Paraíso Proibido
9 Eu tenho a fórmula pra te relaxar
Notas iniciais
Já estava tarde e o clima havia esfriado subitamente, porém eu só fui perceber isso quando já estava fora de casa e não dava mais tempo de pegar um casaco. Como conseguimos sair? Fácil, pulamos a sacada. Tudo bem, não tão fácil assim. Como esperado de Kevin, ele havia pulado com maestria, pousando em silencio como um gato e terminando em uma cambalhota. Tentei fazer o mesmo que ele. Deu certo? Não. Mas deu pra chegar ao chão sem quebrar nada.
O ônibus demorou séculos para passar o que me deixou tempo para perguntar:
— Cadê a sua moto?
Kevin apenas deu de ombros e respondeu:
— Ah me cansei dela. Longa história.
— Hum...
Alguns minutos depois nossa carona chegou. Estava quase que vazio a não serem por alguns jovens, provavelmente universitários, voltando de suas aulas noturnas, todos com as caras abatidas. Sentamos em um dos últimos bancos e Kevin começou a falar:
— Você quer me contar o que está acontecendo agora ou quer esperar ficar bêbada o suficiente?
— Acho que posso começar a contar agora... Eu e minha mãe estamos abrindo um processo judicial contra meu pai desde o início desse ano... Mas ele é muito rico e parece sempre arranjar um jeito de se livrar das provas, ou invalidar, ou fazer com que duvidem de nós... E minha mãe anda tão estressada por causa disso...
Kevin suspirou e disse:
— A justiça é um porre e na maioria das vezes falha.
— Percebe que se ela não fosse, você, provavelmente, já teria sido preso?
Ele balançou a cabeça e soltou um riso nasalado antes de dizer:
— Provavelmente não. Eu nem teria começado com isso, na verdade.
Ficamos ambos em silêncio depois dessa. Percebi que muitas vezes, no meio da conversa eu e Kevin simplesmente parávamos de falar. Parecia que, eventualmente, tomávamos ciência de certas coisas e precisávamos parar para refletir sobre elas internamente... Ou talvez isso seja uma paranoia minha e, na verdade, seja apenas falta de assunto.
Depois de um tempo, eu afirmei:
— Nós dois temos muita coisa que não contamos um pro outro ainda não é?
—Acho que sim. Talvez seja o medo da outra pessoa se assustar, sair correndo e nunca mais voltar.
— Bom... Eu nunca fui de ter medo de filmes de terror.
— Ah é? Interessante.
Kevin disse ao mesmo tempo em que se levantava para fazer sinal para o ônibus parar. Descemos em um posto escuro e vazio. Tivemos praticamente que correr até o prédio dele porque, de acordo com Kevin, não era muito seguro ficar “dando mole” àquela hora da noite. Ao chegar, subimos as escadas lentamente, ambos cansados. Kevin dizia ainda meio ofegante:
— Tomara que ainda tenha bebida aqui em casa porque duvido que vá ter alguma coisa aberta há essa hora.
Porém, quando chegamos até o andar certo, Kevin esticou o braço e me fez parar no lugar em que estava. Estranhei sua atitude, mas quando acompanhei seu olhar assustado, percebi que a porta de seu apartamento tinha a maçaneta arrombada. Fiquei assustada e me corpo travou no lugar. Ouvi-o sussurrar:
— Sobe as escadas e me espera no andar de cima.
— O que? O que você vai fazer?
— Tenho que entrar lá.
— Está louco? Temos que chamar a polícia.
— Não posso chamar a polícia. Só vai piorar a situação.
— Mas arrombaram a sua porta. Podem ser ladrões e podem estar armados.
— Reze para que sejam apenas ladrões...
Ele puxou meu braço e me guiou até o lance de escadas seguintes. Subi três degraus antes de parar e dizer:
— Kevin, por favor, não vá até lá.
— Eu preciso ir. Minha irmã está naquele apartamento e essas pessoas não brincam em serviço.
— Ah não. São as mesmas pessoas que te bateram?
— Agora não é a hora de falar disse Eglantine. Suba e fique quieta e calada. Por favor.
Eu nunca havia visto Kevin tão sério e frio antes. Nem quando havíamos acabado de nos conhecer. E ele nunca havia dito meu nome com aquele tom antes. Com certeza, eram sinais se que aquilo era mais sério que um roubo aleatório... E que eu não poderia estar lá para ver o que iria acontecer.
Ainda gélida e com medo, subi as escadas o mais silenciosamente possível. O andar seguinte estava escuro e as luzes automáticas nem se acenderam quando eu apareci. Apenas me arrastei até uma parede próxima e me sentei lá, abraçando minhas pernas.
Estava com o corpo frio e suando ao mesmo tempo. Podia sentir meu coração batendo como se fosse um cavalo a galope, a ponto de minhas costelas doerem. Meus ouvidos estavam tão atentos que eu quase podia ouvir um zumbido por eles. Eu só queria que o que quer que fosse que estivesse acontecendo acabasse de uma vez e que ninguém saísse ferido, principalmente, Kevin... Será que o dia ainda não estava ruim o bastante?
[...]
Eu não sei, exatamente, o que aconteceu naquele apartamento. Achei que haveria gritos e barulhos de luta, porém, estranhamente, estava tudo num completo silêncio… Talvez não houvesse ladrões… Porém, eu sabia que se não houvesse mais perigo, Kevin já teria vindo me buscar a essa altura… O que significa que, mesmo não parecendo, alguma coisa de errada estava acontecendo lá embaixo.
Muito tempo pareceu ter se passada. Tempo esse em que fiquei agachada perto da parede, com medo de fazer qualquer movimento ou barulho que denunciasse minha presença para as pessoas que estavam no andar de baixo. Felizmente, para mim, tudo pareceu correr bem. Ouvi barulhos de passos e parecia que, mais ou menos, três pessoas deixavam o apartamento de Kevin e desciam as escadas na direção do térreo.
Então, era isso? Havia acabado? Sem brigas? Sem tiros? Sem polícia? Era seguro?
Torcendo pela resposta de todas essas perguntas ser sim, eu me levantei devagar e desci o lance de escadas até parar em frente ao apartamento de Kevin. Agora sim eu conseguia ouvir um barulho. Duas pessoas gritavam dentro daquele apartamento, uma era Kevin e a outra reconheci como sendo uma mulher:
— Ah agora você quer saber se eu to bem? Pra começar deveria ter chegado horas mais cedo!
— Angel, me desculpe! Não fica brava comigo, eu não sabia!
— Pra que quis que eu fosse entregar o dinheiro da moto em primeiro lugar?!
— Porque eu estava procurando emprego durante o dia todo!
— E isso ainda! Porque insiste em voltar pra um dos empregos medíocres que você tem?! Cansei de sustentar essa dívida sozinha!
— Ah vai começar de novo? Angel, eu não quero mais voltar a fazer aquilo e você também deveria parar.
— Nós vamos acabar morrendo igual à mamãe se eu deixar as coisas por sua conta!
Antes que eu percebesse, passos apressados foram se aproximando da porta até que esta foi aberta rudemente. Fiquei parada no mesmo lugar encarando assustada aquela cena. Quem havia aberto a porta foi uma menina que tinha provavelmente a minha idade. Tinha os cabelos da mesma cor e o mesmo tom de pele de Kevin, porém os olhos eram bem maiores e completamente negros, mal sendo possível separar a íris da pupila. O cabelo estava cortado a navalha, curto e com uma franjinha em cima da testa. Parecia cansada; as roupas amassadas e molhadas; fedendo a mofo e suor. Quando Kevin percebeu que era eu quem estava na porta, ele disse meu nome bem baixinho. Foi o suficiente para a menina na minha frente explodir:
— Procurando emprego uma ova! Você estava atrás de outra putinha pra fuder, Kevin! Não acredito que enquanto eu lutava pela minha vida, o senhor metia numa loirona gostosa! Ah vai se fuder!
— Pare de falar essas coisas Angel! Eu não menti e não a chame desse jeito! O nome dela é Eglantine!
— Não me interessa em saber o nome dela! _ Angel virou para mim, que continuava na porta estática e disse, olhando em meus olhos _ É só uma vadia qualquer, você vai comer e esquecer ela como todas as outras. Não preciso lembrar nome de depósito de porra.
Arregalei os olhos. Ninguém nunca havia falado daquele jeito comigo. Nem minha mãe. Antes que eu ou Kevin pudéssemos fazer qualquer coisa, Angel já havia saído do apartamento e descia as escadas correndo. Em um passe de mágica éramos apenas nos dois no apartamento. Kevin estava olhando para baixo e apertava as mãos. Ele também estava com raiva, mas parecia contê-la.
Um pouco hesitante, eu disse:
— Então, essa era a sua irmã?
— Eu vou matá-la… Por favor, não liga para as coisas que ela disse.
— Tudo bem… Eu acho… Ela parecia bem cansada e… Não sei exatamente o que aconteceu, mas parece que foi estressante para vocês dois.
— Você nem faz ideia… Só que Angel tem formas diferentes de extravasar a raiva. No caso, xingando todo mundo que vê pela frente e esquecendo os bons modos. Mas ela é uma boa pessoa.
Denominar a menina que me chamou de “depósito de porra” a menos de cinco minutos atrás de “boa pessoa” não me parecia muito verídico. Kevin sentou no sofá e escondeu o rosto entre as mãos. Ouvi-o dizer:
— Engraçado que eu trouxe você aqui pra esquecer-se dos seus problemas e agora eu não consigo esquecer-me dos meus.
—Pois é. Parece que nós dois precisamos de uma fuga.
— Sim — Ele suspirou alto e levantou a cabeça, olhando ao redor no apartamento — Bom, duvido que Angel vá voltar tão cedo. Devo ter uma garrafa em algum lugar na cozinha. Pega lá pra mim, por favor.
Era engraçado como eu mal conhecia Kevin e ele já procurava me deixar completamente à vontade em sua casa, como se eu já morasse aqui. Fui até a cozinha e, no mesmo armário em que estava a vodka da primeira vez em que vim aqui, encontrei uma garrafa de pinga barata cheia. Uma espécie de nostalgia me dominou. As condições agora eram bem diferentes... Mas ao mesmo tempo iguais.
Levei a garrafa até a sala, não me preocupando em levar copos já sabendo que Kevin os descartaria. O mesmo estava ainda mais esparramado no sofá e coçava os olhos parecendo estar cansado. Eu me joguei no seu lado enquanto abria a garrafa.
Dei um longo gole que, como sempre desceu rasgando minha garganta. Quando tirei a garrafa da boca, fiz uma careta e disse:
— Isso é horrível.
— Eu sei. Mas é forte e barato.
Kevin pegou a garrafa de minhas mãos e tomou três goles igualmente grandes. Ficamos ambos deitados no sofá dividindo a garrafa e encarando a parede, absorvendo nossas dores internamente. Apesar de o apartamento estar em silêncio, parecia ser um dos lugares mais barulhentos. Ambos sabíamos que nossas mentes estavam trabalhando em máximo vapor naquela hora.
Querendo tomar uma dianteira, eu disse:
— Nenhum de nós vai simplesmente despejar nossos problemas em cima do outro.
— Sim. Nós não somos assim.
— Exato... Mas eu acho que precisamos disso.
— Concordo.
— Então, vamos fazer um jogo. Cada um revela um pequeno detalhe de sua história de cada vez. No final, saberemos o que cada um passou e não vai parecer que estamos jogando nossos problemas nas costas do outro porque estaremos revelando aos poucos.
—Hum... Eu não poderia ter pensado em uma ideia melhor. Você realmente é muito inteligente, loira.
— Obrigada.
— Quem está com a garrafa começa.
Obviamente eu estava segurando a garrafa naquela hora. Soltei um riso baixo, como sempre, Kevin era muito esperto. Sorvi mais um gole da bebida ardente e disse:
— Meu pai está sendo acusado de estupro de vulnerável.
Passei a garrafa para ele. Nenhum de nós desviou os olhos da parede. Os dedos de Kevin, frios, tocaram os meus quando este pegou a garrafa. Ouvi o barulho do líquido sendo remexido, ele também estava tomando um gole. Ouvi sua voz rouca:
— Estou devendo alguns milhões para uns traficantes bem perigosos.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Meu pai me estuprava constantemente desde que eu tinha uns sete anos.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Meu pai contraiu essa dívida e quando não conseguiu pagar, eles o mataram, esquartejaram e mandaram as partes para nossa casa.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Quando eu tinha treze anos, minha mãe o pegou me estuprando no quarto e não fez nada.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Depois daquilo, a dívida passou para minha mãe, mas ela acabou tendo uma overdose de cocaína e morreu na nossa sala de estar.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Minha mãe às vezes saía de casa com minha irmã para que meu pai pudesse ficar sozinho comigo. Quando ela não queria que ele me visse, me trancava no armário ou no meu quarto, era a forma dela de impedir as coisas de acontecerem. Já passei dias trancada por isso.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Eu e Angel, minha irmã, tivemos que largar a escola e começar a trabalhar para ganhar dinheiro. Aprendemos a lição de que tínhamos que conseguir pagar a dívida rápido antes que mais um de nós morresse nas mãos deles.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Eu já tentei me matar quatro vezes. Uma quando eu tinha oito anos, uma com treze, uma com quinze e uma ano passado.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Percebemos que nunca conseguiríamos ganhar muito tendo empregos normais então resolvemos partir para a ilegalidade. Foi ai que começamos a roubar casas. Angel passou a apostar em jogos, ela é boa nisso. Eu corria em rachas.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Uma vez, vi meu pai olhando minha irmã mais nova do mesmo jeito que eu sabia que ele me olhava. Fiquei com medo e pulei em cima dele. Eu tentei matar meu próprio pai naquele dia. Claro que não deu certo. O barulho foi alto e a polícia foi chamada.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Já houve vezes em que nos machucamos, mas não temos dinheiro para pagar um plano de saúde, então raramente vamos a hospitais. Já machucaram gente importante pra gente também.
A garrafa agora estava em minhas mãos:
— Depois disso, minha mãe deixou meu pai. Eu pedi a ela que o denunciássemos, porém há uma quantidade muito pequena de provas e testemunhas. Muita gente diz que tudo é um plano da minha mãe para tirar dinheiro do meu pai com o divórcio.
A garrafa agora estava nas mãos de Kevin:
— Eu não sei o que vai acontecer agora. Por vontade própria, resolvi parar de cometer crimes e arranjar um emprego normal. Mas fui demitido do bar e o dinheiro que ganho na orquestra não é o suficiente. Eu vendi a moto, mas Angel está tendo que se virar praticamente sozinha. Hoje quando ela foi entregar o dinheiro da moto, eles a amarraram e a trouxeram aqui. As parcelas que estamos pagando estão diminuindo... Tenho medo de eles tentarem matá-la ou tentarem me matar e deixar um de nós sozinho arcando com isso.
A garrafa havia acabado. Encarei aquele pedaço de vidro e disse:
— Acabou a bebida.
Kevin suspirou. Devagar, ele levantou do sofá. Seu corpo cambaleou, ele estava tonto. Eu também. Não me levantei para ajudar porque sabia que se fizesse isso, era mais provável que nós dois caíssemos juntos. Ouvi-o dizer:
— Eu tenho mais uma coisa guardada. Vem aqui.
Kevin seguiu, ainda cambaleante, pelo corredor. Apoiando minhas mãos no sofá, eu também me levantei. A casa inteira estava girando e parecia mais escura do que o normal. A cada passo que eu dava parecia que o chão ficava mais distante de meus pés, mas consegui, com a ajuda da parede chegar até o quarto que parecia de Kevin.
Assim que atravessei o cômodo o cheiro invadiu minhas narinas. Socorro! Era como se houvessem mil Kevins naquele lugar! Era tão cheiroso. Uma mistura de desodorante, cigarro de palha, grama recém-cortada e... Maconha?
Kevin estava procurando alguma coisa em seu guarda roupa e eu cambaleei até que caísse na cama. As coisas pareciam girar menos quando eu estava deitada. O quarto de Kevin era muito escuro, mas dava pra discernir o que havia dentro. Uma cama de casal, um armário, uma mesa com uma cadeira e uma pilha de roupas. Apenas. Era um quarto legal. Com certeza mais legal que o meu. Havia alguma coisa nas paredes, vários rabiscos negros, mas eu não ia conseguir entender o que eram no meu atual estado então apenas os ignorei.
Kevin agora estava sentado na mesa e uma luz vinha de lá. Ele mexia em alguma coisa, mas parecia não estar dando certo porque eventualmente soltava muxoxos de frustração. Curiosa, resolvi perguntar:
— O que você ta fazendo?
A fala saiu meio enrolada, mas creio que ele conseguiu entender quando respondeu:
— Tentando bolar um beck, mas to meio bêbado pra isso.
Eu deitei a cabeça de novo na cama e disse:
— Eu não fumo.
— Mas eu fumo.
— Tudo bem.
Estiquei a mão para o teto. Havia coisas pretas escritas nele também, mas cada vez que eu olhava mais profundamente minha cabeça doía e tudo parecia girar. Eu sussurrei:
— Quero mais álcool.
— Não tem.
Dessa vez a voz de Kevin parecia mais próxima de mim. No segundo seguinte seu corpo desabou no colchão ao lado do meu. Ele segurava um cigarro de maconha aceso em uma das mãos e o tragava com força. Virei o rosto para o lado. Ouvi-o dizer:
— Eu ia gostar muito de transar com você agora, mas to muito bêbado.
— Eu também. Minha cabeça ta rodando toda.
Ele tragou mais uma vez o cigarro e soltou a fumaça, enchendo o quarto com ela. Eu disse:
— Seu quarto é legal.
— Não tem nada nele. Só tem três móveis. As paredes mal têm tinta.
— Tem seu cheiro.
— O seu também tem o seu cheiro.
— Hum... Eu cheiro a o que?
Kevin tragou mais uma vez, sua voz começou a ficar mais embolada e cansada, mas eu ainda conseguia entendê-lo. Acho que apenas bêbados e noiados conseguem entender bêbados e noiados:
— Uma mistura de rosa e sabão de rico.
—Sabão de rico?
—É. Aqueles antibactericidas caros que eu não tenho dinheiro de comprar.
Eu comecei a rir igual uma cabrita com essa frase. Por algum motivo, Kevin começou a rir também e logo ambos rolávamos pela cama rachando de rir como duas crianças. Quando paramos, Kevin tragou mais um pouco do cigarro e encheu o quarto mais uma vez com a fumaça. Ele disse:
— Você não fuma mesmo?
— Não. Nunca fumei.
— E não tem vontade?
— Acho que não.
— Hum... Se for fumar um dia, não entre na nicotina, é um inferno.
— Eu sei, faço medicina.
— Ah. Sempre ouvi que os alunos de medicina são os mais drogados da faculdade. É verdade?
— Eu sei lá. Não converso muito com as pessoas da minha faculdade.
— Você não conversa muito com ninguém, na verdade.
— Ei! Não fale como se eu não tivesse amigos!
— Mas todas as vezes que conversamos você nunca citou ninguém além da sua irmã.
— Ora, você também não.
— É, tem razão. Na verdade não tem muita gente na minha vida além da Angel e do Dinho.
— Quem é Dinho?
— Ah um amigo. Você deve conhecê-lo eventualmente.
Kevin tragou mais uma vez o cigarro e se levantou. Ele apertou a bituca no chão para apagá-la e a largou ali mesmo. Quando deitou novamente o colchão pulou com seu peso, fazendo com que, por um segundo, tudo girasse mais uma vez. Eu disse, embriagada, porém com um pouco de consciência:
— Kevin, acabei de te contar um segredo bem profundo.
— Eu também.
— Amanhã quando a gente acordar, podemos fingir que tivemos amnésia alcoólica?
Ele riu ao meu lado. Uma risada bem estranha e arrastada. Depois disse:
— Se a gente for ter uma amnésia alcoólica, é melhor despejarmos tudo o que não queremos que o outro saiba agora.
— Tudo bem. Tem alguma coisa que quer me contar?
— Eu não, a ideia foi sua.
— Mas eu comecei no jogo da garrafa!
—Argh! Ta bem! Você é a primeira garota de quem eu gosto.
— O que?! Como assim?!
— Até eu te conhecer eu achava impossível me interessar emocionalmente por uma garota.
— Eu sou a primeira pessoa por quem você se interessa emocionalmente?!
— Eu não disse pessoa.
— Quer dizer-
— Aish, fala logo! É sua vez!
— Ah cacete, ta bom! Deixa-me ver... Eu não conseguia transar antes de transar com você.
— Que? Sério?
— Eu não conseguia ir até o final porque me lembrava do meu pai.
— Ah. Pesado.
— Você que começou ué! Anda logo, sua vez.
— Ta. — ele virou o rosto e olhou para mim — Eu quero muito te beijar.
— Eu também quero muito te beijar.
Kevin deu o sorriso mais bobo que eu já vi nele. Parecia uma mistura de um cara muito louco com uma criança muito fofa. Ele disse:
— Então me beija.
Não precisei de mais nada. Aproximei nossos rostos e selei nossos lábios. Aquele foi o beijo mais bagunçado do mundo. Nossas bocas e línguas estavam completamente loucas e se colavam e descolavam aleatoriamente. Nada fazia muito sentido e nada tinha muito ritmo. Mesmo assim, foi um beijo de tirar o fôlego.
Entretanto, como já havíamos dito, estávamos muito tontos para fazer qualquer coisa então eventualmente paramos de nos beijar e voltamos à posição inicial. Minha cabeça estava doendo e tudo voltou a girar. Provavelmente Kevin estava daquele jeito também.
Eu disse:
— Estou com sono.
— Dorme então.
— Eu vou mesmo.
Eu disse, já fechando os olhos. Porém, antes que pegasse no sono realmente eu o ouvi:
— Tenho mais um segredo.
Com minhas últimas forças, sussurrei:
— Fala.
— Eu vou te abandonar uma hora... Já mataram alguém importante para mim e eu tenho medo de te matarem.
E mal terminei de ouvir a última palavra quando adormeci profundamente.
Fale com o autor