Particularidades
1 Primeira parte
Mais um turno chegava ao fim. Até que os casos da noite não foram tão complicados e nem perturbadores demais, seriam simples, se não estivéssemos falando sobre mortes e pessoas, sejam boas ou más, ainda assim pessoas, seres humanos.
Tudo que Sara queria era chegar ao seu apartamento, se enfiar numa banheira cheia e morna, e não pensar emabsolutamente nada. O que realmente era difícil de se fazer; ela vinha tentando a dias, mas sua mente acabava por traí-la. Sentia-se idiota por ficar revivendo tudo mentalmente, principalmente algumas burradas que tinha dito ou feito a ele. Burra, idiota, estúpida... era como vinha se sentindo com relação a Gil Grissom.
As coisas poderiam ser simples, se ele não fosse tão complicado.
Mas estava cansada, cansada de esperar, casada até mesmo de ter esperanças que algum dia eles se envolveriam além do lado profissional, por que amigos, nem isso eles eram. Apesar dos dois trabalharem muito bem juntos e eventualmente surgir raríssimos assuntos pessoais, havia uma atmosfera quase palpável entre eles. E era essa mesma atmosfera que a sufocava, a impressão que estava tendo ultimamente era a de que ela estava sozinha nesse barco. Até mesmo as palavras ‘entrelinhas’ dele já não faziam sentido. Por que eram apenas palavras, e no momento, ela diria que atitudes significavam bem mais. Oh, sim, ciúmes é algo relativamente perigoso de se sentir. Nos últimos dias aprendeu a engoli-lo. O que antes era profissional, agora era estritamente profissional. Tornou-se fria por fora, embora por dentro estivesse quente, não pelo amor que sentia, mas pelas lágrimas que já a inundavam, pela ferida aberta em seu peito. Uma ferida que , talvez, ela mesma tenha feito, mas ainda assim era real e estava lá.
Fechando seu armário e reforçando sua armadura, achou melhor falar logo com ele para poder ir embora. Pegou seus relatórios e foi caminhando ate a sala dele; novamente, eram um dos últimos da equipe no laboratório; seriam os últimos se ‘aquela’que ajudava sua ferida aumentar não estivesse sempre lá. Sofia Curtis, essa era a pessoa que mais desejava que sumisse da face da Terra.
Quando estava se aproximando da sala dele, viu que conversavam ‘animadamente’, Grissom sorria e ‘aquela’ que era seu pior pesadelo, estava novamente sentada na beirada da mesa dele.
“Mas que inferno, será que é tão difícil ela sentar na maldita cadeira ao invés da mesa?! Sara, Sara.. esquece! Faça o que veio fazer e vá logo embora!”
Toc, toc.
E os olhares se voltaram para ela.
- Desculpe interromper. Aqui estão os meus relatórios Grissom. – ela nem sequer olhou para ‘aquelazinha’.
- Coloque aqui, por favor, Sara. – ele indicou uma pequena pilha, provavelmente os outros relatórios da noite, em cima da mesa.
- Ah! Grissom, você poderia providenciar os papéis para que eu tire uma semana de licença, ou seria melhor eu ir falar com o Ecklie? – perguntou enquanto deixava seu relatório onde ele indicou. Nãoolhou, apenas colou seu arquivo ali e já deu as costas, voltando para a porta, lugar onde se sentia mais confortável no momento.
- Você tem algum motivo viável ou atestado para pedir essa licença? – ele tentou perguntar com um leve tom de indiferença na voz, enquanto sentia seu peito apertando já por se ver longe dela por uma semana.
- Se não tivesse, não estaria solicitando, estaria?! – o desapontamento em sua voz estava claro. –Esqueça que lhe pedi isto. Estou indo falar com o Ecklie, ele resolve. Bom dia para vocês!
“Sua idiota! Idiota, idiota, idiota, porque resolveu pedir isso a ele? Ainda com ‘aquelazinha’ lá! Pelo amor de Deus Sara, você é tão idiota!”
Quema encontrasse caminhando tão calmamente pelos corredores, não imaginaria o quanto ela gritava, silenciosamente, para si mesma. Conseguiu alcançar Ecklie quando este já estava saindo de sua sala.
- Ecklie, tem um minuto?
- Sim Sidle. Precisamos entrar ou podemos falar enquanto vamos para o estacionamento?
- Não, não precisamos; falamos até o estacionamento!
- ok. Então vamos! O que quer falar comigo?
- Preciso que arrume os papéis para que eu saia de licença por uma semana. Será que consigo?
- Licença?! Por uma semana? A partir de quando?
- O mais rápido possível!
- Acho que não consigo a licença, mas você tem férias pendentes, fora as folgas que nunca tira, sem falar das folgas que tens pelas horas-extras acumuladas.
- Nossa! Isso tudo? – não imaginou que trabalhasse tanto.
- Sim Sidle, se formos colocar tudo, você tem direito a pouco mais de um mês de folgas e férias juntos. Mas não podemos juntar os dois. Se você optar pelas férias, eu providencio os papéis e no final da outra semana você já estará liberada; se optar pelas folgas, pode começar hoje, e quando eu voltar pro laboratório, verifico quantos dias você tem direito e já faço o que for preciso fazer!
- Fico com as folgas então! Obrigada Ecklie!
- De nada, Sidle.
Terminaram justamente quando a porta do elevador se abriu na garagem do laboratório. Cada um indo para lados opostos, para seus respectivos carros!
“Livre, por alguns dias, finalmente livre!”
E com o pensamento assim, abriu seu carro, apertando no painel o botão do porta-malas. Saiu deixando a porta do motorista aberta, abriu o porta-malas e despiu seu colete de CSI, mentalmente se deliciando com a sensação ilusória que estava tirando o mundo de cima das costas. Não que não gostasse de seu trabalho, ou de sua profissão, do que fazia, muito pelo contrário, simplesmente precisava daquele, desse tempo, para si. Pensava que talvez um milagre acontecesse e esquecesse-o de uma vez. Já pensou em ir embora, voltar para San Francisco, mas descobriu que ainda não estava pronta para dizer ADEUS. Bateu seu porta-malas e virou-se para seguir até o lado do motorista, dar a partida e sair rapidamente dali. Mas ao virar, deparou-se com um Gil Grissom saindo de dentro do elevador. Mantendo a mesma atitude que vinha tendo naqueles últimos dias, fez que não viu e continuou seu caminho.
Digamos que ela apenas tentou seguir seu caminho, sendo impedida desta vez, por aquele que grito seu nome. E não podendo simplesmente fingir que não ouviu, virou, resignada.
- O que quer Grissom? – não pode esconder seu tom de impaciência.
- Se estiver com pressa, pode ir, eu falo com você a noite e...
- Seja o que for, melhor falar agora, não venho hoje e nem sei quando volto! – ela o interrompeu, e viu todo aquele brilho nos lindos azuis dele se ofuscar. Assim como aquele sorrisinho contido que estava sempre quando ele sabia que ela estava irritada com ele, desaparecer.
- Queria apenas perguntar se ainda precisa da licença, mas pelo jeito você já resolveu! – disse ‘murcho’.
- Sim, já resolvi com o Ecklie. No próximo turno ele irá te passar tudo que você deva saber Grissom!
- Ok.
- Então tchau Grissom! – e se virou para entrar no carro...
- Sara...
Tudo que fez foi soltar uma respiração pesada e se voltar novamente para ele. “Estou cansada, esgotada, quero sumir daqui. O que tanto ele resolveu falar comigo justamente agora?!”
- Sim, Grissom!
Ele pareceu um tanto indeciso entre falar e se calar, principalmente pelo comportamento dela, não só agora, mas nos últimos dias. E saber que ficaria no mínimo uma semana sem tê-la por perto, fê-lo criar a coragem que faltava.
- Está tudo bem entre nós?
- Não existe e nunca existiu um “nós”, Grissom. Então, sua pergunta não necessita de uma resposta. Agora, me dê licença que eu quero ir embora.
Dito isto, ela finalmente entrou em seu carro, deu a partida e saiu dali. Podendo dar vazão as lagrimas que tanto a inundavam por dentro. O peso de suas próprias palavras ferindo-a!
Ela se foi deixando um Gil Grissom atordoado, com as palavras e com seus próprios sentimentos.
“Sara, por Deus, não posso ter perdido você! Não, simplesmente me recuso a te perder assim!”
Ficou parado no mesmo lugar, vendo o carro dela fazer a curva em direção a saída do estacionamento. Com a mente ainda anestesiada com as palavras proferidas por ela, encaminhou-se até seu próprio carro. Tudo aquilo estava muito surreal, ela sabia que ele sentia alguma coisa por ela, não sabia? E ela não havia dito com todas as letras que ele é mais do que um chefe? Ainda haviam as palavras e frases sublinhadas entre eles, tudo não passou de um jogo? Por que ela estava tão distante? Por que estava agindo como se ele fosse apenas seu chefe?
“Mas é o que você é Grissom! Você não é nada mais do que o chefe dela ou já se esqueceu?! Talvez você deva parar de questionar o que você ‘fez’ e se perguntar ‘o que você não fez’.”
Já dentro de seu carro, Grissom ficou sentado, contemplando o nada a sua frente. Seus pensamentos agora a mil, sentindo o peso de suas escolhas do passado e as do presente, escolhas essas que definitivamente definirão seu futuro, seja esse futuro com ou sem alguém ao seu lado. Como se decido, deu partida no carro e saiu dali.
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