Partituras e Cartas de Amor

3 #03 Constrangimento por toda parte


Notas iniciais
Um jantar nada agradável, e de prato principal temos sopa de discórdia ao molho de discussão. hehehehe he hehehe he

Burt dirigia em silêncio enquanto Kurt mexia em seu celular, jogando algum logo aleatório enquanto seus lábios cantarolavam a música que saía do rádio. O mais velho tinha as mãos suadas ao tentar imaginar em como o clima agradável daquele carro se transformaria em um inferno assim que Blaine visse o irmão.

O velho homem estacionou seu carro em frente à Academia Dalton, o que fez o corpo do castanho se arrepiar. Há quantos anos o Hummel não ia aquele lugar? Lembrou-se dos anos que passou ali cursando o ensino médio, da saudades que tinha de casa mesmo escolhendo não voltar para os feriados...

Era engraçado.

Enquanto Kurt estudava na Dalton, sempre teve em mente que quando tivesse vinte anos seria o cara mais realizado de Nova Iorque, estudando em uma escola de artes renomada e participando de sua primeira peça na Broadway. Que todos os que haviam humilhado Kurt seriam, no máximo, frentistas de um posto sujo em Lima... Mas parece que a vida não era tão justa assim.

Kurt tinha, sim, seu apartamento em Nova Iorque. Assim como até dias atrás estudava em Nyada, mas nada parecia extraordinário além disso. Quer dizer, todos os neandertais que mexeram com Kurt também cursavam faculdades em outros estados, e o castanho estava cansado de tentar audições para peças na Broadway porque Nova Iorque estava cheia de caras como ele. No final de contas, ele não era tão especial assim.

Seu devaneio acabou assim que o portão da Dalton se abrindo chamara sua atenção. Era oficialmente o fim das aulas. Alguns alunos saíam correndo, finalmente livres de seus blazers, outros buzinaram contra a algazarra de pessoas tentando sair com seus carros.

Do meio da multidão surgia um garoto menor que os demais, andando em passos lentos enquanto procurava um carro em específico ao lado de fora da escola. Vestia um jeans básico e uma camiseta polo vermelha, o que fez Kurt franzir o cenho ao ver seu próprio irmão se vestir tão simples.

Alguns segundos demoraram até Blaine encontrar a caminhonete de Burt, e ver que Kurt estava sentado no banco do passageiro. O pequeno sorriso que tinha em seus lábios se desfizera e agora caminhara um pouco mais bruto. Entrou no carro e fechou a porta com mais força do que deveria.

– Oi, filho. – Burt disse com um sorriso enorme no rosto. Realmente sentira falta de Blaine durante os últimos meses.

– Oi, pai. Tudo bom? – Sorriu forçado.

– Oi, Bee. – Kurt se esqueceu de evitar o apelido.

– Oi. – Disse seco.

Kurt suspirou rapidamente e logo Burt entrava na rodovia para voltar à Lima. O silêncio no carro era constrangedor. O mecânico podia sentir os dois filhos desconfortáveis a um ponto que o Hummel mais velho quase parara o carro no acostamento para fazer os irmãos conversarem como pessoas normais.

– Então, Blaine... – Puxou assunto. – Está gostando da Dalton?

– Sim.

E não houve outra tentativa de resposta melhor. Burt simplesmente deu de ombros e desistiu de manter uma conversa decente. Resolveria essa briga antiga em casa, não em um carro no meio da rodovia. Chegava a ser ridículo os motivos por quais os garotos não mantinham sequer um olhar.

Chegaram em Lima poucas horas antes do sol se pôr. Blaine ao abrir a porta, correu escadas acima e se trancou em seu quarto. Kurt fizera a mesma coisa. Burt apenas revirou os olhos e ignorou aquela situação por alguns instantes.

O jantar estava quase pronto quando o Hummel mais velho chamou ambos os garotos para descerem.

Blaine vestia uma calça capri preta com uma blusa polo azul, o que fez Kurt se perguntar se o moreno só vestia aquele tipo de roupas. Seu cabelo estava cheio de gel, formando uma camada dura entre os fios. Já Kurt, vestia uma calça com estampa de zebra apertada e uma camiseta branca de botões, não ignorando o broche que continha o rabo do animal. Seu cabelo preso em um topete alto que levara minutos para ser preparado.

– Vocês estão ótimos. – Burt sorriu, antes de completar. – Carole chegará em breve. Ela irá trazer seu filho junto, ele tem a idade de Blaine, mais ou menos. Ela é uma grande amiga e eu adoraria que vocês ignorassem qualquer tipo de ódio que cultivam um contra o outro para fazer desse jantar o máximo agradável possível, tudo bem?

– Tudo .- Sussurraram ambos.

– E sobre esse ódio qual falei, iremos conversar sobre ele depois. Ele existe há anos e nem é algo qual faça sentido. Eu não quero meus dois filhos com rancor pra sempre, entendido?

– Sim, pai. – Disse Blaine um pouco receoso. Kurt deu de ombros e caminhou até a sala, se jogando no sofá e abrindo uma revista que estava ali na bancada.

Não demorou mais que alguns minutos para o som de um carro parar na frente da casa dos Hummel e logo a campainha tocar. Burt fez questão de parar o que estava fazendo e correr até a porta.

Do outro lado, uma mulher da idade de Burt tinha um sorriso nos lábios; o garoto seu filho já não podia se dizer o mesmo. Finn tinha a boca em um sorriso torto enquanto segurava uma travessa que aparentemente seria de sobremesa.

Todos se cumprimentaram e logo estavam sentados à mesa provado a famosa receita da família Hummel, o pato assado com legumes.

– Então... – Burt ignorou a comida por alguns segundos para iniciar a conversa. Aquele jantar estava um pouco constrangedor apenas com o barulho dos talheres batendo no fundo do prato. – Carole me contou que Finn também faz parte do clube do coral. Ele é o vocalista principal dos New Directions, certo?

– Sim. – Finn sorriu com a boca cheia de comida. – Eu e Quinn, na verdade. É legal lá.

– Blaine é vocalista dos Warblers. – Burt completou, forçando uma conversa entre as pessoas na mesa. Carole tinha um sorriso fraco no rosto ao ver o velho homem pelo menos tentar.

– Nossa, cara. Que demais! – Finn disse animado. – Nós vamos nos enfrentar nas Regionais! O Mr. Shue não para de falar um minuto de como vocês venceram o Vocal Adrenaline nas Seletivas, vocês são tipo uma lenda!

Blaine sorriu sincero pela primeira vez naquela noite.

– É nosso primeiro ano competindo, o coral ainda é novo. Também ouvimos muito de vocês. Todas as sextas-feiras durante os ensaios paramos alguns minutos para ver alguns vídeos de competições antigas, sabe, pra nos prepararmos. A maioria dos vídeos são sobre o New Directions.

– Não sabia que a Dalton tinha um coral. – Kurt invertiu e Blaine apenas assentiu, deixando o irmão sem resposta. O olhar o mecânico pousou sobre si e o moreno rapidamente tratou de responder.

– A diretoria resolveu criar esse ano. Na verdade, eu e Wes insistimos demais, então acharam que seria uma maneira boa de calar os alunos. – Kurt assentia, impressionado com o poder de persuasão do irmão. – Logo depois foram entrando mais membros, como David, Nick, Jeff e Joey... – Falou um pouco falhado o último nome. – Mas não é nada de mais...

– Nada de mais? Vocês venceram o Vocal Adrenaline, cara! – Finn continuava admirado em ter Blaine Anderson, a lenda, em sua frente. – Você é tipo um ídolo pra gente.

– Que bom que vocês se dão bem... – Burt disse em um tom passivo enquanto olhava no fundo dos olhos da mulher em sua frente, que tinha um sorriso fraco no rosto. – Eu e Carole esperávamos por isso.

– Como assim? – Kurt desviou o olhar dos garotos agora para encarar o pai e a mulher à sua frente de mãos dadas por cima da mesa... O que era aquilo?

– Eu e Burt montamos esse jantar para contar algo importante pra vocês. – Carole disse com um pouco de receio, mas tomando coragem assim que o Hummel mais velho apertava sua mão lhe passando coragem. – N-nós estamos juntos.

– Juntos em que sentido? – Blaine perguntou um pouco surpreso.

– Juntos, como homem e mulher. – Kurt franziu o cenho aos dizeres de Burt. – No sentido bíblico da coisa.

– Pai! – Blaine reclamou, largando os talheres. Agora sua cabeça estava cheia de imagens pervertidas entre o pai e aquela mulher que estava sentada na mesa.

– E mamãe? – Blaine perguntou com um tom de voz falhado. Não era como se não tivesse aprovado o namoro do pai, apenas não imaginava que uma coisa daquelas iria acontecer.

– Sua mãe se foi há treze anos, Blaine. – Burt respondeu.

– E-eu não estou dizendo que isso é horrível, ou nada do tipo. – Blaine tentou se corrigir – Mas apenas eu não estava esperando. Eu nem sabia que o papai estava procurando alguém...

– Você estava procurando alguém? – Finn encarou Carole.

– Nós não estávamos procurando ninguém. – O mecânico fez o favor de deixar aquilo bem frisado. – Apenas aconteceu.

Kurt apenas encarava os demais falarem, não dando nenhuma dica se estava feliz ou triste com a situação. Bom, nem ele sabia direito... Burt parecia estar feliz com aquela mulher, mas provavelmente seria apenas saudades de Pam. Kurt se lembrava do dia que Pam havia falecido, tinha sete anos e guardava a dor até hoje. Não acreditava que o pai estava tentando colocar outra no lugar de sua mãe.

– Kurt, você tem algo a dizer sobre isso? – Burt perguntou.

– Não. – Respondeu seco.

Blaine revirou os olhos e tentou alegrar o pai, que após a resposta do castanho ficara um pouco triste.

– Bom, eu acho isso ótimo. É bom ver você feliz, pai. – Sorriu.

– Isso significa que eu vou ter duas casas agora? Legal! – Finn disse no mesmo estilo animado de sempre, o que fez o Anderson pensar se o alto não era sempre assim.

– Na verdade... – Carole interviu, mas Burt a interrompeu.

– Carole vai morar aqui com a gente. – Disse firme.

– Tudo bem... – Blaine piscava rapidamente tentando absorver tantas novidades em pouco tempo. Adorou o clima sincero que rodeou a mesa por alguns segundos e resolveu fazer, provavelmente, a maior burrada que já cometera. – E-eu queria falar uma coisa também.

– Fale, filho. – Disse Burt receptivo.

Blaine suava frio e tinha as mãos nervosas. Seu coração palpitava à mil e ele realmente não sabia porque sua mente estava fazendo aquilo com ele, mas precisava se sentir bem assim como o pai estava se sentindo.

– E-eu... – Hesitou. – E-eu sou gay, pai.

Outro?! – Finn falou sem pensar e levou uma cotovelada da mãe. Era uma situação bastante delicada, realmente.

Burt quando aceitara a homossexualidade de Kurt jamais imaginou que seu outro filho também poderia vir a ser gay. Ele precisou de alguns segundos pra pensar o que falar. Nesses segundos, mortais para Blaine, o moreno já se arrependia de ter falado alguma coisa.

– Tudo bem. – Disse finalmente. – Já aceitei isso uma vez, não vejo porque não aceitar de novo. É-é um pouco frustrante eu saber que nunca terei uma nora, mas eu posso com isso.

– Você pode ter a nora de Finn. – Carole disse com um sorisso.

– Você é hétero, certo? – Burt perguntou à Finn, que assentiu rapidamente sem dúvidas. – É bom me certificar. – Sorriu fraco e encarou o filho mais novo. – Não sei porque demorou tanto pra me contar, kiddo. Mas eu vou te amar do mesmo jeito que amei Kurt quando ele me contou também.

– Eu te amo, pai. – Disse feliz, finalmente feliz.

O clima na mesa havia ficado um pouco pesado naquele instante. Carole estava feliz, assim como o mecânico, que apesar de ser pego de surpresa pela revelação de Blaine, ficara feliz com a reação dos garotos em relação ao seu namoro com Carole.

Kurt tinha os olhos fixos em Blaine. Seu irmãozinho também era gay... Não soube o que pensar. Por mais que ele e Blaine houvessem brigado no passado, ainda zelava pelo moreno como se fossem melhores amigos. Na verdade, o castanho não guardava muita mágoa, apenas Blaine fazia.

Finn tinha um sorriso no rosto.

– Então hoje foi um dia legal. Ganhei um pai postiço e dois irmãos gays. Isso não acontece todo dia. – Gargalhou baixo, fazendo todos da mesa suspirarem em alegria. – Isso quer dizer que agora vou ter dois quartos?

– Na verdade... – Carole interviu. – Eu vendi nossa casa...

– Carole vai morar com a gente, o mais rápido possível.

– Mas pai, só temos quatro quartos aqui em casa, e um deles fica o piano e o estúdio... Finn irá dormir no quarto dos instrumentos?– Kurt hesitou.

– Não ouse tocar no meu piano! – Blaine quase gritou, protetor.

– Não vamos nos desfazer do quarto dos instrumentos. – Disse certo. – Enquanto não achamos uma casa maior para morar, Finn pode ficar com o quarto de Kurt. Afinal você volta pra Nova Iorque essa semana, certo?

O coração de Kurt se partiu em dois. Toda essa confusão havia feito o esquecer do que havia acontecido em Nova Iorque. Na verdade, Kurt não havia voltado para casa pelo motivo que havia contado: que Nyada havia liberado os alunos para o dia de ação de graças. Na verdade, Kurt havia sido expulso pela própria Madame Tibideaux após uma semana horrível.

– P-pai, eu... Eu pretendia ficar alguns meses. – Mentiu, não tendo coragem de falar à verdade ao velho homem que todo mês se esforçava para conseguir o dinheiro da mensalidade daquela maldita escola de Nova Iorque, uma das mais caras.

– Tudo bem, Kurt. Você pode ficar no quarto de Blaine. Colocamos um colchão no chão e- — Blaine interviu.

– Ficar no meu quarto uma ova!

– Blaine! – Burt falava sério.

– Qual é, pai. Eu fiquei feliz e tudo mais com esse lance de você namorar Carole, mas se isso significa que Kurt terá que dormir no meu quarto, eu mudo minha visão agora. Eu não quero! – Deixou claro. – Ele pode dormir na sala.

– Eu não vou dormir na sala da minha própria casa. – Kurt disse irritado com aquela atitude infantil do irmão.

Finn não sabia o que falar, ou quem olhar. Parecia uma partida de pingue-pongue, olhando cada vez para um lado. Era aquela família maluca que ele iria entrar? Talvez não fosse uma boa ideia assim.

– Ele não vai dormir na sala. – O pai falou em um tom um pouco repreendedor, tentando não assustar Carole ou Finn. – Vocês vão dormir no mesmo quarto, e está decidido!

– Pai!!!!! — Blaine tinha a boca aberta em discordância.

– Blaine!!! – Ironizou o Hummel. – Está decidido.

– Eu só vou dormir no seu quarto, Bee. Eu não vou te esfaquear e te deixar sangrando até a morte. – Brincou.

– Não me chame assim! – Gritou, se levantando da mesa bruscamente. – Eu odiei essa ideia, que droga! Vou voltar pra Dalton o mais rápido possível. Que merda! – Subiu as escadas correndo, porém gritou do andar de cima. – Eu odeio o Kurt.

O silêncio na mesa se tornou constrangedor.

Kurt sentia seu estômago se embrulhar e tentava ignorar seus olhos marejados. Finn ainda tinha seus olhos arregalados e não sabia exatamente o que achar daquela família, pois até dias atrás podia jurar que ele e sua mãe eram a família mais desajustada de Lima. Burt tinha o coração em mãos, ao mesmo tempo que sentia uma pontada de raiva do vexame que havia passado na frente da nova mulher.

Conversaria com o filho mais novo, aquilo era intolerável. Fazia três anos da briga, era hora do moreno perdoar o irmão finalmente.

O silêncio ainda estava ali.

– A sobremesa está uma delícia. – Finn disse, dando de ombros.

Notas finais
Ignorem o capítulo "encheção de linguiça" e foquem que Blaine e Kurt dormirão no mesmo quarto, hihi. Ah, e a treta Klaine será revelada no próximo capítulo! Gosto de reviews, gosto de ver que a pessoa se importa com a fic a ponto de deixar um comentáriozinho. Que tal? Nem que seja um "ficou bom", ou um "NOSSA LYANDRA Q FANFIC MARAVILHOSA EU RECOMENDEI E CRIEI MAIS TRÊS CONTAS PRA RECOMENDAR TAMBÉM", hihihi. Enfim, obrigada por lerem, até o próximo capítulo! ♥