Parceiro inesperado

1 A Hacker e o Detetive


Ponto de vista: Oliver Queen



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O som do ventilador velho era o único barulho na sala de interrogatórios.

Girava preguiçosamente, como se até ele estivesse cansado de Star City.

Era segunda-feira, chovendo desde o amanhecer, e eu já sabia que o dia ia ser longo.


Diggle disse que tinha uma “consultora especial” chegando.

Tradução: mais uma dor de cabeça que o Departamento não podia pagar, mas que alguém lá em cima achou genial colocar no meu caminho.


Quando a porta abriu, eu tive certeza.


Ela entrou com um salto alto vermelho, um notebook debaixo do braço e uma expressão de quem não tinha ideia do que era “limite”.

Cabelos loiros em um coque improvisado, óculos grandes demais para o rosto — e uma confiança que lotava o ambiente antes mesmo de ela falar.


— Então você é o famoso Oliver Queen — disse, pousando o notebook na mesa. — Achei que fosse mais… falante. Ou talvez mais sorridente. Não, definitivamente mais sorridente.


Fiquei em silêncio. Observando.

Ela odiou.


— Ótimo. Um homem de poucas palavras. Isso vai ser tão produtivo — ironizou, cruzando os braços.


Respirei fundo.

— Senta, senhorita Smoak.


— É doutora em Cibernética, na verdade. Mas sim, claro, senhor Mandão. — Ela sentou, abrindo o notebook como se estivesse prestes a invadir o Pentágono.


Diggle encostou na parede, tentando conter o riso.

— Oliver, essa é Felicity Smoak. Ela vai ajudar na análise dos arquivos do caso “Fantasma”.


— “Ajudar”? — perguntei, desconfiado. — Ou sabotar o sistema federal de novo?


Ela ergueu uma sobrancelha.

— Foi um mal-entendido. Eu estava tentando denunciar uma falha de segurança e o FBI não tem senso de humor.


— Invadiu o servidor deles.

— Tecnicamente, só dei uma olhadinha.


O sarcasmo dela era quase… admirável.

Quase.


Abri a pasta do caso. Fotos, relatórios, nada fazia sentido.

Cinco vítimas, todas ligadas a contratos da Queen Industries. Nenhum padrão aparente, até o e-mail anônimo que recebemos — com arquivos criptografados e um símbolo estranho anexado.


— Preciso que decifre isso. — Empurrei a pasta para ela.

— “Por favor” não faz parte do seu vocabulário, né? — murmurou, já digitando.


Cinco minutos.

Só isso.

Em cinco minutos, ela olhou pra mim com aquele sorriso de “te avisei”.


— Consegui quebrar a primeira camada. É um código de rastreamento. O remetente usou uma rede espelhada, mas… — Ela pausou, surpresa. — …alguém dentro da polícia ajudou a esconder isso.


O silêncio na sala ficou pesado.

Diggle e eu trocamos olhares.


Ela percebeu.

— Uau. Então o buraco é mais embaixo, hein? Que divertido. — Sorriu, nervosa. — Não que assassinatos sejam divertidos. Eu só… — fez um gesto vago com as mãos. — Vocês entenderam.


Acho que entendi.

Não sei se gostei disso.

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Ponto de vista: Felicity Smoak



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Sério, quem escolheu a decoração daquela sala devia ser processado.

Cinza, fria, sem janelas.

O tipo de lugar em que você espera ver um interrogatório — ou o início de um pesadelo burocrático.


E lá estava ele.

O Detetive Oliver Queen.

Sim, aquele Queen — o nome que praticamente grita “dinheiro antigo e traumas familiares”.

Mas, honestamente? Eu esperava algo diferente. Talvez um pouco mais simpático. Ou com um “olá, prazer, não confio em você mas vamos tentar”?

Não.

Ele só me olhou.

Em silêncio.

Por um tempo desconfortavelmente longo.


Ok, então eu quebrei o gelo. Ou tentei.


— Então você é o famoso Oliver Queen — disse, pousando o notebook na mesa e tentando soar confiante. — Achei que fosse mais… falante. Ou talvez mais sorridente. Não, definitivamente mais sorridente.


Nada.

Zero reação.

Nem um músculo se mexeu naquele rosto de pedra.

Uau. Ele tinha dois modos: olhar mortal e… olhar mortal um pouco mais intenso.


— Ótimo. Um homem de poucas palavras. Isso vai ser tão produtivo — murmurei, cruzando os braços.


Ele respirou fundo, e eu pude ver o músculo da mandíbula dele travar.

— Senta, senhorita Smoak.


Ah, que doce. Tão educado.

— É doutora em Cibernética, na verdade. Mas sim, claro, senhor Mandão. — Sentei, tentando esconder o fato de que minhas mãos estavam suando.


O parceiro dele, o grandalhão chamado Diggle, parecia divertir-se com tudo aquilo.

Ele só observava, como quem já sabia o desastre que estava por vir.


Oliver abriu uma pasta de arquivos e empurrou na minha direção.

Fotos, relatórios… e nenhum “por favor”.

Eu já gostava dele — mentira.


— “Por favor” não faz parte do seu vocabulário, né? — murmurei, digitando.


Ele ignorou, obviamente.

Homens com trauma e terno têm um talento natural pra ignorar sarcasmo.


Cinco minutos. Foi tudo que precisei pra encontrar o rastro.

Sim, eu me orgulho. E sim, ele pareceu surpreso, o que foi delicioso.


— Consegui quebrar a primeira camada — anunciei, erguendo os olhos. — É um código de rastreamento. O remetente usou uma rede espelhada, mas… — pausa dramática, porque eu gosto de causar impacto — …alguém dentro da polícia ajudou a esconder isso.


O silêncio que veio em seguida foi pesado.

Ele e Diggle trocaram aquele olhar clássico de “isso vai dar merda”.

Eu só tentei não sorrir, o que foi difícil.


— Uau. Então o buraco é mais embaixo, hein? Que divertido. — Ops. Falei alto demais.


Eles me encararam.

Tá, talvez “divertido” não fosse a palavra ideal quando o assunto era assassinato.


— Não que assassinatos sejam divertidos — corrigi, rápido. — Eu só… quer dizer, intelectualmente… vocês entenderam.


Nada.

Ele só passou a mão no cabelo e suspirou, como se já estivesse arrependido de tudo.

Clássico.


Quando ele recolheu os papéis e se preparou pra sair, eu me inclinei na cadeira.

— Foi um prazer, senhor Queen.


— A gente se vê amanhã, Smoak — respondeu, seco, indo em direção à porta.


— Espera, amanhã? — exclamei. — Isso é um convite de trabalho ou uma ameaça?


Ele virou a cabeça, com aquele olhar de quem não decide se quer me prender ou me proteger.

— Depende de você. — E saiu.


Fiquei olhando pra porta por uns segundos, tentando entender o que diabos tinha acabado de acontecer.


Diggle pigarreou, um meio sorriso no rosto.

— O que acha dele?


— Encrenca. — Respondi automaticamente, imitando o tom sério de Oliver.

Mas dentro da minha cabeça, admiti o que não teria coragem de dizer em voz alta:

Talvez a encrenca mais interessante que já vi.