Paredes Finas
12 De Oasis à John Williams [Roderich]
Notas iniciais
Na vida as vezes acontece algumas coisas que você só fica se perguntando o por quê, e tentando entender quais foram todos os caminhos que levaram àquela de situação, tipo um filme do David Fincher. Mas afinal as nossas vidas não são um filme com um gran finale, ela só continua indo e indo e indo e quando você para pra pensar, você não sabe mais onde foi parar e como chegou aqui.
Era o que eu me questionava quando pensava em toda essa situação com Gilbert. Quero dizer, eu me lembrava bem em como havia iniciado essa nova relação com Gilbert mas pensar em como éramos no passado, pensar com a minha mente do ensino médio, era absolutamente surreal que algo assim poderia estar acontecendo.
Eu e Gilbert. Saindo em um encontro.
Eu me recordo de uma vez ter ouvido Elizaveta ironizar a minha relação com Gilbert, nos confins da nossa vida adolescente. Ela disse que éramos como Água e Óleo, diferentes de mais, e mesmo juntos não nos misturamos. Estranho pensar em como isso havia mudado. Não que não fossemos diferentes, isso talvez nunca mudaria, mas quem sabe era essas diferenças que acabou nos atraindo e nos levou à situação em que estávamos agora. Eu, sinceramente, não estava achando nada ruim. Na verdade, eu estava pensando que... Talvez... Eu estava... Gostando de Gilbert.
Eu sei que é muito adolescente por em palavras assim, mas eu não conseguia mais explicar porque eu passava tanto tempo pensando no alemão albino, porque algum elogio ou brincadeira sua me fazia corar e meu coração palpitar, porque eu apreciava tanto o tempo que passávamos juntos, e porque eu havia gostado tanto daquele beijo e não parava de parava de pensar nisso, mesmo com todo o acontecimento do retorno de Elizaveta à minha vida.
Pela primeira vez em toda a minha vida eu decidi que queria conversar sobre o assunto com alguém. Nem que fosse uma simples palavra de apoio de um amigo, ou que simplesmente ouvisse um pouco o que eu queria dizer. A primeira pessoa que eu pensei obviamente fora Elizaveta, mas eu não podia trazer o assunto à tona justamente com ela. Elizaveta estava envolvida demais na situação e talvez ainda muito machucada pelas coisas como ficaram. Por isso eu decidi mandar uma mensagem à Arthur pela manhã, mesmo sabendo que ele não era a mais sensível das criaturas ao se tratar de sentimentos – assim como eu – mas ele a pouco tempo estava em um relacionamento com um rapaz americano, acho que ele poderia me escutar. Para a minha surpresa Arthur concordou em me encontrar em sua casa, aproveitei e levei um livro em que precisava lhe devolver. Segui para o seu apartamento depois das aulas, não ficava muito longe do campus, rendendo somente uma caminhada.
Ao entardecer, toquei no apartamento de Arthur. Eu já havia visitado o inglês algumas vezes e em todas as ocasiões o seu colega de quarto estava ausente, o que me deixava um pouco curioso com a sua identidade, mas Arthur parecia querer esconder. Nunca lhe perguntei diretamente, e sabia que provavelmente eu nunca saberia quem era o tal companheiro de quarto irritante que ele tanto se queixava.
Mas qual não foi a minha surpresa quando quem me atende é um rapaz loiro de cabelos ondulados, olhos azuis e um sorriso malicioso que eu já conhecia de tempos. Mas o pior não era nem a identidade do rapaz que surgira na porta, mas sim o fato de que ele estava sem camisa, ou pior, só de toalha. Será que isso estava começando a se tornar uma constante em minha vida?
— Se não é mon cher amie Roderich. Como vai? — o francês me mostrou todo o seu sorriso malicioso e eu quis muito estar morto naquele momento.
— F-Francis...? – perguntei com nítido espanto — Eu pensei que esse fosse o apartamento do...?
— SAPO! EU FALEI PARA VOCÊ NÃO ATENDER A PORTA!
De repente um Arthur enfurecido surge no meu campo de visão e empurra Francis da porta. Fiquei ainda mais embasbacado e confuso com a situação, meu cérebro querendo dar uma explicação para o que estava acontecendo e só chegando a uma, na verdade à várias, mas o que melhor poderia explicar o fato de Francis estar nu no apartamento de Arthur era...
— Você e o Francis... – eu levantei uma sobrancelha em tom de sugestão.
— Não! – o inglês me cortou, enfurecido — Não, claro que não!
— Hum... mas então o que foi que aconteceu ontem à noite, mon Arthur...? – Bonnefoy soltou com um sorriso sugestivo.
— Cale a boca, sapo maldito, e vá colocar uma roupa! – Arthur estava tão vermelho que poderia explodir a qualquer momento. – Você não deveria nem estar aqui!
— Hohoho... Eu gosto desse seu lado possessivo, Arthur. – Bonnefoy mandou um beijo para o ar antes de entrar em um dos quartos.
Eu suspirei aliviado, pois Francis nu no ambiente não era algo que me deixava relaxado. Aliás, aposto que mais ninguém no mundo se sentiria relaxado. Me virei novamente para Arthur, que estava seriamente nervoso:
— Olha... se eu atrapalho alguma coisa... – tentei começar, visto que parecia que eu havia chegado em uma hora muito errada.
— Não! Eu e o francês maldito não temos... exatamente uma coisa, entendeu? – Arthur soltou um suspiro longo de cansaço e eu pude sentir um pouco de tensão saindo dele, apesar de ainda estar agitado. — Ele mora comigo.
Pisquei várias vezes até entender. Os resultados finalmente parecendo fazer sentido diante de meus olhos.
— Bonnefoy era o seu colega de quarto misterioso?
O inglês soltou outro suspiro, como se ele estivesse prendendo muito ar. Talvez estivesse mesmo, visto que ele ainda estava vermelho.
— Sim, é ele. Só não queria que isso se espalhasse...
— Eu não vejo qual era o problema de mais alguém saber, Arthur. – eu interrompi na tentativa de tentar tranquiliza-lo — Afinal, você não está fazendo nada de errado.
— Eu sei... Eu só não queria que algum amigo meu confundisse o que tinha entre eu Francis. Eu estava em um relacionamento com Alfred e ele com um canadense então não acho que seria bom que a fofoca espalhasse.
— Entendi. – eu anui. Arthur me parecia um pouco infeliz ao contar. Foi então que eu me lembrei de um detalhe — Mas... Pelo que eu saiba você não está mais com Alfred. – pontuei.
O inglês ficou novamente vermelho, mas desta vez só nas pontas das orelhas, o que significava que ele estava mais constrangido do que nervoso.
— Erh... Bem... Isso... ahh...
A porta se abriu e Francis saiu de lá inteiramente vestido desta vez. Suspirei de alívio.
— Olá novamente, Roderich. – o francês me cumprimentou — A que devo a honra da sua visita?
— Ah, eu só vim devolver um livro a Arthur – abaixei minha cabeça, sabendo muito bem que não era isso que eu vim fazer na casa de Arthur. Decidi parar de ser um medroso e acrescentei — e também eu... Queria conversar. – fiquei um pouco constrangido.
— Oui, entendi. – ele anuiu com um movimento afetado com as mãos — Eu vou sair para que tenham mais privacidade.
Eu mordi o lábio em sinal de nervosismo, mas acabei falando do mesmo jeito. Afinal eu já estava aqui mesmo, e se havia alguém aqui que conhecia bem Gilbert este alguém era o seu melhor amigo Francis.
— Não... eu acho que tudo bem, Bonnefoy. – apesar de ficar envergonhado talvez Francis pudesse me ajudar.
Ele abriu um sorriso desta vez que pareceu o menos malicioso que eu vira até agora. Era um sorriso simpático, o que me confortou.
— Pois então diga.
Sentamos em dois bancos altos na copa americana da cozinha, enquanto do outro lado Arthur colocava um chá para esquentar (obviamente o Earl Grey, ele acrescentou com tom de dignidade inglesa). Normalmente eu não me sentiria muito confortável em ver Arthur mexendo na cozinha, mas Francis parecia tranquilo. E eu acho que só um chá Arthur seria capaz de fazer sem nenhum acidente mais sério. Por fim, eu suspirei, finalmente iniciando o assunto:
— Gilbert me chamou para sair.
— What?! Sério? – Arthur perguntou bastante surpreso e eu corei.
— Sair? Mas sair tipo... tipo sair num encontro?
— Ele me beijou. – resolvi acrescentar, já esclarecendo a pergunta.
Fiquei mais vermelho ainda quando vi o queixo do inglês cair. Ouvi a risada do francês.
— Eu sabia que era só uma questão de tempo. – Francis respondeu, parecendo verdadeiramente divertido. Ou talvez aquela fosse somente a expressão sincera dele — Mas confesso que Gilbert demorou um pouco.
Eu não sabia se havia entendido direito. Uma vez Arthur havia me dito que Gilbert já pudesse ter um interesse em mim mas... Algo que durasse tanto tempo assim eu não conseguia imaginar.
— Como assim? – perguntei, confuso.
— Roderich... – Francis começou. Arthur ainda estava ouvindo, mas naquele momento eu já havia percebido que Francis estava realmente determinado a me ajudar — Eu acho que você nunca chegou a perceber mas... Naquela época da escola, Gilbert estava com ciúmes de você, não de Elizaveta, mas ele mesmo não se dava conta disso.
Em uma batida do meu coração eu havia sentido o mundo congelar.
Bem, eles poderiam dizer qualquer coisa sobre Gilbert naquele momento que eu ficaria surpreso, mas aquilo era algo que nem em mil anos eu esperava. Gilbert era apaixonado por mim no ensino médio? Não, não era algo concebível na realidade atual. Quero dizer, ele poderia ter se apaixonado por mim como eu achava que estava me apaixonando por eles nestes últimos meses mas... Na escola? Gilbert não podia me ver pintado de ouro. Ele queria Elizaveta, não eu, seria possível que...
Ele estivesse tentando chamar a minha atenção?
— Ah... – fiquei vermelho, meu coração estava acelerado. – Mas como isso...?
— Damn, Roderich! Estava na cara!
— É verdade, Rod, mon amie. – Francis acrescentou — A grande questão aqui é como Gilbert não percebeu isto antes. Talvez ele até agora não saiba.
— Sendo o idiota que ele é. – Arthur revirou os olhos – E o que você respondeu? – partiu direto para o assunto, sendo objetivo como sempre, o meu amigo inglês.
Ajeitei o óculos na ponte do nariz, cobrindo o rosto com a mão durante o gesto para tentar esconder a visível vermelhidão no meu rosto.
— Eu disse sim.
— Ah! L’amour c’est trés beaux, ce pas! — Francis abriu os braços de forma afetada e eu fiquei bastante sem graça. Arthur somente revirou os olhos.
— Shut up!
Os dois começaram uma acalorada discussão envolvendo xingamentos em inglês, francês e alemão. Eu estava perdido demais em meus pensamentos para prestar atenção nos dois, apesar de ter percebido uma intimidade entre Arthur e Francis que até agora eu não havia notado. Devia ser uma das vantagens de ter um colega de quarto. Mas eu ainda estava um tanto transtornado em ouvir deles que Gilbert não só gostava de mim, quanto era algo antigo em que ele mesmo não havia percebido. Mas será que era isso mesmo? Mesmo se fosse, eu estaria satisfeito se Gilbert gostasse de mim pelo o que eu era agora, e não por sentimentos retraídos do passado. Será que eu conseguiria fazer isto dar certo? Quero dizer, o meu relacionamento passado não deu certo por um motivo bastante específico, mas talvez o problema também seria comigo e...
— Roderich. – por incrível que pareça, quem me chamou com a voz gentil e disse as seguintes palavras fora Arthur — Você está sempre assombrado pela sua ex-namorada. Você tem que esquecer isso. Vá em frente, não fique com medo.
Olhei para o meu amigo sobrancelhudo. Talvez eu nunca dissesse isso, mas Arthur era um amigo adorável, tanto quando queria tanto quando não queria. Francis sorriu num sorriso de conforto, sincero e bonito. Esses dois... Lembravam bastante a mim e Gilbert. Mesmo no meio de brigas, confusões e diferenças conseguiam achar uma harmonia. E se Arthur, que havia me dado o seu conselho de amigo havia conseguido achar a sua harmonia, talvez eu também conseguisse achar a minha.
— Eu... – inspirei – Obrigado.
.x.
Quando atendi a porta do meu apartamento, metade do meu nervosismo se esvaiu ao ver Gilbert usando jeans, jaqueta de couro e uma gravata slim. Ele não estava vestido formal, o que me deixava bem mais tranquilo. Mas por outro lado ele estava sensacional e – eu tinha que admitir – terrivelmente sexy, o que não ajudou em nada para me manter cem por cento calmo. Acabei mordendo o lábio inferior sem querer, correndo os olhos pelo albino.
— Hey, jovem mestre! Gostou do que viu? – ele me perguntou com o seu natural sorriso presunçoso e eu senti minhas orelhas esquentarem um pouco. Eu estava sendo óbvio ao secar o seu visual e é claro que ele não ia deixar batido.
— Eu... Eu só estava verificando. – respondi envergonhadamente, sabendo que não teria como eu fugir muito da situação.
— Kesesese! Pode ser sincero, jovem mestre. Porque eu... – desta vez eu senti os seus olhos carmesim sob mim, brilhando como lasers ao me escanear. – Gosto muito do que vejo.
Ahw, droga. Desta vez eu admito que corei, e não foi pouca coisa. Quero dizer, eu nem estava lá grande coisa, sabe? Vesti uma camisa social e um blazer azul marinho, deixando a usual gravata de fora só desta vez. Era um alívio saber que Gilbert realmente iria cumprir a promessa de um encontro “informal” (ocultei a parte que ele disse “e incrível”). Não que um encontro formal não me deixasse à vontade, eu estava bem acostumado e, posso dizer, apreciava ambientes mais lustrosos. Mas isso seria tão não-Gilbert, e eu, no fundo, queria que aquele encontro que ele planejara fosse exatamente como ele: espontâneo, leve e confortável. Sorri de leve ao pensar nisso e de alguma forma me deixou menos tenso.
— Obrigado.
— Jovem mestre, esteja preparado para o encontro que vai abalar as suas estruturas! Eu planejei o encontro do século!
Não pude deixar de soltar uma risada.
— Então me convença. – lancei um olhar de desafio a ele, que fez uma expressão estranha com o rosto, quase como se tivesse perdido o ar, além de uma leve vermelhidão em seu rosto pálido. De alguma forma a sua reação me deixou satisfeito e confiante.
— Vou-lhe convencer é agora! – ele disse após se recuperar. Estendeu o braço para mim, de forma cavalheiresca e a vermelhidão no meu rosto foi vista novamente. Mesmo assim eu assenti com a cabeça e lhe dei o braço. – Vamos? – eu assenti.
Gilbert pediu um carro pelo aplicativo do celular, que já nos esperava na frente do prédio. Ele não havia me dito quais eram o seus planos para esta noite, eu não fazia ideia de onde o carro estava nos levando, e mesmo morando nesta cidade praticamente desde o dia em que nasci eu não sabia dizer onde estávamos. Sim, eu era péssimo com localizações, conseguia me perder facilmente e muitas vezes eu tive que chamar por ajuda – normalmente quem me socorria era Vash – quando eu pegava um condução errada e me perdia por aí. Assim era bem mais fácil de Gilbert manter a surpresa.
Chegamos a uma rua com vida noturna agitada, onde havia vários bares, boates e casas de espetáculos. Era um bairro turístico, o Bermudadreieck. Eu estaria mentindo se eu dissesse que nunca estive em estabelecimentos deste tipo, mas eu particularmente não era o tipo que frequentava muito a vida noturna tirando as casas de ópera e restaurantes que Vash já havia me levado (quando ainda não eram encontros). Fiquei um tanto temoroso com o tipo de lugar que Gilbert iria me levar, afinal eu era um pouco avesso à bebidas e festas.
Mas ao sairmos do carro Gilbert me conduziu a um pub restaurante de ar bem... Jovial. Ao entrar, reparei na decoração de inspiração rock vintage, meio hollywoodiana, mas nada exagerado. Era moderno, porém aconchegante, e eu pude notar como estava cheio – sem estar lotado – de pessoas da nossa idade, muito provavelmente da universidade. Senti uma aura de aconchego, como se eu estivesse lugar certo, na hora certa e com a pessoa certa. Um pequeno sorriso brotou no canto do meu lábio ao pensar Que diferença...
— Jovem mestre, você está bem? – ele se virou para mim com uma expressão de curiosidade – Consegui uma mesa para nós.
— Eu... estou bem. – respondi, não conseguindo conter o pequeno sorriso.
— Gilbert! – ouvi uma voz desconhecida chamar, e junto com ele também virei os meus olhos na direção de quem chamava.
— Lukas! – Gilbert respondeu, e logo eu vi um homem alto – mais alto que Gilbert até – de cabelos louros e olhos azuis cumprimenta-lo.
— E aí, cara! Você tá sumido, nunca mais te vi por aí. Vai aparecer na festa depois? – ele começou a falar de forma informal com Gilbert, o que me fez encolher um pouco. Então este era um dos amigos de “farra” de Gilbert, aquele tipo de pessoa que eu não gostava. Não que eu estivesse incomodado com isso, ou que eu estivesse algum tipo de expressão insatisfeita.
— Não vai rolar, não. Eu... – ele fez uma pausa mas eu não me virei para ver a sua expressão, fazendo uma cara emburrada enquanto olhava para qualquer lugar que não fosse para os dois. – Eu não to muito no clima e estou meio... acompanhado hoje.
Mas então eu me virei bruscamente novamente para ele, que sorria com todos os seus dentes brancos na minha direção. Droga, não core a essa hora! Mas acabei sentindo o sangue subir para a cabeça, o significava que eu estava numa coloração rosa. Me detestei naquele momento e detestei Gilbert por ser tão adorável na frente de outras pessoas!
— Entendi. – o outro rapaz, que tinha um sotaque nortenho, virou-se para mim e por um momento eu senti os seus olhos me secando de cima a baixo. Pelo amor da Virgem Maria, este rapaz não havia acabado de me dar uma secada, havia? E na frente de Gilbert? E tão descaradamente? Céus!
— Mas então, qualquer coisa estamos aí! – ele deu um tapinha nas costas de Gilbert e os dois se despediram, enquanto eu continuava com a minha mais perfeita expressão de incredulidade.
— Esse é o tipo de amigo que você faz por aí? – perguntei ainda surpreso enquanto nos dirigíamos para uma mesa.
Ele deu de ombros.
— Lukas é meio assim mesmo. Não esquento muito com isso, até porque eu não gostaria de puxar uma briga com ele. Já fiz uma vez, não foi legal.¹
Eu olhei para trás por um momento, vendo o rapaz voltar a para a sua mesa onde havia mais quatro rapazes. Ele era bem alto e tinha ombros largos, e algo me dizia que ele poderia ser bem mais forte do que aparentava.
— Tirando isso, eu não me importo muito que as pessoas apreciem as coisas bonitas. – o albino virou-se novamente para mim com aquele sorriso arrebatador e eu realmente queria parar de corar. Droga.
— V-Vamos sentar, Gilbert. – eu me apressei para evitar de parecer ainda mais sem graça.
O lugar era bastante legal, como diria pessoas da nossa idade. A mesa não era muito grande, a luz era baixo e a poltrona confortável, criando um ambiente intimista e acidentalmente romântico. Mas de alguma forma me deixava bem. Gilbert não estava longe demais nem perto de mais, mas a meia luz parecia contrastar a rubidez de seus olhos. Uma garçonete simpática que também tinha a nossa idade entregou o cardápio, sorrindo até um pouco demais ao fazer isso. Eu agradeci gentilmente e comecei a percorrer os olhos no cardápio colorido e jovial.
Mas algo estava me incomodando. Desde que sentamos, Gilbert não havia dito uma só palavra se quer. Eu levantei os olhos do menu para espiar as suas expressões, e percebi que, contrário de mim, Gilbert parecia tenso. Ele olhava para os lados inquieto, como se quisesse dizer alguma coisa. Acabei abaixando o menu e me virei totalmente para ele, esboçando um sorriso gentil na esperança que pudesse acalmá-lo.
— Gilber...
— Ok – ele me cortou – Eu já estou começando a me arrepender disso.
Meu estomago afundou. Meu cérebro quis entrar em pânico, se recusando a acreditar na decepção, por isso acabei tagarelando.
— Se você acha que foi um erro me chamar para sair...
Ouvi o baque alto na mesa quando ele socou a madeira, oque silenciou o ambiente para alguns poucos segundos e virou a minha atenção toda para Gilbert, que parecia estar quase furioso.
— WOW! Pare agora mesmo jovem mestre!
Pisquei algumas vezes, em completa confusão com aquele tipo de reação.
— O que...?
— Eu não quis dizer isso. – o seu tom ainda parecia nervoso, mas não exatamente com raiva – É que...
E como um balão que estourava com uma agulhada, ele murchou de volta para o banco, se encolhendo numa figura frágil e pequena que Gilbert com certeza não era. Acabei por também fazê-lo, sentindo-me intimidado com a mudança brusca de humor.
— O que foi, Gilbert? – eu tentei incentivá-lo a continuar.
Ele prendeu a respiração e soltou lentamente, felizmente voltando ao seu estado calmo, e eu só ficava cada vez mais curioso para saber o que ele tinha a dizer e o que havia mudado o seu humor tão de repente.
— Não foi um erro chama-lo para sair. Na verdade, eu deveria ter feito isso já a muito tempo... – a intensidade das palavras me afetou um pouco, eu confesso, pois meu coração deu pulo e o ar de repente parecia não querer sair. – Mas você não quer, sei lá, sair daqui e tentar outro dia?
Pisquei algumas vezes sem entender. Mesmo sob a pouca luz eu percebi que Gilbert estava ficando cada vez mais vermelho, o que era algo raro de lhe acontecer, e mais uma vez eu me senti perdido. Ele disse que queria sair comigo, mas não parecia confortável, o que era absolutamente estranho pois Gilbert estava sempre folgado em qualquer situação.
— Eu... Eu não estou entendendo... – eu disse de forma fraca e o tom saiu mais choroso e triste do que eu pretendia.
— N-Não é nada com você! Quero dizer... na verdade é mas... arg!
Eu me mantive calado para lhe dar espaço para formular as suas palavras. Mas agora eu também me sentia nervoso.
— Eu acabei te trazendo para cá mas ao topar com o Lukas eu percebi que... Eu deveria ter te levado em algum restaurante fino e sei lá... Algo que fosse lhe deixar mais confortável.
Pisquei mais algumas vezes, encarando Gilbert por vários segundos ao perceber o que foi que havia o incomodado tão de repente. Ele estava inseguro por minha causa. Era até algo engraçado de se pensar, Gilbert inseguro por causa de mim. Então, ele achava que eu não estava me sentindo bem, ou não seria impressionado o bastante por não ter sido levado em algum restaurante caro, numa BMW assim como Vash fez?
Sabe, eu poderia até me sentir ofendido com isso. Quero dizer, ele estava pensando que eu era materialista o suficiente por não ficar satisfeito com o que ele havia planejado para mim. Mas sabe de uma coisa? Eu poderia estar num restaurante três estrelas Michelin ou num pub surrado perto da universidade que não faria a mínima diferença desde que eu estivesse com Gilbert. Afinal, a essa hora nós poderíamos estar assistindo um filme e comendo restos de torta no sofá do meu apartamento que seria o suficiente.
Sempre era suficiente.
Por isso eu fiz um “tsc” com a língua e mexi a cabeça, não conseguindo não sorrir com a súbita insegurança.
— Gilbert, você poderia ao menos me perguntar. Eu estou confortável, gosto daqui.
O seu queixo caiu, numa expressão bastante engraçada que parecia ter saído direto de um desenho animado.
— Q-que v-você disse, jovem mestre? – ele gaguejou.
— Oh, por favor, Gilbert. E sinceramente, eu não estou com paciência para restaurantes finos e formalidades.
Antes que ele pudesse dizer alguma coisa, a garçonete sorridente retornou. Ela tinha o cabelo preso encaracolado e usava um batom da moda nos lábios.
— Meninos, vão querer fazer um pedido ou querer alguma bebida?
Olhei rapidamente para o menu caído na mesa e sorri, dizendo:
— Um hi-fi para mim, e você Gilbert?
O queixo dele ainda parecia caído.
— Gim tônica para ele. – respondi. A garçonete pareceu achar graça mas escreveu os pedidos assim mesmo, e antes de sair ela piscou para mim, o que eu não sei se levantou a minha auto estima ou me deixou sem graça.
A expressão de Gilbert estava mais engraçada do que nunca.
— O que foi? – perguntei estampando o sorriso mais malicioso que eu sabia dar – Não gosta do pedido?
— Gosto! – ele se apressou em me responder – Gosto sim... É que.. jovem mestre! Wow, eu não estava preparado.
Eu acabei por soltar uma risada tímida. Felizmente me ajudou a relaxar, e eu pude perceber que ele também parecia menos tenso.
— De alguma forma, você está sempre me surpreendendo, jovem mestre.
Eu iria agradecer pelo cumprimento, mas decidi deixar no ar, lhe lançando um sorriso pretensioso. Na verdade, eu mesmo estava me surpreendendo com meu comportamento. Eu nunca fui muito dessa forma, eu podia dizer que eu mal sabia flertar. Eu não sabia o que estava se passando comigo nesta noite, mas ao ver que Gilbert pareceu ter ficado um tanto desconcertado com o meu flerte eu decidi continuar. Eu estava gostando daquele jogo, aquele clima de conquista e queria também impressioná-lo.
Após terminar as nossas bebidas pedimos o prato, uma costela italiana bem servida. Sinceramente, eu não entendia porque Gilbert estava subestimando a minha capacidade de me adaptar aos locais que ele frequentava. Na verdade eu estava me sentindo bastante bem no meio do ambiente descontraído e jovial, o que bem, nunca foi realmente a minha cara. Mas era a cara de Gilbert, e de alguma forma ele fazia eu me encaixar. Ao fundo tocava uma música que já poderíamos considerar antiga, um rock dos anos 90 do Oasis, o que acabou me distraindo. Quando dei por mim eu já estava cantarolando baixinho.
— Hey, jovem mestre. Pensei ter dito uma vez que não gostava dos Beatles.
— Isso não é Beatles, seu bobo. – sorri, achando graça da sua confusão.
— Qualquer um que é fã de Oasis também é fã de Beatles, não tente me enganar.
— Ora, qual o problema de gostar de um e não gostar de outro?
— Jovem mestre, quem diria que você é um hipster diferenciado?
Não consegui me controlar e cai na gargalhada. O assunto por si só já era ridículo e aquela era a primeira vez que me chamavam de hipster e eu só conseguia achar tudo muito engraçado. Ele me acompanhou na risada, não daquela forma escandalosa como ele sempre fazia quando estávamos no apartamento, mas era uma risada gostosa, sincera e confortável. E eu só conseguia me sentir bem de ter aceitado aquele encontro.
— Finalmente descobri a sua identidade secreta de amante de música noventista.
— Gilbert... Gilbert... Acha que eu não me lembro de ter ouvido o seu celular tocando REM em looping na primeira vez que estive em seu apartamento? – lancei meus olhos desafiadores para ele, que por um momento perdeu toda a pouca cor que eu seu rosto tinha, ficando mais branco do que o normal.
— Ah, não. Você ouviu aquilo?
Gargalhei ainda mais. Além de tudo o que havia acontecido naquela noite era algo que eu lembraria. Quando eu estava quase caindo no sono percebi o pequeno ruído saído dos fones de ouvido do seu celular. Gilbert estava tão mal que nem havia percebido, mas eu reparei que deveria ter horas que ele ouvia Losing My Religion no celular. O que na hora eu poderia não ter reparado, mas hoje eu penso que Gilbert estava com um pouco de ciúmes do meu encontro com Vash...
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Gilbert me convidou para andar em uma praça, pois segundo ele “queria me mostrar uma coisa”. De fato ainda não estava tarde e apesar de ser noite o local estava bastante iluminado e movimentado. Era um parque simples com algumas árvores e um chafariz. Posso dizer que o passeio entre as árvores me agradou bastante, e afinal, Gilbert era uma boa companhia. Afinal, por mais banal que fosse nós sempre tínhamos assunto para conversar.
Chegamos ao centro e eu vi qual era a “surpresa”. Havia uma banda com alguns instrumentistas clássicos que eu reconheci do campus do Conservatório. Eu lancei o olhar para Gilbert, num sorriso surpreso e ele deu de ombros, convencido, como sempre.
— Fiquei sabendo que essa banda ia se apresentar aqui hoje e resolvi dar olha olhada.
— Gilbert, você não gosta de música clássica. – eu ri, ainda encantado.
— Ora, não estou vendo nenhum piano.
Não pude deixar de rir, mais uma vez.
— E além disso... quem disse que era música clássica, jovem mestre?
Quando os instrumentos de sopro começaram eu levei um rápido susto, tal foi a surpresa da música. A pequena orquestra de rua tocava o tema de Star Wars, de John Williams. O que, como não poderia deixar de ser, chamou a atenção de praticamente todas as pessoas que passavam pela praça, logo se formando uma considerável plateia ao seu redor. O meu sorriso se abriu no meu rosto de tal forma que não conseguia mais se desfazer, e Gilbert obviamente notou isto.
— Surpreso? – ele disse sussurrando em meu ouvido, fazendo o meu corpo se esquentar e um arrepio discreto subir pela coluna. Eu assenti com a cabeça, sem desviar os olhos da pequena orquestra. Eu sabia que Viena era a capital da música e que não era tão raro ver artistas se apresentando pela rua, mas eu andava tão recluso, tão preso nos meus afazeres e responsabilidade com os estudos que mal saía para ver a cidade e aproveitar todo aquele ar artístico e cativante.
Deixamos alguns euros dentro do estojo de violino em frente à banda quando a música terminou. Mas eles prosseguiram com mais músicas do compositor de filmes famosos, e eu e Gilbert não conseguimos não ficar até o fim da apresentação. Tanto porque eu estava fascinado pela música e porque Gilbert, em algum momento, havia pegado em minha mão e desde então não a soltou.
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Voltamos para casa quando a apresentação terminou. Não é como se fosse muito tarde, o relógio ainda estava para bater meia noite. Mas estava um tanto frio, e apesar do passeio ainda estar bastante agradável, tanto Gilbert quanto eu concordamos que o melhor lugar para ir em seguida seria para o conforto de casa.
Fizemos uma pequena caminhada, mas acabamos pedindo por um carro também na volta, apesar de eu ficar muito bem pegando um metrô. Gilbert insistiu em pagar o aplicativo mas acabamos dividindo, mesmo que eu não gostasse muito da ideia de gastar dinheiro eu sabia que a situação financeira do meu vizinho não era lá das melhores. Não que isso me incomodasse também, na verdade. Afinal, esta noite eu havia descoberto que um passeio simples e barato conseguia me agradar tanto ou mais que uma ida a lugares mais caros.
Então, finalmente chegamos à porta do meu apartamento, oficialmente terminando o encontro. Nós nos encaramos sem dizer nada. Não que eu estivesse sem graça, acho que o sentimento era de não querer que a noite terminasse. Era o meu sentimento, e tudo indicava que este era o dele também.
— Gilbert... – eu acabei quebrando o silêncio. Mordi levemente o lábio num movimento involuntário enquanto o encarava, o que acabou atraindo a atenção dos olhos vermelhos para o lugar. Quando eu dei por mim, Gilbert estava bem próximo, talvez até um pouco demais – Eu não quero que você se preocupe com aquilo que me disse no restaurante. Eu gostei muito de hoje. Do nosso... ahn... Encontro.
— Rod. – ele respondeu, por fim desviando atenção dos meus lábios, apesar de ainda estar numa proximidade perigosa – Você não precisa dizer isso para eu me sentir melhor.
Balancei a cabeça, me sentindo estarrecido com a sua falta de confiança.
— Eu estou falando sério, foi... foi muito divertido.
Eu estava sentindo toda a intensidade dos olhos de Gilbert sobre mim. Aquele vermelho intenso. Eu sabia o que ele queria. E ele sabia que eu sabia o que ele queria, mas hoje Gilbert estava estranhamente inseguro. E saber que aquela insegurança era por minha causa não me deixava exatamente feliz ou confiante, mas motivado a lhe mostrar que não era preciso. Que era só eu e ele não precisava se esforçar para me agradar.
Por isso fui eu que me inclinei e selei os meus lábios nos dele, jogando as minhas mãos em seus ombros para senti-lo melhor. Eu ouvi que ele fez um pequeno barulho, como um suspiro de susto antes de entender o que estava acontecendo, mas rapidamente Gilbert tinha as suas mãos devidamente colocadas em minha cintura e ele correspondia o beijo. Senti a língua molhada pedir permissão para adentrar a minha boca e logo o beijo se tornara mais profundo e longo. Ele puxou a minha cintura contra o seu tronco e agora eu estava totalmente colado nele, e completamente perdido nos meus pensamentos.
A ultima vez que ele me beijou foi a mesma confusão de sentimentos e saliva. Era como se eu nunca houvesse sido beijado antes, pelo menos não daquela forma tão desejosa e desesperada. Gilbert me apalpava e me sugava como se eu fosse a coisa mais excitante do mundo e Céus! Naquele momento Gilbert era a coisa mais excitante do mundo. Eu não consegui me conter a afundei meus dedos longos na sua nuca, puxando os fios de cabelo brancos como a lua. Eu ouvi um rosnado, céus, um rosnado vindo de Gilbert e ele mordiscou o meu lábio inferior. Um som escapou da minha garganta, um gemido leve e, posso dizer, vergonhoso, que me fez separar brevemente os lábios do dele.
— A porta... – eu tentei dizer em meio aos braços dele. Neste momento, Gilbert me virou – não de forma violenta – pressionando o meu corpo contra a madeira da porta. Os seus lábios agora faziam um bom trabalho sugando a pele do meu pescoço e eu podia sentir a sua virilha contra as minhas nádegas. Oh, céus.
— Abra. — foi o que ele disse no momento ouvido com a voz mais rouca do que o normal, o que fez um arrepio forte subir a minha espinha e provocar uma reação involuntária na minha própria virilha. Mordi meu lábio com força e passei a procurar as chaves no bolso, mas estava muito difícil com a língua de Gilbert trabalhando no meu pescoço. Quem encontrou as chaves fora Gilbert, ao meter as mãos desavergonhadamente no bolso da minha calça. E eu senti a intensa apertada enquanto ele fazia isso.
— Ah... — soltei novamente um gemido, me envergonhando cada vez mais por esses sons patéticos. Gilbert mordeu a pele do meu pescoço, e eu logo em seguida abria a porta do meu apartamento enquanto tropeçávamos para dentro.
Em algum momento eu me virei novamente para ele, voltando a beijá-lo enquanto a porta era misteriosamente fechada atrás de Gilbert. Eu nem sabia mais o que estava fazendo. Eu só sabia que de alguma forma estávamos andando enquanto a minha boca estava sobre a dele. Eu nem lembrava a ultima vez que havia beijado alguém daquela forma. E em pensar que a alguns meses atrás Gilbert seria a ultima pessoa com quem eu teria um encontro perfeito, que me beijaria como se eu fosse a pessoa mais desejada desse mundo, e eu que eu deixaria entrar no meu apartamento que fizesse o que quiser comigo.
Acabamos encontrando o sofá, e logo eu estava deitado sobre o acolchoado enquanto Gilbert prensava o meu corpo e me beijava. As minhas mãos encontraram o caminho para suas costas que eram largas demais para a minha sanidade, e ainda estavam cobertas pela jaqueta de couro para a minha infelicidade. Interrompi o beijo, me inclinando para cima para fazer questão de tirar a sua jaqueta.
— Rod...– ele disse nos breves momentos que os nossos lábios se separaram.
Ele arrancou a jaqueta de couro, deixando cair desleixadamente em algum lugar do tapete, e eu pude sentir por cima do tecido da camisa os músculos firmes das costas de Gilbert. Eu sabia que ele tinha ombros sensacionais desde o ensino médio mas aquilo era ridículo. Firme, forte... Arranhei com vontade, sabendo que o tecido não iria machuca-lo.
— Roderich...
Eu estava satisfeito de ouvi-lo chamar o meu nome. Muito satisfeito. Me deu uma breve sensação de controle que logo se extinguiu quando ele voltou a me beijar, sugando a minha língua com desespero e intensidade. Enquanto ele fazia coisas maravilhosas com a língua eu mal percebi que Gilbert estava localizado no meio das minhas pernas, e que o seu recém adquirido volume se encostava no meu, me causando arrepios mais intensos.
Oh, não.
Os dedos de Gilbert nunca fizeram algo tão rápido quando abrir os botões da minha camisa enquanto a sua boca estava no meu pescoço. E fazendo isso eu comecei a perceber o que estava acontecendo ali.
Oh, não, não...
Os dedos quentes de Gilbert acharam o meu abdômen, começando uma caricia com toda a palma da mão. Os seus lábios desciam do meu pescoço, deixando uma trilha quente.
— Gil...bert... – eu tentei chama-lo mas de nada adiantou.
Os lábios de Gilbert finalmente alcançaram um mamilo, e um gemido bem mais alto escapou da minha garganta com a língua começou a acariciar aquela área tão tão sensível. Eu sentia ele se enrijecer com a sua provocação e eu sabia que aquele caminho não teria volta.
— Os seus mamilos são rosa, jovem mestre. – ele disse da maneira mais sem vergonha possível – Será que aqui você também é... – foi então que ele desceu as suas mãos e apalpou a minha ereção por cima da calça.
OH, NÃO!
Me contorci e soltei um gemido com a sensação inédita. Mas logo em seguida tomei a reação mais inesperada possível naquele contexto, estapeei a sua mão e tirei ela dali.
— Rod?! – ele me questionou, virando o rosto para mim.
Eu fiz o movimento mais estúpido do universo: me contorci de tal forma que eu... cai do sofá. O gemido que escapou da minha boca agora fora de dor com o impacto, mas me serviu para despertar também do que eu estava prestes a fazer.
— Roderich?! O que... Você está bem? – Gilbert também se jogou do sofá, caindo de joelhos na minha frente, num movimento bem mais suave.
— Desculpe-me, Gilbert... É que... Eu não quero... fazer isso... agora. – desviei os meus olhos para o chão, com medo de encará-lo e de ele me odiar para sempre.
Eu estava me sentindo patético, ridículo, a mais perfeita figura de um completo otário. Mas era isso, era quem eu era. Eu não queria que eu e Gilbert fizéssemos isso agora. Quero dizer, Gilbert estava acostumado com casos de uma noite mas eu não. E não era só isso. Eu não queria que esse encontro fosse só isso afinal, um caso de uma noite. Aquele era só o primeiro encontro, uma virada do que foi o nosso relacionamento de gato e rato por anos. Eu sentia que se nós consumíssemos o ato naquela noite ia por água abaixo tudo o que lutamos para mudar. Era uma questão conceitual. De dar o tempo o seu ritmo das coisas. E além disso eu ainda não havia me acostumado a ideia de voltar a fazer... bem... sexo. O meu corpo mal se lembrava de como era isso e eu não queria estragar tudo com atitudes impensadas. Não com Gilbert.
Mas eu não sabia como dizer isso tudo à ele. Gilbert era um rapaz moderno e que estava acostumado com isso. Não devia nem fazer tanto tempo desde a ultima vez que ele estivera com alguém. Com certeza ele estar com pressa para terminamos logo isso e me arrastar para a cama, e como eu poderia fazê-lo entender que eu estava num ritmo diferente do dele?
— E-eu não sei se e-estou preparado pra isso a-agora e... – eu tentei começar.
— Tudo bem. – foi a resposta simples e rápida dele.
Eu me virei para ele, que me encarava com os olhos tranquilos, transbordando nada mais do que pura compreensão. Neste momento eu corei e me senti ainda mais um estúpido.
— Me desculpe por isso.
— Não, você está certo, Roddie. Eu que não devia ter apressado as coisas com você. – ele suspirou longamente, querendo parecer se acalmar. Eu não o culpava, o meu corpo também ainda estava quente de todo o contato e provocação, mas o contrário dele eu não sabia o que faria a seguir quando as coisas começassem a tomar o seu rumo.
— Gilbert... Não é nada com você, eu só... – eu tentei novamente, mas desta vez Gilbert me interrompeu com um selinho nos lábios.
— Está tudo bem, jovem mestre. – ele disse, praticamente contra a minha boca, o que me provocou outro arrepio. Eu ainda tinha os olhos fechados do beijo súbito, tanto que não havia reparado que ele havia apanhado a jaqueta.
— Boa noite.
Ele se levantou, finalmente se afastando de mim. Eu soltei um suspiro cansado, um tanto infeliz por ter dado aquele fim à noite, mas ainda assim satisfeito com tudo o que havia acontecido. Ele se dirigiu a porta, e antes dele sair me virei para ele, esboçando o meu melhor sorriso sem graça.
— Boa noite, Gilbert.
Mas ele sempre tinha um jeito de ter a palavra final:
— Sonhe comigo!
E então, saiu.
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