Paralelos
6 Redenção
Notas iniciais
–Não. – ele disse olhando para ela de forma dura. – Eu passei horas te contando tudo de ruim que aconteceu comigo no último ano e você vira para mim e me pede a mordida? Você é louca? A Paige morreu porque o corpo dela rejeitou a mordida, o Jackson virou um Kanima, a Lydia provavelmente só sobreviveu por causa dos poderes dela. Você quer se submeter ao teste? Você quer me deixar sem a única família que me resta? Você diz para mim que estará comigo e logo depois me pede para por sua vida em risco? Eu não vou morder você. — enquanto ele explanava as implicações e preocupações, ela deixava sua face em branco, observando o caminhar pela sala do loft.
– Acabou? Posso falar? – ele assentiu com a cabeça e sentou-se no sofá. – Ok Der, você me contou o que você passou no último ano, mas eu ainda não tive tempo de te dizer que fim levou a procura pelos meus pais. – ela respirou fundo, preparando-se para deixar fluir as memórias. – Um ano atrás eu me despedi de vocês para ir a Georgia seguir a trilha dos meus pais verdadeiros, e eu passei meu próprio inferno lá. Eu não combati seres sobrenaturais, apesar de ter me batido com um ou dois lobisomens no caminho, que sempre reconheciam o cheiro de vocês em mim. Ninguém se aproximou demais. Alias, colônia de lobisomens pacífica na Georgia, você devia pensar em estabelecer morada lá.
– Izzie, o ponto importante. – Ele disse exasperado.
– Argh! Nem posso jogar conversa fora. Tá, eu cheguei lá, estabeleci residência num hotel Low Profile num subúrbio perto do centro. – ele olhou para ela com uma ponta de orgulho no olhar. – E fui até o cartório, verificar se podia rastrear algo pelo meu registro de nascimento. Os nomes das pessoas que me registraram eram falsos. Mas isso eu já sabia, o que eu acabei por descobrir é que o escrivão da época ainda estava vivo e sabia quem havia me registrado. Devon Swanson. Consegui seu endereço fui até sua casa, após conversar muito com ele consegui outra pista. Arrombaram o meu quarto de hotel, levaram minhas roupas, e um pouco do dinheiro que eu havia deixado no hotel por precaução. Depois, eu fui a esse bar conversar com essa garota seguindo outra pista, e na saída a piranha e um cara me encurralaram num beco roubaram meu celular, o dinheiro e enfiaram uma garrafa de vidro nas costas, próximo a cintura. Eu fiquei desacordada e sangrando por um bom tempo até me acharem e me mandarem pro hospital. Passei três semanas lá, perdi muito sangue e tive uma concussão de tanto que eles me bateram. — ela já não o olhava, se estivesse olhando, veria seus olhos vermelhos e suas garras estendidas. — Segui pistas falsas por meses, sem grana ou esperança. A cada dia eu pensava que estava mais fodida e morria de saudade de vocês, mas me recusava a voltar com o rabo entre as pernas e sem o que eu fui buscar. Não tinha mais um centavo, tive que voltar a bater carteiras pra sobreviver e não me orgulho você sabe que não, mas você faz o que precisa fazer para sobreviver. Isso durou uns oito meses. – Ela encostou-se ao rack e suspirou fundo e finalmente olhou para ele.– No nono mês não tinha mais dinheiro ou esperança, pista ou vontade de procurar, eu estava uma bagunça! Praticamente uma mendiga Der. Tudo que eu queria era voltar para casa. É claro que foi ai que o Devon reapareceu, me levou a casa dele novamente, me deu roupas, me alimentou, e pediu para conversar. Então, o desgraçado me contou minha origem, minha mãe Catherine Angels, foi empregada da casa de um dos homens mais ricos da Georgia, Ben Fitzgerald. Branco, rico, bem sucedido, figura publica e casado, ele e minha mãe tiveram um caso, me conceberam e a família dele se livrou de mim e depois da minha mãe. – A voz dela quebrou na última palavra, e Derek foi até ela e abraçou-a tentando confortá-la. — O louco é, parece que o meu pai era realmente muito apaixonado por ela e quando ele descobriu os responsáveis por sua morte, ele suicidou-se. – ela tomou outro fôlego antes de continuar olhando o profundamente. — Eu tenho uma família de sangue. Eles são ricos, bonitos, hipócritas e detestáveis. Meus pais amaram-se e morreram por causa de pessoas gananciosas e más. Meu sobrenome nem existe mais, porque eu nunca fui reconhecida legalmente pelos Fitzgerald. E honestamente, eu não quero, no meu coração eu sou uma Hale, e você é só o que me resta. Então eu quero sim a mordida, eu quero ser sim parte da única família que me acolheu em todas as formas possíveis, família que eu faria parte assim que retornasse de viagem, era o meu acordo com a Laura. E sim, eu estou sendo cem por cento egoísta, no afã de finalmente pertencer a algum lugar. Quero que Beacon Hills seja a minha casa, aquelas florestas sejam meu lar, que Cora seja minha irmã. Eu quero por um momento, só um misero momento não me sentir perdida e sozinha. – ela virou-se para ele olhando fundo em seus olhos ao pedir. – Por favor, não me negue uma família. – com isso ela o abraçou e foi para o seu quarto deixando o Derek com mais incertezas do que o que ele possuía antes de chegar à Nova York.
Dizer que ele deitou e não conseguiu dormir era eufemismo. Ele rolou na cama por horas enquanto sua mente repassava todos os momentos de sua conversa com Izzie. Ele entendia os motivos dela, sua preocupação e sua ideia de proteção, seu desejo de pertencer. Esse era justamente o problema. Ela como ele, não tinha ninguém por perto. Sim ele possuía Cora, mas ela tinha outra família a qual pertencia e Derek não podia se sentir machucado quanto a isso, sua irmã passou por muita coisa e essas pessoas a ajudaram a construir uma vida sem sua família de sangue, ela tem o direito de ser feliz e seguir em frente.
Eu não tenho esse direito. Mas a Izzie tem.
Ele olhou para o relógio na mesa de cabeceira ao lado de sua cama e viu que eram cinco da manhã. Suspirou ao levantar-se e foi tomar uma chuveirada, água corrente sempre clareou seu pensamentos. Terminando o banho ele vestiu uma camiseta velha da NYU e um par de calças de ginástica, saiu do quarto e foi acordar a bela adormecida. Bateu na porta uma, duas, três vezes até que uma Izzie sonolenta aparecesse.
– O que diabos você quer no cu da madrugada, Alexander? – ela disse com uma voz grossa que praticamente pingava sono.
– Vai tomar banho. – ela abriu a boca para reclamar mas ele ergueu a mão na frente dela e ao inquerir. – Você quer ser minha beta, o que te torna minha subordinada, o que quer dizer que se eu dou uma ordem, você obedece. Você vai tomar banho e vestir uma roupa de ginástica e depois nós vamos correr no Central Park e você não vai reclamar ou eu juro por Deus que eu reconsidero minha decisão. — ele mal terminou de falar ela lançou-se no seu pescoço beijando seu rosto e gritando em seu ouvido.
– Você não vai se arrepender! Eu juro que não, eu vou ser melhor beta que o Boyd, Lydia e o Stiles juntos!
Ele abriu a boca pra protestar que ela errou os nomes mas ela estourou em risos e foi correndo para o banheiro dizendo qualquer besteira relacionada com “ele ser muito bonito para ter tão pouco senso de humor”. Sacudindo a cabeça divertidamente, foi fazer o café, pensando que provavelmente já estava arrependido. Uma hora e meia depois eles estavam suados e exaustos, eles pararam para comprar uma água e sentaram-se em um dos bancos para conversar.
– Agora que você disse sim, eu vou te dizer que eu tenho certas condições. – ele olhou para ela de soslaio. – Eu não sou uma pessoa indefesa que você morderá por necessidade. Os outros betas eram uma questão de defesa, eu sou família, e só serei tratada como tal. Eu vou te ouvir e acatar, mas eu não vou deixar de inferir minhas opiniões ou discordar quando necessário for. Eu não vou abaixar a cabeça e dizer sim não importa o que você diga e nem adianta usar o vudu lobisomem em cima de mim, porque eu posso obedecer na hora, mas serei o diabo depois e você sabe disso. – Sem dúvida nenhuma, ele pensou. — E acima de tudo, você precisa aprender a usar palavras. Você sabe falar, é eloquente e inteligente, não tem uma graduação em literatura à toa, então por Deus converse comigo, tipo sempre, quando você estiver feliz, triste, irritado, só converse comigo, ok? — ele ficou olhando ela por alguns momentos, avaliando o que dizer diante daquilo tudo, decidindo que o caminho mais fácil seria a sinceridade.
– Ok. Eu respeito suas opiniões, desde que você respeite as minhas. Eu prometo tentar ser o mínimo autoritário com você possível, desde que você entenda o seguinte: ser lobisomem não é um parque de diversões e nunca será, existem caçadores, outros lobisomens e o diabo a quatro lá fora querendo nossas cabeças vinte quatro horas por dia, sete dias por semana. Você precisa me obedecer, principalmente não bancar a mimada e rebelde. E acima de tudo, nós só voltaremos pra Beacon Hills quando você estiver pronta. A lua cheia é bem no fim dessa semana, eu quero que seja a primeira vez que você muda, vou te ajudar a encontrar sua âncora e quando estivermos cem por cento seguros de que você está pronta, voltaremos.
– Por mim? Tudo ótimo. Não acho que vá ter problemas em encontrar uma âncora e já estou mais do que acostumada com luas cheias em uma alcateia, afinal passei inúmeras luas cheias correndo aqui com você e a Laura. Se lembra o quão linda ela era em forma de loba, Der? Ela era verdadeiramente uma força selvagem, correndo mais rápido que o vento, e tão deslumbrante que eu ficava boquiaberta toda vez. Você também se transforma, né?
– Não. – Ele disse desviando o olhar. Era uma das coisas que mais o machucava. Ele sabia que ele nunca seria o designado para ser Alpha, mas chegar a transformação completa não dependia disso, e sim de um grande coração e caráter. Para alcançar a verdadeira transformação Alpha, você deveria ser forte, bravo e puro, coisas as quais ele não se considerava.
Provavelmente Scott chegou na forma completa no mesmo dia em que ele virou Alpha.
– Hey, olhe pra mim – ela disse puxando o queixo dele – Você não tem nada do que se envergonhar. Você não alcançou o estágio correto, não por não ser bom o bastante, mas por que a situação era completamente desfavorável. Derek, pelo que você me contou tudo ia contra você! Até a Laura que era uma líder nata iria ter muitos problemas e fazer um monte de besteira até acertar, não há nada para se martirizar. Todos erram e você vai fazer isso da forma correta, comigo, depois com o Isaac quando voltarmos, e quem sabe um dia com a Cora. O Peter não, esse eu vou matar. – ela disse com um brilho feral nos olhos.
– Você nem é loba ainda e já é mais animal que meus três betas juntos. – ele falou com um sorriso brincando nos lábios – Você ainda faz Yoga?
– Claro que sim, eu tenho problemas para controlar meu temperamento, lembra? – Ela disse rindo. – E eu gosto muito, tonifica o corpo, relaxa e passa o tempo. Você devia voltar a praticar comigo.
– É, irei. Preciso mesmo me recordar como não querer matar metade das pessoas a minha frente.
–E ai, corrida até o apartamento, japonesa e maratona Hitchcock, como nos velhos tempos? Para temperar a brincadeira você me morde e assiste filme de terror do lado de uma loba recém formada! Aproveita que eu já menstruei e você nem terá que lidar com minha TPM.
– Ultimo que chegar paga a comida? – ele perguntou sorrindo, sabendo que pagaria de qualquer jeito, nunca foi capaz de ganhar dela numa aposta, não porque ela era mais rápida, mas por que ela reclamaria tanto da injustiça dele ter poderes que ele preferia sempre deixá-la vencer.
– Claro que sim! – ela gritou e saiu correndo em direção ao metrô para o apartamento.
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