Paredes Finas
9 De Queen à R.E.M. [Gilbert]
Notas iniciais
Eu nunca fui um cara lá muito sentimental. Afinal, eu não seria incrível se não fosse extremamente de boa e deixasse tudo sem a estressante mistura de sentimentos envolvidos. Não que eu não tivesse sentimentos é claro! Afinal eu podia afirmar com todas as letras que eu amo muito o meu querido irmãozinho, o meu pássaro, o meu avô e a minha querida nação Prússia! Além de também amar uma boa e bela cerveja (sim, é amor e é de verdade).
Então não havia explicação para eu ter levado para o lado pessoal quando o jovem mestre furou comigo. Mas mesmo que eu tivesse tentado tirar aquela história da cabeça eu tinha que admitir para mim mesmo: eu estava chateado com ele. Até porque eu havia mesmo ficado empolgado em sair com o Roddy, mesmo que fosse só casualmente como amigos. Eu já o considerava como uma constante na minha vida assim como Antonio, Francis e Ludwig. E sinceramente, eu não costumava a esquentar a cabeça quando algum imprevisto acontecia e eles desmarcavam, afinal eu sou mesmo um cara incrivelmente de boa. Mas por quê o cancelamento com o Roddy me afetou tanto? Não faço ideia.
A verdade é que ele tem me afetado... um pouco. Droga, quem eu to querendo enganar? Eu não conseguia mais ficar um dia sem a presença da cara arrumadinha do Roderich. Dessa vez eu estava realmente convencido que ele havia feito um feitiço poderosíssimo para prender a minha magnifica pessoa em suas garras! A comida dele era ótima, as refeições eram divertidas, as sessões de filme e música então eram... sei lá, eu não conseguia explicar! Só a presença dele me deleitava e eu não via o tempo passar.
Sabe, depois que você passava a conhece-lo melhor descobria o quanto o Roddy era um cara legal. Tirando o fato dele cozinhar muito bem e ter o piano como uma extensão de sua alma ainda houve varias coisas sobre ele que me deixaram surpreso. Roderich também sabia tocar violino, e gostava mais de sinfonias, mas sentia-se mais confortável tocando o piano. Ele tinha pavor de peixes e animais marinhos (acho que por isso ele detestou Pacific Rim). Ele gostava de tomar chá pela manhã mas era apaixonado por café da Starbucks, mas era pão duro de mais para comprar um no caminha da faculdade (prometi que aprenderia a fazer um frapuccino de chocolate tão bom quanto!) e por incrível que pareça ele não gostava só de música clássica, a banda de rock que ele mais gostava era Queen (mas ele também apreciava outras bandas de indie rock). Ele também era apaixonado por doces e tinha que se controlar para não devorar uma caixa inteira de chocolates por vez.
Mas o que mais me deixou surpreso foi o fato dele também gostar de caras. Quero dizer, eu nunca nem tinha imaginado a possibilidade antes (ok, talvez eu até tenha). Mas depois do namorado dele com a Elizaveta e todo o ciúmes que ele sentia quando eu tava perto dele, e a cena que ele fez quando nos viu juntos depois que ele terminaram... Enfim eu sempre pensei que Roderich fosse um cara 100% hetero.
(Mas quem hoje em dia é 100% hetero também?)
Incrível o que a vida pós-escolar faz com a gente. Quero dizer, quando estudávamos juntos eu pensava o quanto ele era um cara mesquinho e chato. Eu mal conseguia me aproximar sem receber aquele olhar de reprovação e superioridade que eu mais detestava! Eu o achava um chato, um esnobe, um maldito jovem mestre. Afinal, naquela época Roderich só pensava em se isolar pra tocar o seu piano e no máximo sair com a Lizzie. Era uma verdadeiro milagre se ele era simpático com alguém. Hoje em dia talvez eu ache que ele só era isolado, ou que no geral não gostava de conversar com pessoas que ele não conhecia, apesar de ser extremamente educado. Era como eu o via hoje.
É... a minha opinião havia mudado bastante.
Hoje eu passei o dia inteiro fora de casa. Não que eu estivesse evitando o jovem mestre, longe disso! Não, eu não são tão imaturo assim. É sério! Eu tinha ido procurar um emprego de meio período — já que ainda era muito cedo na universidade de conseguir um estágio – fiz uma entrevista para uma loja de mecânica. Por sorte eles veriam a incrível pessoa que eu sou e me dariam o trabalho! Quando eu estava chegando no meu prédio eu vi novamente aquele carro parado na porta. Uma BMW X6 2015 preta não era algo que eu esquecia facilmente, principalmente estacionado num prédio de majoritariamente habitado por universitários e baixa renda. Quando dei por mim já estava assobiando para aquela belezinha. Então reparei o homem encostado naquela escultura de arte em formato de carro. Eu bem me lembrava dele: cabelos loiros até a altura do queixo, olhos verdes, postura séria, cigarro entre os dedos e um olhar de “eu-odeio-tudo-e-todos-e-gostaria-que-todos-vocês-morressem”. Não que me intimidasse.
— Wow. Que máquina, amigo. – comentei, me aproximando do outro que no mesmo momento desviou o olhar para mim, que naquele momento parecia só “eu-odeio-você-e-espero-que-morra”.
— Perdão, nos conhecemos? – perguntou, um sotaque diferente do de Viena (talvez suíço?), enquanto enfiava o cigarro num cinzeiro portátil engraçado que parecia até aqueles relógios de bolso. Esse cara transpirava riqueza e finesse, assim como outra pessoa que eu também conhecia.
— Nah, mas eu moro aqui. – me aproximei e estendi a mão, a qual ele apertou com um ar de desconfiança no olhar. — Sou Gilbert Beilschmidt.
— Gilbert... – ele pareceu ficar pensativo.
— Eu acho que já o vi antes. – comentei, voltando a analisar o carro. Sério, não tinha como tirar os olhos daquela máquina! Além disso, o tal podia até ser bem arrumadinho mas eu não estava interessado. O que se tratando de mim era até estranho, visto que aquele olhar de irritação era definitivamente algo que me excitava. Exatamente meu tipo. — É amigo do Roddy? – perguntei.
— Roddy? – o loiro mesquinho me olhou com estranheza – Roderich. Sim, eu sou. Na verdade eu tenho um encontro com ele hoje. Meu nome Vash Zwigli.
Me calei por alguns instante em completo estado catatônico. Ele tinha mesmo dito que tinha um encontro com o Rod? E assim, dando toda a ênfase na palavra encontro? Ele? Com o Roddy? Ah, você só pode tá de brincadeira comigo. Então foi por causa dele que o jovem mestre desmarcou comigo.
— Encontro, é... – comentei, desacreditado, mais para mim mesmo do que pra ele.
Vash – o loiro arrumadinho – voltou a vasculhar o bolso a procura de cigarros. Ele colocou um na boca e soltou a fumaça para o alto, soando esnobe até mesmo quando fazia isso. Eu poderia até me perguntar o que o Rod viu nele, com toda aquela postura tensa, totalmente oposto de mim. Mas então eu percebi. Tava na cara que ele era um ricaço. E caras finos e ricos pareciam ser exatamente o tipo dele.
Porque, vejamos, o Rod iria se interessar logo por mim? Eu sou o total oposto dele, eu sou barulhento, gosto de beber e sair com os amigos enquanto ele é reservado e gosta de programas caseiros. Ele é fino e eu não sou. Ele gosta de música clássica e eu não. Ele come comida integral para não engordar e odeia exercícios físicos, enquanto se eu não correr no mínimo por duas horas por semana eu não consigo gastar energia. Ele gosta de livros de romance e eu de manual de carros. Nada parece se encaixar entre nós dois. Eu persegui e perturbei o garoto durante três anos no colegial porque achava engraçado. Como que o jovem mestre algum dia poderia se atrair por mim? Enquanto ele, esse tal de Vash, eu mal conhecia mas só de olhar pra postura dele eu sabia o quanto ele era parecido com o Rod. Eu já até podia imagina-lo levando o jovem mestre num restaurante caro, e dando vários outros presentes igualmente caros para ele, e o jovem mestre com os olhos brilhando de satisfação por ser tratado como o verdadeiro filho da aristocracia que ele realmente é. Eu nunca conseguiria agradá-lo como esse tal de Vash. E a plena consciência disso me deixava... irritado.
— Tsc. É a cara do jovem mestre sair com caras como você. – meu tom de voz acabou saindo mais amargo e irritadiço do que eu planejava. Mas sinceramente? Eu não te nem aí pra esse suíço metido a besta.
Ele estreitou os olhos, me olhando de uma maneira irritante que parecia dizer que ele sabia que eu sabia disso, como um desafio. Aceitei o desafio, me prostrando para a frente para que ficasse claro que eu era mais alto e mais forte e que não tinha medo de uma provocação dele. Até que um inesperado sorriso, quase sádico, surgiu em seu rosto.
— É verdade. Roderich precisa de alguém a altura dele. – ele me provocou e eu estreitei os olhos.
Eu estava começando a ficar realmente irritado com aquele almofadinha maldito. Ok, eu já sabia que não era exatamente o tipo ideal do Roderich mas precisava ficar jogando isso na minha cara com aquele ar de superioridade? O desgraçado parecia que estava só esperando para que eu finalmente explodisse para discutir com ele. Mas eu não ia dar esse gostinho à ele. Eu era muito mais controlado do que eu aparentava. Mais do que isso, eu sabia escolher as minhas brigas, e brigar com aquele cara não iria me trazer benefício algum além de chatear o jovem mestre por discutir com o encontro dele. Arg. Não que eu me importasse em chateá-lo, é claro.
— Ah, é? Então bom encontro pra vocês dois. – finalizei dando as costas para ele, que não disse mais nada. Parecia decepcionado com a minha falta de combatividade. Mas eu não tava nem aí. Melhor pra ele que não ficaria com a cara suíça arruinada pro encontrozinho dele. Como eu disse eu sou um cara muito controlado e que não havia ficado chateado com a noticia que o Rod trocou uma noite incrível comigo por aquele riquinho metido.
.x.
Eu estava puto da vida.
Depois que eu cheguei no meu apartamento e a ficha caiu que o jovem mestre estava saindo com outro cara que finalmente apareceu uns sentimentos esquisitos como raiva e inconformidade. E isso me dava ainda mais raiva e vontade de revirar a casa porque eu não queria estar sentindo essas coisas por causa dele. Eu não estava com ciúmes dele. Eu não queria estar com ciúmes dele. Mas CARAMBA por que estava sendo tão difícil de lidar? Eu já havia me jogado no tapete de sala e estava me debatendo de raiva quando o fone que estava no meu ouvido começou a tocar uma música aleatória e de repente eu estava preso num clipe do R.E.M.
Ah, que legal, só falta isso: uma boa música pra entrar na bad e me sentir miserável!
Me acalmei e fiquei deitado no tapete, remoendo a minha raiva e permitindo que a música me deixasse triste, afinal era pra isso que existia as músicas tristes, não é? Deixei a música tocar em looping umas três vezes só para eu me sentir um pouquinho pior, até que meu estômago decidiu reclamar de fome. Droga. Eu esqueci que hoje o Rod não ia jantar comigo já que ele preferiu a companhia do nada incrível riquinho suíço. Eu havia me esquecido de passar no mercado para comprar qualquer coisa para comer e tinha certeza que em casa não tinha nada, já que tudo ficava estocado na casa dele e infelizmente eu não tinha a chave do apartamento dele. Bufei de raiva, querendo me fundir com o chão. Eu não estava com a mínima paciência e vontade de pedir comida.
Indo até a cozinha na minha geladeira não tinha uma mísera lata de cerveja. Eu tinha uma garrafa d’água, um vidro de perfume da Calvin Klein (ei! O que ele tava fazendo aí? Eu tava procurando ele a dias!), um pedaço de salame e um prato com um resto de pizza.
— Vai ser isso mesmo. – eu disse para mim mesmo, metendo tanto a pizza quanto o salame no micro-ondas. Meti pra dentro.
.x.
Sabe aquelas vezes que você se arrepende tanto de tudo que fez que acha que só voltando no tempo poderia concertar tudo? Era a minha incribilíssima pessoa neste exato momento.
Pra começar que eu me arrependia amargamente sim de ter comido aquele troço no alto da minha irritação ao som de Losing my Religion. Sério, não deu duas horas e meu estômago se revirava loucamente dançando a ragatanga e eu não me lembrava de ter ficado tão enjoado na minha vida. Tem certeza que homens não podiam engravidar? Parecia que tinha um bicho vivo dentro de mim. Eu tava me sentindo tão mal e tão enjoado que quando dei por mim já estava mandando mensagem para o jovem mestre, mesmo sabendo que ele estava em um encontro, e que se fosse eu no lugar dele não voltaria pra casa tão cedo. Bem, se pelo menos fosse eu no lugar daquele tal de Vash não deixaria um cara como o Roderich escapar tão fácil. Ele seria um completo idiota se deixasse o Roderich ir.
E aparentemente ele era um total e completo idiota incompetente. Porque lá estava eu, vomitando a minha alma e torcendo pra maldita bactéria que eu tenha pego naquele pedaço de pizza amaldiçoado fosse privada à baixo quando o Rod apareceu na minha frente no corredor. E com remédios e a maior cara de preocupação do mundo.
Sério, o que foi que eu fiz pra merecer isso?
O restante da noite eu queria muito bem dizer que eu não lembrava. Sério, faria tudo tão mais fácil para mim se a minha mente decidisse deletar o que eu vivi no momento febril. Mas não, estava lá estampado na minha mente para eu me lembrar da burrada que eu fiz.
Eu beijei Roderich.
Não, não somente eu beijei ele como eu fiz isso quando eu estava com febre e meio acordado!
Quero dizer, eu sou tão estupidamente idiota que eu pensei que estivesse sonhando. Afinal o jovem mestre estava na minha cama, ao meu lado. E ele estava tão lindo com o sol da manha batendo nos fios castanhos e refletindo um tom de cobre, os olhos brilhando num azul que beirava ao violeta – sabe, aquela cor sobrenatural que a Elizabeth Taylor tinha – a camisa social com os primeiros botões abertos, os apetitosos lábios entreabertos. Ele só podia ser fruto dos meus sonhos. Então eu fui lá e... beijei. E pelo amor da santa mãe Prússia, eu esperava que beijá-lo fosse bom, e apesar de ter sido um beijo leve e carinhoso, foi bom até demais. Não podia ser real. Não mesmo. Era bom demais pra ser verdade.
Eu só percebi que eu não estava sonhando quando acordei algumas horas depois. Entrava pouca luminosidade no meu quarto, apesar do relógio apontar que já era uma hora da tarde. Na cabeceira da minha cama havia uma garrafa de isotônico e alguns remédios. E junto deles um bilhete:
Não se esqueça de tomar seus remédios e se hidratar.
— R. E.
Mais uma vez eu pergunto: o que foi que eu fiz para merecer isso? Eu devia ter acertado em algum tipo de loteria cósmica. Sério, jovem mestre, como você pode ser tão malditamente perfeito? O meu coração de ferro até deu um pulo com a mensagem e eu tinha certeza que estava ficando vermelho. Eu estava com vontade de sair pulando dali e abraça-lo, mas assim que eu me movi a minha barriga doeu como o inferno. Então eu só pude tomar meus remédios e ficar remoendo de dor na minha cama.
Mais tarde naquele mesmo dia eu ouvi leves batidas na porta. Eu só tinha saído uma vez para ir ao banheiro e depois voltei a minha morte horrível no quarto. Eu não sentia mais febre, mas a barriga doía algumas vezes e eu me sentia especialmente fraco. Que droga de dieta zoada eu tinha. Bem que o Rod havia me avisado para me alimentar melhor. Eu respondi com um resmungo e a porta se abriu.
Era Roderich, trajando suas habituais roupas de sábado: camisa lisa e calça jeans. Pra dizer a verdade havia algo que me chamava a atenção no visual formal dele de camisa e calça social, mas havia algo que especialmente me chamava atraía quando ele estava despojado e relaxado. Ele parecia mais humano e alcançável para mim, e de alguma forma eu achava terrivelmente sexy. Roderich também trazia uma bandeja nas mãos com um cheiro que poderia ser mais atraente se eu não estivesse excessivamente enjoado.
— Jovem mestre. – tentei sorrir sem parecer que estava sentindo dor. Acho que não deu certo.
— Gilbert, vim ver como estava. – ele se aproximou, colocando a bandeja em cima da minha cama. Me aproximei com curiosidade. – Fiz um mingau já que você está doente. Achei que tinha que comer alguma coisa.
Oh, merda. Aquela palpitação de novo.
— Preocupado comigo, jovem mestre? Kesese. – provoquei. Eu o vi franzir o cenho.
— É claro, você estava febril ontem, caso não se lembre. – a expressão do rosto dele era visivelmente de preocupação, e se ele me olhasse assim mais um pouco eu era capaz de entrar em pânico.
— Eu... lembro. – desviei o olhar, me tornando subitamente consciente do beijo que trocamos ontem. Eu não queria deixar o clima estranho entre nós, mas eu não sentia que seria capaz de falar sobre isso no estado de saúde em que eu estava.
E felizmente ele também não disse nada.
— Por favor, tente comer alguma coisa. – ele disse e eu quase me derreti. Se eu não tinha fetiche por enfermeiras antes agora eu totalmente tinha. Mas eu nunca tinha pensado que o paciente dessa situação está fraco demais pra fazer alguma coisa. Maldito estômago.
— Eu... – tentei começar, mas o olhar dele me fez desistir de qualquer coisa que eu tenha pensado dizer – Tudo bem.
Eu comecei a comer e ele me ajudou, e a cada colherada eu só conseguia pensar no quanto eu estava condenado.
.x.
— Isso me parece um pouco difícil.
— Nah, é fácil. Você pega o jeito.
Acabamos por passar aquele final de semana assim como o outro no meu apartamento, o que era uma novidade já que normalmente ficávamos no apartamento dele. Roderich parecia estranhamente interessado no meu XBOX então decidi convidá-lo e tentar ensina-lo a jogar. Era verdade que ele parecia estranhamente fofo quando estava concentrado, ou mesmo quando fazia uma careta aborrecida por estar falhando. Quando eu havia começado a notar isso? Sei lá, mas agora eu simplesmente não conseguia mais deixar de notar.
A semana se passou num ritmo esquisito. Eu fiquei uns dois dias imóvel me alimentando de algumas frutas e coisas “saudáveis” que o jovem mestre havia comprado para mim. Ele me fez prometer que iriamos fazer compras e que eu teria algo a mais na cozinha que não fosse cerveja, vodka ou pó de café. Eu não pude deixar de concordar. A terça-feira de compras no mercado foi o dia em que passamos mais tempo juntos. Ele havia dito que tinha uma prova para a próxima semana e precisava praticar. Assim nós jantamos algumas vezes juntos, na maioria das vezes rápido para que ele pudesse retornar ao chatíssimo e nada incrível Stravinsky dele.
Nenhum de nós falou sobre o beijo.
Acho que ele pensava que eu havia esquecido, por causa da febre e tudo mais. Quando na verdade eu só não tinha coragem de conversar sobre isso. Queria pelo menos esperar ele relaxar pelo menos antes de comentar sobre isso. E aliás ainda havia a sombra daquele tal de Vash. Quer dizer, o Rod saiu com ele, não foi? Alguma coisa tava rolando, eu não podia simplesmente me forçar pra cima dele se ele tava com outro cara, não é?
Ele estava morrendo no jogo muito mais do que um novato poderia e eu estava achando graça, recebendo um “Pare de rir!” zangado dele como resposta. Eu sinceramente esperava que ele fosse melhor com o vídeo game, visto que ele tinha os dedos ágeis por tocar o piano. Por fim, ele deixou o jogo de lado com uma careta emburrada. Ele me deu o controle sinalizando que era a minha vez. Eu dei de ombros, não estava lá com muita vontade de jogar.
— Como foi o encontro? – acabei perguntando sem pensar, logo depois me arrependendo da pergunta. Droga, eu não podia ficar com a minha incrivelmente boca grande fechada? Quero dizer, já fazia uma semana, o quanto esquisito isso soava se eu perguntava agora?
— Ah... – ele suspirou, parecendo ter ficado tenso – Normal, eu acho.
— Hum...
— Na verdade... – ele começou num tom que soou melancólico – Não foi nada muito diferente do que eu e Vash fazemos normalmente.
Um sentimento de ansiedade começou a subir novamente pela minha garganta.
— Ah...hahaha! – eu ri, tentando soar natural o que obviamente não foi o que soou – O que foi, jovem mestre? Eu pensei que você finalmente tinha arranjado um pretendente à sua altura! Não era isso o que você queria? Um relacionamento sério?
Ele desviou os olhos, abaixando o rosto, parecendo tristonho.
— Sim mas... o Vash é meu amigo, entende? Eu não sei se... nós combinamos desse jeito.
Um sorrisinho da vitória se formou no canto dos meus lábios.
Quer dizer que o suíço não tinha mesmo conseguido nada com o Rod! HAHAHA! Sério, que perfeito idiota. Se eu saísse num encontro com o jovem mestre nunca que eu deixaria a oportunidade passar. Mas eu não culpo tanto o cara porque aparentemente ele havia até tentado, mas era simplesmente Roderich que parecia não querer nada com ele. Eu me pergunto porquê, sabe. Eles se pareciam, eles se davam bem e eram amigos. Se havia uma pessoa que poderia combinar mais com o jovem mestre só podia ser aquele tal de Vash. Não uma cara que nem eu. Mas...
Mas aí eu lembrei do beijo. E lembrei que ele havia correspondido. Mesmo que ele não tenha entendido nada do que aconteceu na hora mas eu lembro muito bem da sensação macia dos lábios dele sobre os meus, e que ele estava visivelmente me correspondendo. Então... será que por alguma mínima possibilidade... ele estaria interessado em mim?
Eu sabia que estava na hora de finalmente falarmos sobre o que aconteceu naquela manhã de sábado. Eu tinha que dizer que tanto lembrava do beijo quanto lembrava que ele correspondeu. Já estava passando da hora de eu parar de me acovardar. Dei um suspiro longo e tentei começar:
— Roddy...
— Estou com fome, você não está? – ele me interrompeu, pulando do sofá e parecendo estranhamente tenso.
— Sim, mas eu...
— Eu vou buscar alguma coisa para nós. Você ainda está tomando remédios? Podemos colocar alguma bebida para gelar.
— Tudo bem, Rod. É só que eu queria... – tentei novamente iniciar a conversa, mas ele já estava indo em direção à porta.
— Eu já volto! – me disse antes de sair do apartamento e batendo a porta.
Me afundei no sofá, bufando. Mas pelo menos eu teria alguns minutos para pensar. Conversar sobre isso não seria nada nada fácil. Até porque eu mesmo ainda não havia chegado em conclusão nenhuma. Quero dizer, sobre eu ter beijado ele e tal. Foi só coisa do momento? Eu tinha que dizer isso a ele? Ou... ou será que eu já estava querendo a algum tempo? Ele também não havia me dito nada, talvez estivesse ocultando alguma coisa. Como também poderia ser nada e isso estava desgraçando a minha cabeça. Quer dizer, por tantos anos me convencendo que eu não gostava dele e depois de alguns meses juntos eu estava lá, caidinho. Não! Não tão caidinho assim, eu não sou um idiota apaixonado. Um romântico talvez, mas apaixonado? Seria apaixonado uma palavra muito forte...?
Havia se passado muitos minutos desde que ele saíra do eu apartamento para buscar comida, mas a minha confusão mental estava tão grande que eu não prestei atenção no tempo correndo. Quando finalmente ouvi batidas na porta. Eu disse ao Roddy que ele podia entrar sem bater, mas talvez ele estivesse com as mãos ocupadas. Suspirei. É agora, Gilbert. Não deixa ele escapar, seu babaca. Abri a porta.
— Gilbert.
Paralizei por um momento. Atrás da porta não estava o par de óculos e olhos de violeta que eu esperava. Eram olhos verdes, brilhantes, aqueles de cigana obliqua e dissimulada que me perseguiu por tanto tempo mas era os que eu menos queria ver no atual momento.
— Elizaveta?!
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