Paraíso Proibido

10 O que ela quer, que você não me procure mais


Notas iniciais
Gente, desculpem a demora. Uma tragédia aconteceu na minha família e estou de luto Quem ja me conhece como autora sabe:n vou abandonar a fic, mas postarei ao meu tempo

A luz entrava pelo quarto e batia direto em meu olho. Instintivamente apertei mais ainda meus olhos e me virei para o outro lado.

Caindo em cheio no chão.

“Ótima forma de acordar.” Pensei comigo mesma. “Bom dia pra você também, mundo”.

Enquanto refletia sobre minha desgraça matinal senti que na cama em que eu estava deitada alguém se mexeu e disse, a voz meio abafada pelo travesseiro:

— Para de se mexer e volta a dormir.

Devagar eu me levantei. Minha cabeça estava doendo e as cortinas abertas estavam me irritando profundamente. Tratei de fechá-las logo, deixando o quarto um pouco mais confortável. A ficha da noite anterior estava começando a cair.

Eu estava de castigo, mas fugi de casa com Kevin. Fomos para casa dele quando descobrimos que os traficantes estavam mantendo sua irmã Angel de refém. Eu me escondi enquanto Kevin e ela resolviam o assunto. Os traficantes foram embora. Conheci Angel. Ela é baixinha e irritada. Ela me chamou de depósito de porra e foi embora. Bom, na sua cara Angel, não tem porra dentro de mim agora. Eu e Kevin enchemos a cara com pinga barata e forte. A pinga era horrível, porém o efeito era rápido. Eu contei que meu pai me estuprou por anos. Kevin contou que tinha uma dívida enorme com traficantes perigosos que foram responsáveis pela morte de seus pais. Kevin fumou maconha. Começamos a falar coisas aleatórias. Ele disse que gostava de mim. Ele disse que eu era a primeira garota qual ele gostava. Deu a entender que ele gostava de garotos antes. Mas Kevin era hétero, não? Eu disse que ele havia sido o único com quem eu havia conseguido transar.

Antes que eu dormisse ele disse que ia me abandonar, pois estava com medo de me matarem.

Oh céus, era muita coisa para processar. Como que tudo isso aconteceu em um dia?

Segurando minha cabeça, eu deitei na cama de volta. Estávamos ambos suados e fedendo a álcool, mas não liguei para isso. Kevin se remexeu na cama e virou para cima com os olhos abertos. Ele também parecia ter acordado.

Agora que estava sóbria consegui perceber que as coisas pretas no quarto de Kevin eram escritos. Seu quarto era cheio de palavras e frases escritas com uma caneta grossa e preta pelas paredes e teto. Fora isso parecia tão simples quanto na noite anterior.

Kevin disse:

— Não acredito que falamos tudo aquilo ontem.

— Eu também não.

— Acho que o treco da amnésia alcoólica não funcionou.

— Sim, eu me lembro de tudo.

Ficamos em silêncio remoendo os acontecimentos da noite anterior, cada um em sua cabeça. Ele disse, enquanto se levantava:

— Quando eu preciso me lembrar das coisas quando bebo eu não lembro. Quando eu quero esquecer, eu lembro. Qual o problema do meu cérebro?

Eu ri. Toda aquela situação seria engraçada se não fosse trágico.

Kevin estava em pé na frente da mesa que havia em seu quarto. Foi quando percebi que havia uma bandeja que não estava lá ontem. Não sabia o que era, mas consegui identificar dois copos com água. Enquanto isso, o dono do quarto estava segurando um papel e parecia meio surpreso enquanto o lia.

Quando pareceu terminar, pegou a bandeja e a levou para cama. Nela havia dois copos com água e cartelas de comprimido. No meio, um prato com quatro pães com manteiga e duas maças. O papel que Kevin estava lendo foi jogado no meu colo. Ele disse, ao mesmo tempo em que checava os comprimidos:

— Lê ai.

Parecia uma carta. Como ele havia pedido, eu a li:

“Desculpe por ontem. Estava estressada, você me conhece. Loira, me desculpe também. Só não vão se acostumando.”

— Foi Angel?

— Claro. É a única que tem a chave de casa além de mim.

— Hum. É, talvez ela não seja tão ruim.

Eu disse pegando uma das maças. Não era um Buffet de café da manhã, mas ela havia tentado. Kevin me passou alguns comprimidos e o copo com água. Bebi tudo e me senti bem melhor, só sorvendo aquele líquido que não era álcool.

— Estou surpresa por não ter vomitado. — eu disse.

— Eu também.

Comemos em silêncio. Nossas cabeças estavam doendo muito para que fossemos mais sociáveis que aquilo. Além disso, sinto que já falamos demais por uma vida só ontem.

Quando acabamos, Kevin colocou a bandeja no chão e voltou a deitar na cama. Eu deitei ao seu lado e, rapidamente, senti seus braços me puxando para que eu deitasse em seu peito. Ficamos deitados parados olhando para o tempo por um longo tempo.

Depois disso, Kevin disse:

— Precisamos de um banho.

— Sim.

Levantamos-nos e rumamos ao chuveiro... Estávamos estranhos, muito silenciosos... Por incrível que pareça, não era questão de desconforto... Parecíamos mais... Assustados... Finalmente ambos sabíamos sobre os podres um do outro, a maioria pelo menos. Era como se estivéssemos completamente nus frente a frente. Nus de alma. E isso assustava a ambos.

Não fizemos nada de sexual no chuveiro. Apenas tomamos um banho calmo e voltamos para o quarto. Kevin me emprestou algumas de suas roupas. Descobri que cuecas masculinas são extremamente confortáveis e que o cheiro dele impregnava em suas roupas, com um toque de amaciante.

Kevin disse:

— Tenho uma apresentação daqui a alguns dias. Preciso ensaiar.

— Isso é uma forma educada de me pedir pra ir embora?

Percebi que suas bochechas e orelhas ficaram vermelhas, apesar de ele abaixar a cabeça para tentar esconder. Disfarcei um pequeno sorriso também. Ele disse:

— N-não. É só que preciso ficar sozinho no quarto.

— Tudo bem. Eu entendo. De qualquer forma, hoje é segunda. Teoricamente, tenho aula. E é melhor voltar para casa antes que minha mãe acione a polícia.

— Nossa, é mesmo. Eu, praticamente, te sequestrei.

Nós dois rimos. Realmente, parecia que fazia muito tempo desde que estávamos na minha casa e mais tempo ainda desde que estávamos brigados. Por fim, ambos decidimos que já estava na hora de eu ir embora.

Quando saímos de seu quarto a casa estava silenciosa. Kevin disse que Angel, provavelmente, estava quase chegando e queria arrumar a casa antes disso. Aparentemente, sua irmã trabalhava em pedágios e em boates durante a noite e a manhã. Kevin se concentrava na orquestra de tarde e trabalhava de manhã. Agora que havia sido demitido do bar, por um motivo fútil como corte de fundos, estava procurando emprego para que não ficasse sem fazer nada o resto do dia.

Quando o mesmo abriu a porta da frente eu me virei para me despedir e disse:

— Sobre o que dissemos ontem...

— Eu preferiria que ambos esquecêssemos aquele episódio.

Ele disse com uma das mãos no pescoço. Parecia envergonhado e acanhado. Olhei para baixo e respondi:

— É... Mas, se quiser conversar... Bêbado ou sóbrio... Pode me chamar.

— Você também.

— Sim... Então, eu tenho que ir, vou tentar voltar com minha irmã.

— É, eu também. Preciso ensaiar.

Trocamos um abraço. Um abraço apertado e demorado. Quando nos separamos Kevin me olhava um pouco vermelho. Eu sabia que, provavelmente, estava tão vermelha ou mais... Era estranho, nunca havíamos tido essa vergonha um para com o outro...

— Então, tchau.

Eu disse. Devagar, acabamos nos soltando e eu, finalmente, fui embora. Enquanto descia as escadas do prédio e caminhava até o ponto de ônibus, continuava pensando nas coisas que dissemos um para o outro... Céus... Eu nunca havia desabafado daquele jeito com alguém antes... Será que ele também era assim?

E tudo aquilo que Kevin disse? Sobre a dívida e aqueles caras maus. Isso era sério e extremamente perigoso. Então era por isso que aqueles caras baterem nele daquela vez que nos encontramos... E sua irmã... Angel também estava envolvida... E a culpa nem era deles! Isso era muito injusto.

Kevin eu já sabia que é uma boa pessoa... Acho que Angel também, ela só tem um pavio muito curto. Também, pelo que ela disse, ontem ela foi sequestrada por aqueles traficantes e achou que ia morrer. Quem a culparia? Aos seus olhos eu, realmente, era apenas uma vadia que tomava o tempo de seu irmão... Eu só esperava que ele me visse diferente...

O que nos retorna a... Como Kevin me enxergava? O que eu era pra ele? Um rostinho bonito, uma menina rica, uma amiga? E aquilo que ele havia dito... Sobre me abandonar... Por que ele faria isso?

“Já mataram alguém importante para mim e eu tenho medo de te matarem”

Ele havia dito isso... Pobre Kevin. A morte de seu pai fora horrível, a de sua mãe também. E, pelo visto, havia mais uma morte em seu passado... Deveria ser horrível, ter que enfrentar tudo isso quando ainda é uma criança... Pelo menos, ele tem Angel, seria ainda pior se um dos dois estivesse sozinho.

Presa em tantos devaneios, cheguei rapidamente até a escola de minha irmã. Ainda faltavam alguns minutos para a aula acabar então resolvi que esperaria no estacionamento. Foi quando percebi que não havia trago o celular quando sai de casa ontem. Nossa, nem havia dado por falta do aparelho... Na verdade, isso foi até bom. Tenho certeza de que seria atolada de ligações e mensagens de minha mãe.

O sinal finalmente bateu e dentre todas as crianças que saíam apressadas do prédio da escola, havia minha irmã. Pequena, quase sumindo embaixo de sua mochila enorme e ao lado de uma de suas amiguinhas, Eliza. Quando me viu pareceu surpresa, mas se despediu de Eliza e correu na minha direção, abraçando-me.

Ela disse:

— Onde você estava? Mamãe ficou uma fera! Ela e a vovó discutiram muito sobre você e eu não estava entendendo o que estava acontecendo! Ela até ameaçou te levar para morar junto dela! Depois quando chegamos a casa mamãe começou a gritar mais ainda! E ai você sumiu e ninguém sabia pra onde você tinha ido! Mamãe ficou louca, andando de um lado pro outro pela casa, falando no telefone e gritando aleatoriamente comigo, com as empregadas e até com ela mesma! Todo mundo lá em casa ficou maluco pensando que você havia fugido!

Quando o monólogo acabou, seus olhinhos derramavam lágrimas e ela escondeu a cabeça em minha barriga, abraçando-me mais apertado ainda. Céus, não imaginei que todos ficariam tão preocupados comigo... Foi só uma noite.

Eu abracei minha irmã de volta e sussurrei, perto de seu ouvido:

— Tudo bem, Emily. Estou aqui agora. Desculpe-me por preocupá-la.

A pequena enfim se afastou, fungou o nariz e limpou as lágrimas. Sua voz saiu fraca quando disse:

— Tudo bem. Você está de volta, menos mal... Mas mamãe também ficou preocupada. Trate de conversar com ela.

Eu ri e baguncei seus cabelos antes de respondeu:

— Ah você fica tão fofinha quando acaba de chorar... Não se preocupe, eu e mamãe vamos nos resolver. Algum dia.

— Hum... Você vai pra casa agora, não é?

— Vou, vou. Você tem a chave de casa? Mamãe pegou a minha ontem.

Emily estufou o peito antes de dizer orgulhosamente:

— Tenho sim. Mamãe me deu há alguns meses. Disse que eu já era responsável o bastante.

— Ah que bom.

Depois que Emily pegou sua bicicleta fomos caminhando lado a lado conversando. As vezes uma de nós subia na bicicleta e pedalava devagar ao lado da outra ou dava umas voltas nas ruas menos movimentadas. Quando chegamos a casa eu já estava bem menos preocupada com tudo que havia ouvido e falado naquela noite...

Felizmente, minha mãe não estava em casa quando chegamos e sim no trabalho. Porém, é claro que ela não deixou de contar toda a história as nossas empregadas e alertá-las do meu “castigo”. Por isso que, assim que passei pela sala e alcancei a escada, pude ouvir Josephine limpar a garganta atrás de mim. Gelei e me virei, sorrindo para ela e dizendo:

— O-oi Josi.

— Bela tentativa mocinha. Sua mãe me disse que você estava “louca” e havia desaparecido. Também disse que se você chegasse era pra mandá-la direto pro quarto e ligar pra ela.

— E... Você vai fazer isso?

Ela ficou me encarando com aquele olhar duro de ditadora que só ela poderia me dar pelo o que pareceram horas. Porém, depois disso, suspirou e voltou a sorrir, dizendo:

— Vá lavar as mãos, você e sua irmã. Venham almoçar.

Sorri e corri escada acima na direção do banheiro, Emily ao meu encalço. Quando nós duas, mais as três empregadas Josephine, Rosa e Margreth estávamos sentadas na mesa comendo a deliciosa comida de Josephine o assunto pareceu voltar:

— Então, quer nos contar por que sua mãe gritou tanto que até nos acordou em nossos quartos ontem?

Perguntou Margreth. Olhei para o meu prato envergonhada e disse um tom mais baixo:

— Eu a desobedeci feio ontem... Fomos à casa de vovó e... Eu meio que fugi de lá e a deixei sozinha.

— Ah então foi isso o que aconteceu — disse Emily — Eu estava brincando de damas comigo mesma quando a discussão na sala começou a ficar muito alta. Fui até lá preocupada e só vi mamãe e vovó gritando a plenos pulmões.

— Poxa, Eglantine, você sabe como sua avó se sente em relação a sua mãe e ainda a deixou sozinha naquela casa?! — disse Josephine.

— Eu sei! Mas... Uma coisa aconteceu...

Percebi Rosa lançando-me um sorriso maroto antes de dizer:

— Eu conheço esse olhar. Quem é?

— O que?

— O garoto. Ou garota.

— Do que está falando, Rosa?

— Eglantine, você fugiu da sua avó para ir a um encontro. Não estou certa?

De repente as quatro na mesa estavam me encarando fortemente. Senti minhas bochechas corarem e abaixei meu rosto rapidamente, remexendo a comida no prato com o garfo antes de dizer:

— N-não.

As três mais velhas começaram a rir na hora e Emily ficou encarando a nós todas meio confusa. Ela perguntou:

— O que é?

— Sua irmã, Emily, finalmente está saindo com alguém.

— Queremos nomes.

— Quem garante a vocês que eu estou saindo com alguém?

— Ah, por favor, Eglantine! — disse Josephine — Pensa que nascemos ontem?

— Garota, eu nunca te vi nervosa desse jeito. Anda logo.

— Tá bom... O nome dele é-...

Antes que eu pronunciasse o nome de Kevin, ouvimos o barulho de um carro se aproximando e estacionando na garagem. Mamãe. Todas nós começamos a olhar assustadas umas para as outras. Teoricamente, estávamos desobedecendo às ordens de Charlotte!

Rapidamente Josephine se pronunciou:

— Rápido Eglantine, pegue seu prato e leve para o quarto. Finja que estava comendo lá o tempo todo.

Confirmei com a cabeça e segui rapidamente suas ordens. Assim que fechei a porta de meu quarto, pude ouvir a porta da sala sendo aberta. Sentei em minha escrivaninha e continuei remexendo a comida de um lado pro outro com os ouvidos atentos a qualquer coisa que pudesse acontecer no andar de baixo. Entretanto, não conseguia ouvir nada.

Maldita acústica dessa casa!

Quando estava prestes a me levantar e me aproximar da porta para ouvir melhor, ouvi os saltos altos de minha mãe batendo firmes no chão do segundo andar. Era agora.

A porta foi aberta rapidamente e Charlotte apareceu com o rosto em fúria. Ela fechou a porta e disse, baixo e pausado:

— Onde. Você. Estava.

Uma coisa que devem saber sobre minha mãe. Se ela gritar com você, tudo bem. Significa que você vai ouvir uns palavrões e ganhar uns tapas. Agora se ela falar baixo com você, com esse tom disciplinador que ela está usando agora mesmo... Ai sim você deve se preocupar porque uma grande discussão está a caminho...

— Eu... Estava na casa de uma amiga.

— Qual amiga?

— Uma amiga... Da faculdade.

— Melany? Eu liguei para ela e você não estava lá.

Por que eu só fui ter uma amiga naquela faculdade?!

— Outra menina. Você não conhece.

— Nome.

— Err... Angel.

Foi o primeiro nome feminino que veio na minha cabeça. E sim, estou ciente de que é a irmã de Kevin.

— Hum. E como saiu?

Abaixei o olhar, não aguentando mais encarar aquele rosto repreendedor e respondi:

— Eu pulei a janela.

— Desde quando sabe pular janelas Eglantine? Como um pivete qualquer. Fugindo de casa na calada da noite. Eu não te criei para ser assim.

Apenas mantinha minha cabeça abaixada enquanto ouvia ela se aproximando de mim cada vez mais. Charlotte perguntou:

— Qual foi o nosso combinado ontem?

— Eu estava de castigo, não ia sair para lugar algum. Você pegou as chaves do meu carro e de casa.

— Correto. E o que passou na sua cabeça, Eglantine, para pensar que poderia desobedecer a ordens tão diretas minhas?

— Eu-...

— Você deve pensar que eu sou uma daquelas suas amiguinhas ridículas que te seguiam pra todo lado nas épocas de Colégio. Olhe para mim! — Levantei a cabeça e a encarei — Eu não sou sua amiga, não sou uma parenta qualquer. Eu sou sua mãe, você me deve respeito e obediência acima de tudo. Entendeu?

— Sim, mãe.

— Ótimo. Parece que você e Emily andam se esquecendo disso nessa casa. — ela se virou e começou a sair do quarto — Eu estava pensando em seu castigo durar um mês, porém depois dessa sua brincadeirinha, ele acabou de durar mais um mês, então são dois meses de castigo. Está me ouvindo, Eglantine?

— Sim, mãe.

— Ficará em seu quarto durante todo o dia, sairá apenas para a faculdade. — Quando ela estava na porta, terminou o discurso — E eu peguei a chave da sua varanda. Quero ver você pular ela de novo igual um menino de rua.

Afirmei com a cabeça lentamente enquanto completava:

— Sim, mãe.

— Espero que desse jeito a senhorita aprenda a lição.

Ela fechou a porta e eu ouvi o barulho do trinco.

Presa, de novo.

Bufei irritada e me sentei na cama, segurando os cabelos com força. Estava com tanta raiva! Qual era o problema dela?! Por que minha mãe era assim sempre tão orgulhosa, como se ela fosse a única certa do mundo?! Ela nem se preocupa em perguntar o que eu penso das coisas, como estou me sentindo! Ela só despeja ordens e “verdades” na minha cabeça o dia inteiro como se ela fosse o centro do universo e a única que tivesse problemas! Pois bem, mãe, todos temos problemas e você não pode simplesmente fingir que os problemas dos outros não existem e descarregar os seus próprios em cima delas!

Tentando extravasar minha raiva eu levantei e gritei a plenos pulmões, logo em seguida, soquei o mais forte que consegui a parede ao meu lado. A dor foi instantânea e eu recolhi o punho para perto o segurando e esperando que o incômodo passasse.

Pelo menos agora eu já me sentia menos estressada.

Respirei fundo e senti o cheiro de Kevin, ainda estava com suas roupas e como havia tomado banho em sua casa também tinha o cheiro dele... Hum... Será que minha mãe havia percebido? Provavelmente não, ou ela ficaria ainda mais irritada.

Deitei de volta na cama, dessa vez puxando a gola da camisa de Kevin para o meu rosto, aspirando fundo seu perfumo. Aquilo me acalmava. Bem mais relaxada, olhei para minha escrivaninha e notei a pilha de livros e resumos. Ah claro, eu tinha um seminário para apresentar semana que vem. E ainda tinha perdido as aulas de hoje.

Suspirei e me joguei na cadeira. Pelo visto o universo não queria que eu relaxasse mesmo.

[...]

Não tinha ideia de quantas horas haviam se passado desde que eu havia sentado naquela cadeira. Já disse que odeio o meu curso? Ah sim, odeio o meu curso. Não tinha a menor paciência para ficar lendo aqueles vários artigos de milhões de doenças com nomes estranhos. E as aulas práticas! Céus, como alguém podia fazer aquilo por diversão?! Todo aquele sangue e carne velha, aquele cheiro horrível de formol e aqueles cadáveres te olhando. Chegavam a me dar calafrios, mesmo longe do laboratório como era aquele momento. Felizmente sempre tive uma facilidade de memória e associação de matéria, se não, não teria passado nem do primeiro período.

Um barulho me despertou do meu transe no trabalho. Vinha da porta da minha varanda. Levantei-me e caminhei até lá. Quando estava próxima, vi uma pequena pedrinha bater no vidro da porta de leve e cair no chão. Tentei abrir a mesma, mas claro, estava trancada. Daquele jeito seria impossível ver quem estava debaixo da sacada. Eu já tinha minhas suspeitas, porém, para confirmar, peguei a cadeira que estava à frente da escrivaninha e coloquei na frente da porta, subindo na mesma e me permitindo ver quem estava tentando chamar minha atenção.

Não me surpreendi quando vi Kevin com os cabelos bagunçados, um casaco de moletom de capuz negro e uma mochila nas costas. Com as mãos, ele fazia sinal para que eu descesse...

Instantaneamente sorri. Minha cabeça que estava doendo desde que sentei para fazer o trabalho parecia bem mais leve... Porém eu ainda não poderia ir até ele, estava presa. Sinalizei, também com as mãos que a porta estava trancada e que não poderia sair. Kevin ficou relutante e pareceu pensar por um momento.

Quando pensei que ele desistiria e iria embora, fui surpreendida com sua mochila sendo jogada para cima e suas mãos aparecendo no parapeito. Ele estava tentando subir! Estava preocupada, mas nem tanto, afinal, sabia que Kevin tinha experiência nisso, foi assim que nos conhecemos afinal. Rapidamente ele estava na minha frente, do outro lado da porta. O menino se inclinou na direção da mochila e retirou de lá dois objetos compridos e finos. Ajoelhando-se na frente da porta e concentrando-se, Kevin foi remexendo a tranca com aqueles “grampos” e não demorou muito para que a porta fosse aberta e ele estivesse sorrindo convencido na minha direção.

Ele disse:

— Voalá.

— Onde aprendeu a fazer isso?

Eu perguntei enquanto descia da cadeira e a guardava de volta em seu lugar. Kevin abriu aquele sorriso zombeteiro já tão conhecido por mim e disse:

— Na escola da vida... Então, pelo visto a segurança redobrou.

Suspirei cançada e disse:

— Pois é, minha mãe não ficou muito feliz e levou a chave da varanda também.

— Tudo bem. Na verdade foi muito divertido. Eu nunca tinha escalado uma sacada e arrombado uma porta pra encontrar uma garota. Me senti o príncipe da Rapunzel.

— Mas tenho certeza que você já escalou sacadas e arrombou portas por ai. — Eu sorria na sua direção.

— Sim, mas nunca pra encontrar uma garota.

Dessa vez ambos demos risada. Parecia um pouco estranho e fora da realidade, eu sendo Rapunzel e Kevin, justo ele, meu príncipe... Mas tudo bem, aceitaria aquilo por hora.

Depois disso trocamos um singelo beijo. Quando nos separamos, eu perguntei:

—Você tá cheiroso hoje... O que faz aqui?

— Então, um grande amigo meu vai dar uma festa hoje e ele me obrigou a te levar.

­— Uma festa? Mas hoje é segunda-feira.

Ele riu baixo e disse:

— E dai? Você acha que não tem gente que sai pra beber segunda?

— Hum... Não?

— Pensou errado. Eu nem deveria ir, mas estou estressado desde que fui demitido e já que estava acostumado a virar a noite no bar não faz muita diferença. Vamos, por favor? Só pra você conhecer ele.

Bom, tecnicamente eu tinha aula amanhã. Olhei para minha escrivaninha, ainda estava cheia de cadernos abertos e papeis espalhados. Eu ainda tinha coisas para fazer da faculdade... Mas eu não estava nem um pouco a fim de fazer isso. Era estressante ter passado dezessete anos na escola fazendo várias matérias aleatórias que eu odiava e ser obrigada a passar mais oito anos estudando mais dessa mesma chatice... Amaldiçoado seja o dia em que eu decidi cursar medicina.

De qualquer forma, Kevin não precisava saber disso tudo. Então eu disse:

— Tudo bem.

Ele abriu um sorriso lindo e brilhante antes de dizer.

— Ótimo. Vamos.

Após um selinho rápido eu fui me arrumar. Tomei um banho rápido e coloquei uma calça jeans, meus tênis negros e uma blusa solta também negra com detalhes dourados. Sequei os cabelos e passei um batom brilhante. Tudo muito rápido, pois além de estarmos com medo de minha mãe aparecer aleatoriamente no quarto também estávamos relativamente atrasados para a festa considerando que iríamos de ônibus, apesar de que Kevin disse que não era muito longe daqui.

De qualquer forma, terminei de me vestir e ambos pulamos a sacada. Percebi que estava ficando boa nisso, dessa vez eu já senti menos o encontro com o chão. Demos as mãos e fomos correndo na direção da saída do condomínio. O vento frio da noite nos recebendo de braços abertos.

Notas finais
Espero q tenham gostado Comentem
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.