Ela entrou batendo a porta de seu apartamento, jogando sua bolsa no aparador logo ao lado, não se deu ao trabalho de trancar a porta, antes precisava se afundar na banheira, só depois ligaria para detalhes superficiais, como trancar a porta de seu apartamento, e afinal, ninguém iria invadir um prédio no inicio da manhã, quem fosse fazer isso, faria a noite, não?!

Enquanto passava pela sala, já arrancou a blusa e sapatos, seu sutiã ficando no corredor a caminho do quarto e banheiro...suas calças ficaram jogadas no chão do seu quarto, onde ela entrou apenas para ligar o ar condicionado e pegar um felpudo e aconchegante roupão preto.

No banheiro, abriu a torneira da banheira, deixou seu roupão próximo, ligou seu radio; nada melhor que relaxar numa banheira ouvindo uma boa música. Foi até a sala, buscar outro CD, a sensação de andar só de calcinha pela casa realmente era ótima, ao menos, esta era uma das coisas boas de se morar sozinha. Pegou o CD, voltando para o banheiro, colocando-o no rádio, fechando os olhos aos primeiros sons que eram tocados.

Foi por acaso que ouvira as músicas desse tal ‘Andreas Vollenweider’ e descobriu que elas eram ótimas para relaxar. Pingou algumas gotas de óleo aromático na banheira e também adicionou seu sabonete líquido de pétalas vermelhas. Assim que a banheira terminou de encher, retirou a ultima peça de roupa que trajava, aumentou o volume do som e foi apreciar o conjunto da água e espumas monas envolvendo seu corpo, juntamente com os sons projetados do CD.

A parte mais difícil era agora, tentar relaxar, tentar meditar, tentar, simplesmente não pensar. Porque algo teoricamente simples, na prática era tão difícil?!

Deixou-se afundar na banheira.

Grissom estava em pé, em frente à porta do apartamento dela, novamente a incerteza querendo tomar o controle. Podia ouvir alguns sons vindos de dentro do apartamento, parecia ser algum tipo de musica, seu nervosismo não o deixava precisar realmente o que era.

Respirou fundo e finalmente bateu três vezes a porta. Esperou, não obtendo resposta, voltou a bater, um pouco mais forte desta vez. Nada. Lá dentro começou a ouvir o telefone tocar incessantemente. Preocupado, levou a mão a maçaneta da porta e para sua total surpresa, descobriu-a aberta. Entrou silenciosamente, como bom perito criminal que era, começou a observar tudo, a fim de saber se ela poderia estar correndo algum perigo.

Viu a bolsa dela jogada no aparador logo ao lado, junto com um molho de chaves. Mais a frente, um par de sapatos que pareciam ter sido retirados e atirados de qualquer forma por quem os calçava. Pendurada e quase caindo, no braço do sofá, uma camiseta do avesso; reconheceu ser da mesma cor que Sara estava usando no ultimo turno; virando para o corredor que dava para o quarto e banheiro, viu a porta do quarto fechada, sem indícios de que havia alguém ali, pois não havia luz sobressaindo por baixo da porta.

A música de sons ambientais e naturais parecia vir do banheiro, ainda indeciso se deveria estar ali ou não, viu-se parado frente a porta do banheiro olhando para uma Sara, refletida pelo espelho, dentro de uma banheira cheia de espuma. De onde estava pode sentir aquele perfume que o invadia toda vez que se aproximava, fisicamente, demais dela.

Sentiu seu pé esbarrar em algo. Olhando para baixo, viu um sutiã. Abaixou-se, pegando-o. Não deveria, mas o fez mesmo assim. Um sutiã branco, uma renda fina e bem trabalhada sob o que diziam ser um ‘bojo’..não entendia muito de moda feminina, quem dirá de moda íntima. Deixando-se levar pelos hormônios, levou o sutiã em suas mãos até sua face e sorveu profundamente o perfume que impregnava a peça.

Ainda perdido em sensações, bateu levemente na porta aberta do banheiro, sem se dar conta que ainda segurava o sutiã nas mãos.

Sara desistiu de tentar ‘esvaziar’ sua mente antes de completar cinco minutos de tentativas. Quando emergiu na banheira, pensou ter ouvido batidas vindas da porta, mas como não ouviu mais nada que indicasse isso, tratou de deixar esse pensamento de lado. Logo depois, ouviu o telefone tocando, mas se recusou a levantar para atender. Imaginou que provavelmente seria o Grissom querendo conversar sobre o comportamento dela nesses últimos dias.

Grissom, seus pensamentos sempre a levavam para ele. Por mais que não quisesse, lá estava o Grissom com aqueles lindos olhos azuis brilhantes, fitando-a, aqueles lábios chamando-a, sorrindo-a. Mas era tudo que teria vindo dele.

“Se ao menos houvesse um modo de encontrá-lo fora daquele laboratório ou cena de crime...eu poderia arriscar alguma coisa, nem que fosse apenas isso, mas já seria......”

‘Toc,toc.’

Abriu os olhos para ter certeza que ouvira as batidas desta vez, mas estas estavam mais claras e perto, olhou em direção a porta e para sua surpresa, Gil Grissom a fitava, seu olhar tinha um brilho diferente, também pareciam mais escuros que o habitual. E agora, para seu espanto, viu seu sutiã nas mãos dele.

“Mas que droga! Ele tinha que pegar isso do chão?”

- Grissom, o que faz aqui? – sua voz saiu tranquila até demais, e ela não moveu nada além de seus olhos e sua boca. – Vejo que encontrou algo meu pelo caminho! – sorriu, como se a situação fosse normal entre eles. Seu corpo estava relaxado demais para que tivesse outra atitude. E ao julgar pela expressão de espanto e surpresa no rosto dele, essa calmaria por parte dela era o que ele menos esperava.

E ela estava certa ao pensar assim. Por dentro Grissom estava estupefato, já esperava uma leva de hostilidade e xingões vindos dela, visto o que ela disse lá no estacionamento, e ainda mais por ele estar ali, agora, vendo-a tomar banho e segurando o sutiã dela, depois de praticamente ter invadido o apartamento. Balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos e imagens incoerentes que começavam a se formar em sua mente. Entrou no banheiro, depositando o sutiã no balcão ao lado da pia.

- Desculpe por isso, e por invadir assim. Mas eu bati diversas vezes e você não atendeu, depois que ouvi o telefone tocar até quem quer que fosse, desistir, achei melhor conferir se estava tudo bem. Você nunca deixa de atender ao telefone, por isso, estranhei. – terminou de falar se virando para ela.

- As pessoas mudam Grissom, ou em algum momento estão cansadas demais para fazer tudo exatamente como sempre fez. Pode abaixar um pouco o volume do som?

- Vejo que seu humor está bem diferente de vinte minutos atrás. – ele disse logo após abaixar o volume e ir em direção a banheira, sentando-se na beirada, buscando-a nos olhos. – Devo entender que há alguma coisa ou alguém que anda lhe irritando no trabalho ou seria apenas a minha presença?!

- Não quero falar de trabalho Grissom, principalmente se for com você! E ao contrario do que você pode estar pensando, a sua presença não me incomoda. Apenas as suas atitudes! – ele pode vislumbrar uma sombra de mágoa nos olhos dela, que virou o rosto para a parede. – Me passe o roupão, por favor!

Ela apontou para trás dele; ele levantou-se, pegou o roupão e o abriu. Ela viu-o se virar enquanto deixava o braço esticado com o roupão em sua direção. Levantou-se, pegou o roupão e o vestiu enquanto saía da banheira, ainda terminava de fechá-lo quando perguntou:

- Quer tomar café da manhã aqui?

Sara virou-se em direção a uma pequena pilha de toalhas dobradas, na prateleira lateral, acima da banheira; virou-se novamente, secando seus cabelos com a toalha que pegara, deparando-se com o olhar, mais uma vez surpreso, de Grissom. Lançou-lhe uma expressão como quem pergunta ‘e aí, vai querer ou não?’.

- Ãhh.. não quero te dar trabalho nenhum, mas aceito ao menos uma boa xícara de café, enquanto conversamos.

- Tudo bem então. – enrolou a toalha em seus cabelos, calçou os chinelos acolchoados que sempre deixava próximo a banheira. – Embora eu pense que não temos nenhum assunto pendente!

- Sara! – ele a segurou pelo braço, quando ela passou por ele, sua voz saindo quase como num tom de reprovação. Não obteve resposta dela, apenas sentia a pergunta naqueles castanhos. – Não chame “NÓS” de assunto pendente!

- Grissom, eu já disse e repito. Não existe e nunca existiu um nós! Então, se esse foi o motivo pelo qual você resolveu invadir o meu apartamento e depois ficar me olhando na banheira, acho melhor você ir embora, afinal, daqui a algumas horas você deve estar bem e disposto para o seu precioso trabalho e colegas! – puxou seu braço bruscamente da mão dele; saiu do banheiro e foi em direção ao quarto. O ar frio dali fazendo seu corpo se arrepiar sob o roupão. Piscava freneticamente para que as lágrimas, que marejavam seus olhos não tombassem.

Acendeu a luz do quarto, foi até a cômoda, abriu a terceira gaveta, de onde retirou um pijama de cetim em tom perolado, e abriu a primeira gaveta, onde pegou uma calcinha simples e confortável de coton.

Desfez o nó do roupão e sem tirá-lo, colocou a calcinha e depois a calça. Retirou a toalha do cabelo, jogando-a na poltrona ao lado, despiu o roupão, jogando-o junto a toalha, pegou a blusa do pijama e vestiu; era uma blusa de alcinha, e o cetim leve e frio sobre seus corpo arrepiado, deixava bem evidente o quanto seus mamilos estavam eriçados.

A sensação do cetim frio e suave raspando seus mamilos fez seu ventre remexer, o que fez-la lembrar do olhar dele sobre si na banheira. Se bem conhecia-o, depois do que ela disse, ele já deveria estar saindo do prédio agora.

“E por falar em prédio, deixa eu ir fechar logo aquela porta, antes que todo mundo resolva vir aqui hoje!”

Virou-se para sair do quarto, mas parou quando o viu parado na porta, observando-a sabe-se lá desde quando. Abriu a boca para começar a falar...

- Tem certeza que quer continuar me tratando assim? Que quer continuar me afastando de você, como tem feito ultimamente? Tem certeza?

- Como você espera que eu te trate Grissom? Que eu lhe sorria o tempo todo... que eu lhe faça rir? Você pode muito bem achar uma substituta para essas ‘funções’. A única coisa que você pode vir cobrar de mim é quanto ao trabalho, fora isso, creio que nada em minha vida lhe diz respeito, você nunca deixou de ser apenas meu chefe e sei que isso nunca vai mudar. – ela disse se exaltando.

- Então, você está dizendo que tudo o que você dizia sentir por mim, embora nunca tenha sido explicita ao dizer, você já não sente?

- .....

- Ou você está tentando dizer que ainda sente algo, mas que não quer mais sentir?

- ..........

- Cansou de me esperar, foi isso? – a cada pergunta que fazia, ele dava um passo em direção a ela.

- Grissom, por favor, vai embora! – ela disse com sua voz falhando miseravelmente, o que fez todo o controle que tinha sobre suas lágrimas ir ao chão.

- Eu te perdi para mim mesmo Sara? Ou foi por outra pessoa? Algum homem mais jovem, talvez?


Notas finais
...continua...