Paralelos
7 Sombrio
Notas iniciais
Ele acordara em seu quarto e tudo parecia igual, exceto pelo sentimento de instabilidade presente no ar. Levantou-se da cama e viu que seu relógio estava parado, a bateria provavelmente havia acabado no dia anterior. Então foi ao banheiro escovar os dentes iniciando seu longo dia, mas notou o quão estupidamente silenciosa a casa estava. Nada do ronco de seu pai, nada do barulho da cafeteira velha, nem os pássaros cantavam lá fora. Parecia que o tempo na casa realmente estava parado. Indo ao quarto de seu pai, encontrou-o vazio, cama feita.
Descendo as escadas, ele checou a cozinha, a sala, lavanderia, nada. Ele estava completamente sozinho em casa. Resolveu ligar para o número de seu pai, o que resultou numa gravação a dizer-lhe que o mesmo não existia. Ligou então na delegacia onde obteve a mesma resposta. Tentou o número de Scott, da residência dos McCall, o de Lydia, Allison, Danny, até o número de Derek ele tentou. Nenhum deles existia, não havia traços das pessoas que ele conhecia. Com o pânico crescendo ele saiu de casa, e correu sem destino pelas ruas de Beacon Hills, por um bom tempo antes que suas pernas o levassem á um parque do lado leste da cidade próximo à floresta onde um grupo de pessoas fazia um piquenique de forma animada.
Ao se aproximar do local ele enxergou as faces familiares ele levou um susto. Todos estavam ali, todos. Seus pais, os McCall, os Argent, os Hale, os Martins e até os Wittemore.
Ele foi correndo direto para seus pais, e tentou falar com os mesmos; preso no torpor de ver sua mãe viva e sorrindo em uma conversa animada com Melissa; entretanto era como se ele não estivesse ali. Eles não o viam, por mais que ele acenasse, chamasse, gritasse, era simplesmente como se ele não existisse, fosse transparente, não estivesse ali. Quando sua voz começou a ficar rouca de gritar, e lágrimas borravam sua visão ele parou, e apenas os observou, e em verdade, todos estavam ali, Erica, Boyd, Laura, até Peter exibia um rosto com um mínimo de sanidade aparente.
Finalmente ele entendeu. Se todos estavam ali, vivos e felizes, só existiam duas possibilidades. Ou todos estavam mortosou ele num mundo em que ele nunca existiu tudo era melhor. A sensação de desespero o engoliu em mínimos segundos, e ele voltou correndo para o caminho que ele pensava ser o de sua casa. Correu em desespero por um bom tempo, até se dar conta que corria sem sair do lugar, estava preso em um buraco sem fundo e nele afundava sem nunca chegar ao final.
Acordou gritando, lavado em suor e lágrimas, com um cheiro forte de ozônio no ar. Soluçou até acalmar seu próprio coração, um folego profundo após o outro como se estivesse prestes a se afogar e não houvesse oxigênio suficiente no universo. Mais uma vez agradeceu os turnos noturnos que seu pai trabalhava, mas não antes de ir até a cozinha e ver que o mesmo, existia, se lembrava do filho e havia deixado uma nota na porta da geladeira, avisando sobre a comida, e pedindo para que Stiles fosse cuidadoso e ligasse caso necessário. Agarrou a nota ao peito e voltou ao quarto, arrancou a roupa de cama e deitou-se no colchão, nu, tentando apenas controlar a respiração e lembrar-se que aquele havia sido só mais um pesadelo, que era só a escuridão ao redor de seu coração fazendo truques em sua mente, que tudo eventualmente melhoraria. Fixou o olhar na foto dos pais na mesa de cabeceira ao lado de sua cama, permitindo-se acalmar, mantendo-se nessa posição até o alarme despertar indicando-lhe que era hora de levantar ou iria atrasar-se para escola.
O último dia da primeira semana de aula chegou tão rápido que o pegou de surpresa, pela primeira vez em um ano, uma semana inteira de aula em que o ponto alto não foi uma morte, ou um novo lobisomem na cidade, não houve gritos subsônicos, ou corpos dilacerados, o acontecimento máximo semanal foi a chegada de dois garotos novos a escola. Ainda sim, Stiles pressentiu que algo de ruim estava para acontecer, não só pelo pesadelo que não o permitiu dormir novamente na noite anterior, mas pela camada fina de névoa que cobria toda a linha das árvores e onde deveria estar à cidade da visão da janela do seu quarto.
Névoa, no meio da Califórnia no fim de agosto? Alguma merda vai acontecer.
Ele passou por toda sua rotina matinal enquanto um milhão de pensamentos corriam por sua cabeça como sempre, até ai nada de diferente, mas a ansiedade rastejando por dentro de sua pele lhe deixava mais hiperativo e inquieto do que nunca. A caminho da porta seu telefone tocou.
– Me diz que eu não sou o único a acordar com um pressentimento ruim sobre o dia de hoje?
– Eu acabei de falar com a Allison e sim, você não é o único. Ela acordou ansiosa e irritadiça, e ela nem está na TPM. Eu resolvi te ligar pra saber se você também acordou assim, e bingo.
–Algum grito? Algum corpo ou sei lá?
–Sério que tudo que eu sou pra você agora que você não me ama mais é uma histérica que encontra corpos? Esperava mais de você Stilinski. – ela disse em tom de falsa ofensa.
–Você me lembra tanto o Jackson as vezes Lyds.- ele balançou a cabeça mesmo que ela não pudesse ver — E você sabe que você é mais que isso para mim, você é minha ligação com o mundo dos vivos já que você me trouxe de volta dos mortos, e sempre será meu primeiro, único e leal amor. – ele disse tentando por todo seu sarcasmo em uma frase, o que normalmente esconde bem o que ele realmente pensa ou sente, mas nos dias de hoje só mostra uma tentativa pálida do escroto que um dia ele foi. – De qualquer jeito eu vou indo, por que se não nós nos atrasaremos para aula. – ele disse enquanto trancava a porta de casa e ia para seu carro.
–Correção, você se atrasou, pois eu estou dirigindo nesse momento e... — ela parou no meio da sentença freando o carro abruptamente, cantando pneus enquanto tentava parar.
–Lydia! Lydia?? Lydia aconteceu alguma coisa, me responde! – ele gritava para linha muda.
–Calma, eu estou bem. É só que eu acabei de ver uma colega nossa de escola sendo removida pelo hospital psiquiátrico, Beth Carlton lembra-se dela? — ele respirou fundo e tentou acalmar seu coração que batia a uma milha por minuto, ela está bem, você está bem, respire.
–Sim, ela é uma sênior, né? Acho que ela saia com um dos caras do time de Cross Country. Mas ela sempre me pareceu muito normal.
–Pra mim também, eu já conversei com ela algumas vezes quando nos esbarrávamos no shopping. Mas Stiles, a Beth que eu acabei de ver não é nem uma sombra da garota que conhecemos, ela estava descabelada, gritando, arranhando os enfermeiros, enquanto gritava que não era louca e que ela tinha certeza daquilo que havia visto. Mas tá, eu vou desligar porque eu preciso chegar à escola e você também. — dito isso ela desligou na cara dele. Ao menos parece que eu não sou o único enlouquecendo em Beacon Hills.
O dia passou como um borrão, Stiles entrou e saiu das aulas sem saber exatamente o que fazia, tenso e com um torpor que o anestesiava, não conseguia tirar o pesadelo nem a notícia da colega insana da mente, e algo o dizia que os dois fatos podiam estar correlacionados só faltava descobrir como. Estava tão entretido em seus próprios pensamentos que não notou o amigo o chamando.
–Stiles? Stiles? Você está acordado cara? – Tenchi perguntou com um olhar preocupado.
–Desculpa cara, você estava falando comigo a muito tempo? É que eu não dormi direito, ai estou meio lerdo.
–Dude, você não dorme tipo, nunca? Porque eu te conheço há uma semana e meia e todos os dias tu me diz a mesma coisa. Você tem tomado seus medicamentos regularmente?
–Alguém já te disse que você é muito observador para o seu próprio bem? – ele desconversou sorrindo enquanto eles caminhavam pelo refeitório a procura de uma mesa.
–Eu digo isso para ele todos os dias, mas como ele me diz de volta, eu realmente nem posso falar muito. Mas sério Stiles, você esta horrível. – disse Kira aparecendo de lugar nenhum como sempre.
–Alguém já falou que um, é feio se meter na conversa alheia, dois vocês são muito enxeridos e três, ambos aparecem do nada sem que a gente note?
– É um dom de família. – eles responderam em uníssono e começaram a rir.
–Vocês são assustadores. – ele disse balançando a cabeça ao sentar-se.
– Quem é assustador? Oi Tenchi! – Scott inqueriu com um sorriso estúpido que sempre fazia aparição em seu rosto desde que a Kira ou a Allison estivessem próximas.
–Ele acha que nós somos assustadores, só porque nossos laços de sangue são muito mais proeminentes do que o normal. – Kira respondeu sorridente.
–Vocês são quase que gêmeos idênticos. É escroto! Vocês completam as frases um do outro, se comunicam através do olhar, são extremamente parecidos, e observam tudo ao seu redor como se sempre estivessem em guarda.
–Quando a sua família é meio “diferente” você aprende a lidar com o mundo de outra forma. E quem te ver falar pensa que você e o Scott são diferentes, vocês são praticamente colados pelo quadril, se comunicam por olhar como nós, estão sempre atentos a tudo e pior, vocês nem são irmãos de sangue! – o nipônico enumerou fazendo uma careta.
–Mas nem muda de assunto. Você não está dormindo, qual o problema pesadelos, insônia, colchão velho? – ela pediu.
–Sonhos ruins. E provavelmente minha própria hiperatividade me impedindo de relaxar o suficiente para descansar. O normal.
–Todas as culturas tem uma entidade específica que se relacionam com os sonhos, já pensou em apelar para elas? – ela disse em tom plano, sério.
–O que você vai me indicar um apanhador de sonhos? Ou sei lá me mandar fazer algum tipo de oferenda para Sandman?
–Nos orientais acreditamos que existem duas entidades que lidam com o sono, uma boa e uma não tão boa assim. Ambas respondem pelo nome de Kistsune, sendo que a má tem um outro nome. Então, você devia experimentar fazer uma oferenda para ela.
– Essa entidade, é representada pelo que um espírito, um bicho? – Scott perguntou interessado.
–Depende, normalmente em forma humana ela é uma mulher, mas em forma animal ela é uma raposa. – Kira disse com os olhos fixados no Alpha que sorriu abobalhado até sua expressão mudar abruptamente.
–Pera ai, essa entidade é a raposa com as nove caudas? – Scott perguntou com a cara de que fez a descoberta do ano, para os irmãos que balançaram a cabeça. – Stiles, é a Ninetails do Pokémon cara! Eu aqui quase acreditando em vocês e vocês sacaneando a gente! – ele começou a rir, e os garotos os acompanharam, mas Stiles percebeu o olhar de desapontamento que os irmãos trocaram com as palavras do Scott.
–Sabe o que pode ajudar Stiles? – ele balançou a cabeça pra ela, pois já havia tentando tudo que sabia para dormir. – Acupuntura.
–Agulhas? Não obrigada. – ele disse fazendo uma careta.
–Ele morre de medo de agulhas, ele desmaiou quando eu fiz minha tatuagem. – o amigo delatou rindo.
–Isso bro, por quê não me humilhar?
–Não, Stiles eu tô falando sério, tipo a acupuntura é uma técnica milenar que relaxa o corpo, cura certas dores e se a pessoa souber fazer você não só mal sente ás agulhas, como você vai ter uma das melhores noites de sono da sua vida.
–Ok, digamos que eu aceite que você está certa, minha flor oriental, onde é que eu vou achar alguém em Beacon Hills que faça acupuntura tão bem que não me assuste e eu me relaxe, por um valor que eu, adolescente quebrado e sem trabalho possa pagar?
– É só olhar para sua esquerda. — Tenchi disse sorrindo para a careta do Stiles. – eu sei fazer, meu pai me ensinou. Mais um dos segredos milenares da nossa família. A Ky também sabe, mas ela ainda tem muito para aprender né, Seven?
– Porque sete? – Ele perguntou voltando-se para ela, curioso.
– Digamos que é meu nível na escala familiar. O Te é nine e eu sou Seven. Minha mãe e tias são Twenty One.
–Vocês orientais e seus segredos. – Scott ofereceu, antes de o sinal tocar e eles começarem a recolher as coisas deles irem para aula.
– A Ky sugeriu por mim, mas se você quiser, estou disposto a não cobrar caro pelos meus serviços – o nipônico disse com um sorriso de canto de boca enquanto eles andavam pelos corredores, eles teriam aulas separados.
–Hum... se eu estivesse interessado, qual seria o valor? – dois definitivamente podem jogar.
–Eu tenho uma política, normalmente deixo o cliente avaliar o valor pelos meus serviços. Agora se você estiver com medo de descobrir, ou não estiver interessado. – ele disse dando ás costas para Stiles.
–Que mal faz em tentar? Hoje após a aula? Eu te mando uma mensagem com meu endereço e você vai com seu carro, por que se você realmente executar bem seu trabalho como você diz que fará, estarei dormindo quando você sair de lá. — o garoto olhou por cima do ombro com o sorriso mais confiante que Stiles já vira.
– Te vejo mais tarde!
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