou não. No fundo o castanho sabia a resposta, apenas não conseguia aceitar a ideia daquele fato ter mesmo acontecido.
Blaine não respondeu, apenas levantou as sobrancelhas em um tipo de cumprimento e voltou sua atenção para a janela, como se aquela fosse a coisa mais interessante de se ver no momento. Kurt engoliu seco, não sabendo se Blaine estava agindo assim por causa do ocorrido, ou por o tratar assim sempre. Resolveu então investir.
– Vou preparar café. Você quer algumas panquecas? — Deu alguns passos para perto de Blaine, que se sentiu incomodado com a aproximação do irmão, por mais que ele estivesse metros de distância.
– Não. — Respondeu apenas isso.
Kurt se deu por convencido e caminhou até a cozinha, deixando para soltar um suspiro ao chegar no cômodo. Precisava de uma maneira de esquecer o que havia acontecido e continuar a agir como sempre, e então se lembrou que o "sempre" era exatamente sua única saída: ignorar o irmão. Talvez por alguns meses, talvez por alguns anos como fez desde de... Então as memórias voltaram.
Blaine provavelmente não se lembrava, mas Kurt tinha memória fotográfica. Ele se recordava de todos os momentos, todas as coisas que ele e o irmão falaram naquela briga. De Burt gritando, sem adiantar. Havia sido o dia de horror na casa dos Hummel.
"- Como você pode ser tão burro?! — Kurt gritou apontando para o irmão. Lágrimas caíam dos olhos de ambos os Hummel, mas eram lágrimas enraivecidas, com ódio e pura ira.
– Kurt! — Burt gritou ao descer as escadas e ver que os filhos brigavam novamente. Não era novidade que aquela casa havia virado um grande inferno desde que Blaine começara a fazer aula de Piano com Richard.
Richard era, ninguém mais e ninguém menos, do que o amante de Elizabeth. Burt descobriu algumas semanas antes da mulher vier à óbito, porém não poderia deixá-la. Sabia que Elizabeth dependia dele e de todo o carinho que sua família podera lhe dar.
Então havia começado as brigas. Kurt sabia sobre Elizabeth e Richard, porém Blaine não. E a confusão havia começado quando o menor tratava o professor de piano como um segundo pai, o que Kurt tinha sérias dúvidas se não era verdade, já que o caso de Elizabeth e Richard tinham um caso há anos.
– Pai. — Blaine choramingou por ajuda ao ver Burt descer as escadas. Um garoto de treze anos, indefeso sem saber o que fazer ao ouvir o irmão lhe acusar de coisas sem sentido por simplesmente não saber o que havia feito de errado.
– Kurt, agora chega.
– Você melhor do que ninguém deveria estar dando essa lição em Blaine, pai. — Kurt disse ainda encarando o menor. — Ele quer trazer Richard pra dentro dessa casa, ele quer destruir uma das últimas memórias boas que nossa mãe deixou aqui. Ele não pode simplesmente fazer isso!
– Kurt, ele não tem culpa.
– O que tem a ver a mamãe com aulas particulares? — Blaine interviu, tentando não soar muito amedrontado. — Kurtie, que merda! O que está acontecendo com você? Desde que decidiu que iria no próximo ano para Nova Iorque parece que mudou totalmente. Nem conversar comigo conversa. Qual é o seu problema?
– Kurt, esquece isso. — Burt pediu com mais calma.
– Não, não dá. O meu problema é saber que minha mãe era uma vagabunda, o meu problema é que ela se tornou uma vagabunda por sua causa, Blaine. Era isso que você queria saber? O meu problema é saber que você acabou com essa família anos atrás, e agora está querendo acabar com ela novamente! — Cuspiu.
– Do que você está falando? — Aumentou o tom de voz. Burt se encontrava perdido, não sabendo como fazer Kurt parar.
– Você não foi planejado! — Kurt gritava como se explicasse para uma criança e bem... Blaine era uma. — Você nasceu e a mamãe não tinha mais saúde pra gerar um bebê. Ela teve que tomar milhares de remédios que só pioraram a saúde dela. E o nosso conhecido Burt aparentemente não tinha mais vontade de foder com ela há algum tempo, então ela foi procurar outro.
– Kurt Elizabeth Hummel, agora chega! — Burt deu um soco na mesa, assustando o menor que tinha lágrima nos olhos.
– O que há de errado com vocês? – Kurt gritou. — Blaine quer colocar aquele homem pra dentro dessa casa e você acha isso totalmente certo? Aquele cara destruiu nossa família, e Blaine está compactuando com isso!
– Pai!
– Kurt, pare agora!
– Ótimo, agora eu sou o culpado. — Kurt gritava com lágrimas nos olhos. — E isso é tudo culpa sua, Blaine. Você vê o que fez aqui? Mamãe morreu por sua culpa, e se você acha que ela está orgulhosa de você, se enganou. Ela nunca poderia ficar orgulhosa de um garoto idiota e tolo igual à você. Você destruiu nossa família! Eu adoraria que você fosse filho de Richard, quem sabe assim eu não queria que conviver com a ideia de ser irmão de um merda igual à você."
– Kurt? Você está bem? — Blaine tinha uma das mãos no ombro do irmão e a outra estalava os dedos em frente aos olhos azuis do castanho, que estavam vagos há um bom tempo. — Kurt!
– Sim? — Kurt piscou alguns segundos para voltar à realidade.
– Você está bem? — Blaine não se preocupou em esconder as preocupações ao ver o irmão alheio. Sabia que Kurt ainda tomava alguns remédios que a psicóloga havia lhe recomendado, então resolveu ver o motivo de Kurt não responder aos berros de Burt do segundo andar, quando encontrou o irmão como se estivesse fora do corpo. — Você tomou o Sedalcec hoje?
– Hã? — Kurt finalmente encarava Blaine. — O quê?
– Alô! Qual é o seu problema? — Blaine parecia agora irritado.
Kurt franziu o cenho tentando entender o que Blaine estava falando, quando percebeu os braços do irmão em seu ombro. Tão próximo. E flashes da noite anterior passaram pela mente de Kurt, que congelou seu corpo rapidamente.
Como instinto, Kurt empurrou Blaine pra longe. O castanho apenas não pensou que colocaria tanta força para empurrá-lo e Blaine acabou batendo com as costas no balcão da pia, e pela cara de dor que o moreno fazia havia machucado.
– Caralho, Kurt. — Blaine gritou reagindo à dor que havia sentido.
O Anderson, tentando reagir ao empurrão, fez a mesma coisa com Kurt. Empurrou o irmão pra longe com a mesma força que havia recebido. O castanho, não deixando barato, tentou empurrar Blaine novamente, porém o Anderson segurou seus pulsos com força (mais do que esperava).
– Você está me machucando! — Kurt disse em um tom alto.
– Você é doente! — Blaine gritou, soltando os pulsos de Kurt irritado. As veias de seu pescoço saltavam e podiam ser vistas a olho nu. Blaine havia se preocupado com o irmão para ganhar isso? Um empurrão? Seus nervos estavam à flor da pele nos últimos dias, e algo o dizia que o motivo disso era estar perto de Kurt.
Kurt encarou Blaine por alguns segundos e resolveu sair do cômodo para não continuar a briga. Ouvia os passos de Burt no andar de cima e provavelmente havia acordado Finn e Carole com a briga.
Ao ver o irmão dar as costas e se dirigir pra fora do cômodo, Blaine não se conteve. Ele precisava saber o motivo de Kurt ter o empurrado, ele queria saber porque sua ajuda não havia sido levada em consideração. Ele odiava Kurt às vezes, na maioria delas, mas ainda sim era seu irmão e lhe devia uma explicação.
– Ei! — Blaine gritou e correu até Kurt, segurando seu braço com força.
– Me solta, Blaine.
– Garotos? — Burt gritou do andar de cima. — Vocês estão brigando? Logo de manhã cedo?
– Você vai me dizer porquê me empurrou? — Blaine perguntou respirando fundo, tentando não machucar Kurt apertando muito seu braço.
– Eu já disse pra me soltar. — Kurt disse com um pouco de receio ao ver o irmão com os olhos fixos em si. Porém Blaine não obedeceu.
Kurt se irritou novamente, tentando soltar seu braço das mãos fortes do Hummel mais novo. Ele queria fugir da briga, estava irritado e queria apenas ficar sozinho para pensar nas coisas. Kurt não gostava de pensar no passado, de relembrar as brigas. Ele e Blaine eram grudados quando crianças e no fundo Kurt sentia saudades disso. Ele apenas queria ir embora e não ter que dar satisfação nenhuma ao irmão. Como diria para Blaine que havia o empurrado porque havia se lembrado da noite anterior?
Não. Com certeza não falaria aquilo. Então resolveu apenas ir embora, porém agora Blaine o segurava com força e esperava uma satisfação. Como um garoto de dezesseis anos podia ter tanta força, e ele, com seus completos vinte anos, mal conseguia se soltar?
Kurt puxou seu braço mais uma vez, com toda a força que tinha em seu corpo. O irmão mais novo, que não esperava, acabou se desequilibrando e caindo no chão com a força que Kurt havia feito para se soltar.
– Aaaah, você é um idiota!– Blaine se levantou rapidamente e partiu pra cima de Kurt, acertando um soco no lado esquerdo do rosto do castanho e fazendo Kurt cair do chão atordoado.
O moreno então colocou-se em cima do castanho e tentou socá-lo mais algumas vezes, porém Kurt segurava o punho fechado do irmão na maioria das tentativas. Kurt chutava o peito de Blaine tentando de desvencilhar da briga, porém o moreno estava se dedicando bastante para se vingar do irmão.
Aquela era a briga mais pesada que eles já tiveram. Geralmente era algo como empurrões e palavrões, mas agora havia partido pra o físico e Blaine queria muito acertar outro soco no rosto do Hummel.
– Vocês são loucos?! — Burt desceu as escadas correndo acompanhado de Finn para tirar os filhos do chão e da briga. — O que está acontecendo nessa casa?
– Me solta! — Blaine gritou, tentando sair dos braços do velho pai.
– Ele me atacou! — Kurt gritou ao ser afastado por Finn.
– Eu não quero saber! — Burt gritou irritado, finalmente colocando um fim naquela história de dois irmãos brigados. — Eu não quero mais saber quem começou, quem falou ou fez o quê. Vocês são irmãos e estão há anos brigados e eu não quero ver isso novamente. Chega! — Burt dizia irritado, como quem fosse ter um ataque ali mesmo. — Eu deixei essa briga acontecer por muito tempo porque achei que era coisa boba, que iria passar com o tempo. Vocês são piores que sua mãe no quesito orgulho! Não é a toa que levam o nome dela como sobrenome.
Kurt revirou os olhos. Não acreditava que mesmo depois de sair de casa, estava levando sermão do pai. Finn já havia o soltado e o grandalhão agora encarava a cena toda com curiosidade.
– Eu quero que essa briga termine aqui e agora! Vocês são adultos e sabem resolver problemas, eu não vou estar aqui pra sempre. Vamos começar uma nova família com Finn e Carole e eu não quero que comece assim! — Burt dizia em palavras firmes, ainda segurando Blaine. — Eu sempre fui muito compreensivo com todas as coisas que me pediram pra ser, então agora eu espero que vocês sejam compreensivos comigo. Se entendam. Ou pelo menos finjam que sim. Ouviram?
– Sim, pai. — Kurt respondeu tentando terminar todo aquele sermão ali.
– Sua mãe não queria ver os dois filhos dela brigando. Ela deve estar muito triste agora, esteja onde estiver. Mas todo mundo erra e ela sabe muito bem disso. Eu sei mais do que ninguém o quanto custa e demora para perdoar alguém que estamos com raiva, e sei que vocês são capazes de fazer isso um pelo outro. — Soltou finalmente o filho.
– Tudo bem, pai. — Blaine respondeu.
– Que da hora isso tudo. — Finn disse com um sorriso bobo nos lábios e recebeu um olhar torto de Kurt, que apenas deixou pra lá depois de alguns segundos. Talvez o grandalhão não estivesse acostumado com brigas de família e bem... Se ele quisesse entrar na família Hummel, aquilo era algo que ele deveria se acostumar.
– Agora sigam para seu quarto enquanto eu arrumo tudo isso aqui. — Se referiu aos vasos caídos por causa dos filhos rolando no chão.
– Eu combinei de sair com Finn hoje. — Blaine interviu. — Ele iria me apresentar aos membros do New Directions e... — — Burt interrompeu o filho.
– Não.
– Não? — Blaine perguntou como se não soubesse o significado dessa palavra.
– Vocês estão de castigo. Você e Kurt.
– Castigo? — Kurt que perguntou dessa vez. — Eu tenho vinte anos, pai. Você não pode simplesmente me trancar em casa. Eu não moro mais aqui.
– Você não mora mas está dormindo aqui e é o suficiente pra mim. Talvez meu erro tenha sido não colocá-lo mais vezes em castigos. — Burt continuava firme. — Você e Kurt ficarão no quarto todo o final de semana e só sairão de lá pra comer.
– Pai, isso é ridículo. — Blaine jogou os braços para o alto.
– Tenho que concordar com o Bee. — Kurt completou. — Já estamos de bem, veja. Não estamos mais brigando. Isso não é necessário.
– Eu sei o que é necessário para educar os meus filhos, então sim, vocês estão de castigo. — Burt caminhou lentamente até a cozinha. — E não pensem em escapar! Eu ainda não confio muito em vocês. Aproveitem esse tempo para conversarem, contarem segredos um para o outro... Usem a criatividade, crianças.
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