Paralelos
2 2° Ato
Notas iniciais
Vida das vidas
Começo ao fim
Nós estamos vivos
Para sempre
– Roma Ryan
Paralelos — Segundo Ato.
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– Do que você está falando?! – A princípio Kanon ficou surpreso com aquilo, mas depois começou a rir. Uma sonora gargalhada, como se tivesse escutado a coisa mais estúpida que alguém poderia lhe dizer. – Você está bêbado, não é?
– Nunca falei tão sério. – Saga fechou ainda mais o seu semblante, ficando irritado com aquela risada. Ele parecia estar debochando de si.
– Então você ficou louco! Aposto que você deve ser só algum qualquer desse reino que sai por ai achando que é o rei!
– É talvez eu esteja ficando louco sim... – Um suspiro longo pode ser ouvido, antes de ele voltar a falar: — Ou talvez isso seja uma forma de me impedir que eu fique louco. – Murmurou a ultima parte mais para si mesmo do que para o homem a sua frente, tentando se convencer daquilo.
Kanon o analisou por longos segundos. Apesar daquele homem está com toda a pompa de rei e superioridade, conseguia ver – ou até mesmo sentir – uma melancolia que vinha daqueles olhos. Por mais que aquele beco estreito estivesse escuro, conseguiu de alguma forma visualizar com clareza aqueles olhos, que eram iluminados apenas pela fraca luz da lua.
– Você é mesmo o rei de Tidesson? – Cruzou os braços, não acreditando que estava prestes a dar ouvidos á um louco.
– Eu já disse que sim!
– Mas... Se você é o rei, por que diabos você quer trocar de lugar com a minha vida? Não sei se deu para notar, mas eu não sou alguém da realeza. Não tenho muito dinheiro, apenas viajo por ai com alguns amigos...
– Você tem liberdade. E é exatamente isso que eu quero. – O rei desviou seus olhos para a paisagem mais adiante, erguendo um pouco a cabeça e podendo ver o tão imperioso castelo do rei lá longe. Aquele era o seu lugar, e não aqui, perto dessas pessoas inferiores e incultas. Sabia muito bem disso.
Kanon continuou sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Liberdade? Do que aquele homem estava falando? Ele era o rei!
– Você é o rei, não precisa de mais nada. Não seja estúpido. – Falava com simplicidade, como se não temesse a grande diferença de colocação social entre ambos.
– Eu quero apenas ficar longe dos meus afazeres reais por alguns dias. Apenas alguns dias. Eu só preciso... Colocar a cabeça no lugar. Você não entenderia. Só entenderia se estivesse no meu lugar! – Saga buscava as palavras, as explicações necessárias. Mas não conseguia nem ao menos se autocompreender.
Estava se sentindo estúpido por demonstrar uma insegurança tão patética.
– Pense bem... Você não queria ter alguns dias como o rei de algum lugar? O grande soberano? Olhe só para essa sua vida imunda, e olhe para aquele castelo.
A vontade que Kanon teve foi de dar uma surra naquele almofadinha ao escutar aquilo. Porém, apenas olhou para o castelo, antes de olhar novamente para o beco estreito e escuro que estava com ele. Aquilo simplesmente não tinha comparação. Se ele era mesmo o rei, a vida dele era a mais perfeita do que a de qualquer um que se encontrasse presente neste reinado. Ele realmente estava louco... Era a única explicação lógica que via para tal proposta.
– Se sua vida é tão perfeita, então por que está querendo trocar com a minha? – Kanon indagou curioso e levemente irritado.
– Eu já disse. Eu preciso apenas de algum tempo, alguns dias para colocar a cabeça no lugar. Longe de qualquer grande responsabilidade.
Era um maluco! Porém, ao ver aquele homem tão parecido consigo se divertindo, e tão livre, teve inveja dele. Sentiu uma grande inveja daquele ser pobre, moribundo e inferior. E como ficou com vontade de estar ali, no lugar dele, faria isso. Era o rei, poderia fazer o que quisesse.
– Trocar de lugar com um rei... – Murmurou para si mesmo, pensando em como poderia ser bom. As melhores iguarias, as mais belas servas e o mais elevado poder sobre os demais... Aquilo parecia perfeito. – Você não pode ser o rei daqui! – Riu consigo mesmo, como se tivesse chegado a essa conclusão. Aquela proposta estava perfeita demais para ser verdade.
Saga pensou no que fazer. Realmente, não seria fácil de acreditar naquela grande história sem pé e nem cabeça. Logo abriu a própria capa velha que usava, revelando sua roupa de realeza. Também fez questão de mostrar sua mão direita ao moreno a sua frente, como se aquele anel de puro ouro esculpindo o brasão da família real fosse a maior prova que ele pudesse ver. Principalmente pelo o fato de a luz estar ruim demais, porém, o anel majestoso brilhava com intensidade.
Kanon analisou aquele homem. E principalmente, analisou aquele anel em seu dedo. Conhecia uma joia rara de longe, e seus olhos gananciosos agora tiveram a certeza de que aquela joia era de um alto custo.
– Isso só pode ser uma brincadeira... – Murmurou para si mesmo.
– Eu vou te dar um tempo para pensar nisso. – Falou enquanto fechava sua capa acinzentada novamente, colocando o capuz que lhe cobria o rosto e escondendo as mãos entre as longas mangas. – Amanhã, ao anoitecer, estarei no mesmo lugar onde nos encontramos pela primeira vez. Espero que apareça por lá logo quando o sol se for. – E ao dizer isto, simplesmente deu as costas e resolveu sair dali.
Aquele tempo também serviria para si mesmo. Para ver se caia novamente em sua sanidade e se impedia de fazer aquela loucura.
Porém, duvidava disso. Queria um pouco de liberdade, e a teria, custe o que custar.
♠ ♤
Kanon pensou muito naquela proposta.
Desde o momento em que voltou novamente para dentro da Taberna, onde todos os tripulantes comemoravam o fato de estarem vivos mais uma noite para se divertirem antes de começarem a trabalhar, o moreno ficou pensativo. Não conseguiu mais se concentrar na festança e nem ao menos nas mulheres que se exibiam por ali.
Deu uma boa olhada no recinto antes de ir até as escadas estreitas que tinham ali por trás. Resolveu descansar um pouco e pensar. Pensar para ver qual seria a melhor alternativa para aquela proposta.
Se ele fosse realmente o rei, aquilo seria bastante viável. Ele talvez fosse apenas um reizinho entediado da vida perfeita e quisesse uma boa aventura. Riu consigo mesmo ao pensar naquilo, imaginando em como seria divertido ver um cara tão mimado quanto ele em seu lugar, e apenas ajeitou-se melhor na cama dura e pequena da hospedaria, disposto a dormir um pouco.
♠ ♤
Mais um nascer do sol que os olhos azuis atentos de Saga acompanhavam.
Mais uma noite que não conseguiu dormir.
Mas desta vez a culpa era a ansiedade. Um lado seu insistia em achar que aquela proposta seria o ideal para tirar um tempo para si e pensar um pouco a respeito de sua atual condição, assim como a condição de Tidesson. Porém, por outro lado, parte de sua consciência insistia em gritar na sua mente que aquilo era uma loucura, que não poderia simplesmente jogar toda a responsabilidade de seu reino nas mãos de um quase desconhecido.
Afinal, o que sabia sobre Kanon? Absolutamente nada!
Mas seria apenas por alguns dias. Três ou quatro dias, no máximo. O que poderia acontecer de ruim durante esse pouco tempo?
Logo o rei levantou-se, disposto há iniciar seu dia e parar de ficar apenas ponderando sobre os possíveis acontecimentos em relação àquela sua escolha. Já havia se decidido, iria trocar sim de lugar com Kanon. E se caso ele quisesse ficar em seu lugar definitivamente, bastava dizer que foi obrigado a fazer aquilo. Seria fácil se livrar de qualquer culpa caso ele falasse demais. Afinal, era o rei. Logicamente iriam preferir acreditar no rei de Tidesson á acreditar num qualquer.
O dia se seguiu maçante e devagar, como sempre. Seus afazeres eram quase sempre a mesma coisa quando voltava de seu ritual matinal: Tomar seu pomposo café da manhã, resolver assuntos importantes com Shion e mais alguns outros membros e conselheiros da corte, como comércio e acordos, verificar com o líder de seu exercito real se tinha algum problema, e etc.
Seria apenas mais um dia enfadonho, se não fosse o fato de que daqui a algumas horas iria mudar drasticamente sua vida. Mesmo que fossem apenas por alguns dias.
Ao menos era isso que planejava.
♠ ♤
– O que aconteceu com você para ir dormir mais cedo ontem? – Aioros perguntou com bastante curiosidade, andando por uma rua do vilarejo ao lado de Kanon, enquanto comia uma pera apetitosa.
– Acabei ficando com sono...
Logicamente, Kanon sabia que não poderia falar sobre aquela proposta bizarra que Saga lhe fez. Nem ao menos falar que encontrou alguém tão parecido consigo, pois ficaria meio óbvio quando trocasse de lugar com Saga.
Não que já tivesse aceitado aquilo, mas... Ainda estava pensando sobre o assunto. E caso resolvesse trocar de lugar, passaria alguns dias naquele grandioso castelo. E por isso, não poderia falar para ninguém, nem mesmo para Aioros. Não por hora.
Seus olhos de cor azul estavam fixos no enorme e majestoso castelo lá adiante. Mesmo estando relativamente longe, dava para ver o palácio onde aquele homem residia; magnífico e cheio de esplendor. Era óbvio que qualquer pessoa daria tudo para passar ao menos algumas horas naquele luxo do rei.
Então, por que não aceitaria?
Kanon nunca foi de temer a alguma coisa, muito menos de remoer arrependimentos. Sempre esteve disposto a aproveitar tudo o que a vida lhe oferecia, e dessa vez não seria diferente. Seu coração ganancioso no fundo almejava por aquilo.
E o moreno só despertou de sua distração quando escutou uma risada boba vinda de Aioros, que parecia rir por qualquer idiotice que ele mesmo falava.
– Do que está rindo, idiota?
– Da sua cara engraçada! E também de ontem! Você falou tanto que eu não fico com mulher nenhuma, mas ontem você foi dormir bem cedo! – O sagitariano tinha um sorriso feliz no rosto.
– E eu aposto uma garrafa de vinho que você não ficou com nenhuma ontem, de novo! – Desafiou, com um sorriso tirano no rosto.
Seu amigo apenas fez uma careta levemente emburrada, antes de recusar a aposta em meio a sua típica animação.
Logo resolveram andar mais um pouco por aquelas bandas, a fim de conhecer mais o local.
♠ ♤
A noite enfim veio chegando aos céus de Tidesson.
O espetáculo celestial formando tons alaranjados parecia ser esplêndido diante dos orbes azuis do rei. Era como se, pela primeira vez, Saga estivesse enfim admirando um espetáculo celestial. Talvez nunca tivesse parado para observar, admirar e notar a quão bela a natureza poderia ser.
Ou talvez, naquele momento, havia notado que sua patética melancolia fosse uma venda em seus olhos majestosos.
– Desde quando me tornei tão tolo? – Murmurou para si mesmo, fechando enfim as cortinas da janela de seu quarto,quando o sol se pôs, dando lugar enfim para mais uma noite. Uma noite gloriosa!
Saga não esperou muito tempo. Saiu novamente com seu capuz velho e acinzentado, que havia conseguido de alguns de seus servos, para não ser reconhecido pelo reino. Mesmo que estivesse escuro e que poucas pessoas fossem lhe ver, fazia questão de andar disfarçado, pois havia muitas pessoas que pareciam gostar de vivenciar suas vidas pelo turno da noite.
E a hora enfim chegou.
O coração parecia querer pular para fora de seu peito a qualquer instante. Afinal, era o seu plano de loucura que estaria sendo colocado em prática.
O local onde sempre costumava cavalgar pela manhã, agora estava numa total penumbra. As plantas deixavam o ambiente ainda mais escuro e sinistro.
Quando enfim chegou ao local, a beira do pequeno rio que corria por aquelas bandas, o encontrou por lá. O homem tão semelhante a si parecia impaciente por ter esperado. Mas Saga não tinha culpa, afinal, não poderia sair a cavalo ou chamaria atenção, e devido a isto, atrasou-se um pouco.
– Você demorou! Eu já estava achando que não vinha mais e tinha mudado de ideia! – Ralhou Kanon.
– Agora estou aqui. – Simplesmente respondeu isso, não dando liberdade para o outrem lhe responder, pois logo voltou a falar: — Qual sua resposta? Pensou a respeito?
Kanon olhou para aquele homem. Depois para a imagem da silhueta do castelo ao longe, que ficava um pouco distante das ruelas e burgos, voltando a olhar para ele novamente. Aquilo era uma loucura, certo? E era justamente disso que Kanon gostava...
– Eu pensei a respeito. – Sorriu com devassidão. – E eu aceito sua proposta. Quando iremos trocar de lugar?
Saga ponderou por alguns instantes. Aquilo não era o ideal a se fazer, mas não pretendia ficar com a vida de Kanon por muito tempo. O moreno olhou para o semelhante a sua frente, pensativo, antes de responder a indagação.
– Amanhã de manhã. Por isso, preciso te ensinar algumas coisas. – E ao dizer aquilo, o rei de Tidesson tirou a capa velha que usava, fitando-o atentamente.
♠ ♤
– Portar-se como um rei não é agir de qualquer jeito, Kanon. Você deve ter modos e deve sempre colocar os deveres reais a sua frente.
– Olha só quem está falando... – Murmurou irônico.
– Que seja. – Falava enquanto andava a beira do lago com o outro ao seu lado. – Normalmente, no início do dia eu costumo cavalgar, logo pela manhã. Quando chego ao castelo, resolvo alguns afazeres após o café da manhã e-.
– Eu vou ter que fazer a mesma coisa exatamente todos os dias? – O interrompeu, erguendo uma sobrancelha.
– Mais ou menos...
– Essas suas coisas não parecem ser difíceis de fazer. Acho que será você quem vai ter mais dificuldade para assumir uma vida como a minha. – Não cansava de ironizar com aquele homem, e fez questão de deixar claro que ele tinha uma vidinha fácil e que qualquer um poderia muito bem se passar por ele.
– É o que veremos. – Apenas falou seco, franzindo o cenho. – E sua vida não deve ter nada de mais. Você é só um viajante, o que tem de difícil nisso?
– Eu sou um corsário. – O respondeu cheio de si, alargando mais o seu sorriso irônico ao ver o outro lhe fitar perplexo.
– Você... Você é um pirata?! – Perguntou nervoso.
– Pirata não, corsário. É diferente! E eu quero muito ver um almofadinha como você no meu lugar! – Foi impossível segurar sua risada. – Uma pena que ficaremos apenas alguns dias trocados! Você não sobreviveria nem uma noite sequer no mar!
– Isso não deve ser muito difícil.
– Que seja! Apenas não suje a minha reputação enquanto eu estiver fora! Seja um garanhão conquistador e irônico.
– Você se orgulha dessa fama? – O rei perguntou com uma sobrancelha erguida.
– Claro que sim! – Sorriu. – Mas voltando ao assunto: Você não precisa saber o nome de todos os que estão comigo aqui, apenas dos meus amigos mais próximos, pois é viável que saiba o nome deles.
Saga afirmou com a cabeça, fitando o homem ao seu lado com atenção. Realmente precisava saber o nome das pessoas próximas a ele.
E assim se seguiu a conversa, um falando ao outro sobre as pessoas mais próximas e seus afazeres, além de comentarem sobre a forma de agir e cada particularidade. Deviam agir de outra forma. Pois mesmo ambos sendo completamente idênticos, cada um dos dois possuía uma particularidade única. Além de serem bem diferentes em suas formas de pensar e agir.
Porém, aquilo não seria nenhum empecilho.
E a troca seria feita amanhã, logo no início do dia.
♠ ♤
Como era de costume em todas as manhãs, ao nascer do sol Saga já se encontrava em meio ao seu esporte preferido. Cavalgava com um ar sereno, sentindo pela primeira vez a leveza real do vento frio ao bater contra seu rosto.
Apesar do nervosismo de praticar aquela loucura, Saga sentia uma grande paz. Era um capricho seu, talvez, mas era também uma forma de sentir-se vivo.
Kanon já estava a sua espera. Mais uma vez, estava esperando por Saga, porém, desta vez ele não demorou muito a chegar.
O monarca desceu do cavalo ao encontra-lo ali, na beira do rio. Alisou seu cavalo branco antes de voltar novamente seus olhos para os do outrem.
A hora enfim havia chegado.
– Tem mesmo certeza que é isto que você quer majestade? Depois não vale ficar chorando quando estiver no meu lugar... – O tom irônico reinava o timbre de sua voz.
Saga revirou os olhos, como se aquele gesto bastasse para respondê-lo.
– Vamos logo. Não tenho todo o tempo do mundo. Logo terei que voltar. Ou melhor, você terá que voltar.
Kanon apenas deu uma risada ao vê-lo levemente emburrado. Aquele homem deveria estar com um humor melhor, afinal, ele era o rei e tinha tudo o que queria.
– Certo! Tire suas roupas. – Kanon falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo a se fazer no momento e Saga apenas o olhou com uma face não muito agradável, porém, começou a fazer o que o corsário lhe pediu.
Apesar de estar se sentindo desconfortável com o olhar daquele quase estranho sobre si, Saga começou a tirar suas vestimentas, mas não sem antes observar bem o local. Uma por uma, peça por peça, ficando apenas com as roupas mais íntimas, vendo que Kanon fazia o mesmo.
– Não precisa tirar as ceroulas, Kanon! – Ralhou com o outro, notando que ele já havia tirado quase tudo. – Não quero usar isso. – Falou com certa altivez, fazendo uma careta para o outro.
– Não se preocupe majestade! – Novamente falou irônico. – Eu só espero que não tenha frescuras desse tipo enquanto estiver se passando por mim. Não quero ser motivo de zombarias!
E logo Kanon pegou as roupas de Saga, vestindo-as. Mas antes, Saga pode notar uma cicatriz bem marcada e visível no peitoral do outro, algo que o fez erguer uma sobrancelha, curioso. Porém, deixou para sanar sua curiosidade apenas após se vestir com as roupas do outro.
– O que foi essa cicatriz em seu peito?
– É uma longa história, majestade... Isso foi logo em uma de minhas primeiras grandes aventuras. – Com certa dificuldade Kanon terminava de vestir aquelas roupas, porém sorria nostálgico com a pergunta.
– Hm... – Saga preferiu não respondê-lo ou não comentar mais nada a respeito. Apenas aproximou-se novamente de seu cavalo, alisando suavemente o pelo branco no animal. De certa forma, este parecia ser o único motivo para fazê-lo ponderar sobre aquela troca maluca. – Eu voltarei logo, Ares. – Murmurou baixo, apenas para o cavalo ouvi-lo, como se este pudesse compreendê-lo.
Em seguida, virou-se para o outro, ostentando um semblante sério e distante.
Kanon aproximou-se apenas para passar a mão nos cabelos do outro que ficaria em seu lugar, assanhando-os um pouco, na tentativa de deixa-lo ainda mais parecido consigo, se é que era possível. Deu uma boa analisada no homem a sua frente, olhando-o dos pés a cabeça... Sem dúvidas, ele era muito parecido com a sua imagem.
– É; você está bem parecido... – Falou pensativo, mais para si mesmo.
Saga também aproveitou para dar alguns “ajustes” no outro, arrumando parcialmente os longos cabelos negros e as roupas. Não teriam como desconfiar, ele realmente estava muito parecido. – Não vá agir como um ogro! – Disse por fim, aproximando-se de sua montaria e alisando novamente o rosto do cavalo. Sabia muito bem que Ares, seu fiel amigo, não aceitaria que outro o usasse como montaria. Por isso, foi necessário que ficasse acariciando o pelo do animal enquanto o outro subia no mesmo.
– E você não vá manchar minha reputação nesses dias! – Kanon também ralhou, montando no cavalo e dando uma última olhada em Saga.
– Daqui a quatro dias estarei aqui, neste mesmo horário. Não se esqueça. – Seus olhos azuis encaravam os azuis adiante, com seriedade. Logo em seguida afastou-se do cavalo, vendo-o acenar uma confirmação com a cabeça antes de sair dali, em direção ao castelo.
Já havia dito muitas coisas e informações necessárias para ele ficar em seu lugar, assim como ele havia falado sobre sua vida na noite de ontem.
E agora, era a hora de colocar aquele plano maluco em prática.
Saga aproximou-se do lago que havia ali perto, mirando seu reflexo na água. Um reflexo que parecia mais Kanon do que a si mesmo. Em seguida, após um suspiro pensativo, saiu andando em passos calmos em direção ao vilarejo.
Pela primeira vez poderia andar calmamente nas ruas de Tidesson.
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Continua...
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