Paralelos
1 A novidade
Notas iniciais
Seis da manhã o despertador do celular apitou, Pump That Kicks tocando no volume máximo para informá-lo que já era hora de abandonar o conforto da cama e ir para escola. É dia de voltar às aulas do começo do ano Júnior Year, no meio dele começam as provas de classificação para as Universidades e ele ainda não decidiu onde se aplicar.
– Mas esse é um surto para outro momento. — Stiles pensou, agora é hora de surtar com as coisas que estavam mais próximas, como: será que eu vou sobreviver a mais um ano no meio de Lobisomens, Druidas, Sensitivos, Banshee, Kanima e toda a merda sobrenatural que ainda pode apavorar Beacon Hills? Será que por um ano, UM MÍSERO ano, eu vou ter uma realidade compatível, com a de um cara de 16 — quase 17 anos — normal?
– Aliás, o que é ser normal que eu nem sei mais? – Ele se perguntava retirando o pijama e entrando no spray do chuveiro. — Para completar tem esses malditos pesadelos, essa agitação que só piora minha TDAH. Nos livros o cara tem TDAH e é um semideus, eu tenho TDAH e sou o cara mais sacaneado na escola. Livros e filmes, me vendendo uma realidade inexistente desde sempre. — terminando sua rotina matinal, ele se vestiu e desceu as escadas indo para cozinha, onde encontrou seu pai em sua cadeira de costume, lendo jornal.
– Hey pai, bom dia! Dormiu bem? Está pronto para combater o crime como o guardião da honra e dos bons costumes que você é? – Stiles perguntou sorrindo, sabia que seu pai não tinha o melhor dos humores pela manhã e que suas piadas sempre o faziam parecer menos irritado com os acontecimentos na cidade.
– Bom dia filho! Eu dormi bem e você? Pronto para voltar às aulas? Aliás Stiles, nós temos uma conversa pendente sobre quais Universidades você vai enviar suas inscrições, quando falaremos?
– Ok pai, nós vamos ter essa conversa, mas assim que eu chegar da escola, tudo bem? Eu não quero chegar atrasado no primeiro dia de aula e já criar um padrão para o resto do ano. – Despediu-se do pai, dando um beijo em sua cabeça e um aperto no ombro, saindo correndo porta a fora.
Entrou no seu jipe pensando no quanto — apesar de amar seu pai — ele temia por sua segurança, e pela relação entre eles. O xerife havia passado por muita coisa, e quase havia morrido mais de uma vez por causa dos problemas sobrenaturais que afligiram e aflingem Beacon Hills. E desde que John soube sobre o mundo sobrenatural em torno deles, desejava que seu filho fosse afastado de tudo isso o mais rápido possível, ele desejava que Stiles estivesse em uma Universidade bem longe da Califórnia, de preferência.
Mas esse definitivamente não era o desejo de Stiles. Não o entendam mal, estudar sempre foi uma das prioridades em sua vida, em conjunto com a saúde de seu pai, sua amizade com o Scott, seu plano de dez anos para conquistar o coração da Lydia e obter a maior quantidade de informação possível sobre todos os assuntos que passem pela sua cabeça. Entretanto, desde que sua mãe faleceu, ele tinha medo de deixar seu pai em Beacon Hills no momento de ir para a faculdade e suas preocupações só se agravaram ainda mais quando ele acabou fazendo a maior merda da sua vida e levando o Scott para a floresta à noite para procurar o corpo da Laura, que resultou em Scott mordido pelo Peter e a vida deles ficando mais enrolada do que um jogo de Twister.
Como é que ele ia deixar seu pai entre o os perigos anormais da cidade e os problemas diários que ser o xerife traz? Quem irá fazê-lo comer vegetais, esconder as garrafas de Jack para ele não afundar-se em bebida e pior, quem vai proteger seu pai do sobrenatural?
Ele dirigiu tão perdido nos seus próprios pensamentos, que quando se deu conta ele estava entrando no estacionamento da escola. Cortando a ignição ele recostou sua cabeça no volante imaginando o que ele faria, ficou assim por alguns instantes até ouvir uma batida suave na janela do motorista, assustado ele levantou a cabeça e encontrou o Scott olhando para ele com uma cara preocupada.
Um problema por vez, um surto por vez, sorria, acalme a pulsação, relaxe, desça do carro.
– Hey Scottie!
– Oi Stiles! Cara, você está bem? Você está cheirando estranho, cheirando a... tristeza – seu amigo disse franzindo o nariz e a testa. MALDITO NARIZ LOBISOMEN
– Ah cara, não é nada de mais, é só que meu pai quer saber para que faculdade eu vou e eu ainda não decidi, entende? – uma coisa que o Stiles aprendeu após dois anos rodeado por lobisomens é que mentir nunca é uma boa opção, mas meias verdades, essas funcionam perfeitamente.
– Como assim não decidiu? Você sempre quis ir para qualquer uma das escolas da Ivy League, me azucrinou a vida toda falando que você iria se mudar para a Costa Leste e que eu não iria conseguir nem amarrar meus sapatos sem você.
Aquela memória de infância arrancou um sorriso do Stiles, ele e o Scott eram amigos desde sempre e a amizade deles sempre possuiu uma co-dependência que saltava aos olhos de todos ao redor, onde o Scott estava, com toda certeza você encontraria um Stiles fazendo bagunça, e obviamente toda vez que o Stiles se metia em confusão o Scott estava lá para apoiar, quer dizer, nem sempre. Porque crianças crescem e mudam, começam a namorar, são mordidas por lobisomens e suas vidas colidem em caos total, então eles não estão mais sempre juntos, e provavelmente não estarão nos próximos anos de faculdade – Um surto por vez, um problema por vez, respire.
– Bro, eu sei o que eu falava e eu não mudei de ideia sobre sua falta de habilidade de sobrevivência sem mim, — ele deu um empurrão no amigo com o ombro sorrindo, enquanto eles entravam nos corredores da escola – mas o que me preocupa é o meu pai. Eu não quero deixar ele aqui, não o quero sozinho correndo contra as coisas loucas desse lugar, não tendo quem regule sua dieta e tome conta para que ele não caia de vez no alcoolismo. Você não fica imaginando se sua mãe não vai se matar de trabalhar sem você? Ou que algo sobrenatural pode machucar ela para chegar até você? — Scott parou na frente do seu armário e respirou fundo, por uma fração de segundo todas as inseguranças ficaram claras como água em seus olhos e Stiles soube que ele não era o único que temia.
– Eu penso nisso todos os dias mano, por isso, decidi aplicar só na Beacon Hills Comunity College. Você sabe, eu não sou tão inteligente quanto você ou Lydia e por isso não passaria numa grande universidade, logo, ficar por aqui na graduação além de resolver o problema de proximidade, resolve também o problema da grana, que como você também sabe minha família não tem.
– Eu sei cara, eu sei. – o sinal tocou, assustando Stiles e arrancando um sorriso bobo do Scott.
Eles tinham a primeira aula juntos, e hoje seria também o dia de ver o professor novo de literatura. Afinal, depois que você descobre que a sua professora de literatura, nada mais era do que uma druida do mal com o intuito de sacrificar seu pai, amigos e pessoas que possuíam grande importância em sua vida, tudo que você espera é que ela não seja mais sua professora. E que ela queime no fogo do inferno eternamente.
Eles entraram na sala e viram que o Isaac, Alisson, Danny e Lydia tinham aula com eles nesse período. Scott sentou atrás do Stiles, evitando olhar Alisson e Isaac. Não é sempre que você tem saco para ver seu primeiro amor e o cara que tecnicamente era seu amigo se entreolhando, suspirando e exalando aromas que você definitivamente não quer sentir.
Stiles entendia perfeitamente o que Scott estava sentindo, preferiu não cruzar com Lydia por meses depois que ela salvou Jackson da morte com todo aquele lance de não subestime o poder do amor humano e blábláblá. Mesmo que depois ele e a Lydia tenham se tornado quase amigos, inclusive cruzando a linha do amigável para 'tivemos algo num momento de desespero' que resultou num beijo para curar um ataque de pânico, mas nunca iriam comentar ou repetir, ainda doía ás vezes perceber que ela era perfeita, mas não era para ele.
O professor novo entrou na sala e se apresentou — Sr. Smith, porque claro, depois de uma Darach o novo professor de inglês tem que ser o vilão de Matrix. – e começou à aula de inglês mais chata que ele já tinha imaginado que teria. Então totalmente justificável que ele e o Scott trocaram mensagens durante toda aula sobre os acontecimentos do fim de semana — onde nada realmente aconteceu — e foi mais ou menos assim, falando besteira e fingindo prestar atenção, que todo o horário foi gasto.
Ao final da aula combinaram de se encontrar na cafeteria para o almoço. Scott foi pra aula dele de economia e Stiles para aula de política na sala de vídeo. Entrou na sala e acomodou-se numa cadeira mais ao fundo, para não ser pego caso dormisse no meio da aula, e era exatamente o que ele pensava em fazer quando uma voz macia ao seu lado o despertou.
– Hey dude, você me deixa passar? A última cadeira vaga é essa ao seu lado.
Stiles olhou para o dono da voz aveludada e descobriu um garoto de feições nipônicas, alto, musculoso, com cabelo preto escorrido preso por uma passadeira para trás, olhos acinzentados, maxilar definido e um enorme sorriso, olhando pra ele em expectativa.
Esse cara é tão ... Wow, o que é que será que eles colocam na água dessa cidade por que eu vou te dizer hein...
Demorou ainda mais alguns segundos para ele se tocar de que ele estava encarando o menino, bloqueando a passagem do mesmo e que á aula já havia começado. – Oh! Cara, desculpa é que eu sou meio lento.
– Sem problemas, eu te assustei, é normal reagir assim nessas circunstâncias. – ele disse sorrindo ao sentar-se. – Meu nome é Tenchi Masaki e o seu? – oferecendo a mão para Stiles.
Ok, devia ser proibido pessoas serem bonitas, educadas e legais desse jeito.
– Meu nome é Stiles Stilinski – ele disse segurando a mão a ele estendida e recebendo um aperto firme de uma mão muito macia. – Você é novo aqui? Eu nunca te vi.
– Sou sim, eu me mudei há menos de uma semana. Ahh Stiles, por favor, devolve a minha mão? É que eu meio que gosto dela? – Tenchi brincou sorrindo.
– Nossa cara, desculpa é que eu estou distraído, não percebi, desculpa.
– Hey, tudo bem, nada demais, você segurou minha mão por muito tempo, não que eu me importe com isso, na realidade eu só a pedi de volta por que preciso dela para escrever. – Ok, esse dude precisa parar de sorrir agora.
– Hum... ok então. – ele disse envergonhado e virou para frente para fingir que estava prestando atenção na aula.
– E você, mora por aqui desde sempre, ou é novo como eu?
– Eu nasci e me criei em Beacon Hills, sou o que você pode chamar de prata da casa. – minha boca imensa e meu cérebro sem filtro, prata da casa, Stiles esse cara nunca deve ter ouvido essa expressão seu idiota.
–Eu nasci no Japão, em Osaka. Mas minha família mudou-se quando eu tinha uns três anos. Nos fomos perseguidos pela Yakusa. – disse Tenchi em tom de conspiração.
–Sério cara? Eu sempre quis saber mais sobre a Yakusa, seu pai foi ameaçado, sua família é da máfia? – em um sussurro gritado Stiles perguntou já se roendo de curiosidade e bolando mil teorias.
–Nah velho! Eu to brincando. É que você tem cara de quem não deixa um bom mistério em paz e eu queria ver sua cara de interessado. Tenho que confessar que ela é melhor que a de entediado até a morte com a aula.
–Sabe de uma, eu até que fui com sua cara? Eu normalmente não faço amizades com facilidade, por que apesar de eu ser sensacional as pessoas não estão, digamos assim, prontas para lidar com meu nível de sensacionalidade, então elas não conseguem acompanhar meu raciocínio rápido, por isso não conseguem me entender completamente, por isso, elas não gostam de mim de cara, ou nunca normalmente, mesmo que eu goste delas. Eu tava falando do que mesmo? – disse olhando para o nipônico de soslaio.
– Eu também gostei de você Stiles, – Tenchi respondeu sorrindo. – mas acredito que seja melhor fingirmos que estamos interessados nos acontecimentos em Kuala Lumpur antes que a gente vá parar na sala do diretor.
Corando ele acenou com a cabeça e voltou-se para aula. De tempos em tempos ele arriscava um olhar para seu novo colega de classe pensando que talvez e só talvez esse ano não fosse terminar tão mal assim.
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