Paraíso Proibido
8 Ela sonha que você é uma ingênua criança
Notas iniciais
Com um movimento minha mãe desligou a ignição do carro e sua primeira atitude foi abrir a porta sol e se olhar no espelho que estava nele. Enquanto Charlotte retocava mais uma vez seu rímel, ela disse, sem olhar para mim:
— Você deve estar impecável Eglantine.
— Eu sei mãe.
Minha mãe passou o rímel para mim e, assim como ela eu o retoquei enquanto olhava no espelho. Pude ouvi-la continuar a balbuciar:
— Aquela velha asquerosa... Chamou-nos aqui e com certeza não foi pra boa coisa.
— Você pode chamar a vovó disso?
Quem disse foi Emily com sua voz baixa e simpática, vinda do banco de trás. Eu olhei para ela e sorri enquanto apertava sua bochecha. Eu disse:
— Acontece que nossa avó tem uma categoria especial pra ela, então podemos chama-la disso.
— É, mas só quando ela não está por perto. Ouviu Emily?!
— Calma mãe.
Eu mal terminei a frase quando minha mãe empurrou um batom na minha direção, ordenando que eu passasse. Enquanto eu fazia isso, Charlotte terminava seu monólogo enquanto checava o cabelo.
— Nós três estaremos lindas, inteligentes, educadas e dignas da presença da avó de vocês. Ela vai falar o que quer que queira falar comigo-...
— E ela não vai te tirar do sério, mãe.
— Exato. — Charlotte respirou fundo enquanto abria a porta do carro — E ela não vai me tirar do sério.
Nós três saímos e caminhamos calmamente na direção da casa de minha avó, Emily segurando minha mão. Minha avó Brigite era uma das mais ricas socialites da cidade. Sua mansão ficava no subúrbio, cercada por árvores altas cuidadosamente plantadas e aparadas. A casa era enorme com três andares acima do nível do solo e mais um subterrâneo, toda em tons de creme e branco. Tudo muito chique e clássico.
Assim que começamos a subir as escadas, meu coração acelerou de medo... Tinha medo de ver... Ele... De novo... Como se minha mãe soubesse disso, ela me lembrou:
— Não se preocupe, Eglantine. Seu pai está sobre ordem jurídica de manter distância de você, então eu duvido até mesmo que ele esteja em casa.
— Sim mamãe. Eu sei.
A porta foi aberta revelando um dos empregados de minha avó que nos acompanhou até uma de suas salas de estar. Antes que entrássemos o homem que estava nos guiando disse que Emily deveria segui-lo até a sala de jogos.
Nenhuma de nós três opinamos sobre isso. Desde que Emily nasceu, minha avó apenas a viu uma vez, em seu batizado quando ela ainda era bebê. Depois disso, se recusou a reconhecer minha irmã mais nova como um membro da família, tudo porque ela nasceu mais escura que o resto de nós, puxando o pai de minha mãe. Brigite não se cansava de espalhar discursos infinitos sobre como Emily não deveria ser filha de seu filho, pois todos da família tinham herdado os mesmos genes arianos.
De qualquer forma, não nos opusemos a essa ordem dela. Afinal, algo me dizia que Emily não iria gostar de estar dentro daquela sala conversando com minha avó. Nem eu gostaria.
A porta se abriu e eu respirei fundo, notando Brigite sentada em um dos sofás mexendo furiosamente em seu celular de última geração. Ela levantou o olhar e me encarou, lançando um sorriso melancólico. Levantando-se e vindo em minha direção, ela disse:
— Eglantine, minha neta querida. Há quanto tempo.
Ela ignorou completamente minha mãe, passando direto por ela e vindo em minha direção, abraçando-me e beijando-me. Retribui com o máximo de educação que consegui e logo estávamos nós três sentadas no sofá. Minha mãe logo começou:
— Então Sra. Doyle, por que nos chamou aqui hoje?
— Eu só queria conversar um pouco com a minha neta, Charlotte. Agora vai fazer disso um crime?
Minha mãe deu uma risada sem graça e ao mesmo tempo, senti meu celular vibrar. Quase dei um pulo na cadeira e peguei minha bolsa rapidamente. Aquilo deveria estar no silencioso! Se tinha uma coisa que minha mãe e minha avó odiavam era ser interrompida pelo telefone!
Assim que peguei o aparelho e vi o nome de Kevin piscando na tela eu ouvi minha avó dizer:
— Já que agora, pelo que estou entendendo, sua mãe quer separar mais ainda os nossos laços familiares, certo Eglantine?
— O que?
Quando levantei meu olhar, as duas me encaravam. Eu ainda estava meio surpresa pela ligação no celular... Quer dizer, fazia quase duas semanas que eu não tinha noticia nenhuma de Kevin e ele nunca havia me ligado. Eu gaguejei um pouco:
— E-eu. O que?
Brigite começou a rir de uma forma escandalosa e falsa ao mesmo tempo enquanto deu uma batidinha na minha perna. Minha mãe me encarava com raiva, e eu apenas abaixei meu olhar. Droga, Kevin. Por que mesmo quando você não está no recinto, você consegue fuder com tudo?
De repente minha avó me chamou:
— Então, Eglantine, como vão as coisas? E a faculdade?
Olhei pra minha mãe antes de responder:
— V-vai bem, vó.
— Já pensou em que quer se especializar, querida?
— Não. Acho que está muito cedo pra isso.
— Certo. Você poderia conversar com seu pai sobre isso, ele-...
— Brigite.
O tom de minha mãe veio duro na nossa direção. Eu também fiquei tão tensa quanto ela quando meu pai foi mencionado na conversa, mas minha avó pareceu não perceber. Minha mãe continuou:
— Você sabe muito bem que ele é obrigado por lei a não se aproximar da minha filha.
— Ah agora ela é sua filha. Até onde eu sei, Charlotte, Eglantine também é filha do meu filho.
Mais uma vez o celular em meu colo vibrou. Olhei para a tela e de novo, era Kevin. Minha mãe e minha avó continuavam discutindo e meu coração acelerava cada vez mais. Eu não sabia se era adrenalina e medo da discussão que ocorria na sala, ou se era adrenalina e nervosismo das ligações que estava recebendo. Meu dedo coçava para que eu atendesse as ligações.
Eu ainda conseguia ouvir as duas discutindo ao meu lado enquanto a ligação se encerrava automaticamente e meu celular piscava avisando que havia uma nova mensagem na caixa postal. Eu tinha que ouvir aquela mensagem!
— Você não acha, Eglantine?
Levantei a cabeça e encarei as duas. Minha mãe me olhava com raiva e apreensão e minha avó me encarava confiante. Céus, eu havia perdido completamente a última parte da conversa... Apesar de saber que aquela era uma conversa que eu não queria ouvir, ou participar... Por isso a única coisa que consegui fazer foi encarar as duas totalmente perdida. Até que minha mãe disse:
— Eglantine, pode ir ver como está a sua irmã? Quero ter uma conversa em particular com a sua avó.
— Tudo bem.
Eu não esperei que ela mudasse de ideia para me levantar e sair da sala rapidamente. Cheguei até o hall de entrada, mas não queria topar com nenhum empregado perguntando se eu queria alguma coisa. Segui direto e acabei parando no jardim. Quando já percebi que estava sozinha, peguei o celular novamente.
Lá estava o sinal de que havia uma mensagem na minha caixa postal. Um pouco tremula, eu apertei o botão e coloquei o aparelho na minha orelha. A mensagem começou.
Primeiro eu só ouvi uns barulhos estranhos e vozes sussurrando coisas bem baixas e desconexas pra mim, até que finalmente:
— A-lou. Errr. Oi... Loira. Eu... Eu só queria... Quer dizer, é o Kevin. Eu...
— Anda logo, Kevin.
Disse uma voz masculina mais ao fundo. Kevin respondeu:
— Shhh... É que... Me liga, ta legal? Tchau.
E a mensagem acabou. O que tinha sido aquilo? Kevin parecia tão... Nervoso... Acho que eu nunca tinha visto ele tão nervoso assim... Na verdade, eu não conheço o Kevin ha tanto tempo...
Céus, não nos falávamos a duas semanas! Eu tinha ficado com raiva primeiro, depois triste, depois eu simplesmente empurrei o assunto para um lugar obscuro da minha mente e me concentrei em outras coisas. Deus sabia que eu tinha assuntos mais preocupantes pra tratar naquele momento... Na verdade, os assuntos estavam correndo nesse mesmo instante na sala da qual eu acabei de sair.
Olhei para o celular de novo. Talvez não fosse uma má ideia.
Apertei o botão e logo a chamada começou. Foram necessários poucos segundos de discagem até que eu ouvisse a voz de Kevin:
— Loira?!
— Oi Kevin.
— O-oi, você recebeu minha mensagem?
— Sim.
— É que...
— Fala logo, menino. — Disse uma voz fina atrás dele, um pouco longe do telefone.
Kevin continuou depois disso, um pouco mais encorajado:
— Eu cheguei à conclusão de que eu e você somos dois idiotas cabeça quente e que a última vez que nos vimos terminou em completo desastre por causa disso, mas eu ainda acho que podemos remediar isso, então o que me diz de nos encontrarmos de novo?
Depois dessa frase enorme, ele enfim pegou fôlego. Aquilo tinha sido muito rápido, mas felizmente eu havia entendido e concordava com ele. Sorri e respondi, apertando o telefone na minha orelha:
— Tudo bem. Eu concordo com você. Desculpe-me.
— Nha... Eu também tenho que te pedir desculpas.
— Convida ela pra vir aqui em casa! — disse a mesma voz de antes.
— Cala a boca!... Ta fazendo alguma coisa importante?
Olhei excitante para a janela que dava para a sala onde estavam minha avó e minha mãe e respondi:
— Não.
— Ótimo. Vamos sair. Hum... Lembra daquele parque que eu te levei uma vez?
— Lembro.
— Sabe chegar lá?
— Acho que sim.
— Ok, nos encontramos lá daqui a pouco. Tchau.
Rapidamente Kevin desligou, parecia apressado. Dei uma última olhada para a janela da sala esperando que nenhuma das duas tivesse me encarando e finalmente, guardei o celular e fui embora.
[...]
Depois de um ônibus e uma caminhada, finalmente eu estava no parque em que havia encontrado Kevin da última vez. Resolvi esperá-lo sentado no mesmo trepa-trepa em que ficamos da última vez. Encarei minhas roupas, meus sapatos... Eu estava muito arrumada para um encontro normal.
Não demorou muito e logo avistei Kevin vindo na minha direção sorrindo e uma palpitação subiu pelo meu peito. Ele estava lindo como sempre, porém um pouco envergonhado. Quando levantou o olhar e nossos olhos se encontraram, de repente, todas aquelas emoções avassaladoras que me atingiam quando convivíamos voltaram em cheio.
A única coisa que pude fazer foi sorrir e abaixar o olhar envergonhada, não antes de ver os olhos de Kevin brilhando. Serio, qual era o nosso problema?
Quando ambos estávamos perto o suficiente, pude notar que estávamos meio sem jeito. Deveríamos apertar as mãos, nos abraçar, nos beijar? Decidi por dar o primeiro passo e envolver Kevin em um abraço. Senti-o suspirar na minha nuca e apertei ainda mais seu corpo junto ao meu.
Era bom abraçar Kevin. Parecia... Certo... Eu não era uma pessoa de muitos abraços. Eu mal era uma pessoa de muitas relações profundas... E Kevin... Kevin era diferente de tudo que eu já havia vivido até agora na minha vida. Era uma afeição muito grande, um sentimentos muito grande. Com nós dois, sempre, tudo era muito intenso, ardente, sufocante... Era como uma chama enorme qual eu tinha medo de me queimar. Era como um mar fundo qual eu tinha medo de me afogar.
E acho que Kevin sentia o mesmo também... Pelo menos, eu esperava.
Quando nos sentimos seguros o suficiente para nos afastar, sentamos lado a lado na grama, apoiados em uma das árvores do parque. Era domingo de manhã, então o local estava relativamente cheio com vários grupos de crianças e jovens. Porém, conseguimos achar um espaço para nós e um relativo silêncio.
Percebi que ambos estávamos muito envergonhados, felizmente eu sempre fui mais comunicativa e disse:
— Então, você teve mais coragem que eu e me ligou.
Kevin riu um pouco e disse:
— Pois é. Na verdade, o crédito não foi inteiramente meu. Então, tem esse meu amigo e eu contei para ele o que havia acontecido entre nós. Ele ficou muito puto e me obrigou a te ligar. Na verdade, quem apertou o botão foi ele, logo depois colocou no meu ouvido para que eu não tivesse escolha. — ele olhou para baixo e riu — Acho que eu tenho muita vergonha de fazer essas coisas.
— Você com vergonha de ligar para uma garota, definitivamente, é algo que eu jamais esperaria ver.
— Você falou igual minha irmã agora. Ela também achou idiota o que aconteceu entre a gente, mas não tentou intervir... Na verdade, eu normalmente não iria ligar... Mas... Eu sei lá. Gosto da sua companhia... Talvez mais do que eu imaginava.
— Eu também gosto da sua companhia.
Pensei em como me senti feliz quando meu celular anunciou a chamada de Kevin. Mesmo que eu estivesse na casa da minha avó, mesmo que uma briga estivesse prestes a se instalar entre nós três, mesmo que meu futuro estivesse sendo resolvido naquela sala; permiti-me esquecer todo o estresse e mágoa e focar apenas em Kevin e sua tentativa de ajeitar as coisas.
Devagar, juntei nossas mãos sob a grama e entrelacei nossos dedos. Senti quando Kevin apertou mais ainda a minha mão e as encarou. Depois de um tempo, ele disse:
— Será que eu posso tirar uma foto?
— O que?
— É. Eu quero tirar uma foto disso... O seu celular tira fotos, não é?
— Sim...
— Me empresta?
Peguei o aparelho e entreguei em suas mãos. Kevin ajustou a câmera do celular e eu ouvi o “clique” da foto. Pensei que ele iria tirar uma selfie ou algo em que aparecesse nossos rostos, mas, na verdade, ele tirou foto de nossas mãos unidas. Sorri para aquele gesto e perguntei:
— Por que queria uma foto disso?
— Eu sei lá... Pra guardar, eu acho...
— Você não existe.
— Felizmente, para você, eu existo sim... Então, o que estava fazendo quando eu te liguei? Por que não atendeu da primeira vez? Estava com raiva?
— Não. Só estava extremamente ocupada... Estava na casa da minha avó... Eu, ela e minha mãe estávamos discutindo alguns... Assuntos familiares.
— Entendo.
De repete nós dois paramos de falar. É impressionante o quanto o assunto “família” sempre que é tocado por um de nós dois faz com que o clima fique instantaneamente pesado e acabe com nós dois em silêncio... Bom, eu já sabia que a minha família era toda fudida... Será que a dela era assim também?
Decidida a remediar isso, eu disse:
— Quer ir lá em casa?
Ele arregalou os olhos e me encarou:
— Eu posso?
— Pode, ora.
— É que... Eu imaginei que ia demorar um pouco mais de tempo até que você quisesse me convidar para a sua casa.
— Não. Eu quero que você vá lá agora. Vamos.
Segurando firme sua mão, corremos juntos na direção do ponto de ônibus. Era bom estar perto de Kevin de novo.
[...]
O ônibus nos deixou bem na porta do meu condomínio, então só tivemos que andar alguns passos até chegar a minha casa. Silenciosamente, abri a porta, agradecendo por a mesma estar vazia. Não queria ter que passar por mais uma discussão desnecessária hoje.
Kevin entrou igualmente em silêncio. Guiando sua mão, nos levei para o segundo andar, mais especificamente, meu quarto. Quando enfim chegamos, virei para trás para analisar a situação de Kevin. Ele estava meio que boquiaberto. Perguntei:
— Tudo bem?
— Hum... Claro... Só que sua casa é muito grande.
— Você acha?
— Uhum, se você me soltasse aqui eu, provavelmente, me perderia.
Eu dei uma risadinha e comecei a brincar com minhas mãos de forma nervosa. Achava meu quarto sem graça, não parecia muito digno de Kevin. Fiquei com vergonha das paredes nuas, da estante repleta de troféus e medalhas avulsas, das fotos de pessoas com quem mal conversava, dos vários livros e resumos de medicina.
Quando notei, Kevin rodava o quarto e observava cada um dos cantos. De alguma forma, ele encontrou minha pasta com minhas partituras de piano. Ele começou a foleá-las calmamente e, às vezes, soltava um sorriso em meio as páginas.
Eu me sentei com meu coração galopando e resolvi apenas observar. Em determinado momento ele parou em frente a um longo espelho qual eu tinha pregado adesivos com flores e fadas quando eu era mais nova. Kevin também passou a mão por um destes parecendo impressionado.
Quando pareceu satisfeito, continuou caminhando até parar em frente a estante com meus prêmios e assobiar. Ele disse:
— Caralho, o que você não consegue fazer?
Eu ri e disse:
— Muitas coisas. A maioria disso eu nem me lembro mais como fazer.
— Uhum, sei.
— Sério! — eu disse, me levantando e indo até ele — Isso aqui por exemplo. Ganhei esse troféu na Olimpíada de Soletração. Nem me lembro mais como escrever a maioria dessas palavras... Ou esse de Líder de Torcida. Duvido que eu ainda saiba fazer os saltos e as suspensões daquela época.
— Hum... Isso tudo é uma forma de diminuir seu mérito?
Fiquei vermelha e respondi:
— Claro que não.
— Ótimo, porque você não deve fazer isso... Céus, se eu soubesse fazer tudo isso que você sabe eu não estaria atendendo bares.
— Mas você, certamente, é melhor em música do que eu.
— É, talvez.
A conversa pareceu acabar por um tempo, então decidi dar o primeiro passo e avançar para beijar sua boca. Porém, Kevin pareceu surpreso, arregalou os olhos e afastou-se um pouco de mim. Consequentemente, eu também me afastei, um pouco confusa.
Ele balançou a cabeça e disse:
— Desculpe, estava bem distraído.
— Você está bem mesmo?
— É que... Sei lá, fico meio envergonhado estando na sua casa.
— Por quê? Estamos só nós dois aqui.
Eu me aproximei dele mais uma vez, porém, dessa vez, Kevin pegou uma de minhas mãos e começou a brincar com ela. Ele disse, olhando para baixo, um pouco avermelhado:
— Eu sei... Mas é uma casa tão bonita, tão imponente... Seu quarto é tão cheio dessas coisas caras e intelectuais... Sei lá, me sinto estranho.
Peguei seu rosto em minhas mãos e o fiz levantar o olhar e nos encaramos. Eu disse:
— Por favor, não se sinta mal perto de mim. Não importa o lugar onde nós estivermos.
Quando terminei de dizer isso Kevin piscou algumas vezes, meio confuso. Porém, logo sua expressão mudou e ele enlaçou minha cintura, colando nossos corpos. Nós dois trocamos um beijo.
Fazia tanto tempo que eu não beijava Kevin! Eu quase havia me esquecido do quanto aquilo era bom! Aquele encaixe, aquela conexão. Ele tinha uma boca deliciosa de beijar e morder, uma língua divina que eu delirava quando sentia passando pela minha própria.
Tomando uma maior profundidade eu empurrei seu corpo até que o prensasse na parede ao lado da minha escrivaninha. Ouvi um suspiro escapar da boca de Kevin e sua mão, marota, desceu até a minha bunda, apertando-a. Também soltei um suspiro contido.
Continuamos naquela troca de carícias cada vez mais profunda. Nossas peles queimavam e formigavam. Nunca era o suficiente. Parecia que fazia meses que eu não transava, mas, na verdade, fazia apenas algumas semanas... Mesmo assim eu sentia falta daquele homem, daquele corpo, daquele toque. Daquela foda.
E justamente quando eu estava pensando em joga-lo na minha cama, eu ouvi um barulho de trinco vindo do andar de baixo e logo em seguida uma voz alta e raivosa:
— EGLANTINE GOMEZ DOYLE!
Instantaneamente, senti um arrepio percorrer a minha espinha. Afastei-me de Kevin com tanta pressa e força que acabei batendo sua cabeça na parede fazendo com que o mesmo fizesse um barulho de dor. Tapei sua boca enquanto olhava para trás, para a porta do meu quarto fechada, porém não trancada. Eu podia ouvir os saltos de minha mãe subindo as escadas e ela estava se aproximando rápido.
Eu e Kevin trocamos um olhar arregalado de puro pânico. Ele olhou para a porta da varanda, provavelmente pensando em pulá-la. Porém, eu sabia que a mesma estava trancada. Pensei rápido e o peguei pela gola da camisa e o joguei dentro do armário. Kevin entendeu o recado e se ajeitou silenciosamente dentro do móvel entre várias roupas diferentes minhas.
Quando minha mãe entrou no quarto, eu havia acabado de fechar a porta do guarda roupa e estava parada encarando-a. Ela se aproximou de mim e mal vi sua mão se erguendo, porém senti o estalo e a ardência do tapa em minha bochecha.
Charlotte gritou na minha frente:
— Eu não acredito que você fez isso! Eu disse que eu precisava da sua ajuda! Eu disse que era pra você convencer sua avó! E você fugiu! Você me deixou lá sozinha com aquela bruxa que estava a todo instante dizendo o quanto eu estava pressionando você e o quanto tudo o que estamos fazendo não se passa de uma vingança arquitetada por mim contra o seu pai! Você tem noção do quanto foi horrível ouvir isso tudo?!
— Me desculpe, mãe.
— O caralho para as suas desculpas! Elas não valem de nada para mim Eglantine! Eu estou farta disso! Esse processo idiota está tomando todo o meu tempo e dinheiro! Eu mal consigo trabalhar direito e todo o tempo que me sobra tenho que aguentar você e a peste da sua irmã!
Eu apenas olhava para baixo, mexendo em meus dedos. Meu rosto estava quente e meus olhos ardiam querendo derramar lágrimas. Temia olhar para o armário na direção de Kevin e minha mãe suspeitar de algo... Certamente, eu não queria que ele ouvisse essa discussão. Sabendo que se eu retrucasse, aquilo apenas iria se estender, optei por ficar calada e continuar ouvindo minha mãe falar pelos cotovelos:
— E pra que?! Pra uma incessante visita a tribunais, salas de juízes e advogados que não levarão a nada! Aquele desgraçado do seu pai e a bruxa da minha sogra são muito ricos e influentes! Não sei como você conseguiu me convencer a fazer isso! Escuta aqui Eglantine, eu irei desistir dessa merda, ouviu bem?! Isso é problema seu e, me parece que você não está preocupada com isso, saindo para festas, matando aula e encontrando favelados na rua! Pois estão, já que está tão pouco se lixando pro perrengue que você me colocou, vamos ver como você lida com isso sozinha! Porque pra mim chega! Resolva você seus problemas com seu pai, porque eu não aguento mais!
Ela se virou e saiu pisando duro pelo quarto, porém antes de ir embora, ela disse:
— Ah e você está de castigo! Não vai sair para lugar nenhum, eu irei te levar e buscar da faculdade, seu carro e seu celular estão confiscados.
Suspirei e caminhei até minha bolsa em cima da cama. Peguei o celular e a chave do carro e entreguei para ela. Quando pensei que minha mãe iria embora, ela disse:
— As chaves da casa também.
— O que? Como assim?
— Você não vai sair de casa e eu irei te levar e buscar, não vai precisar das chaves da casa. E também não poderá trancar o quarto.
Dessa vez, bufei irritada. Não era possível que com dezenove anos nas costas eu ainda fosse tratada como uma criancinha... E ainda por cima por motivos como esses... Entreguei o molho de chaves a ela. Charlotte deu uma última olhada pelo quarto antes de bater a porta. O barulho da madeira ecoou por todo cômodo e como encerramento, ainda pude ouvir o barulho da chave sendo girada no trinco.
Eu estava, definitivamente, presa.
Exausta, ajoelhei no chão do quarto e comecei a chorar baixinho... Já havia acostumado com isso. Eu odiava a minha vida. Não acredito que minha mãe brigou comigo de novo. Não aguentava mais aquilo...
Senti uma mão no meu ombro e me assustei virando para trás rapidamente. Qual foi minha surpresa a ver Kevin parado me encarando estático... Com toda a confusão, já havia até esquecido que ele estava ali.
Secando minhas lágrimas rapidamente, eu me levantei e comecei a procurar pelas gavetas do quarto. Eu disse:
— Vou achar a chave da varanda pra você ir embora.
— Eglantine...
Eu ouvi Kevin chamando meu nome baixinho, parecendo com medo da minha reação. Entretanto, eu resolvi não prestar atenção nele, procurando a chave com o máximo de pressa que eu conseguia. Só queria ficar sozinha e chorar.
Acredito que o ouvi me chamando mais uma vez, porém o ignorei de novo. Finalmente, havia achado a chave solitária no fundo da gaveta. Quando me levantei e virei, senti os braços de Kevin me envolvendo e sua mão forçou minha cabeça para apoiar em seu peito.
Ficamos naquela posição por um tempo.
Ouvi-o dizer baixinho, como se fosse um segredo muito importante, no meu ouvido:
— Tudo bem. Não é culpa sua. Pessoas se estressam às vezes e tendem a descarregar seus problemas nos outros... Mas isso tudo não é culpa sua.
Eu mal percebi quando meus olhos se encheram de lágrimas e quando as mesmas começaram a rolar livremente pelo meu rosto. Segurei firma a camisa daquele menino, apertando-o junto a mim, sentindo seu cheiro e ouvindo as batidas de seu coração...
Não sei quanto tempo ficamos assim, até que ele disse:
— Vem embora comigo.
— O que?
— Sua mãe te trancou no quarto. Você pode ficar aqui sozinha e esperar ela te buscar, o que duvido que vai acontecer antes de amanhecer, ou pode vir comigo. Vamos comprar uma comida gostosa, um engradado de cerveja e vamos para minha casa.
Abaixei meu rosto e suspirei. Eu nunca havia feito isso antes. Sempre era deixada de castigo, às vezes pelos motivos mais ridículos, porém nunca pensei em ir contra as ordens da minha mãe... Com medo, eu disse:
— Mas e se ela nos pegar?
— Ela já te colocou de castigo. Você não tem nem a chave de casa mais. O que seria pior?
— É...
— Além disso, algo que me diz que tem muita coisa presa ai dentro e você precisa desabafar. Vamos. É minha noite de folga.
— Hum... Tudo bem. Vamos.
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