Paredes Finas
10 Hungarian Dance nº I [Roderich]
Notas iniciais
Eu precisava urgentemente de um pouco de espaço para pensar e respirar. Não que a presença de Gilbert me incomodasse, eu já havia chegado a conclusão a algum tempo atrás que ele não me importunava mais. Mas eu admitia para mim mesmo que a presença dele estava me deixando ansioso, principalmente depois do beijo. Beijo que até agora ele parecia não se lembrar. E toda aquela conversa sobre o que aconteceu naquele dia me deixou ainda mais tenso. A ultima coisa que eu queria agora era estragar a nossa amizade com uma coisa tão incerta. Eu sabia que uma hora eu ia acabar comentando sobre o que aconteceu e isso era algo que eu queria evitar.
Me chame de covarde, eu sei que sou um.
A verdade era que por mais que eu tentasse mentir para mim mesmo eu havia gostado daquele beijo singelo. E eu me sentia tão imensamente culpado por isso, pelo fato que Gilbert estava desorientado e nem ao menos se lembrava do que acontecera. Eu estava dividido entre contar ou manter para mim, pois se eu contasse... o que eu poderia tirar disso? Eu não sabia se Gilbert estava interessado em mim apesar de... ele ter dito que eu era bonito mas... Ele não estava plenamente consciente. Podia estar dormindo e sonhando com qualquer outra coisa e então eu me aproveitei do seu momento de fraqueza. Mesmo que tenha sido um momento tão rápido, tão suave quanto caminhar nas nuvens mas mesmo assim eu queria tanto tanto que ele se lembrasse e admitisse que teve sim a intenção de me beijar. Isso me corroía por dentro e eu não entendia porquê.
Eu e Gilbert mal conseguíamos nos suportar na escola. Éramos o completo um do outro, uma perfeita antítese de personalidades como química explosiva. Toda vez que nos aproximávamos havia um atrito tão forte que se tornava um ambiente perigoso para os demais que estavam próximos demais para presenciar uma discussão nossa. Ele me perturbava e eu o desprezava, e nunca que naquela época eu poderia pensar que eu teria alguma chance mísera de me envolver com ele que não fosse para uma tradicional discussão, muito menos o fato de me envolver romanticamente. Ah não ser...
A não ser o fato que eu o achava atraente.
Grande revelação, não é? Mas já estava farto de negar pelo menos isso. Gilbert tinha algo que capturava os meus olhos e faziam as minhas mãos firmes suarem frio. Na época da escola ele já tinha um físico desenvolvido – pelo menos mais do que os outros rapazes – que se destacavam nas aulas de educação física. As costas eram largas como um nadador e eu tinha que me concentrar em qualquer outra coisa quando me pegava pensando demais naqueles ombros. O cabelo loiro platinado beirando ao branco tinha um corte desarrumado porém charmoso, como num desleixo proposital. E os olhos, aquele carmim intenso que brilhavam como rubis toda vez que ele se atrevia a chegar perto demais. Mas o pior de tudo era o sorriso de Gilbert. Céus, aquele maldito sorriso que cismava cruzar o seu rosto toda vez que ele deixava transparecer suas segundas intenções. E aquele sorriso matador com todos os dentes brancos que ele abria quando estava realmente se divertindo.
Tudo isso eu já havia notado quando estudamos juntos, mas a cada dia que passava eu tentava negar mais e mais e evitar pensar nisso. Afinal, Gilbert era uma peste. Ele me chamava de todos os apelidos ofensivos que eu poderia imaginar. Ele implicava com o fato de eu ser mais magro e recluso que os outros garotos, de preferir livros à conversas, de eu gostar de tocar piano e constantemente me machucar nas aulas de educação física, mas principalmente, ele parecia não querer me deixar um minuto a sós com Elizaveta. Como eu poderia me sentir atraído por um garoto assim?
No terceiro ano eu já tinha percebido qual era a de Gilbert. Ele gostava dela, de Elizaveta. No começo me parecia que ele sentia ciúmes de como éramos próximos, afinal eu já sabia que eles foram melhores amigos na infância. Mas depois que comecei a namorar com a húngara ficou claro o seu desgosto por mim. Gilbert a desejava e eu era um empecilho em seu caminho. Ele implicava comigo porque me detestava, eu o atrapalhava a ter a garota que ele queria.
E mesmo sabendo disso tudo eu fiquei tão imensamente magoado ao vê-lo com Elizaveta num bar alguns dias depois que eu terminei com ela. Eu sabia desde o começo que era isso que ele queria. E eu sabia também que já não havia nenhuma justificativa para ficar bravo com Elizaveta naquela hora. Mas mesmo assim eu...
Ouvi batidas leves na porta, me despertando do fluxo de pensamentos. Eu havia me distraído demais, Gilbert devia estar preocupado. Suspirei algumas vezes, tentando manter a cabeça no lugar. Peguei o lanche que havia separado e me dirigi à porta, já me preparando para despreocupar o meu vizinho mas não foi isso o que eu disse.
— Elizaveta, o que está fazendo aqui?!
Quem estava na porta não era o alemão alto com seus trajes de domingo. Quem ali estava era alguém que eu conhecia muito bem, era impossível de se esquecer de olhos como aquele. Verdes como a mais pura esmeralda, rondados por um ar de diversão e mistério como o povo cigano. Os seus cabelos cor de canela ainda eram longos como eu me lembrava, mas ela ainda parecia ainda mais bonita com o corpo mais madura e feições menos inocentes. Elizaveta devia ser a garota mais bonita que eu já conheci, ainda mais usando aquele vestido florido com uma jaqueta leve embora ainda fosse inicio da primavera. E mesmo tudo aquilo não foi o suficiente para mim, e como eu me sentia culpado por isso. No momento, porém, eu estava completamente embasbacado e paralisado pela sua presença. Afinal fazia anos que eu não tinha contato com ela. E a última vez que nos vimos fora quando nós discutimos naquele bar.
— Roderich, que bom vê-lo! — ela sorriu, se iluminando por inteira. Eu não consegui responder, ainda segurava firmemente a madeira da porta em total espanto — Eu consegui seu endereço com Arthur. Parece que faz séculos que não nos vemos.
— Parece mesmo... — murmurei. Porque fazia anos que nós não víamos.
Ela continuava sorrindo como um ofuscante raio de sol e eu me vi quase em pânico. O que eu deveria fazer? O que eu deveria dizer a uma ex-namorada que não teve um bom término e batia na porta da minha casa anos depois? Eu mordi os lábios por instinto, minhas mãos estavam ocupadas com uma tigela cheia de salgadinhos, pães e outras coisas que eu estava levando para a casa de Gilbert. Ela não disse mais nada, me conhecia bem demais para perceber quando eu estava nervoso. E afinal Elizaveta nunca fora uma pessoa insistente comigo. Não, era sempre fora suave como a brisa da manhã. Mas neste momento, por mais que ela não fizesse nada, eu sentia a presença dela como um verdadeiro furacão.
Suspirei, eu precisava lidar com isso agora.
— Por favor, entre, Elizaveta. – ela sorriu e abaixou a cabeça como agradecimento. Dei espaço para ela passar e retornei à cozinha, deixando o que eu havia separado em cima da pia. Talvez eu devesse mandar uma mensagem a Gilbert para avisar e...
Não. Algo dizia dentro de mim, como uma fera possessiva que eu nunca antes ouvira. Não quero Gilbert perto dela.
Eu pisquei várias vezes, tentando compreender que tipo de sentimento era aquele.
Elizaveta entrou passando os seus olhos com curiosidade pelo meu apartamento, sem deixar o seu sorriso satisfeito deixar as maçãs do rosto por um segundo se quer. Me vi tenso, não sabendo exatamente o que começar ou como recebe-la.
— Fiquei tão preocupada e ao mesmo tempo triste que você não quis manter contato. – ela começou, subitamente, sem dar espaço para qualquer outra coisa. Eu cerrei meus pulsos, sem saber se iria conseguir me manter calmo com este tipo de conversa. O tom de voz acabou saindo ríspido, e as palavras muito mais cortantes do que eu planejara:
— Você sabe muito bem porque eu não quis. – eu podia sentir o gosto amargo na boca.
— Roderich! – ela exclamou, ofendida e com toda razão. Mas eu simplesmente não conseguia controlar os meus níveis de irritação e mágoa.
— Como você queria que eu me sentisse, Liz? – a minha voz acabou saindo embargada — Sabe, eu pensei que nós realmente fossemos continuar amigos!
— E eu quero que sejamos amigos! – ela respondeu se aproximando de mim. Pela primeira vez ela me tocou, segurando em minhas mãos da mesma forma que ela fazia quando eu estava chateado com as implicâncias de Gilbert e precisava me acalmar. Eu sempre apreciava este gesto, mas não agora. Apesar disso, eu não a fiz soltar.
— Elizaveta... – eu tentei me manter calmo – Você sabe que eu sempre gostei muito de você, mas eu fiquei magoado, depois do que aconteceu...
— Mas Roderich... – ela me segurou com mais força – Eu também estava magoada, não percebe? Foi você que terminou comigo, e no momento eu só não conseguia me sentir melhor.
Mordi meu lábio com ainda mais força, desviando os olhos dos dela por mais próximos que eles estivessem.
— Mas você... – eu comecei, sentindo a fraqueza em minha voz — Você... Você dormiu com Gilbert logo depois de tudo e eu... Eu não consegui acreditar, logo com ele...?
Naquela época eu havia terminado com Elizaveta alguns dias antes da nossa formatura. Alguns meses antes disso estávamos fazendo planos. Ela já sabia da minha intenção de me tornar um pianista e entrar para o Conservatório, ela sabia que eu poderia. Elizaveta, porém, estava pensando em fazer design de tecidos e algumas vezes vislumbrava as suas chances de fazer o curso na França. Eu estava dando força a esta ideia, quando ela começou com a história de ficar em Viena e dividir um apartamento comigo. Eu já sabia o que estava sentindo – ou melhor, o que eu não sentia – por isso decidi terminar com ela antes que criasse mais falsas esperanças.
Mas mesmo assim, eu havia ficado tão magoado quando ao comparecer à reunião dos alunos formandos naquele bar e vi Gilbert e Elizaveta aos beijos. Eu não devia ter me comportado daquela forma, mas mesmo assim eu fui até ela e acabamos brigando. Eu disse coisas terríveis, disse que ela sempre estivera ao lado de Gilbert, que eu nunca fora importante, e ela ao mesmo tempo também disse coisas horríveis, disse que eu nunca poderia satisfazê-la como Gilbert poderia. Nós dois nos machucamos e nós dois terminamos ao lado de outra pessoa aquele dia. Pois assim que eu me afastei eu me vi sendo consolado por Carriedo, um rapaz bonito o qual eu tinha algum contato na escola – apesar de ser melhor amigo de Gilbert – e foi assim que eu terminei a noite com ele.
Eu não me orgulhava nada daquele dia. Eu pensei em pedir desculpas à húngara depois mas eu sabia que estava tudo terminado. Eu me sentia magoado demais com Elizaveta, com Gilbert, com o mundo do jeito que ele era.
— Desculpe-me! – eu a ouvi lamentar me despertando das memórias que me doíam tanto — Eu... Eu hoje vejo que estava errada mas... Você não entende, Roderich!
— O que eu não entendo? – eu finalmente me livrei do aperto de seus dedos e dei um passo para trás, poupando a mim e a ela de continuar aquele contato explosivo.
— Eu... Eu estava me sentindo tão péssima, tão mal em saber que eu jamais poderia fazer você feliz porque...
Não continue por favor. Eu pedi em pensamento, sabendo no que ela queria levar aquela ideia.
— Elizaveta...
— Porque você terminou comigo porque... não gosta de mulheres.
...
Abaixei o meu rosto, me sentindo imensamente culpado mais uma vez. Sim, foi esse exatamente o motivo por eu terminar com Elizaveta. O seu corpo não me satisfazia. A sua pele macia, lábios pequenos e curvas não eram o suficiente para mim. E eu demorei quase dois anos para chegar a esta constatação. No final, tudo o que eu menos queria era machuca-la mas eu não poderia continuar fazendo isso me mantendo ao seu lado. Eu queria o bem dela mas ao mesmo tempo eu não podia mais continuar ao seu lado. E isso me entristecia tanto mas tanto que eu não pude mais evitar as lágrimas de se formarem em meus olhos.
— Foi um choque terrível saber que eu nunca poderia fazer você feliz. – ela continuou, e eu precisei apoiar as mãos nas costas do sofá para me manter de pé.
— Não é verdade, Liz. Mas não... Não dessa maneira. – eu tentei e ela voltou a se aproximar.
— Eu me arrependo tanto, Roderich. Tanto... – ela choramingou, com a voz embargada apesar de não haver lágrimas nos seus olhos.
— Eu... – eu me sentia sufocado. A vontade de chorar e a magoa no meu peito querendo explodir.
— Eu queria que você me perdoasse. – Elizaveta me disse e eu virei novamente o rosto, me sentindo sem ar e sem saber o que fazer — Queria que você me aceitasse na sua vida como uma querida amiga.
A respiração parou por um momento. Era isso que ela queria. Porém, a questão era... eu conseguiria, mesmo sabendo que eu a fiz tão mal? Eu a amava ainda, ela era uma pessoa preciosa para mim que me ajudou em muitos momentos importantes. Mas ela era a minha amiga, e eu não poderia dar esperanças dela pensar o contrário. Mas me afastar novamente só a deixaria mais magoada e eisso eu não queria mais.
Por isso eu anui, ainda fraco e incerto se isso iria funcionar ou não. Mas eu desviei os meus olhos para os dela novamente, grandes e chorosos.
— Eu... Tudo bem.
Elizaveta tornou a sorrir e se aproximou novamente. Desta vez eu permiti que ela chegasse perto, e sem relutar ela me envolveu com os braços e me abraçou. Eu devolvi timidamente.
— Me perdoe, Roderich. – eu a ouvi entre o abraço.
— Me perdoe você, Liz. – sussurrei contra os seus cabelos.
Nos separamos e ela sorria. Eu ainda me via fraco demais, mas tentei devolver o sorriso. Ela gentilmente se desfez do abraço, sabia o quanto eu podia ficar desconfortável.
— Roderich... Eu queria tanto conversar com você, saber como você estar e tudo mais... Como amigos, claro. – ela acrescentou rapidamente – Mas acho que agora não é um bom momento. Você parece muito frágil e eu não quero força-lo a nada.
— Está tudo bem, Liz. – eu respondi, mesmo sabendo que ela estava certa.
Elizaveta balançou a cabeça num sinal de desaprovação.
— É sério, Roderich. Eu vou deixar meu telefone e nos falamos em outro momento.
Assenti com a cabeça, concordando. De alguma forma eu estava aliviado por ela não forçar a reaproximação agora. Ela tornou a se aproximar, desta vez para me dar um beijo casto na minha bochecha, e disse:
— Nós nos vemos, Roderich. – dizendo isso, eu vi que ela deixou um cartão na minha mesa e logo depois se retirou do apartamento, batendo a porta atrás de si.
Soltei o ar que não percebi que segurava. Soltando a tensão do meu corpo finalmente as lágrimas caíram do meu rosto. Não havia motivo para chorar ou ficar tão emocional, mas eu simplesmente não conseguia evitar. Eram anos de magoas e maus entendidos acumulados, assim como também anos que eu não a via direito. Eu segurei os meus ombros e me deixei desabar nas costas do sofá. Se eu não podia lutar contra as lágrimas, pelo menos eu poderia deixa-las rolando até que aquela tristeza se extinguisse. Ou pelo menos até eu conseguir ter forças o suficiente para me retomar. Fiquei ali no chão por diversos minutos até que minhas mãos parassem de tremer e minha respiração voltasse ao ritmo normal. Era só nervosismo – eu dizia para mim mesmo – já ia passar.
Me perguntava porquê, afinal, Elizaveta ainda me queria por perto. Elizaveta era uma pessoa maravilhosa. Uma ótima amiga e uma ótima namorada. Mas eu não a merecia. Quanto a Gilbert... Gilbert a merecia. Ele ficou ao lado dela quando ela mais precisava, ele sempre a quis quando eu passei todo o esse tempo lado dela tentando me enganar que eu poderia amá-la da forma que ela a merecia. Gilbert podia estar com homens e mulheres. Gilbert podia amá-la. Eles... não formavam um par tão ruim assim. Eu fui tão egoísta, tão imensamente egoísta por não deixar que Gilbert tivesse ela antes. Ela merecia ser feliz. Ele merecia ser feliz. Mas ainda sim o meu coração se apertou ao me lembrar dos dois juntos.
Por que eu não conseguia?
Ouvia batidas distantes na porta novamente. Não... Eu não queria ver Gilbert agora. Não nesse estado, e não com tudo isso que se passava na minha cabeça. Ele me faria perguntas que eu não queria responder, e eu não queria estragar a relação que eu havia criado com ele durante aqueles meses em que dividimos a vizinhança, as refeições e uma nova amizade. Eu estava quebrado e não queria envolver Gilbert nisso.
Mas mesmo assim ele entrou no apartamento, me procurando com os olhos carmesim banhados em preocupação, como um verdadeiro herói vindo salvar a pátria. A não ser pelo fato que a única coisa que ele salvaria seria a minha dignidade por estar chorando deste jeito. Até por fim ele me avistou e correu em minha direção, se abaixando e pegando em minha cintura para me ajudar a levantar.
— O que ela fez? – perguntou com uma ferocidade na voz que eu nunca ouvira antes.
— Nada... – respondi de forma fraca – Não foi nada, Gilbert. M-Me deixe sozinho por um instante, por favor.
Ele me segurou com firmeza. Parecia tenso como eu estava quando Elizaveta havia acabado de chegar. Será que eles se cruzaram no corredor? Novamente aquela dor, aquela vontade de gritar “Não!” só de imaginar Gilbert e Elizaveta juntos. Aquele sentimento sem explicação.
— Eu não vou deixa-lo, Roderich.
Eu o senti me puxando pela cintura para me aproximar ainda mais dele. Eu estava sem forças e me apoiei no seu tronco. Ainda estava confuso com tudo o que eu tinha ouvido e Gilbert ainda me soltava aquela frase, me deixando tão perdido no turbilhão de emoções que eu já estava sentindo. Olhei mais uma vez diretamente para os seus olhos: carmim, escarlate, rubi, vermelho-sangue...
Gilbert no segundo seguinte tinha os lábios sob os meus.
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