Paralelas
1 Prólogo
Notas iniciais
Espero que curtam essa história e quebrem a cabeça tanto quanto eu enquanto a escrevo.
Uma das minhas maiores divagações da vida, além de parar e me perguntar qual era o sentido de nascer e morrer e nossa fragilidade, era parar para pensar em como nossa consciência se encaixa em um pedaço de matéria, em um pouco de carne e ossos e como somos capazes de transmitir informação através do sistema nervoso.
O que me faz ser quem sou e o porquê eu tive que existir nesse corpo e não em algum outro? Por que alguns de nós são predestinados a algumas experiências de vida e outras pessoas não? Nunca achei uma resposta coerente para essas perguntas, mas pensar nisso sempre foi um passatempo um tanto quanto problemático na minha mente – ainda mais se levar em conta meu histórico psicológico.
A fogueira estava quente, mas não o suficiente para nos aquecer, mas quem imaginaria que, logo hoje, teríamos o azar de pegar uma frente fria repentina no auge da primavera?
Apesar dos corpos encolhidos e cobertos com inúmeras peças de roupa para tentar estancar aquela sensação, a experiência estava sendo boa; todos estavam se distraindo e se divertindo. Apesar que qualquer coisa longe de Crystal Falls se tornava suficientemente mais interessante do que aquela cidade minúscula na divisa do Canadá.
Nosso professor divagava um pouco a respeito das trilhas que havia feito em condições climáticas piores do que a que estávamos enfrentando, mas não conseguia focar muito em suas palavras, porque estava imersa demais em meus pensamentos e nos pequenos ruídos de estalo que a fogueira soltava de tempos em tempos, ao quebrar um galho ou outro.
Meus olhos estavam fixados na forma como o fogo dançava com a brisa do vento, lutando para se manter aceso e capaz de assar um pouco de comida – se é que teríamos essa sorte toda.
Tombei a cabeça de lado e dispersei meus pensamentos para as mãos de Max e a forma como suas palmas esfregavam uma na outra numa tentativa falha de espantar o frio da ponta de seus dedos.
De todos os presentes naquele passeio, ela era a única com o infortúnio de não ter levado consigo um casaco sequer – mas era a única que tinha uma touca, não que fizesse diferença.
Era surpreendente como tudo no mundo mudava repentinamente, até aquela manhã, estávamos certos de uma noite quente e estrelada, mas tudo o que recebemos foi um céu carregado de nuvens anunciando uma chuva próxima, alguns trovões e uma ventania que, às vezes, arrancava alguns uivos do meio das arvores.
O cenário perfeito para um filme de terror— Maneei a cabeça com um meio sorriso debochado ao recordar de alguns filmes que amava assistir.
Mas afinal, era para essa noite ser exatamente dessa forma ou em algum outro momento do dia era para ter sido o total oposto? Será que foi alguma pequena decisão de alguém em algum lugar que afetou essa área ou...?
— Está pensando no que, dessa vez? – A voz de Nick surgiu no fundo da minha mente como uma agulhada repentina e me puxou de volta para o mundo real.
Levei algum tempo para processar a sua pergunta, mas antes que pudesse ter a chance de responder, minha careta de incomodo – não pela sua presença e sim por sua aparição inesperada – bastou para que entendesse.
— Tédio ou arrependimento por estar aqui? – Ele se agachou ao meu lado e sentou no pouco espaço de tronco livre que restava e que me servia de banco.
— Algo mais profundo que isso. – Semicerrei o olhar ao murmurar em resposta. – Estou feliz por ter saído um pouco de casa – Confessei aliviada.
Apesar de não gostar muito de multidão e da maior parte das pessoas daquela escola, ter saído para esse passeio foi a melhor coisa que me ocorreu nos últimos tempos. Não suportava mais passar a maior parte dos dias sozinha dentro de casa ou andando pela cidade sem absolutamente nada para se fazer.
— Oh, eu sei que você sente minha falta. – Replicou com um sorriso debochado – Mas é temporário – Completou e me recordou mais uma vez que ele não permaneceria para sempre naquele curso extracurricular.
— A questão não é essa... – Soltei uma forte lufada de ar e fechei o sorriso na hora.
Desde meu último colapso, estava relativamente isolada e distante de qualquer interação social com os meus amigos – poucos, diga-se de passagem. O único que conseguia manter contato comigo era Nick, mas também não tinha como fugir dele, já que ele morava na frente da minha casa.
De fato, ele era a única pessoa da qual eu não conseguia fugir, mesmo se quisesse.
— Você precisa respeitar seu tempo, tenho certeza de que eles irão entender. – Nick sempre teve esse jeito gentil de tentar me reconfortar e de ver o lado bom nas pessoas, só que, para mim, isso era tão distante e estranho que chegava a ser impossível entender sua perspectiva.
Quanto mais tempo se passava e mais eu me mantinha naquele distanciamento, mais as pessoas começavam a desistir de mim e parar de me procurar. Já não recebia mais nenhuma mensagem e nosso grupo estaria deserto se não fosse pelos vídeos aleatórios que Nick mandava.
Era fato que ninguém mais suportava essa instabilidade que partia de mim, além, é claro, do importantíssimo fato de que todos estavam amadurecendo e começando a formar suas vidas. Não estávamos mais no fundamental e é como se nosso último mês de férias tivesse, literalmente, virado a chave de uma era para outra.
Soava tão irônico lembrar que há pouco menos de um ano Sophia havia me dado um colar da amizade e agora pouco se importava. Mas não a culpo, afinal, nossa conversa mais recente, de longe, foi algo agradável.
Estava sentada sob uma mesa do nosso pátio externo e apreciava as fortes lufadas de vento que serviam com uma boa forma de espantar o calor que fazia naquele dia. Não suportava muito essa época do ano, e, por mais que não esquentasse muito nessa cidade, qualquer temperatura acima de 20ºC era o suficiente para me deixar de mal humor.
Meu tronco se mexia lentamente junto de alguns poucos movimentos nos braços acompanhando o ritmo de uma música que ouvia. Estava totalmente imersa naquela sensação e aproveitando cada instante de isolamento que meus fones de ouvido eram capazes de me proporcionar naquele pátio.
O som oco dos fones parecia dar uma amplitude vocal mais imersiva e diferenciada, de estar próximo as caixas de som, mas, ao mesmo tempo, distante, com inúmeros bloqueios abafando o som. Isso até me fez lembrar o dia que fugi do ginásio, no meio de uma festa qualquer – ou evento – e me escondi no vestiário, tentando conter minha agorafobia.
Como podia gostar de algo que, certamente, havia me causado muito desconforto no dia? Não fazia a menor ideia, mas, desde cedo, estava acostumada com essas sensações de desconforto permeando meu dia a dia, tanto que, para algumas situações, podia me considerar quase imune.
Sempre que colocava meus fones de ouvido e me afastava dos meus amigos era um sinal claro de que precisava de um momento de solidão, fosse para refletir ou me conter. Mas, naquele dia em específico, Sophie decidiu invadir meu espaço e me pressionar para descobrir algumas coisas sobre Raphael.
Os malditos quinze anos e a adolescência insuportável.
Não fazia a menor ideia do que havia combinado com Sophia, se era ajuda com algum reforço escolar, me cobrir em alguma aula que decidi escapar ou alguma informação relevante para usar de moeda de troca contra alguém, mas, independente do que fosse, sabia que a devia algumas informações a respeito daquele garoto insuportavelmente monótono.
Uma pedra parecia esboçar mais reação e sentimentos do que ele, mas, não podemos controlar o que sentimos e Sophia estava completamente fissurada nele.
— Soph, agora não. – Curvei-me para a frente, inclinando o corpo em sua direção e lançando um olhar frio.
— Chega, o tempo inteiro você está assim – Resmungou ao puxar meus fones para baixo. – Eu só te pedi um favor, um único favor e até agora você não foi capaz de fazê-lo. – Dizia impaciente. As maçãs de seu rosto começaram a ficar avermelhadas, esboçando melhor sua raiva naquele instante.
Você não fez isso. Inspirei fundo ao passo em que minhas mãos passaram a tremer de raiva e se fecharam num punho ainda mais firme. Sempre que uma sensação dessas tomava conta de mim era sinônimo de uma explosão impulsiva com consequências um tanto quanto desagradáveis.
Recolhi meus fones do chão e os enrolei rapidamente em torno da minha palma esquerda. Levantei-me da mesa jogando meu corpo em direção a Sophie, que havia entrado num estado defensivo. Entretanto, ao invés de retribuir com qualquer tipo de agressão ou ofensa verbal, caminhei em direção ao refeitório a procura de Raphael.
Quando Sophie se deu conta do que estava prestes a acontecer, ela correu atras de mim e agarrou meu ombro direito na tentativa falha de me conter.
— Que assim seja, Soph. – Murmurei com um tom de deboche, seguido de uma risada curta.
A partir desse momento, minhas lembranças se resumiram apenas em escapar de seu aperto e correr até a mesa mais próxima, onde bati uma bandeja contra a outra para chamar a atenção das pessoas próximas. Lembro-me com clareza também da minha risada sádica e debochada ao olhar friamente para Sophie que, visivelmente, estava desconfortável, segurando o rosto em suas mãos, se escondendo do que viria a seguir.
— Riley... – Um sussurro distante transformou aquelas memorias vívidas em uma mera lembrança distante e o breu do acampamento havia tomado conta do meu campo de visão.
A fogueira havia se apagado por completo há algum tempo e não via mais ninguém da minha turma ali, nem meu professor ou Nick que estava do meu lado.
Isso poderia indicar duas coisas; a primeira é que eu teria ficado muito tempo no meu estado de Sámadi e a segunda é de que aquela não era a realidade de fato e que ainda estava divagando em algum canto da minha mente.
Não era incomum me desligar por minutos – ou horas – e entrar a fundo numa lembrança em específico ou alguma divagação qualquer sobre a minha vida. Minha mente servia tanto quanto um refúgio seguro dos meus traumas externos quanto meu maior tormento, especialmente quando me sentia aprisionada em meu labirinto interno.
Levantei-me do chão e senti minha coluna estalar na altura da lombar, reclamando do tempo em que permaneci ali, na mesma posição.
— Mais um sinal de que você desligou. – Resmunguei.
Bati as mãos contra meu casaco para limpar os resquícios da fogueira e cruzei os braços numa reação automática a lufada de ar que havia adentrado na clareira.
O breu da noite e o uivo do vento pelas arvores me deram um frio na espinha e quanto mais me dava conta de que estava consciente de verdade mais estranhava o fato de Nick ter me deixado sozinha ali.
— Riley... – Por uma fração de segundo, pensei ter ouvido meu nome de novo, mas o vento estava ficando cada vez mais forte e chacoalhava a copa das arvores de modo que uma série de folhas começaram a se desprender de seus galhos. A tempestade estava vindo mais forte do que imaginávamos e não estávamos preparados para aquilo.
Dei alguns passos ao norte, procurando a trilha que nos levou até ali e espreitei por entre as arvores, esperando encontrar algum ponto de luz que me guiasse até os outros, mas não havia nada. Nada além da luz da lua que ultrapassava as arvores em pequenos feixes azulados.
— Por aqui! – De repente, fui capaz de ouvir com clareza uma voz vinda das minhas costas, numa trilha completamente oposta pela qual estava seguindo.
Outra rajada de vento preencheu o silencio da noite e tornou qualquer outro comentário inaudível, porém, aquela era a única pista pertinente que poderia seguir se quisesse encontrar alguém. Não hesitei em atravessar a clareira em passos largos na direção de onde aquela voz veio.
Quanto mais me afastava da clareira, menos a lua iluminava o meu caminho e mais difícil era caminhar sem sentir que escorregaria no primeiro monte de barro e folhas ou tropeçaria em uma raiz e é claro que esse tipo de possibilidade, misturada com a situação em que me encontrava era suficientemente assustadoras para me deixarem paranoica.
— Sabe o que seria bom agora? – Comecei a falar sozinha na tentativa de espantar os pensamentos ruins da minha mente – Um celular, sabe por quê? – Indaguei com um meio riso irônico – Porque tem lanterna e aí você não estaria passando por essa merda toda. – Completei com raiva.
Foi genial termos deixado nossos celulares guardados dentro do ônibus, como se pudéssemos fazer muita coisa com eles além de ouvir música ou ter uma lanterna a disposição. Mas é claro que tudo deveria ser feito a moda antiga, sem tanta tecnologia que interferisse ou câmeras que pudessem tirar o foco real do nosso fim de semana.
Trinquei o maxilar para conter um gemido que se formava em minha garganta a cada passo que dava na direção da voz e apertei o braço com mais força. Não podia negar que estava começando a ficar com medo daquela situação e como odiava ficar no escuro sozinha, até porque não era conhecida por ter uma mente saudável.
A sensação de estar sendo seguida e absorvida pela escuridão, para mim, era a pior parte de todas, mas ela disputava um belo páreo com a ideia de visualizar vultos se movendo ao meu lado, pela visão periférica, ou sons projetados pela minha mente.
Nesses momentos tentava me convencer de que o medo do escuro não passava de um mecanismo de autodefesa, uma herança herdada de nossos antepassados e seu modo de vida nos primórdios da humanidade.
Mas, logicamente, não demorava para a autossabotagem falar mais alto e ressaltar a ideia de que o escuro é o lugar onde nossos predadores estão escondidos. Tanto que poderia recitar até algumas metáforas que guardei, ao longo da minha infância deprimente, sobre os perigos da escuridão e nossa mente.
— O que você está fazendo aqui? – Uma voz familiar surgiu há alguns passos de distância de mim. Apesar de ter me assustado, me senti um pouco aliviada por ter encontrado alguém.
— Para onde todos foram?
— Silêncio. – Carl sussurrou e estendeu as mãos na minha direção, gesticulando para que eu me acalmasse. – Tem alguma coisa estranha acontecendo por aqui. – Completou com a voz tremula. – Você sabe onde os outros estão?
— Achei que você soubesse – Respondi no mesmo tom de voz.
Olhei bem para o garoto e percebi um pouco de suor escorrendo de sua testa pela lateral do rosto, o que era totalmente estranho, levando em conta a temperatura do local que faria qualquer um ranger os dentes de frio. Sua expressão era um misto de confusão e medo, claramente ele estava mais nervoso do que eu. Ao descer o olhar um pouco mais, para a região de seu nariz, reparei num pequeno rastro de sangue que saia de sua narina e descia por seus lábios.
Quanto mais olhava para Carl mais alguma coisa dentro de mim gritava em alerta, me colocando num modo auto defensivo automático. Era só o que faltava. Uma forte lufada de ar saiu de meus pulmões no instante em que pareci expandir meu campo de visão e entrar num estranho frenesi.
— O que aconteceu? – Perguntei firme, há poucos centímetros de distância do garoto que logo se enfiou no meio de algumas arvores, saindo da trilha principal.
— Estávamos procurando outro lugar para ficar quando me perdi dos outros. – Ele gesticulou para que eu o seguisse.
— E resolveram me abandonar? – Perguntei incrédula.
— Não, Nick disse que estaria logo atrás de nós com você. – Com agilidade e naturalidade, Carl escalou um pequeno morro de terra umedecida à nossa frente e se pôs de joelhos no topo, esticando o corpo para que eu segurasse em sua mão e subisse também.
— Ele não estava comigo. – Franzi o cenho preocupada.
Nick nunca me deixaria sozinha daquela forma, por mais que insistisse não ser necessário que alguém ficasse tomando conta de mim – coisa que odiava com todas as minhas forças – ele sempre foi protetor comigo.
— Preciso encontrá-lo. – Carl me encarou ansioso em retorno.
— Riley, só sobe aqui. — Balançou a mão. – Não é bom nos separarmos. – Ele olhava para os lados a cada segundo que um barulho ecoava na floresta, independente de ser o cantarolar de uma coruja ou o bater de asas de algum inseto.
— Posso fazer isso sozinha – Repliquei. Aquele desnível de solo não passava de pouco mais de um metro de altura e contava com alguns degraus naturais de barro e raízes que me serviriam de apoio.
— Como você se perdeu de um grupo de vinte pessoas?
— Max e eu ouvimos uns barulhos no trajeto e fomos atrás, por curiosidade, mas estávamos acompanhando de longe. – Sua voz tornou a tremular – Então os trovões pioraram e, quando nos demos conta, não víamos mais as luzes da lanterna e não conseguíamos mais escutá-los.
— Você se perdeu da Max?! – Indaguei duas oitavas acima.
— Para de fazer barulho! – Me repreendeu com raiva, dessa vez. – Ou você sobe de uma vez ou te deixo aqui. – Seu tom de voz estava mais firme, entretanto ainda não conseguia disfarçar a hesitação e ansiedade.
Maneei a cabeça de um lado para o outro e aceitei a ajuda para subir morro, algo que não levou nem dez segundos e quatro ou cinco passos no barro escorregadio.
— Quer me contar o que está acontecendo? – Inquiri. Caminhávamos lado a lado em passos largos e silenciosos, esgueirando-se entre alguns galhos caídos e folhas longas.
Antes que ele me respondesse, estávamos de volta numa trilha bem demarcada, provavelmente a mesma que nosso grupo seguia quando Carl perdeu Max.
Estava atenta ao menor som que aquela floresta fizesse, procurando ouvir a voz familiar de qualquer um dos nossos colegas, mas quanto mais próxima a tempestade chegava, mais difícil era ouvir qualquer som que não fosse de um trovão ou o uivo agressivo do vento cortando as arvores.
De relance, fui capaz de ouvir o som de um galho se partir ao meio – deduzi ao reparar um estalo seco vindo de algum lugar próximo de nós. – Você ouviu isso? – Tentei sussurrar, mas o animo e a ansiedade na minha voz se manifestaram em peso, fazendo aquela pergunta soar mais como um grito de alerta.
— Silêncio! – Carl me reprimiu com raiva, dessa vez.
— Pode ser Max ou Nick perdidos! – Repliquei ignorando a forma como ele me fuzilava com os olhos.
Cambaleei para o lado de onde ouvira o som e quase cai ao tentar desviar da mão de Carl que, subitamente, veio em minha direção na intenção de nos manter juntos.
Aquele olhar preocupado e reações completamente agressivas e hesitantes estavam me deixando preocupada. Nunca o vi dessa forma, nem quando estávamos metidos em algum problema ou situações perigosas.
Mas, apesar de todos os clichês e da noção básica de que teríamos mais chances de superar qualquer coisa que fosse se nos mantivéssemos juntos, não me sentia nada confortável em imaginar meus amigos correndo o menor perigo que fosse.
Apesar do som familiar das folhas ricocheteando umas nas outras, um barulho mais alto surgiu, como se alguém corresse na mata ao nosso redor.
Segui poucos passos para fora da trilha, em um novo barranco – menor do que o anterior que escalei – e fitei o vasto breu da floresta. Foi inevitável o frio na espinha e o calafrio que se formou em toda extensão do meu corpo ao me dar conta do que estava passando.
Permaneci estática e assustada por alguns segundos – que mais pareceram uma eternidade de tanta paranoia que surgiu na minha mente – até olhar para o chão e encontrar um casaco jogado.
— Acho que isso é de algum deles. – Deduzi animada com a descoberta. Estávamos seguindo pelo caminho certo, ou era o que acreditava. – Mas porque isso está aqui se está tão frio?
— Riley! – Senti meu coração palpitar em um sobressalto e minha pele congelar com o grito repentino de Carl. – Riley! – Gritou novamente.
Dei alguns passos tortos para trás, perdendo o equilíbrio e escorregando de lado na terra pisada da trilha e encarei de relance o garoto alguns metros à minha frente, com uma mochila azul marinho em suas mãos. Precisei de alguns segundos para me recompor e compreender que seu estado de alerta era por que havia encontrado os pertences de Max.
Corri em sua direção com o coração palpitando numa arritmia descontrolada, ainda mais preocupada com o desaparecimento de Max. Ela tinha tanto ciúme daquela mochila e o que guardava consigo que seria impossível abandoná-la de boa vontade.
Peguei a mochila em minhas mãos, torcendo para que não fosse a de Max, mas bastou um botton de sua banda favorita para destruir todas as minhas esperanças.
— Espera. – Senti o peso da mochila cair totalmente sobre minhas mãos, me obrigando a segurá-la com firmeza, quando Carl a soltou para seguir pela trilha. Suspirei fundo e maneei a cabeça preocupada. — Mas que porra...? — Ergui a cabeça para seguir Carl com o olhar, porém, uma dor repentina surgiu na lateral do meu corpo e minha visão girou com o impacto.
Os acontecimentos foram tão rápidos a partir dali que, de repente, tudo o que conseguia sentir era minhas mãos tocando a terra úmida e alguns pedregulhos que me machucaram na hora que cai. Minha cabeça doía intensamente e não sabia se estava passando por isso porque a bati em algum lugar ou se era devido a dor intensa que vinha da minha perna toda vez que tentava mudar de posição.
Não conseguia mais enxergar Carl no meio daquele caos. Na verdade, não conseguia ver mais nada além de algumas folhas que cobriam parte do meu rosto.
Distinguir os sons que ouvia também era uma tarefa difícil, não apenas pelos trovões e a ventania violenta que cortava a floresta, como também pela dor e a sensação de ardência que tomou conta da minha espinha. Se bem me conhecia, poderia dizer com certeza que minha pressão despencou tão rápida quanto eu no chão.
A tempestade estava chegando e não fazia a menor ideia do que estava acontecendo e onde poderia encontrar os outros. Mal sabia qual o tamanho do perigo que estava correndo naquele momento ou quais animais poderiam estar escondidos na floresta esperando para se alimentar de uma presa fácil como nós.
Respirei fundo algumas vezes tentando me manter acordada, mas a dor pareceu aumentar tanto que meu corpo não reagia mais da forma como gostaria. Fechei e abri a mão algumas vezes na terra úmida, procurando algo que me servisse de apoio, mas não encontrei nada além de um frívolo e assustador vazio.
Notas finais
Tentarei manter uma frequência razoável de postagens, mas não garanto nada ;)
Comentários sempre são bem vindos e minha caixa de mensagens sempre estará aberta para conversas e desabafos.
Até a próxima.
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