Parceiro inesperado

2 Linha de códigos


Ponto de vista: Oliver Queen



---


O dia mal tinha começado e eu já me arrependia de ter concordado com aquilo.


A sala de tecnologia da delegacia, que costumava ser silenciosa, agora parecia uma mistura de laboratório e cafeteria universitária.

Cabos, telas piscando, e… canecas de café. Muitas.

Todas com frases sarcásticas.

Uma delas dizia: “Cuidado, posso deletar sua vida social.”


A dona da caneca estava de costas, digitando tão rápido que o teclado parecia uma arma automática.

E, pela terceira vez em vinte minutos, ela falava sozinha.


— Não, não, não… isso não faz sentido. A menos que o assassino use uma VPN dentro de outra VPN. O que seria insanamente inteligente. Ou paranóico. Provavelmente os dois.


Diggle encostou na parede, braços cruzados, tentando disfarçar o riso.

— Ela sempre fala assim?


— Sempre — respondi, sem olhar. — Só muda o tema.


Felicity se virou, me encarando como se tivesse radar auditivo.

— Eu ouvi isso, sabe?


— Imaginei.


Ela bufou, depois empurrou uma mecha de cabelo pra trás, com aquele gesto impaciente que, por algum motivo, me fez esquecer o que eu ia dizer por meio segundo.

Ridículo.


— Certo — disse ela, voltando ao teclado. — Eu rastreei o IP dos e-mails anônimos. O cara usou um servidor fantasma, o que é bem avançado, mas... — ela parou, sorrindo. — Ninguém é perfeito. Achei um erro de sincronização na criptografia.


— Em português — pedi.


Ela virou-se na cadeira, dramática.

— Querido detetive, isso significa que eu sei onde o e-mail foi enviado.


— Onde?


— Um café na 43ª avenida. “Java & Crime” — nome de gosto duvidoso, por sinal.


Diggle assentiu.

— Já passei por lá. Ponto de encontro de informantes e ex-militares.


Felicity deu um risinho.

— Então é tipo o Tinder do submundo.


Eu a encarei.

— O quê?


— Nada. Só uma metáfora. Que provavelmente soou muito errada. Eu deveria parar de falar. — Ela mordeu o lábio e se virou de novo pro computador. — Ignora.


Diggle sussurrou pra mim:

— Ela tem filtro?


— Que eu saiba, não.


— E você vai sobreviver quanto tempo?


— Ainda tô avaliando.


Antes que ela pudesse continuar o festival de digitações frenéticas, o capitão Lance entrou na sala.

— Queen, relatório sobre o caso “Fantasma” na minha mesa até o fim do dia. E sem improvisos.


— Sim, senhor.


Ele olhou pra Felicity, depois pra mim.

— Essa é a hacker?


Felicity ergueu a mão, sorrindo.

— “Consultora técnica de segurança”, na verdade. Mas hacker soa mais rebelde, né?


Lance arqueou uma sobrancelha.

— Rebelde é uma palavra educada. — E saiu.


Assim que ele saiu, Felicity se virou pra mim.

— Ele gosta de mim, eu senti.


— Ele mandou reforçar a vigilância em você.


— Isso também é uma forma de afeto. — Ela deu de ombros.


Diggle tossiu, tentando conter o riso.

— Certo, vamos até o café.


Peguei meu casaco e encarei Felicity.

— Você fica aqui.


— O quê?! — ela arregalou os olhos. — Eu sou parte da equipe!


— Você é parte do sistema. Não do campo.


— Primeiro, isso foi ofensivo. Segundo, eu posso ajudar mais se estiver lá. Você sabe, vendo o local, analisando câmeras, evitando que você prenda o barista errado.


— Eu não prendo baristas.


— Ainda.


Suspirei.

— Felicity…


— Se você disser que “é perigoso demais”, eu juro que hackeio seu histórico de navegação e mando pro jornal.


Diggle riu.

— Acho que ela vai.


— Eu também acho — murmurei.


Acabei cedendo.

— Tudo bem. Mas você segue minhas ordens.


Ela sorriu, vitoriosa.

— Claro. — Pausa. — Só por curiosidade… tem um plano B caso isso dê errado?


— Você.


— Uau. Sem pressão.



---


Duas horas depois, estávamos estacionados em frente ao “Java & Crime”.

Do lado de fora, parecia um café normal. Do lado de dentro, segundo Felicity, era um reduto de informantes, criminosos e péssimos sinalizadores de Wi-Fi.


Ela ficou dentro do carro, laptop no colo, monitorando câmeras de segurança.

— Dois homens na mesa dos fundos. Um mexe no celular o tempo todo. Aposto um café que é nosso cara.


— Não aposto café com alguém que toma oito por dia.


— Nove. E não muda o fato de que tô certa.


Diggle e eu entramos.

O suspeito levantou assim que nos viu.

Fugiu pelos fundos.

Eu o segui.

Do rádio, ouvi a voz de Felicity:

— Esquerda! Não, outra esquerda! — Pausa. — Ok, você não tá ouvindo, né?


Dois becos depois, o cara escorregou deixando o celular cai. MAs conseguindo fugir ,Peguei o celular dele.

Bloqueado.

Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, o aparelho emitiu um bip — e apagou tudo.


Voltei pro carro.

Ela me olhou, quase ofendida.

— Ele limpou o sistema, não foi?


— Sim.


— Claro que limpou. Porque hoje é o dia perfeito pra hackers mal-intencionados e detetives teimosos, né?


— Você devia ter ficado aqui.


— Eu fiquei aqui! E ainda assim as coisas explodiram — metaforicamente.


Diggle entrou, rindo.

— Bem-vindo à parceria, Oliver.


Felicity se recostou, braços cruzados.

— Eu prefiro o termo “dupla dinâmica”. Soa mais divertido.


Olhei pra ela.

— Não estamos aqui pra se divertir, Smoak.


Ela me encarou de volta, sem hesitar.

— Então você anda na profissão errada, Queen. Porque nada é mais viciante do que descobrir a verdade.


E, por algum motivo, eu não consegui discordar.



---

Voltamos pra delegacia no fim da tarde.

O caso não tinha avançado tanto quanto eu queria.

O suspeito fugiu, os dados foram apagados, e o único resultado real era um monte de café frio e uma loira tagarelando sobre “rastros digitais instáveis”.


Felicity ficou na sala de tecnologia, prometendo que ia “recuperar o impossível”.

Eu e Diggle, por outro lado, fomos direto pra sala de descanso — que, ironicamente, era o único lugar onde eu conseguia pensar direito.


O silêncio durou um tempo.

Diggle foi o primeiro a quebrar.


— Ela é algo, hein?


Peguei um copo d’água, sem olhar pra ele.

— “Algo” é uma forma educada de dizer “impossível de lidar”?


Ele riu baixo.

— Não. “Algo” é uma forma de dizer que ela é exatamente o tipo de pessoa que você odeia admitir que precisa.


Olhei de canto de olho.

— Eu não preciso de ninguém, Digg.


— Claro que não. — Ele assentiu, sarcástico. — Por isso você passa os dias trancado aqui, investigando sozinho e dormindo no escritório.


Fiquei em silêncio. Ele sabia que estava certo, mas não precisava esfregar.


— Oliver — continuou ele, com aquele tom calmo que irritava e ajudava ao mesmo tempo —, você não é mais aquele cara que carrega o mundo sozinho.

Acha mesmo que vai resolver um caso como esse sem ajuda?


— Eu resolvo do meu jeito.


— E o seu jeito costuma envolver destruição e noites sem dormir.


Suspirei.

— Ela é… diferente.


— Diferente como?


— Falante demais. Confiante demais. E tem o péssimo hábito de ignorar ordens diretas.


Diggle sorriu.

— Então exatamente o tipo de pessoa que te tira da zona de conforto.


Não respondi.

Mas ele estava certo — de novo.

Felicity não pedia permissão pra existir.

Entrava nos lugares, nas conversas, na minha cabeça… e deixava tudo mais barulhento.

E, estranhamente, isso não me incomodava tanto quanto deveria.


— Sabe o que é engraçado? — Diggle disse, interrompendo meus pensamentos. — Faz tempo que não te vejo reagir assim a alguém.


— Assim como?


— Vivo. — Ele deu um pequeno sorriso. — Desde que esse caso começou, você parecia um fantasma. Agora… parece que acordou.


— Acordar não ajuda se tudo à minha volta continua podre.


— Às vezes ajuda, sim. — Ele se levantou. — E, Oliver… se ela for ficar, tenta não afastá-la antes de perceber o quanto ela pode te ajudar.


Eu o encarei.

— Digg… ela é imprevisível.


— E você também era, lembra? — respondeu, caminhando até a porta. — Talvez por isso funcione.


Ele saiu, me deixando sozinho com o som distante do teclado de Felicity no outro cômodo.


Por um instante, pensei em ir embora.

Mas acabei indo até a sala de tecnologia.


Ela estava ali, concentrada, o rosto iluminado pela luz azul das telas.

Nenhum som além dos cliques rápidos.

Eu ia falar alguma coisa, mas parei na porta.


Ela mordeu o lábio inferior, frustrada, e murmurou pra si mesma:

— Vamos lá, Felicity… você consegue. Mostra pra eles que o impossível só precisa de um bom café e de teimosia.


Sorri, sem perceber.

Talvez Diggle tivesse razão.

Talvez essa parceria fosse exatamente o tipo de caos que eu precisava.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.