Paredes Finas
11 Hungarian Dance nº. II [Gilbert]
Notas iniciais
Encarei aqueles olhos verdes na maior incredulidade do mundo. O que raios Elizaveta veio fazer aqui depois de todos esse anos?
Quero dizer, não é como se nós não mantivéssemos contato. Eu falava com ela por telefone ou facebook uma vez ou outra, mas bem, eu estava um pouco espantado porque a ultima vez que Lizzie me mandara notícias ela estava fazendo faculdade em Budapeste. Como é que essa garota surgiu em Viena assim tão rápido? E principalmente... O que ela estava fazendo aqui? Entortei a minha boca numa careta, sabendo muito bem que a húngara não voltaria para Viena à toa. E afinal, eu e Lizzie sempre fomos amigos mas sem nunca deixar de existir um atrito entre nós que sempre antecipava uma briga. Era diferente do atrito que eu tinha com o Rod durante os tempos de escola, pois eu sabia que mesmo que começássemos a discutir, Roderich nunca seria capaz de partir para a violência física. Já Elizaveta...
— Qual é, Lizzie! As pessoas normalmente mandam recado pra avisar que estão visitando. – eu abri um sorriso para disfarçar a minha irritação.
Mas a expressão dela parecia que não estava pra bateção de papo. Ela me olhava como se fosse o próprio Anti-Cristo encarnado e por algum motivo eu sabia que ela me queria morto, e eu nem tinha feito nada dessa vez! Qual é, ela que tinha aparecido na minha casa num final de semana perfeito com o jovem mestre.
Eu preferia que ela nem tivesse respondido pois as próximas palavras me desestabilizaram.
— Se afaste do Roderich.
... É o QUE?
Eu olhei pra Liz estarrecido, jamais imaginando que depois de anos eu voltaria a ouvir essas palavras. Fiquei de queixo caído, óbvio, pela intensidade das palavras e pela cara-de-pau da Lizzie em me dizer isso. Mas ao invés de gritar um QUÊ bem sonoro no meio do corredor do prédio, eu tentei manter a calma e cerrei os olhos, apoiando no batente da porta enquanto cruzava os braços.
— E você é quem pra me impedir mesmo...? – provoquei com um sorriso no rosto.
— Eu vou te matar com minhas próprias mãos.
Ah sim, eu me esqueci como Elizaveta Herderváry podia ser tão direta quanto terrivelmente assustadora. Mas eu já estava vacinado contra a aura assustadora da húngara e dei de ombros.
— Ok, como se soasse uma grande ameaça.
— Eu estou falando sério! – e ela estava mesmo falando sério, eu que era louco demais para desafiar.
A minha irritação já não estava mais sendo contida. Quero dizer, eu adoro a Liz mas quem ela pensa que é para chegar na minha casa e dizer com quem eu posso ou não posso ficar? Principalmente quando dizia a respeito de uma pessoa que eu estava gostando!
... Quero dizer, eu não sabia se eu estava gostando mesmo ou não, eu ainda estou pensando nisso, ok?
— E o que você tem a ver com isso, Liz? Vocês nem namoram mais! – perguntei, já visivelmente nervoso. Era esse o efeito que ela provocava em mim. Auto-destruição.
— Justamente, Gilbert! Eu sei lidar com o Roderich, eu conheço ele! Roderich é... — ela fez uma pausa soando nostálgica — Delicado, sensível, elegante... entende? E você é totalmente o contrário, é um brutamontes! Você e Roderich nunca conseguiriam misturar: é como água e óleo!
Paralisei por um momento. Se eu dissesse que as palavras dela não me afetaram eu estaria mentido. Eu senti cada palavra como um soco bem posicionado no estômago. Mas o que mais me assustava era a veracidade delas. Eu já tinha percebido mas nunca realmente parei para pensar na impossibilidade de um relacionamento entre eu e Roderich por causa das nossas diferenças. Eu sempre fui teimoso demais para se quer considerar isso. Mas pensando sob esse ponto de vista agora... ela estava certa. Roderich sempre foi tudo o que eu não era. Ele era paciente, gracioso, calmo, elegante e eu... Não era nada disso. E não era somente isso que me separava dele, quero dizer, eu detestava música clássica e aquela era a paixão dele. Finalmente tudo aquilo que eu havia constatado quando o vi saindo com aquele tal de Vash parecia fazer sentido nas palavras de Elizaveta.
Água e óleo.
Diferentes de mais para se misturarem.
— Certo. — eu disse abalado. Já havia descruzado os braços e segurava a maçaneta da porta com força — Mas por que você acha que eu tenho qualquer interesse nele? É como você disse, olhe para mim! Olhe como eu sou legal e incrível! E olhe para o Rod e toda aquela frescura de aristocrata.
Eu menti, menti na cara mais deslavada do mundo. A pergunta hoje em dia seria “por que eu não teria interesse nele?”. Olha só para o jovem mestre, ele cuidou de mim quando eu fiquei doente, ele fez um acordo para tocar piano quando não me incomodasse, ele fazia comida para mim todos os dias. Roderich era, em todas as letras, perfeito e eu que seria um completo louco se não me despertasse um mínimo interesse por uma pessoa assim.
Mas ela não precisava saber disso.
Os olhos verdes de Elizaveta brilharam como duas esmeraldas recém-lapidadas. Aquele brilho só podia significar que ela havia incorporado o próprio demônio de tanta maldade que tinha naquele pequeno corpo. E a profecia se cumpriu ao ela dizer:
— Porque você, meu caro amigo Gilbert. — ela disse pausadamente — Desde o ensino médio foi obcecado por ele, não é?
...
— Como? – me fiz de desentendido, com medo de finalmente cair na constatação das palavras dela. Elizaveta suspirou com impaciência, e prosseguiu.
— Eu não entendia, às vezes eu realmente pensava que fosse comigo. Todas as vezes que você importunava o pobre Roderich. Como você odiava nos ver a sós e sempre aparecia para atrapalhar. E tudo piorou ainda mais quando eu comecei a namorar com ele. Por muito tempo eu pensei que era de mim que você sentia ciúmes. Que você gostava de mim e não aceitava que eu estava namorando outro. Mas depois que eu terminei com Roderich e fiz a estupidez de ir para cama contigo eu entendi tudo. – ela fez uma pausa, tomando novamente ar antes de se virar com aqueles ferozes olhos para mim — Nunca fui eu, não é? Sempre foi ele, Roderich. Era dele que você sentia ciúmes, não era, Gilbert?
Petrifiquei, incapaz de dizer uma palavra se quer depois dela terminar.
Eu sentia como se ela tivesse jogado um balde de água congelante na minha cabeça. Ou como se alguém soprasse a névoa diante dos meus olhos e eu me cegasse ao ver a luz verdadeira. De repente tudo pareceu certo mas ao mesmo tempo o choque de realidade era dolorido. Como uma verdade nua a crua.
Na época da escola eu era um adolescente idiota e imaturo, incapaz de diferenciar meus sentimentos de vontades. Pensar que desde aquela época eu procurava por Roderich porque sentia algo em relação a ele era tão... estranho. Eu sentia ciúmes sim, toda vez que via ele com Elizaveta tinha vontade de separá-los a força. E aqueles olhos azuis violeta me provocavam uma reação que na época eu só podia pensar em raiva. Mas eu sempre voltava a procura-lo, nem que fosse para ele gritar comigo ou me mandar mais um daqueles olhares congelantes. Era só diversão, eu dizia a mim mesmo. Eu só queria me divertir às custas do aristocrata. Eu queria roubar a sua garota e vê-lo ficar enfurecido por mim. Eu queria aqueles olhos para mim, os seu sentimento mais intenso, a sua atenção, os seus pensamentos. Eu queria...
Não importa o que eu queria. Importa que eu quero. Eu gosto do Roderich. Eu o quero pra mim e eu não quero que ela nunca mais atrapalhe isso.
— Gilbert?
A húngara me chamou, e eu não percebi que escondia o rosto nas mãos. Levantei novamente o olhar e dessa vez ela parecia preocupada. É sério, eu nunca vou entender este fenômeno da natureza que era Elizaveta – uma hora ela queria me ferir e logo depois está preocupada? Tá de brincadeira – e quando tudo caiu na real e as peças do meu cérebro se encaixaram numa máquina que voltou a funcionar perfeitamente, eu sorri.
— Obrigado, Liz.
Ela levou as mãos na cintura, parecendo confusa e eu quase achei graça da sua expressão.
— Quê?
— É sério! Você é genial, por isso que eu te adoro. – ignorei toda a discussão até agora e ela estava terrivelmente confusa com a mudança de direção no assunto. Eu estava eufórico, mas não ia dar o braço a torcer por ela. — Mas me diz uma coisa... O que você veio fazer aqui?
Ela cerrou os olhos, voltando a cruzar os braços e entortar os lábios num gesto de irritação.
— Vim falar com o Roderich. Arthur me falou que vocês eram vizinhos e decidi verificar. Eu não acredito que você chegou ao ponto de alugar um apartamento ao lado do dele pra...
— Eu não fiz isso de propósito. – revirei os olhos – Você falou com ele, o que raios você quer, Elizaveta? Vocês terminaram faz anos, não vai me dizer que quer tentar voltar com ele. – dizer aquilo me deu um gosto amargo na boca e eu tive que cerrar o punho com força.
— Não é isso! – ela resmungou – Eu só queria... tê-lo de volta. Sinto falta dele.
O cruzar de braços se tornou um abraço solitário. Eu percebi, então, que ela estava sendo sincera sobre sentir falta dele. Ela podia ser uma peste na maior parte das vezes mas ainda era uma garota carinhosa e uma boa amiga. E sinceramente, agora eu entendia plenamente o sentimento de querer tê-lo por perto.
Só que dessa vez eu não iria perder pra ela.
— Até mais, Gilbert. E se você magoá-lo eu juro que não vou ter misericórdia ao te matar lentamente.
Nos despedimos e eu fiquei para observá-la sumindo do corredor. O seu vestido florido ela longo e fazia movimento quando ela andava. Elizaveta, de fato, era uma força da natureza, talvez um furacão, que passa e destrói tudo ao seu redor sem perdão. Ou talvez, ela fosse como uma estação, que muda independente da nossa vontade, que vai e volta sem avisar, e que tem o seu lado belo assim como o lado impetuoso. Eu gostava dela, de verdade. Mas eu não era a pessoa para ficar ao lado dela. E nem Roderich. Mas talvez, eu e ele...
Lembrei-me dela dizendo que visitou Roderich, meu corpo se moveu por conta própria para o apartamento dele, visto que ele não havia aparecido até agora. Eu precisava vê-lo agora e aquilo já não podia esperar nem mais um minuto. Abri a porta do apartamento esperando vê-lo mas ele não estava. Ele estava...
No chão, apoiado nas costas do sofá e chorando. Senti todos os meus músculos se retesarem em preocupação. O que aquela bruxa disse pra ele? Eu pensei que ela quisesse revê-lo como amigo e não destruí-lo! Fiquei com tanta raiva por ela deixa-lo naquele estado que Elizaveta podia-se considerar uma sortuda por já ter ido embora. Eu o levantei, segurando o jovem mestre pela cintura, que parecia fragilizado tanto emocionalmente quando fisicamente.
— O que ela fez? – praticamente rosnei, toda a raiva dominando o meu corpo.
— Nada... Não foi nada, Gilbert. Me deixe sozinho por um instante, por favor.
Como se eu fosse deixar isso acontecer depois de vê-lo naquele estado.
— Eu não vou deixa-lo, Roderich.
Ele me fitou com aqueles brilhantes e lindos olhos violetas, marejados de lágrimas, eu não suportei mais um segundo e colei meus lábios nele, envolvendo-o num enlace possessivo ao segurar sua nuca e cintura. O susto foi para nós dois. Ele, por ser beijado tão abruptamente e eu, por ter coragem para isso. Eu sabia que não devia ter feito isso desta maneira, e que provavelmente ele ficaria bravo comigo, mas eu já não podia suportar a tensão! Ele era tudo que se passava na minha mente fazia meses. Na verdade, fazia anos. E aqueles lábios era tudo o que eu desejava e um pouco mais.
Mas Roderich não separou os lábios. Eu podia senti-lo timidamente levar os dedos longos de pianista para a minha nuca, os lábios sutilmente se entreabrindo. E eu já não podia mais me conter. Apertei a sua cintura, trazendo-o para mais perto. Aprofundei o beijo na pequena passagem que ele me deu, começando a beijá-lo intensamente com ansiedade e sede. Cerquei o seu corpo entre o encosto do sofá, de modo que ficássemos mais próximos. A minha perna estava entre as dele e eu o sentia se exasperar entre os beijos, as mãos antes tímidas puxando os fios do meu cabelo com vontade. Ele era tão delicioso entre meus braços e ao mesmo tempo parecia tão certo, que eu me perguntava por quê diabos eu nunca beijei o Roderich antes. E aquela vez da semana passada não contava. Pelo menos não comparado a isso. Ele era quente e doce e nossos corpos se entendiam como química pura. Eu queria descer as mãos para entrar dentro de sua camisa e sentir o seu corpo com a palma da mão, me deliciando com cada parte do corpo dele. Mas antes disso os nossos lábios se separaram em busca de ar e eu nunca odiei tanto ter pulmões.
— Gilbert... – ele suspirou, deixando o meu nome tão deliciosamente sendo chamado tocar nos meus lábios e eu não pude me separar.
— Sim, meu jovem mestre? – perguntei num meio sorriso, sem nunca deixar separar minhas mãos e meus lábios dele.
— Você... está acordado? – eu sorri novamente com suas palavras fracas e incertas.
— Muito acordado, jovem mestre. – eu rocei levemente a minha virilha contra a sua perna, sinalizando o efeito que ele tinha sob o meu corpo. Eu o senti se arrepiar um gemido mudo escapar da garganta, e nada antes pareceu me excitar mais do que aquilo. Mordi levemente o seu lábio, incapaz de me conter.
— Gilbert! – ele se exasperou, se separando um pouco do meu aperto e eu ri. – E-Eu só queria entender o que deu em você e...
Eu sorri, voltando a juntar o meu corpo ao dele dessa vez. Eu tinha o intuito de provoca-lo o máximo possível, mas não consegui me conter quando as palavras seguintes soaram tão verdadeiras, como um apelo, mas ao mesmo tempo tímido, como se elas estivessem enferrujadas pelos anos que ficaram entaladas e deveriam ter sido a muito entoadas:
— Saia comigo, jovem mestre.
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