Paralelas
10 Capítulo 9 - Rasura
Riley
Afaguei o rosto com as palmas da mão, deixando todo o peso da minha cabeça pender no apoio dos meus braços.
Estava destruída em todas as formas possíveis.
As lembranças de Seattle se tornaram subjetivas, assim como boa parte do que me recordava da noite da campina. Fragmentos tentavam preencher o vazio, mas não era o bastante para me dar uma imagem clara.
Lembro-me de ter acordado em uma cama de hospital, nos dois casos, com um acesso cheio de remédios e o tintilar dos meus batimentos cardíacos no monitor.
A única diferença foi que, dessa vez, não passei quase duas semanas apagada. Entretanto, recobrar a consciência foi exatamente igual às demais, dolorosa.
Estar na escola nessa manhã foi como acordar de uma ressaca de entorpecentes. A claridade das luzes incandescentes me dava náuseas, os sons mais altos e principalmente do sinal de troca das aulas parecia martelar meu cérebro e a confusão mental não passou como deveria.
Foi uma péssima ideia ter ignorado o pedido médico de permanecer em repouso por três dias e retomar as aulas mais cedo, mas não suportaria passar esse tempo em casa, com os meus pais em cima de mim de cinco em cinco minutos.
Se não fosse por Nick, convencê-los de que seria melhor para mim vir para a escola a ficar em casa seria impossível. Eles confiavam demais em Nick e o fizeram prometer que ele ligaria caso algo acontecesse.
Eu só não contava que Nicholas não me deixaria sozinha nem nos momentos em que eu pedisse. Era normal meu humor oscilar umas vinte vezes por dia entre as aulas e era ainda mais comum eu querer me isolar em algum canto reservado, mas ele não saia de perto nem para ir ao banheiro.
Em casa, também não teria muita liberdade.
Desde que voltei de Seattle, meus pais decidiram passar mais tempo comigo. Minha mãe reduziria as conferências e a escala de trabalho e meu pai pediu transferência temporária para um laboratório mais próximo de Crystal Falls.
Isso significava que algumas regras seriam reestabelecidas e eu precisaria fazer alguns sacrifícios se quisesse evitar algum castigo ou idas dobradas na terapia.
— Me deixa em paz! – Protestei, batendo as mãos na mesa quando vi Nick sentar-se ao meu lado com a bandeja de comida que ele acabara de pegar no refeitório. – Vai viver sua vida.
— Sua teimosia não vai me afastar de você.
— Você deveria ser meu melhor amigo, não a minha babá. – Brinquei com a maçã da bandeja, jogando—a de uma mão para a outra, impaciente.
— É para você comer.
— Você é insuportável, Nick.
— E mesmo assim você continua me chamando quando tem pesadelos de noite ou quando quer assistir algum filme. – Replicou.
— Não precisa jogar na minha cara que você é a única pessoa que me aguenta. – Grunhi.
Desci da mesa e me sentei ao seu lado, curiosa para ver o que ele estava rabiscando em seu caderno.
— Não foi o que eu disse. – Revirou os olhos. – Olha só. – Ele virou o caderno na minha direção e mostrou alguns desenhos que fez durante sua última aula de artes. – A senhora Brown queria que desenhássemos alguma coisa do nosso fim de semana e eu quis fazer o Arcade, mas não ficou muito bom, como dá para ver. – Suspirou desapontado.
— Não ficou tão ruim. – Ele havia errado o ponto de fuga de algumas pilastras, distorcendo a perspectiva geral, mas era corrigível.
Fiz algumas marcações por cima, com a lapiseira azul que tirei de sua mão e tentei fazer um retoque rápido na ilustração. Ele só precisaria passar a limpo depois para apagar as rasuras e marcas de borracha que machucaram o papel antes de entregar.
— O que seria de mim sem você? – Ele sorriu e guardou o caderno em sua mochila. – Agora come. – Ordenou.
— Eu te odeio. – Disse pausadamente, sílaba por sílaba para que ele entendesse claramente a mensagem.
Foi fácil lidar com todas as aulas do dia, ainda mais quando eu simplesmente podia desligar a minha mente e divagar em qualquer devaneio que quisesse.
Pensei nas viagens que gostaria de fazer, relembrei meus pesadelos de infância e me perguntei por que o som de uma porta rangendo ou luzes piscando me davam um frio na barriga. Podia flutuar em qualquer lembrança com uma facilidade inumana, até entrar na aula última do dia.
Literatura era uma das minhas poucas aulas que compartilhava com Max – ou uma das poucas que ela decidia não fugir e matar aula em qualquer canto – e estar no mesmo ambiente que ela trazia à tona o nosso último encontro.
Aquilo foi real, eu tinha certeza disso, e Max também viu o que eu vi, não foi como as outras vezes em que apenas eu era capaz de enxergar essas “alucinações”.
Queria falar com ela. Eu precisava falar com ela. Mas como chegaria até Max sem que Nick ficasse incomodado? Ele a odiava mais do que qualquer um na cidade e se culpava por não ter estado comigo para me proteger.
Desviava o olhar do meu caderno e da lousa para encarar Max e Sadie do outro lado da sala, em uma conversa baixa e acalorada.
Deveríamos escrever um poema, algo que representasse alguma dor em nossa vida, mas eu era incapaz de pensar em alguma coisa. Se não fosse por Dallas, minha dupla de hoje na aula, não teria entregado nada além de um papel em branco.
Ela não parou de falar, estava lendo e relendo o que havia escrito umas dez vezes, ainda insatisfeita com a sonoridade das rimas. E eu só me limitava em dizer que estava ótimo ou sugerir algumas palavras que ela pudesse usar, nada tão substancial ou relevante.
Max estava curvada em sua cadeira, com os braços apoiados na mesa e um olhar sério, o cenho franzido em um ar de preocupação. Ela cutucou Sadie para que olhasse para baixo da cadeira da garota na frente delas e cochichou alguma coisa no ouvido da loira.
— Sadie, isso é uma barata debaixo da mesa da Quinn? – Max disse em alto e bom tom, chamando a atenção da garota à frente.
— Ah, que nojo! – Sadie empurrou a cadeira para longe da mesa, fazendo questão de encostar o pé na perna de Quinn.
— O que?! – Quinn pulou para fora de seu lugar antes mesmo de sua voz sair, apavorada com a ideia de uma barata tê-la tocado. – Onde? – Ela deu dois passos para trás, procurando freneticamente embaixo da mesa.
Quinn tropeçou na mochila de Oliver e cambaleou para cima de sua mesa, rasgando a folha onde ele e sua dupla escreviam o trabalho de literatura.
Nesse instante, a sala toda havia parado para observar a confusão que se instaurou do outro lado da sala e a senhora Romero levantou—se atônita de seu lugar.
— O que está acontecendo? – Inquiriu.
— Tem uma barata na mesa da Quinn. – Max respondeu prontamente, trincando o maxilar para conter uma risada.
— Não tem nada! – Dylan rebateu. Ele nem sequer se assustou com a ideia de haver algo ou não ali.
Quinn grunhiu em resposta, irritada com a brincadeira e Sadie não aguentou controlar a crise de riso que sucedeu o acontecimento.
— Quem começou com a brincadeira? – A senhora Romero recolheu o que sobrou da folha de Oliver do chão e conferiu o perímetro, atestando que não passava de uma piada.
Max permaneceu em silêncio, mas seu olhar delatava sua parcela de culpa.
— Foi você, não é Du Bois? – Apesar da professora Romero ser uma senhora de meia idade, acolhedora e gentil em suas aulas, ela não tolerava nenhum tipo de desrespeito. E, considerando os efeitos colaterais que destruiu o trabalho da dupla de Oliver, ela estava furiosa. – Detenção depois da aula!
Uma onda de calor repentino passou por mim.
Essa era a oportunidade que eu queria para conversar com Max sobre Seattle, sem a interferência de Nick, já que ele não poderia ficar conosco na detenção.
Antes mesmo de terminar a linha de raciocínio e decidir se ir para a detenção era apropriado ou não, amassei e joguei uma bolinha de papel na direção de Oliver, o acertando na cabeça.
O garoto ao seu lado devolveu a bolinha e atingiu Dallas, que vociferou ao meu lado ao errar o que estava escrevendo e desenhar uma linha torta no lugar.
— Você estragou o nosso trabalho! – Repliquei, colocando-me de pé prontamente e o atingindo com uma caneta.
— Chega! – O rosto da senhora Romero foi tomado por um vermelho sangue, sua respiração ofegante e falha entregava seu vício por cigarros. – Você também vai para a detenção, Stevenson. – Apontou para mim, seus dedos eram finos, tortos e tinha a ponta dos dedos amarelada.
Ótimo.
Fale com o autor