Paralelos
1 1° Ato
Notas iniciais
Eu me pergunto se as estrelas indicam
A vida que é para ser minha
– Roma Ryan
Paralelos — Primeiro Ato.
O raiar de mais um dia era como uma pequena tortura particular para Saga.
Não que tivesse reclamando de acordar muito cedo, juntamente com o sol; afinal o moreno nem ao menos conseguiu fechar os olhos. Ficou acordado a noite inteira, mais uma entre tantas outras noites onde apenas as luzes das velas e os livros velhos de suas leituras particulares eram suas companhias.
Companhias melancólicas, talvez, mas eram as únicas em que poderia confiar. E se refugiar.
Com tantos problemas para resolver, afazeres reais, acordos de paz e guerras, tudo aquilo... Aquilo era maçante.
Sempre gostou do poder, de estar no poder total. Sempre gostou de dominar e do domínio que tinha perante o povo e alguns outros reinos próximos. Porém Saga, de uns tempos para cá, estava sufocado com tantos afazeres.
Não que detestasse trabalhar, mas nesses últimos tempos, várias pressões pareciam estar caindo sobre si, dominando sua cabeça, praticamente o enlouquecendo.
Sim, às vezes sentia que estava ficando maluco com tudo isso. Principalmente com o fato de estar praticamente andando numa trilha onde seu reinado estava prestes a entrar em um conflito com um dos impérios de sua proximidade. Um império conhecido por ter um líder violento e até sem escrúpulos. Um império que poderia acabar com o seu, não com tanta facilidade, mas Saga sabia muito bem que aquele homem gostava de guerras. E principalmente, gostava de vencer todas elas, assim como sempre fazia.
Fechou o livro velho que estava em suas mãos, suspirando. Por sorte não havia ninguém ali, em seus aposentos, pois não queria ser visto com toda essa preocupação em seu semblante. Era um homem frio e orgulhoso, gostava de passar a imagem de superioridade em seu modo tão imodesto de agir.
Ao afastar as cortinas que tapavam a visão da janela de seus aposentos, Saga pôde visualizar mais uma vez todo o seu reinado. Seu reino, seu povo. Era o rei daqueles homens, deveria sempre manter-se com o semblante de total confiança em si mesmo. Afinal, desde quando estava tão inseguro assim? Aquilo era patético!
A luz do dia ao bater contra seus olhos azuis o fez soltar um resmungo baixo, acostumando sua visão aos poucos naquela claridade. Após alguns minutos contemplando todo o seu poder, resolveu iniciar aquele dia.
Seus dias eram quase sempre a mesma coisa. E o início, logo pela parte da manhã, talvez fosse a sua parte preferida do dia, na qual poderia cavalgar e andar reino afora, podendo sempre colocar a cabeça no lugar. Talvez aquele seu pequeno ritual matinal fosse o que sempre lhe ajudava a se manter como um bom regente, além de não deixar a loucura tomar posse de sua mente.
– Bom dia, majestade! – Um servo o saudou educadamente, como de costume, fazendo reverência. – Seu cavalo já está pronto.
Saga apenas o respondeu com um menear de cabeça, já saindo do grandioso castelo onde residia; vestido adequadamente para seu esporte preferido, com sua postura arrogante, vendo que outro servo trazia sua montaria.
Precisava pensar. Pensar na guerra que seu reinado estava prestes a encarar.
Precisava pensar numa saída inteligente.
♠ ♤
O vento era levemente frio, talvez por causa daquela época do ano. E sentir a brisa gelada e suave contra o rosto era relaxante. Os longos cabelos negros do geminiano, por mais que estivessem amarrados num laço frouxo na ponta, esvoaçavam de acordo com o vento. Seus olhos azuis sempre em alerta prestava bastante atenção naquele caminho.
Saga conhecia aquelas redondezas melhor do que ninguém. Costumava sempre cavalgar por ali, distante dos burgos. Em meio de toda aquela natureza é que se encontrava em paz.
Era quase a fronteira de suas terras com as do reino vizinho. Atravessando aquela vasta correnteza daquele rio eram terras de outro reinado. As arvores e a essência de toda a natureza era admirável, e mesmo com o frio, as plantas do ambiente eram de um tom verde bastante vivo.
Resolveu parar mais adiante, a fim de fazer seu cavalo descansar e beber um pouco de água, enquanto admiraria secretamente o ambiente tão bem conhecido.
O local era uma perfeita reserva natural auriverde, pouco tocada pelos homens.
Afinal, poucos costumavam ir até esse lugar. Até porque, o que alguém iria fazer ali?
Por isso Saga gostava de passar parte de sua manhã em meio daquela natureza. Porque era calma, pacífica e... Cheia de resmungos?
Escutou alguns passos mais adiante e franziu o cenho. Quem poderia ser a essa hora da manhã? E justamente nesse local tão escondido, no meio de um monte de mato? Ou melhor, quem ousava perturbar sua sagrada manhã de paz?!
Esperava veemente que não fosse nenhum mensageiro do reino hipócrita daquele imperador violento.
E só de pensar nesta hipótese, Saga levou sua destra à empunhadura de sua espada real que sempre carregava consigo. Seus passos eram sigilosos em meio á algumas plantas que haviam por ali. Resolveu averiguar de uma maneira ardilosa, afinal, nunca se sabe quando um espião inimigo fosse querer cortar a cabeça do rei. Principalmente quando o rei estava relativamente distraído.
O que eles mal sabiam é que Saga nunca se distraia. Sempre estava atento para qualquer situação. E desta vez, não seria diferente.
Porém, ao que parecia foi apenas um alarme falso. Era apenas alguém na beira do rio, agachado, lavando as mãos ou o rosto, não soube dizer com precisão, pois o outrem estava de costas.
E o outro, que estava á beira do rio, ao notar passos á surdina, virou-se de súbito para ver quem estava por ali, lhe espiando.
– Eu sei que você está ai, seu idiota! – Resmungou visivelmente irritado. Achava que aqueles seus amigos idiotas já estariam a essa hora procurando alguma hospedagem para ficarem por alguns dias. Porém, conhecia muito bem seus amigos, um em especial, para saber que ele adoraria ficar ali para fazer gracinhas com sua cara.
E Saga, ao escutar o outro e vê-lo de frente, não ficou nada mais ou nada menos do que chocado. Não exatamente chocado, mas paralisado por alguns instantes. Ou talvez apenas sua mente paralisasse, pois suas pernas automaticamente o fizeram sair de seu esconderijo que era atrás daquelas grandes arvores semelhante a sequoias.
– Quem é você? – É a única coisa que o monarca consegue perguntar, ao ver o homem a sua frente, que também pareceu ficar tão surpreso quanto a si mesmo.
Aquela situação poderia parecer cômica, se não fosse o fato de ter encontrado um homem idêntico a si. Saga franziu o cenho, e estranhamente, a sua cópia também fez o mesmo. O silêncio se perpetuou por alguns longos segundos, enquanto os olhos buscavam as palavras que nenhum dos dois conseguia dizer.
Saga o fitou dos pés a cabeça. As vestimentas daquele homem denunciavam que ele era uma pessoa simples, um forasteiro talvez. As botas surradas, calças amarrotadas e desbotadas, a algibeira, juntamente com uma blusa grande, uma túnica talvez, que também estava desbotada e um tanto velha, além do manto com um capuz bem peculiar. Era um viajante sem dúvidas!
E o outro a sua frente fez o mesmo, observando detalhadamente as vestimentas do rei adiante. Um almofadinha– pensou ao analisa-lo, notando a roupa bem conservada em detalhes de tons vivos, cores estas que raramente via alguém usar por ai. Além do mais, tons avermelhados lembram bastante a realeza.
No fim, o estranho acabou por rir. Era como se estivesse vendo o seu próprio reflexo numa versão mais patética.
– Responda-me, quem é você?! – Saga voltou a perguntar, vendo o outro apenas rir ao lhe observar atentamente.
– Kanon. Eu me chamo Kanon. – O timbre da voz parecia um sarcasmo. – E você? Não me diga que tem o mesmo nome que eu... – Continuou a rir, achando aquela cena esquisita bastante hilária.
Saga franziu ainda mais o cenho ao ver a ousadia do rapaz a sua frente.
– Eu sou Saga. Saga Laskaris, o rei de Tidesson. – Sua voz era fátua. Mantinha-se numa postura altiva.
Saga deu mais uma boa analisada no rapaz a sua frente. Tirando a parte que ele estava em trajes completamente displicente, ele era a sua mais completa cópia. Nunca havia visto alguém tão parecido consigo. Como nunca tinha visto aquele homem antes?
Aquilo era estranho.
E enquanto Saga apenas divagava em pensamentos, Kanon pareceu pouco se importar com tudo aquilo. Não deu a mínima para o fato do homem a sua frente ser da realeza daquele reino, apenas deu as costas e pegou sua mochila velha que estava próxima do rio onde lavava seu rosto, disposto a ir procurar seus adoráveis companheiros de viagem.
Ainda tinha que fazer Aioros pagar por jogar terra em sua cara. E por causa daquela brincadeira estúpida vinda do sagitariano, acabou ficando para trás. Ainda tinha que encontra-los! Aquele idiota ainda ia lhe pagar, para deixar de ser tão irritante!
E pensando nisso o forasteiro apenas começou a sair dali, deixando o outro parado, com o semblante sério e o olhar altivo sobre si, que parecia não lhe surtir efeito algum. Não tinha por que ficar ali.
– Espere! – Saga exclamou, vendo o outro sair. Queria poder falar algo mais... Na verdade perguntar. Ou verificar... Enfim, aquilo era estranho! Aquele homem parecia demais consigo, lhe deixou completamente intrigado. Ele não poderia simplesmente sumir assim de suas vistas!
– Desculpe, mas não tenho tempo para ficar aqui de conversa fiada! Até mais vê! – Kanon nem ao menos se deu o trabalho de se virar ao outro para poder respondê-lo, apenas colocando a mochila de cor marrom, semelhante ás suas vestimentas, em suas costas e sair dali.
Saga por um momento não soube o que fazer. Odiava quando alguém descumpria alguma ordem sua, afinal, era o soberano daquele local. Porém, aquela surpresa foi realmente inaudita. Havia lhe deixado atônito, o que o fez apenas ficar olhando aquele zaranza sair dali, o deixando ainda mais curioso.
Estava intrigado, intrigado demais. Deveria investigar sobre esse homem.
Afinal, não é todo dia em que se acha uma cópia idêntica a si. Aquilo deveria ter alguma explicação. E estava disposto a saber qual era, mas antes, estava ainda mais disposto a espiar aquele homem.
Não deveria ficar tão intrigado assim. Ou deveria... ?
♠ ♤
Não foi difícil para Kanon achar os demais naquele reino. Eles talvez estivessem andando devagar para lhe dar tempo de alcança-los, e logo os faria se arrepender disso. Afinal, não deixaria passar em branco mais uma brincadeira idiota de Aioros!
– Finalmente encontrei vocês! – O geminiano chamou a atenção dos demais num resmungo irritadiço.
– Conseguiu lavar o rosto? – Aioros perguntou num tom de brincadeira, com seu típico sorriso que às vezes chegava a ser meio bobo. Havia sido apenas uma brincadeira, e sua intenção ao jogar terra em Kanon foi apenas uma pequena vingança particular por ele sempre lhe dizer que nunca conseguia ficar com mulher alguma. Mas no fundo não se importava com as brincadeiras e tiranias de Kanon, apenas fazia rir.
– Seu idiota, você me deixou todo sujo de areia! – Resmungou, dando uma leve bofetada naquele cabeça de vento, o fazendo apenas rir mais um pouco.
– Vamos logo, ainda temos que achar uma taberna para nos hospedarmos! – Aiolia, irmão mais novo de Aioros, chamou a atenção dos dois, com seu típico tom arrogante e apressado.
Os outros apenas concordaram, indo a busca de alguma taberna para ficarem por alguns dias.
Kanon já era acostumado com o jeito daqueles companheiros. Fazia um bom tempo que Julian Solo, rei de Atlantis, os financiavam em suas viagens. Viagens estas que traziam muitos lucros e desenvolvimento para Atlantis através dos mares, já que eram um grupo de corsários que sempre faziam questão de não voltar com as mãos vazias para seu rei.
Milo, Aioros e seu irmão mais novo, Aiolia, eram seus fieis amigos. Já trabalhavam juntos á bastante tempo e já tinham cumplicidade em cumprir suas “missões”. E além de seus deveres, também eram amigos de festejos e noitadas.
Afinal, de que adiantaria viajarem por um bom tempo, arquitetando assaltos e em busca de riquezas para levar ao seu reino, se não aproveitassem o que há de melhor nas viagens?
Kanon apenas sorriu com seus pensamentos. Pretendia aproveitar da melhor maneira possível essa passagem em Tidesson.
♠ ♤
Saga estava inquieto.
Não conseguia se concentrar com precisão em absolutamente nada. Aquele homem, tão idêntico a si, lhe roubou a atenção pelo resto do dia.
– Saga? Está me ouvindo? – Seu conselheiro perguntou pela terceira vez, achando estranho o seu rei estar tão distraído. Saga era sempre um homem concentrado.
– Estou sim. – O respondeu ao sair dos devaneios de sua mente, tentando focar sua atenção no conselheiro a sua frente. Ele parecia discutir algo de grande importância sobre o reino de Serpe, que estava prestes a começar uma guerra contra o seu reino.
Shion Dawa era um respeitável conselheiro. Era um homem sábio, honrado, que sempre colocava o dever e as responsabilidades acima de qualquer coisa. Poderia até mesmo ser considerado um homem frio às vezes.
O conselheiro apenas suspirou, achando estranho aquele comportamento do mais novo, porém, nada disse.
– Depois continuamos a discutir sobre isto. Acho que você tem mais alguns compromissos agora; certo? – Shion apenas ditou aquilo, e após trocar mais algumas palavras com o soberano, saiu do recinto.
Sempre se preocupava com Saga. Sabia que o garoto assumiu o trono muito cedo. Ele ainda era um jovem quando se viu cheio de responsabilidade após o óbito de seu pai. E Shion sempre esteve ao lado de Laskaris, ajudando-o no que fosse preciso para manter o reino. Talvez toda aquela distração do mais novo fosse uma preocupação em relação á Serpe, que era um império conhecido por ter um regente bastante violento e dominante.
Era a primeira vez, talvez, que Saga tinha que enfrentar um problema tão grave. Já havia conseguido superar muitas dificuldades de Tidesson, porém, talvez esse fato estivesse realmente o preocupando.
Shion apenas suspirou, antes de voltar a andar pelo grandioso palácio do rei, em passos calmos.
E Saga permaneceu em seu lugar por alguns instantes. Estava na biblioteca, discutindo agora a pouco algumas coisas com Shion, porém sua mente desatenta não conseguiu se focar em nada do que lhe foi dito.
Suspirou, mirando as estantes cheias de livros, dos mais variados assuntos, enquanto pensava consigo mesmo nos restantes de seus afazeres.
Porém, a única coisa que tinha a fazer agora era sanar aquela sua curiosidade. E talvez, arquitetar seu pequeno plano de loucura.
Logo o soberano levantou-se da confortável cadeira onde estava sentado, saindo da biblioteca. Teria apenas que arrumar uma capa comprida e escura para cobrir suas vestes. E de preferência com algum capuz, para poder andar livremente pelo reino.
♠ ♤
Aquilo a princípio parecia ser ridículo.
Saga Laskaris jamais se imaginou em uma cena assim, onde teria que andar em meio àquelas ruas, disfarçado dos pés à cabeça. O longo capuz envelhecido de cor acinzentada era perfeito para esconder suas vestimentas e principalmente o seu rosto, que estava mascarado por uma pequena penumbra que lhe cobria a face.
Não foi difícil achar a Taberna onde aquele homem estaria. Bastou procurar nas proximidades da ultima vez que havia o visto, que apesar de não ser tão perto assim, devido ao fato de que o lugar onde se encontraram foi praticamente em meio á uma mata fronteira de padrão majestoso que é um pouco mais distante do vilarejo.
Porem, naquele lugar não tinham tantas tabernas assim. E uma em especial lhe chamou bastante a atenção, por estar mais agitada do que normalmente parecia ser.
Todo aquele barulho chamou sua atenção, e os passos curiosos de Saga seguiram em direção ao tal lugar. Gritos de euforia, risos e alguns outros murmúrios que não conseguia compreender muito bem vinham de uma taberna em especial. A aparência do recinto barulhento era decadente, um pouco sujo e degradante, o fazendo sentir-se num lugar realmente inferior para si. Mas mesmo assim, não ponderou. Apenas adentrou o local, abrindo a porta de madeira velha e dando de cara com um ambiente no qual não estava muito acostumado a visitar.
Ou melhor, nunca esteve. Locais assim não eram para um rei, definitivamente. Porém, deixou essa conclusão apenas em seus pensamentos, passando a observar com atenção o local animado.
Muitos homens bebiam animadamente. Pareciam comemorar alguma coisa. Algumas mulheres da vida também estavam por ali, dançando, seduzindo e divertindo-se com os homens do local, que comemoravam sabe-se lá o quê. Era um antro imundo e estranho para si, que sempre foi tão acostumado com festas entre as mais altas realezas.
Os olhos azuis percorreram o local, analisador, parando apenas quando achou o motivo de sua investigação.
Lá estava ele. O homem cujo rosto é uma cópia perfeita do seu próprio.
Ele parecia estar perto de alguns amigos mais chegados. Um loiro de longos cabelos fartos ao seu lado sorria, juntamente com ele, e ambos pareciam apreciar um pequeno show indigno de uma daquelas mulheres sem valor, que provavelmente faziam aquelas coisas em busca de uns simples trocados.
E o homem altivo continuou ali, parado, observando o quanto eles pareciam felizes. Por mais que fosse uma felicidade fútil, parecia que eles tinham algum tipo de liberdade.
E era justamente isso que buscava de uns tempos para cá. Uma pequena parcela de liberdade. Não para ser libertino como todos aqueles homens, que bebiam cerveja e deliciavam-se com aquelas prostitutas sem valor. Apenas para fazer o que bem queria, por breves instantes.
E teve um pouco de sorte pelo o fato de o local estar cheio. Assim, pôde ficar perto da porta, encostado na parede, sem chamar atenção. Não sabia o que eles comemoravam, a única coisa que sabia é que tinha que dar um jeito de falar com aquele homem, a sós.
Logo o viu levantar-se de um dos bancos de madeira, vindo em direção á saída, juntamente com a mulher que se insinuava descaradamente para ele. E instintivamente, Saga cobriu um pouco mais o próprio rosto, afastando-se da porta, enquanto o outro andava com a meretriz por entre as mesas do recinto, até a saída do mesmo, com um grande sorriso impudico.
Saga não pensou duas vezes ao sair daquele antro imundo, logo após o outro, seguindo-o descaradamente.
A rua pouco iluminada também era um ambiente desconfortável, mas não para Kanon, que parecia achar o local ideal. E descaradamente, puxou a mulher pela cintura, pretendendo leva-la á lateral da Taberna, que era um lugar ainda mais imundo, estreito e que parecia ser o ambiente mais perfeito para sanar a sua necessidade impudica do momento.
E enquanto pensava nisso, com um sorriso no rosto, guiando a tal mulher até o local, sentiu um leve puxão em seu ombro direito, o fazendo soltar de leve a prostituta para virar para trás e ver quem diabos poderia ser num momento como aquele.
– Preciso falar com você! – Foi tudo o que Saga disse, deixando mostrar um pouco de seu rosto para o outrem, que logo franziu o cenho como resposta.
– Você de novo?! – Kanon deixou claro o desagrado com aquele reencontro de súbito.
A mulher que acompanhava o corsário resmungou qualquer palavra chula, que foi totalmente ignorada por Saga, que apenas puxou o outro dali, disposto a realmente falar com ele.
A noite já estava majestosa á essa altura. Havia pensado naquele homem, ou melhor, em planos para aquele homem durante o dia inteiro, desde a hora que o conheceu na beira daquele lago obtuso. Não poderia perder a chance de falar com ele.
E apesar de resmungar, Kanon se deixou levar pelo outro, pois estava sem cabeça para discutir agora, apesar de estar levemente irritado por perder uma possível noite tórrida ao ver a mulher se irritar e entrar novamente naquela taberna, provavelmente em busca de outro freges. Apesar de zangado, também estava curioso em saber o que aquele homem queria consigo.
– O que você quer?! – Perguntou quando se viu sozinho em meio aquela rua praticamente vazia, apenas com o seu semelhante a sua frente.
– Eu quero lhe fazer uma proposta... Kanon. – Pensou por alguns segundos antes de falar o nome do outro, como se tentasse se recordar de seu nome.
– Uma proposta? – Kanon o respondeu e ergueu uma sobrancelha, curioso.
Saga olhou para os lados, querendo ter a certeza de que estariam sozinhos por ali. Mas por via das dúvidas, preferiu arrastar o outro até o beco desprovido de luz que era ao lado da taverna barulhenta, para poder falar mais tranquilamente.
– Sim, uma proposta. – Tirou o capuz, revelando quase que inutilmente a sua face, já que aquele local era iluminado apenas pela fraca luz da lua. – Eu quero fazer uma troca.
– Uma troca...? – continuava sem entender.
– Sim. Quero trocar sua vida pela minha. – Respirou fundo, como se buscasse o ar que havia perdido ao falar aquilo. – Você ficará no meu lugar, e eu ficarei no seu. Apenas por alguns dias, claro.
Saga não se reconheceu ao falar aquele absurdo para aquele estranho a sua frente, que de semelhante a si tinha apenas a aparência.
Agora, talvez, tinha quase a certeza que estava ficando louco. Ou talvez já estivesse louco, só teria que admitir para si mesmo.
(Continua...)
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