Paralelos
2 A novidade
Notas iniciais
Gritos. Cheiro de queimado. Sirenes. Luzes. Sangue. Fogo, fogo por todos os lados. Vozes.
–Eles se foram! Eles se foram e a culpa é sua!
–Eu senti tanto prazer em matar sua família, em queimá-los vivos, mas acho que você sabe disso.
–Por que minha transformação não funcionou? O que aconteceu comigo?
–Nós tomamos nossa decisão, nós estamos indo embora.
–Você pode até ser um Alpha, mas você não é o meu Alpha.
–Foi para isso que eu voltei?
–Foi algo que eu fiz? Diga-me, eu conserto.
– Você vai me dizer o que fazer agora? Quando sua namorada psicopata serial killer está com meu pai amarrado em algum lugar esperando para ser sacrificado em um ritual?
– Você sempre se deixa levar pelas promessas de amor que qualquer mulher bonita se dispõe a te proporcionar não é? A única delas que não te traiu, você matou. QUANDO VOCÊ VAI ENTENDER QUE AMAR NÃO É SIMPLES? QUANDO VOCÊ VAI ENTENDER QUE O AMOR NÃO É PARA VOCÊ? VOCÊ ESTÁ SOZINHO, VOCÊ NÃO É DIGNO DE SER AMADO!
–VOCÊ É O LOBO MAIS PATÉTICO QUE JÁ EXISTIU, DOIS BETAS MORRERAM SOB SUA PROTEÇÃO, E O OUTRO CONFIA MAIS EM OUTRO BETA OU EM UMA CAÇADORA QUE JÁ O FERIU DO QUE EM VOCÊ.
VOCÊ É UM LOBO SOLITÁRIO, VOCÊ NÃO É UM ALPHA NÃO É UM BETA, VOCÊ É UM ÔMEGA!
***
Derek acordou numa poça de suor e lágrimas, trêmulo dos pés a cabeça, tapando os ouvidos para não ouvir os gritos que reverberavam em sua cabeça. Ele sentia o odor distinto de cinzas, mesmo sabendo que tudo fora um pesadelo.
A cada dia eles ficam mais reais.
Desde o fogo ele tem pesadelos, todavia após o estabelecimento da sua alcateia, eles ficaram menos gráficos e mais fáceis de suportar. Derek sabia porquê. A proximidade com seus Betas proporcionava uma sensação de firmeza, como se o chão abaixo de seus pés estivesse lá novamente, não era como se o mundo estivesse se movendo o tempo todo e ele estivesse prestes a cair de cara no chão. A diferença era algo tão profundo que ele podia sentir isso nos ossos. Mas como tudo que é bom em sua vida, durou pouco.
A realidade é que existe uma regra universal que diz que Derek Hale não pode ter coisas boas em sua vida, e mesmo que ele nem por um minuto se sentisse completamente seguro ou em paz próximo a Boyd, Isaac e Érica, ele sentia que podia ter uma família novamente. Diabos, até o Scott e Stiles que nunca aceitaram verdadeiramente sua liderança o faziam crer que ele poderia reconstruir sua vida, mais ainda após o retorno de Cora. Ele perdeu todos de novo, agora suas mãos possuíam mais sangue inocente que as do próprio Peter quando voltou do coma. Toda sua família, sua alcateia, sua irmã.
As vozes no meu sonho estão certas, eu sou um Ômega não um Alpha.
O pesadelo foi apenas o ponto de ruptura. Ele já não possuía razões para permanecer na cidade, ele não tinha mais família, alcateia, nada o prendia aquela cidade e quando Cora disse para ele que voltaria ao Brasil — onde havia vivido os últimos seis anos com uma alcateia que a salvou da morte no dia do incêndio — ele se viu sem saída. Não queria deixar a irmã, entretanto não queria acompanhá-la para outro país, pois não conseguiria conviver com uma alcateia já formada, com pessoas que ele não conhecia ou confiava.
Foi quando ele recebeu a ligação da síndica do seu antigo prédio em Nova York informando que o seu apartamento estava sendo utilizado por alguém, que ele deveria checar o que estava acontecendo. Era a sua brecha, ele precisava de um tempo longe da cidade e enquanto a ideia de viajar com a Cora para o Brasil não o interessava, ele poderia retornar para NY e passar um tempo longe de Beacon Hills quem sabe até não voltar. Arrumou uma mala com poucos pertences, deixou uma mensagem de voz avisando onde estava indo para o Isaac e junto com a irmã embarcou no primeiro voo com destino a Big Apple naquela mesma manhã, de lá Cora seguiria para o Brasil.
Foi uma despedida mais difícil do que ele estava disposto a admitir. Após passar seis anos longe da irmã, seu reencontro com ela não foi dos melhores. Eles discutiram, ela o questionou e desobedeceu, contudo a jovem era sua única ligação sanguínea viva que valia a pena conviver. Derek a amava muito e a ideia de perdê-la era algo que realmente o deixava em pânico. A própria Cora o instigou a voltar para a NY, por pensar que longe de BH ele estaria melhor.
– Você ficará bem sem mim? – ele perguntou preocupado.
– Eu sobrevivi seis anos, não? Fora que lá, eu tenho uma vida, uma família, um namorado, lá eu sinto como se pertencesse a algum lugar, entende? – ele balançou a cabeça em reconhecimento. – Eu quero que você tenha isso, irmão. Oh Derek, eu quero tanto que você tenha um motivo real para ser feliz, para se sentir amado de novo, lembrar que vale a pena viver, lutar para viver e não sobreviver, entende? Eu te quero tão bem. Desculpe-me se eu não mostrei isso como deveria, mas sempre senti sua falta. — ele a puxou para si, no primeiro abraço que eles compartilharam desde que ele a resgatou do Alpha Pack. Ela respondeu com a mesma força, um abraço um muito apertado para um humano normal, mas tão familiar e desejado entre os Hales.
– Me avise quando chegar, e por favor mantenha contato ou eu vou voar até o Brasil e arrastar sua bunda de volta para casa! – ele disse com um pequeno sorriso brincando no canto de seus lábios, no portão de embarque.
– Eu também te amo muito lobo azedo. — ela o socou no ombro e eles sorriram.
– Meu deus, você passou menos de um mês perto do Stiles, mas ai estão todos os maus hábitos dele. – ele disse franzindo a testa.
– Por favor, nada de fingir que você não gosta dele. Eu sei que no fundo você vê ele, Scott, Isaac e aquelas meninas como uma extensão da nossa família e eles o veem da mesma forma. – Derek abriu a boca para argumentar e ela o cortou – Lobisomem lembra? Eu sei quando você mente, mas não se preocupe, eu não vou contar. Me deixa ir, antes que eu escolha ficar! — Ela o abraçou rapidamente e entrou no portão de embarque o deixando para trás, se sentindo tão solitário como sempre.
Saindo do aeroporto, ele pegou um táxi e se dirigiu ao Soho, seu antigo bairro. A cidade continuava bonita como sempre, mas barulhenta, superlotada, com múltiplos odores mixados. A sensação de estar de volta era opressiva. Ele desceu do taxi na frente de seu prédio e sentiu o turbilhão de emoções tomarem lugar em seu peito, na última vez em que havia estado aqui, ele ainda possuía a ilusão de que ele e a Laura poderiam reconstruir a vida deles, um dia alcançarem paz e felicidade.
Respirando fundo o lobisomem preparou- se para lidar com algum desabrigado que havia, provavelmente, arrombado a fechadura. Entrando no saguão do prédio ele foi checar o compartimento de cartas, e para sua surpresa parece que o seu invasor tinha feito o favor de recolher suas cartas. Era só o que me faltava. Adentrou o elevador e pressionou o número 5. Laura sempre dizia que era uma benção ter achado um loft espaçoso e bem localizado nessa parte da cidade, ser um por andar era só a cereja no topo do bolo.
Ao chegar à porta, ele notou que não havia sinais de arrombamento. Usando sua chave ele entrou no apartamento e teve a certeza de que o mesmo vinha sendo usado, e muito provavelmente por mais de duas semanas como sua sindica imaginará. Na realidade ela só entrou em contato por que apesar de todas as despesas do apartamento estar em ordem, ela veio até o apartamento convidá-lo para reunião de condomínio e ouviu ruídos, mas Derek nunca respondeu quando chamado.
Ele sentiu um odor familiar, uma mistura de café, almíscar e suor. Seguindo o cheiro ele parou na porta do quarto da Laura. Seja quem for estava dormindo aqui, e nesse momento, estava acordado, com os batimentos cardíacos ultrapassando o teto e em pé atrás da porta. Derek abriu a porta rapidamente, a tempo de parar o agressor que tentou acertá-lo na cabeça com o abajur rosa de sua irmã. Um segundo depois, ele reconheceu sua agressora.
–Izzie? – Ele encarou assustado a mulher que não via há quase um ano.
– Derek? Derek? Ohh meu deus, Derek você está vivo! – Izzie disse ao atirar-se no pescoço dele com lágrimas correndo pelo rosto e uma expressão de alívio que o pegou completamente desprevenido.
O lobisomem foi dominado pelas sensações ao redor, ele estava tão assustado que chegou a pensar que estivesse sonhando. Passaram bons 30 segundos em que ele apenas permitiu-se ser enlaçado sem retornar o contato, até perceber que seja por qual motivo fosse, ele não estaria sendo liberado do mesmo por algum tempo.
Ele abraçou-a de volta, e em pouco tempo ele descobriu ansiando pelo toque a ele recusado por tanto tempo, o calor que emanava do corpo junto ao seu atenuando a ansiedade que ele sentia. Muitos minutos depois eles desenrolaram-se e o próximo contato que se seguiu, foi definitivamente inesperado, e apesar de saber que ela sempre teve uma mão pesada, o tapa doeu. Para uma humana comum Izzie sempre teve uma mão muito pesada.
– Isso foi por sumir da minha vida por quase um ano seu filho da mãe! Como você pode? Hã? Como? Eu fiquei louca de preocupação! Eu liguei pra você, para Laura. Derek eu tive que saber da morte dela pela internet! E isso por que eu fui fuçar na porcaria de página do jornal de merda da cidade onde vocês moravam! ONDE DIZIA QUE VOCÊ FOI PRESO! Você não pode tirar um segundo pra me ligar? Eu achei que você gostasse de mim, que se importasse! EU AMAVA A LAURA, EU... EU... EU AMO! Ela, você. Vocês são a única porra de família que eu tenho e você sumiu do mapa!
Quando ela terminou de gritar e cuspir as acusações na cara dele, ele conseguia ouvir o coração dela numa corrida louca para sair do seu peito e voar pelo teto. Ela estava com as bochechas levemente coradas de vermelho, — não que ela fosse admitir, porque segundo a Izzie “garotas negras não ficam vermelhas!”- seus olhos estavam marejados e seu olhar era ferido. Droga, mais uma coisa que eu consegui ferrar na minha vida.
– Izzie, eu sei que sumir não tem desculpa e não ter dado notícias também não. Mas eu não tenho vivido num paraíso e muitas coisas estão acontecendo. E muita, mais muita merda foi para o ventilador nos últimos tempos. Eu tenho tanta coisa para te contar. – seus olhos implorando por uma chance.
Ela o olhou com preocupação, tão familiar e que ele nem imaginara sentir tanta falta, sua respiração estabilizando e pulso relaxando, que o fez lembrar de como ela poderia encher-se de ira e relaxar facilmente quando pressentia algo ruim havia acontecido com ele ou a Laura.
– Tudo bem, você vai me contar, sentada numa cafeteria enquanto você me paga um café e um cheesecake, que eu MEREÇO por ser linda e compreensiva. – o tom de voz dela mudou completamente de fúria para divertimento, e ele só conseguiu sacudir a cabeça afirmativamente agradecendo a qualquer coisa divina por ganhar algo de bom.
– Eu estou de acordo, desde que a senhorita me conte o que a fez todo esse tempo!
– Mais do que fechado! — Izzie liderou o caminho capturando sua bolsa em direção a porta, ele olhando ela caminhar pensou que talvez e só talvez não houvesse perdido tudo.
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