Paralelas

12 Capítulo 11 - Aceitação


Max

O destino era engraçado. Para muitos, poderia ser definido como audaz, surpreendente ou previsível, mas, para mim, ele não passava de uma espécie de carma sádico cheio de brincadeiras premeditadas.

Cada uma das minhas escolhas no último mês me levou diretamente para Riley, mas o que isso significa?

O universo estava em uma grande conspiração para nos dizer algo, ou era só uma piada de mal gosto me aproximar da garota que eu gostava só para ela demonstrar seu medo e repulsa por mim?

Talvez essa situação se caracterizasse como uma experiência de vida que mudaria algo no meu caráter ou que fosse me preparar para algo no futuro. Quem sabe?

Entretanto, independente da resposta, nada me frustrava mais do que ver a incerteza e o receio no olhar de Riley, toda vez que ela me encarava ou se aproximava demais de mim.

De todo mondo, eu não estava errada quando a defini como densa e imprevisível.

Compreendê-la e aprender a lidar com sua súbita mudança de comportamento era um tanto difícil, mas acho que estava descobrindo como ela funcionava.

Quando estava descontraída, em um ambiente confortável, ela era mais aberta a diálogos e dava para levar tudo com muita naturalidade. Mas, quando era pressionada ou questionada, adotava comportamentos evasivos e, às vezes, agressivos como forma de defesa.

O mais engraçado nessa história toda é que agora ela precisava de mim.

Pensei em mil maneiras de me reaproximar, procurei brechas e momentos em que ela estivesse sozinha para tentar o menor contato que fosse, sempre sem sucesso, até Seattle.

Admito que ela procurar a minha ajuda e não a de Nicholas me deixava confusa, mas se era uma segunda chance ou uma brincadeira cósmica, aproveitaria ao máximo.

— Tem que haver uma explicação lógica. — Os fragmentos de suas lembranças combinadas com as minhas nos dava um panorama mais claro do ocorrido.

Concordávamos em alguns pontos unanimes, como a música que escutamos e a balada temática que encontramos. Até mesmo na sensação de desmaio e enjoo que nos acometeu subitamente, mas era tudo o que tínhamos.

Não havia mais nada que preenchia as demais lacunas e como tudo desapareceu num piscar de olhos.

— Sim, mas qual? — Indagou, a frustração em sua voz era nítida.

— Iria dizer que você é esquizofrênica, já que não é a primeira vez que você viu ou ouviu alguma coisa que não estava lá. — Essa foi a primeira teoria que pensei, já que ela me contou brevemente sobre os remédios e às idas ao psiquiatra com frequência, mas... — Se você fosse esquizofrênica eu também seria, já que enxergamos a mesma coisa. — Conclui em seguida.

— Muito obrigada pelo diagnóstico. — Revirou os olhos. — Nem meu terapeuta me diz o que posso ter. Ele não é muito a favor de contar ao paciente qual é a patologia dele, porque acha que isso pode afetar no tratamento. – Completou.

Riley caminhava à meio fio na calçada, pouco mais à minha frente, pendendo o pé e balançando de um lado para o outro quando parava para me acompanhar.

—Seus pais sabem?

— Sim, só que é difícil ter qualquer tipo de conversa adulta com eles. — Resmungou. — Eles não são muito receptivos e acham que sou nova demais para entender a vida.

— Sei como é.

Meus pais costumavam ser abertos e adoravam atividades em família. Nos reuníamos frequentemente na casa dos meus avós para almoços ou jantares em família e uma noite de jogos. Até meu tio Hugo morrer em um acidente estúpido e meu pai se afunda em uma depressão severa. Agora, sua vida é focada no restaurante e em atividades que possam desviar seu pensamento das lembranças dolorosas.

O tio Joshua e seus filhos são os únicos parentes próximos que nos restou, mas são pessoas com quem não tenho um relacionamento muito bom, por motivos óbvios.

Meus avós voltaram para a casa no Quebec e não saem de lá por nada, o que é compreensível, a julgar pela idade avançada de ambos.

Minha vida atual se resumia em jogar vídeo game com Peter, Sadie e algum outro amigo que aparecia de vez em quando, assistir algum filme no fim de semana com os meus pais, jantares curtos na sala de estar e minhas idas à fogueira.

— Família sendo família. — Resmungou com os lábios em um pequeno bico, tentando falar com um sotaque francês.

— Você acabou de assassinar um francês com esse sotaque horrível. — Gargalhei com sua careta.

— Olha só quem está aqui. — Uma voz masculina rompeu nossa conversa. — A assassina e a esquisita. — Cory, um dos jogadores de Rugby que passou a detenção conosco, comentou em alto e bom tom, fuzilando Riley com o olhar.

— Qual é a sua? — Repliquei, defensiva.

— Por culpa da sua amiguinha, eu perdi o jogo de hoje. — Estufou o peito conforme falava e reduziu o espaço entre ele e Riley, parando em sua frente como um muro de músculos.

Cory ergueu o braço e despejou o resto de café quente do seu copo sob Riley, manchando seu moletom branco e azul e a fazendo contrair o corpo em resposta ao líquido visivelmente quente.

— Vai se foder, seu babaca! — O empurrei para longe de Riley, acertando o muro com seu ombro direito em um eco abafado. Não seria intimidada por seu excesso de autoconfiança e altura.

Cory fez uma careta, o rosto dominado por um tom vermelho fogo, e girou o corpo em minha direção, prestes a revidar, quando Riley acertou sua mandíbula com um golpe bem direcionado.

— Stevenson, o que você fez? — A excitação e uma dose grande de adrenalina fizeram meu coração bater descompassado, conforme ele maneava a cabeça, recobrando os sentidos pelo golpe repentino. — Corre! — Segurei firme no braço de Riley e a puxei comigo, seguindo pela esquina de onde viemos.

Encarei o garoto uma última vez antes de sair de seu campo de visão e o encontrei massageando o maxilar, o olhar cheio de fúria.

— Você é maluca! — Ninguém em sã consciência o provocaria daquela maneira, mas Riley não pareceu se importar com as consequências daquilo.

Era estupidamente divertido repassar a imagem de Cory, um cara de quase dois metros de altura, sendo atingido por alguém tão magricelo e pequeno quanto Riley.

— Ele jogou café em mim! — Resmungou alto, a voz carregada de raiva. — E queria te atacar. — Completou com certa vergonha.

— Eu vou acabar com você, Stevenson! — Urrou.

A fenda de um beco estreito se erguia entre dois prédios pequenos prédios próximos a nós. Não havia nenhuma rota de fuga ali, além de uma escada de emergência aos fundos, completamente inalcançável e uma porta de ferro enferrujado, próximo a um latão de lixo.

Envolvi a cintura de Riley com meu outro braço e guiei seus movimentos em sincronia com os meus, rumo ao beco isolado.

Tapei sua boca com a mão que segurava seu braço e pressionei seu corpo contra a parede, usando uma pilastra de concreto saliente como um ponto cego.

Mordi o lábio com força para conter a respiração ofegante. Não que aquele imbecil fosse capaz de nos ouvir ali, mas precisava eliminar qualquer possibilidade de sermos encurraladas em um lugar remoto e isolado.

Riley passou os braços ao redor de mim em um abraço apertado, seu rosto era um misto de êxtase e ansiedade.

Cory se aproximou do beco em seguida, procurando por qualquer sinal de nós duas, enquanto decidia se esquadrinhava cada canto daqui ou continuaria correndo.

Por um momento, me arrependi de ter escolhido esse esconderijo. Ele ficou tanto tempo parado ali na ponta da rua que teríamos alcançado uma distância razoável dele, caso continuássemos correndo.

Eliminei qualquer resquício de espaço entre o meu corpo e o de Riley e senti o café quente em seu moletom ultrapassar minhas roupas e toca minha pele.

— De bolinha de papel para agressão física, no mesmo dia? — Indaguei, sem fôlego. — Acho que alguém está evoluindo. — Ri baixo.

— Idiota. — Resmungou, com um meio sorriso no rosto. — Escapamos? — Afrouxei o aperto quando não vi mais nenhum sinal de Cory ali.

— Acho que sim. — Afirmei. — O que foi isso? — A distância entre nossos corpos recriou o abismo que nos separava.

— Eu não sei qual é o problema das pessoas dessa cidade. — Sibilou.

—Bem-vinda ao meu dia a dia. — Disse, levantando os braços. — Mal vejo a hora de sair daqui. — Recomeçar em um lugar longe de Crystal Falls e sem a sombra das suspeitas e o que pairava sobre mim era um sonho.

— É, eu também. — Ela torceu um pedaço de seu moletom, sem êxito, para eliminar o excesso de café que estava pingando no chão.

— Tira logo isso. — Pedi. Tirei o casaco que vestia por cima da minha camisa de flanela e entreguei a ela.

Estava frio o bastante para fazer meu corpo enrijecer em resposta, mas não podia ver Riley estremecendo com o corpo molhado e cheirando café.

— Não precisa. — Franziu o cenho em negação.

— Não tem que ser orgulhosa comigo. — Repliquei. Conhecia Riley o bastante para entender que ela dificilmente aceitava a ajuda de outras pessoas.

Ela demorou para decidir se aceitaria ou não pegar o casaco preto das minhas mãos. O cheiro de café inundou nossas narinas com a menor brisa de vento que invadiu o beco e ela torceu o nariz em resposta.

— Tudo bem. —Deu-se por vencida.

Seus dedos quentes esbarraram na palma da minha mão gélida em um toque elétrico e penetrante. Trinquei o maxilar involuntariamente. Era muito diferente senti-la sem nenhum tecido para afastar nossa pele.

Riley tirou seu moletom rapidamente, revelando a pele quase albina de seus braços desnudos e vestiu a nova peça de roupa, espantando o frio que a fez estremecer.

— Obrigada. — Sua face foi tomada por uma sensação de alívio. — Está tudo bem?

— Sim. — Respondi por entre os dentes.

Meu lado racional tentava sobressair as emoções que permeavam meu interior todas as vezes que estava perto dela ou quando pensava nela.

Não me lembrava quando foi a primeira vez que reparei em Stevenson, mas era capaz de citar algumas manias e detalhes sutis com tanta clareza que chegava a dar um frio na barriga só de imaginar.

Pensei que tocá-la seria como encostar em qualquer outra pessoa que já beijei na vida. O êxtase, hesitação e a ansiedade guiariam meus movimentos e meu corpo reagiria da maneira mais automática de todas. Nunca pensei que um simples abraço tiraria meu fôlego e me faria tensionar cada músculo numa reação evidente de insegurança.

Isso não podia estar acontecendo, não agora.

Mantive as pálpebras fechadas enquanto recuperava o ar e clareava meus pensamentos. Eu gostava dela já tinha mais de um ano, era irrefutável.

Gostava ir com algumas camisetas ou acessórios dos gostos que partilhávamos em comum, apenas para trocarmos algumas palavras que me levavam a um êxtase pessoal.

Naturalmente, adorava tumultuar algumas aulas com minhas brincadeiras e por pura diversão, mas quando Riley estava na mesma turma que eu... Era inevitável não fazer nada que não chamasse sua atenção.

Queria que ela me notasse, que ela se aproximasse de mim e fizesse parte do meu grupo. Seria apenas a melhor amiga dela, se fosse o caso, só para fazê-la sorrir, porque quando Riley gargalhava, uma parte das minhas cicatrizes se fechava.

— Você me confunde. — Murmurei, ainda sentindo o arrepio na espinha que seu toque me causou.

Precisávamos sair desse beco e continuar nosso trajeto até o cruzamento da rua Talbot, onde nos separaríamos e cada uma seguiria seu próprio caminho para casa. Era o certo a se fazer.

— Você também. — Respondeu com um suspiro. — É muito conflituoso estar com você. —Admitiu em baixo tom.

Eu não esperava por essa resposta.

Não podia fingir que ficaria tudo bem e que os acontecimentos dos últimos meses seriam enterrados e não afetariam em mais nada. Não era ingênua a esse ponto.

Sabia que qualquer teoria, ideia ou possibilidade que criasse estava fadado ao fracasso. Isso não podia continuar.

Porém, bastou abrir os olhos e vislumbrar o cabelo vavermelhado de Riley balançando com a leve brisa do vento para deixar qualquer fração de racionalidade de lado.

Nenhum argumento sobressaia à imagem de Riley Stevenson parada na minha frente, com seu olhar penetrante e seu cheiro de amêndoas misturadas com peônias dominando meus sentidos em um vislumbre do como o paraíso seria.

Isso não deveria acontecer, mas estava. E eu não tinha a menor intenção de parar.