Partituras e Cartas de Amor
6 #06 De coração leve
Notas iniciais
Após terem seus aparelhos celulares e notebooks confiscados por Burt, os garotos estavam no quarto em uma grande jornada para a busca de qual tarefa fariam nas horas insuportáveis até o almoço. Estavam proibidos de sair daquele quarto e teriam que encarar um ao outro durante todo o final de semana, que droga.
Blaine se jogou na cama, pegando um controle do playstation 3 que tinha em seu quarto e ignorou Kurt no cômodo totalmente. O castanho, já sendo excluído, caminhou até o banheiro para ver o estado que estava após a briga e após ter levado alguns socos no rosto.
Seus cabelos estavam revirados assim como suas roupas abarrotadas por causa da briga e por ter rolado no chão com seu irmão. No canto do seu rosto havia um roxeado que antes não estava ali e parecia bem feio em contraste com a pele pálida de Kurt. E, de perto, poderia jurar que sua maçã do rosto estava um pouco inchada. Kurt estava uma bagunça.
Voltou até o quarto e se viu perdido, sem ter o que fazer. Era obvio que Blaine se sentiria a vontade jogando seu video-game ou lendo um livro que havia por ali pois era o seu quarto. Tudo que os rodeava era de interesse do Anderson, e não de Kurt. Então sim, Kurt estava perdido mais uma vez, exatamente do jeito que se sentiu quando foi expulso de NYADA e resolveu voltar para Lima. Exatamente do jeito que se sentiu quando seu pai tomou seu quarto para dar a um desconhecido, e exatamente do jeito que se sentiu sempre. Deslocado, desencaixado.
Kurt caminhou até o banco que ficava na janela do quarto e dava visão total da rua principal e ficou por ali, admirando a paisagem durante bons minutos. Tudo isso ao som de gente morrendo e carros explodindo vindos do jogo que Blaine jogava. Até o momento que aquilo finalmente cessara e Kurt encarou o irmão rapidamente para descobrir o motivo do silêncio.
Blaine deixou o controle do jogo de lado e jogou suas costas contra o colchão da cama. O pausado na tela indicava que o garoto havia terminado todas as fases e concluído mais um jogo.
O castanho parou de encarar o irmão e voltou sua atenção à rua, sem sequer imaginar quando tempo havia passado desde que ambos estavam no quarto. Talvez duas horas, talvez dez minutos. Aquele lugar estava começando a fazer Kurt se sentir claustrofóbico, e a falta de movimentação na rua qual observara o fazia querer sair daquele lugar.
Ambos os garotos vestiam seus pijamas, porém agora Blaine vestia uma camiseta branca. O silêncio no quarto se instalou por mais algum tempo até alguém finalmente quebrá-lo.
– Me desculpe.
Blaine virou sua cabeça em direção a Kurt na janela, que não mantinha contato visual. O moreno nada disse, apenas esperou Kurt continuar, mas o castanho não o fez. Mais alguns momentos de silêncio no quarto até que o Hummel mais velho finalmente voltara a falar mais alguma coisa.
– Por empurrar você. Me desculpe. — Kurt completou. — E me desculpe por ontem à noite também.
– Ontem à noite? — Blaine sentiu seu coração parar por alguns segundos. Seus pensamentos congelaram ao se lembrar de acordar massageando o membro do irmão e... Droga. Kurt estava acordado? Blaine se sentou na cama, encarando Kurt como quem esperasse uma bomba atômica cair.
– Sim, por ter dormido na sua cama. — Kurt engoliu seco.
– Tudo bem. — Blaine respondeu aliviado, não parando de encarar Kurt.
O castanho continuou sem olhar para o Anderson. A rua não tinha nada que captasse a atenção do mais velho, porém Kurt não poderia se dar ao luxo de encontrar com os olhos de Blaine após a briga. Seus olhos rolaram da janela até a estante que ficava no canto do quarto, onde haviam pequenos porta-retratos.
Sorriu fraco ao ver uma foto onde ambos estavam abraçados, ainda crianças. A foto era do Natal de 2006, um dos melhores natais que Kurt já passara e pudera se lembrar na época. O curioso, que mais surpreendeu o Hummel, foi Blaine mesmo com todo o ódio guardar aquela foto a ponto de colocá-la em um porta-retrato na estante. Kurt não conseguia entender o motivo.
– É uma foto bonita da casa da vovó. — Blaine disse como quem respondesse a pergunta que Kurt fazia mentalmente.
– Verdade. Era um lindo lugar... Nossa infância lá foi maravilhosa. — Kurt disse com a voz ainda um pouco insegura. Não sabia ao certo se conseguia conversar com o irmão depois de tantos anos tentando evitá-lo. — Será que aquele hotel fazenda que fizeram por lá após a morte da vovó ainda existe? Seria maravilhoso passar uns dias lá.
– Você não vai voltar pra Nova Iorque? — Perguntou Blaine se deitando na cama de lado, virado para Kurt disposto a conversar depois de tanto tempo. Ainda estava magoado por todas as coisas que Kurt dizia para si enquanto o castanho ainda morava ali, porém eram irmãos e precisavam esquecer o passado. Pelo menos por algumas horas até o almoço.
– Fui expulso de NYADA. — Kurt finalmente confessou para alguém. Seu rosto se virou e finalmente os olhos dos irmãos se encontraram e Kurt estranhamente sentiu em Blaine um lugar para desabar. — Estávamos organizando a Midnight Madness e precisávamos roubar a chave de uma sala. Madame Tibideaux sabia que isso acontecia todos os anos, porém era uma tradição ser escondido. Eu, Douglas e Brody entramos na diretoria para pegar a sala e sem querer acabamos acionando um dos alarmes, foi uma loucura. Dezenas de viaturas apareceram... Foi uma confusão. — Blaine ouvia tudo atentamente. — Douglas não foi expulso porque era o queridinho dos professores, porém eu e Brody não tivemos tanta sorte. Levamos também uma marcação em nossa ficha estudantil, então não podemos entrar em nenhuma faculdade de artes pelo resto de nossas vidas. Além da Midnight Madness ter sido proibida para sempre. — Kurt finalmente suspirou ao sentir o peso daquele segredo ir embora.
– Kurt, por que você não contou isso para o papai? — Blaine perguntou incerto. Naquele momento o Anderson sentava na cama e tinha as mãos juntas, tentando ignorar o nervosismo que adquiriu durante a história.
– Eu iria, mas quando cheguei vi que tudo estava tão certo... Eu não queria ser mais um motivo de incomodação pra ele, sabe? — Blaine assentiu. — Estou vendo de me mudar para o apartamento de Rachel e começar algum outro curso na NYU. Talvez moda, eu não sei. — Kurt dizia com um pouco de dor ao movimentar seu rosto. O soco do Anderson havia o machucado feio.
– Rachel? — Blaine perguntou.
– Berry. Minha colega de NYADA. Bem... Minha ex-colega. Viramos meio que inseparáveis nos últimos anos. Ela é dois anos mais velha e coincidentemente é de Lima também. Em fato, acho que ela fez parte dos New Directions do McKinley. Ela virá amanhã, já que estava ocupada com a peça e coisas do tipo. Ela é a Funny Girl, a nova.
– Uau, Kurt. — Blaine sorriu encantado. — Você é amigo da nova Funny Girl? Você deve estar de brincadeira comigo!
– Ela não é tudo isso. — Kurt gargalhou baixo ao se lembrar da amiga. — Na verdade, toda essa fama acabaria se eu revelasse uns vídeos caseiros que tenho no celular de Rachel fazendo sua máscara de pepinos, ou dela correndo atrás de Lucy pelo apartamento. — Blaine o olhou confuso. — Lucy é a gata dela.
– Nova Iorque deve ser demais! — Blaine não se conteve.
– É sim. — Kurt sorriu. — Sempre foi nosso sonho, não? Dividir um apartamento perto do Central Park, ter um labrador e impedir que nossas namoradas nos separassem. Pelo visto a vida foi um pouco sacana na parte das namoradas... — Kurt gargalhou baixo, porém não entendeu o olhar de tristeza novamente nos olhos de Blaine. — Você está bem?
– Estou. — Disse seco e voltou a jogar suas costas de encontro ao colchão macio de sua cama. Incrível como se lembrar de coisas passadas com Kurt o magoava daquele jeito. Era como se o moreno estivesse escolhido esquecer os momentos bons que tivera com o irmão para conseguir odiá-lo.
Blaine suspirou fraco, tentando não fazer Kurt notar seu desapontamento. Era incrível como seu dia ultimamente era como uma montanha-russa, com seus altos e baixos e tudo mais. Seus pensamentos passaram rapidamente por Joey, desejando que o namorado estivesse tendo um melhor final de semana do que o seu, já que seu telefone havia sido confiscado e provavelmente só teria contato com o amado novamente quando voltasse à escola.
– Eu não estou bem. — Mudou Blaine sem encarar o irmão.
– O que aconteceu?
– Você voltou. — Blaine respondeu sincero.
Aquelas palavras soaram piores do que uma faca perfurando o peito de Kurt. Ele pôde sentir a dor nas palavras de Blaine, pôde sentir pela primeira vez em muito tempo o irmão de qual se lembrava antes de todo o gelo que estava recebendo nos últimos anos.
– Eu não tenho pra onde ir. — Kurt disse meio engasgado com sua culpa.
– Cada vez que você volta, você traz o passado com você. — Blaine fechou os olhos tentando controlar seus sentimentos voltando. — E pode parecer que foram décadas atrás, mas eu ainda me lembro de tudo, Kurt. De cada palavra.
– Blaine...
– Me deixe terminar. — Blaine não encarava o irmão. Kurt havia sido sincero com ele sobre NYADA e agora Blaine queria ser sincero com ele. — Eu passei muito tempo tentando entender porque você me disse aquelas coisas, porque desejou que eu nunca tivesse nascido e tudo mais e eu nunca entendi. Você era tudo pra mim, Kurt. Eu te amava mais do que qualquer coisa que eu tinha, você era meu melhor amigo. — Blaine tinha a voz baixa. — Eu tinha treze anos. Você sabe como é ter que convencer a si mesmo que era indesejado pelo próprio irmão?
– Eu não quero falar disso...
– Nós vamos falar disso. — Blaine disse com um tom de voz forte, porém não alto o suficiente para ser um berro. — Eu só quero saber porquê.
– Blaine.
– Não, Kurt. Pela primeira vez em anos a gente vai tocar nesse assunto. Hoje eu sei de todas as coisas. Da morte da mamãe, dos homens que ela tinha fora de casa e tudo mais. Eu só quero saber onde eu fui o culpado disso tudo. O que eu fiz pra você me odiar tanto? — Blaine finalmente encarou Kurt, percebendo um certo desconforto no olhar do irmão.
– Eu nunca te odiei, Bee. — Disse entre um suspiro.
– Eu te odiei. — Kurt estava mais machucado do que a briga anterior. As palavras de Blaine conseguiam ser mais fortes que seus socos. — Eu te odiei por muito tempo. Até que deixei de te odiar em algum momento. Eu simplesmente parei de me importar. Você podia fazer parte da minha vida, ou não. Era uma escolha sua.
– E o que foi isso hoje? — Kurt perguntou tentando manter a conversa em um tom sério, não partindo para o sarcasmo ou algo parecido. — Você veio pra cima de mim, Blaine. Você parecia um louco!
– Você me empurrou primeiro. Eu estava cansado de você me odiando sem motivos, ou pelo menos parecendo odiar. Eu nunca fiz nada, eu não fui responsável pela morte de nossa mãe, eu sempre fui um irmão bom pra você! — Blaine se sentou na cama, ainda encarando Kurt sentado à janela. — Eu era uma criança, Kurt.
– Eu sei, Blaine. — Kurt engolia seco. — E eu digo sério quando falo que nunca odiei você. Eu te empurrei porque... Porque... — "Porque me lembrei da nossa noite incestuosa." Pensou.– Porque eu estava sobrecarregado com esse assunto da NYADA e tudo mais. Eu me afastei de você nesses anos por medo de me irritar novamente e falar coisas ruins novamente. Eu me lembro de como você ficou aquele dia... E então você começou a me odiar e eu achei que seria mais fácil te odiar também. Mas eu nunca poderia. Você é o meu irmão. Aquele carinha que me acordava no meio da noite pra te contar uma história de dormir porque você sonhou algo ruim... Eu nunca poderia te odiar.
– Você nunca demonstrou isso. — Blaine parecia magoado e as palavras de Kurt não faziam o efeito que o castanho pretendia. — Eu parei de te amar há um longo tempo, Kurt. Eu tirei você da minha vida. Eu implorei ao papai para não citar seu nome quando eu estivesse perto. Irmãos não fazem isso.
– Eu sei. Eu ligava todas às noites pra cá no começo em Nova Iorque. Eu me sentia sozinho, eu não sabia o que fazer e a cidade grande me assustava. Eu perguntava de você e ele me contava que você não queria nem ouvir meu nome... — Kurt engasgava um pouco. — Eu nunca soube se você me perdoou, Bee.
– Não me chame assim. Eu não sou seu Bee há muito tempo. — Blaine não brigava, apenas falava o que seu coração pedia. — Mas é bom saber que a partir de hoje eu não preciso me preocupar com seu ódio por mim.
– Tudo bem. — Kurt suspirou, voltando a encarar sua monótona rua que antes chamava sua atenção. Agora sua cabeça tinha milhões de coisas e ele não poderia acreditar que conseguira conversar com Blaine sem explodir.
Kurt tinha um grande problema em controlar sua raiva, por esse motivo tomava Sedalcec, um remédio recomendado por uma psicóloga de Lima. Ele poderia sentir algo e explodir de um jeito totalmente contrário por causa de sua raiva. Ele não odiava Blaine. Nunca odiou. Mas explodia sempre que o irmão o olhava com raiva. Isso levou a muitas brigas, por mais que no fundo Kurt soubesse que ele poderia acabar com aquilo tudo apenas contando a verdade, que não odiava Blaine.
– Sabe, Kurt. — Blaine chamou a atenção do irmão novamente. — Antes dessa conversa eu achava que você era um enorme idiota. Agora acho que talvez você seja só um pouco, sabe? — Sorriu forçado.
Eram irmãos. Se resolveriam com o tempo, certo?
Tudo bem que Blaine voltaria à Dalton daqui a alguns dias e tempo era tudo que os irmãos não tinham naquele momento, porém quem se importaria? Eles fariam funcionar. Não poderiam se amar do dia pra noite. Kurt sabia que havia machucado muito o irmão quando ele era apenas uma criança e que o coração de Blaine talvez não fosse tão aberto ao perdão, porém não esperava nada além de um simples sorriso de Blaine. O mesmo sorriso que Blaine dava a ele quando ele ainda era seu "Bee". Eles arrumariam isso.
A família Hummel sempre dá um jeito.
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