Paralelas
11 Capítulo 10 - Detenção
Riley
— Detenção, Riley? – Mesmo conversando por ligação, conseguia perceber a surpresa e decepção na voz do meu pai. – O que você tinha na cabeça?— Suspirou.
Estava sentada no chão, na frente do meu armário, a quase vinte minutos e ainda não havia pensado em uma desculpa convincente para justificar um comportamento tão inesperado.
Não sabia o que esperar disso, se iria ficar de castigo ou o que meu pai faria em troca. No melhor dos cenários, ele iria considerar que a detenção e cuidar da pintura dos cenários por quase uma semana seria o bastante, considerando o quanto eu detestava qualquer atividade extra na escola.
De qualquer modo, eu consegui o que queria e teria tempo o suficiente para conversar com Max.
— Foi sem querer! Eu estava brincando com a Dallas, mas errei a pontaria em um momento inapropriado. – Despejei uma série de palavras que surgiu na minha mente no mesmo momento.
— Quando acabar a detenção, é para você vir direto para casa. – Ordenou. – Não vou poder te buscar, mas posso pedir para os Reed...
— Não precisa! – Queria manter Nicholas e sua família fora dessa situação que eu provoquei.
— Tem certeza? – Apesar de não termos tanto tempo quanto costumávamos quando eu era criança, meu pai não deixava de lado seu jeito protetor e meigo.
— Sim, não esquenta, pai. – Retribui da mesma forma.
Desliguei o celular e encarei Nick parado de pé do outro lado do corredor, recostado em uma fileira de armários.
— Está tudo bem. – Disse firme. – Você pode e precisa ir para casa. – Comentei.
Ele não poderia ficar na detenção comigo e sabia que ele havia combinado de sair com sua mãe hoje, para ajudar nas compras da casa.
— Eu te deixo sozinha por um minuto e você ganha uma detenção? – Questionou. Seu olhar não escondia a incerteza e dúvida que permeava seus pensamentos.
— Acontece. – Dei de ombros.
Levantei-me e joguei minha mochila dentro do meu armário. Bati a porta com um pouco de força e recostei a testa no metal frio. Uma pontada de ansiedade e insegurança tomaram conta de mim, minhas mãos começaram a suar frio.
— Não deveríamos ter ido para Seattle. – Comentou, frustrado.
— Iria acontecer, uma hora ou outra.
— Você não deveria ter misturado bebida com os seus remédios.
— Não quero conversas sobre isso, Nick. – Fechei as mãos em um punho firme e as usei como auxílio para me empurrar para longe dos armários.
Evitei qualquer contato visual desnecessário com Nicholas, pois sabia que ele me conhecia o bastante para saber quando eu estava mentindo ou escondendo algo.
— Você pode me ligar, se precisar de algo.
— Tudo bem. – Agradeci e deixei Nick para trás, seguindo meu caminho para a sala de teatro no fundo da escola.
Nunca tinha visto os corredores tão vazios e silenciosos, a ponto dos meus passos ecoarem. Parecia outro lugar, mais pacífico e não tão sufocante e exaustivo como nos outros momentos.
Não encarar meus colegas de turma ou os garotos insuportáveis do time de Rugby me fez detestar um pouco menos estar aqui e considerar por um breve momento uma rota de fuga da minha casa.
Por sorte – e um pouco de azar – teria uma semana inteira perto de Max e poderia conversar com ela sem que Nick enlouquecesse ou qualquer um de nossos amigos contasse a ele.
Deparei-me parada em frente a uma porta dupla avermelhada, com uma barra de empurrar no meio. Sabia o que me encontraria atrás dela e, por isso, precisei de alguns minutos em silêncio para controlar a ansiedade e o frio na barriga que me dominou.
Dentro do teatro, avistei um pequeno grupo de pessoas sentados no meio do palco e a senhora Howard parada ao lado deles, de braços cruzados e batendo o pé impacientemente no chão.
Sua fuzilada de olhar me fez atravessar as filas de poltrona marsala até o palco na metade do tempo que levaria.
As tábuas de carvalho reagiram com um grunhido em resposta aos meus passos pesados. Algumas risadas baixas surgiram conforme eu me aproximava do círculo, mas foram silenciadas pelo pigarrear grosso da professora.
Sentei-me no espaço vazio entre um dos garotos do time de Rugby e a representante do grêmio estudantil que, a meu ver, estava ali de voluntariado. Max estava bem de frente para mim, o olhar curioso e um meio sorriso marcavam os cantos de seus lábios.
— Você está atrasada. — Disse a senhora Howard, a voz rouca e grave delatava sua compulsão por cigarros. — Vocês ficarão mais trinta minutos além do horário.
— Qual é?! — Jake, do time de Rugby, manifestou sua indignação.
— Culpa da Stevenson.— O olhar de todos pairava sobre mim com um ar de raiva e frustração. – Isso não é uma punição, é uma forma de vocês desenvolverem responsabilidade. — Conforme ela falava, Max repetiu em sincronia, sem emitir som algum. Abaixei a cabeça e mordi o canto do lábio para controlar a risada.
— Desordem e desrespeito não faz parte dos valores que o teatro carrega. – Prosseguiu enquanto caminhava ao nosso redor.
A senhora Howard pigarreou algumas vezes em sequência pala limpar a garganta, interrompendo inúmeras vezes seu discurso da responsabilidade e da importância cultural do teatro para a comunidade e Max não demorou em imitá-la, emitindo som dessa vez.
— Algum problema, Du Bois?
— Dor de garganta, acho que é um resfriado. – Respondeu com a maior cara cínica. Deixei escapar a risada que estava prendendo no fundo da garganta.
— Vocês querem ficar o dia todo aqui? — Indagou em tom ameaçador. — Não tenho problema algum em fazer hora extra se isso ensinar disciplina. — Fuzilou-me novamente com seus olhos arregalados.
— Acho que estou com alergia do cheiro da madeira. — Respondi prontamente, Max maneou a cabeça em negativo.
O sermão da professora Howard prosseguiu por longos e intermináveis dez minutos, onde eu precisava me concentrar para não encarar a movimentação sutil de Max e as piadinhas que ela soltava hora ou outra.
Ela nos explicou sobre o que a peça retratava e a paixão de Shakespeare ao escrevê-la. Em certos momentos, poderia dizer que ela estava tentando contracenar uma espécie de poesia ao falar, a entonação dramática e repentina na sua voz mudava com frequência.
Por fim, as atividades foram distribuídas no que me pareceu um grau de punição mais severo. Os garotos cuidariam de carregar pilhas de caixas de iluminação, figurinos e peças do cenário, Mabel cuidaria da iluminação e alguns detalhes de palco, já que ela estava de voluntária ali, enquanto eu e Max estávamos encarregadas da pintura de cena.
— Sem brincadeiras, caso queiram sair cedo daqui. — Nos alertou e balançou a mão em um gesto de “mexam-se”.
— Vamos? — Max colocou-se de pé rapidamente e aguardou ao meu lado.
— Que merda ficar aqui. — Resmunguei.
— Você poderia chamar minha atenção de outra forma. — Disse enquanto caminhávamos para a lateral esquerda do teatro, onde encontrava-se algumas partes montadas do cenário.
— Como é? — Franzi o cenho. Ou ela era egocêntrica demais ou havia desvendado meu plano facilmente.
— Stevenson, não estamos mais na quinta série para você começar uma guerra de bolinha de papel. – Encarou-me com seu olhar inquisitivo, os braços cruzados em uma posição acusatória.
— Você é muito egocêntrica. – Repliquei. Não iria admitir que ela estava certa, ainda me restava um resquício de dignidade.
— Então o que foi aquilo? – Seus lábios apertados continham um pequeno sorriso.
— Não queria ir para casa. – Isso também não era mentira.
— E aí você decidiu parar na detenção? – Suspirou fundo. – Você é estranha. – Murmurou quase que para si.
Max pegou um pincel em cima de uma mesa improvisada com cavaletes e me entregou um balde de tinta.
— Segura, enquanto eu pinto a copa dessa árvore. – Ela deu a volta na arvore e subiu em uma pequena escada de madeira.
— Super criativo e inovador encenarem Romeu e Julieta mais uma vez. — Revirei os olhos. O currículo escolar parecia desconhecer qualquer outra obra de Shakespeare, senão essa.
— Era isso ou Hamlet. – Soltei uma forte lufada de ar com sua resposta. Também não aguentava mais ver Hamlet reinterpretado milhares de vezes e não era uma de minhas obras favoritas. – Queria que fosse Sonho de uma Noite de Verão. É engraçado, poético e com suas reviravoltas instigantes.
— Você é uma das primeiras pessoas que ouço dizer isso. — Estendi o balde para cima para que ela conseguisse molhar o pincel e começar a pintar a copa verde musgo da árvore.
— Gosto de ser diferente. – Respondeu com um meio sorriso largo, expondo seus dentes brancos.
— Deu para perceber. – Murmurei.
— Mas então, bolinha de papel. – Max quis retomar o assunto. – Qual é o problema de ficar em casa?
— Quero evitar algumas conversas com os meus pais.
— E você decidiu dar mais um motivo a eles? – Minhas respostas não eram nada convincentes quando Max decidia rebatê-las com sua sagacidade. – Isso não me parece inteligente. – Revirei os olhos com seu comentário.
— Depois de Seattle, não poderei sair por algum tempo então... – Era frustrante não me lembrar daquela noite em detalhes, além de Nick me carregando de volta para próximo ao porto e ligando para a emergência.
Os poucos fragmentos de memória daquela noite se resumiam em flashes desconexos e confusos de cores e Max conversando comigo em um beco.
— Te chamaria para a festa de Halloween do Oliver, mas não acho que você gostaria de sair comigo. – Comentou com um quê de rancor na voz. – Você não se lembra? – Indagou após meu silêncio e a expressão confusa em minha face.
— Não muito. — Admiti. — Aquela noite foi muito confusa e...
— Você precisa de mim. — Interrompeu minha fala. — Riley Stevenson precisa da ajuda da assassina. — Não escondeu o deboche na voz ao proferir a última palavra. — Uau. — Desceu da escada em um pulo e posicionou-se na minha frente.
— Você é muito egocêntrica mesmo.
— Faz parte de quem eu sou. — Deu de ombros. — Então aquilo na aula da senhora Romero foi para isso? — Era difícil mentir para Max, quando seu olhar penetrante e inquisitivo sondava cada centímetro do meu interior.
Assenti com a cabeça.
— Por que você só não veio conversar comigo? — Semicerrou o olhar. Acredito que ela tinha a resposta na ponta da língua, mas queria ouvir da minha boca. — Já deveria imaginar.
— Eu não tenho medo de você. — Tremulei para falar, quebrando toda sinceridade que gostaria de transmitir. — Ele só quer me proteger.
— Não mesmo? — Ela encurtou a distância entre nós, reduzindo a milímetros o espaço que separava nossos corpos. Seus olhos, na altura dos meus, invadiram minha mente. — Você não parece ter certeza disso. — O frescor de seu hálito de hortelã ricocheteou em meu rosto.
Minhas mãos estremeceram e minha respiração falha com sua proximidade. Meu pescoço começou a queimar em resposta e eu não conseguia mover os lábios para confirmar ou negar o que quer que fosse.
Com um sorriso fechado e um olhar frustrado, Max afastou-se de mim e retornou para a bancada improvisada.
— É mais fácil assim. — Queria explicar a ela a complexidade de pensamentos que percorriam minha mente, meus bloqueios e o sentimento que me sufocava todas as vezes que algo como Seattle exerciam sobre mim, mas era difícil colocar para fora.
— É, deve ser. – Apoiou as mãos na mesa de MDF cru e reclinou o corpo para a frente. – Por que eu?
— Você também viu. – Aproximei-me dela, mantendo alguns passos de distância entre nós. – Sei disso, porque é uma das poucas coisas que me lembro e preciso da sua ajuda.
— Eu não sei o que aconteceu. – Respondeu com a voz baixa. – Lembro de ter acordado em cima de uma pilha de caixas depois da décima segunda ligação da Sadie.
— Eu também não e preciso da sua ajuda. – Pedi quase num tom de súplica. – Por favor.
— Certo. – Respondeu após um longo silêncio. Max recostou os cotovelos na bancada e cruzou um pé na frente do outro, os olhos fixos em mim novamente. – Vamos começar por onde você se lembra.
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