Paralelas
15 Capítulo 14 - Confronto
Notas iniciais
Riley
— Onde você estava? — Nick inquiriu, lançando-se para a frente em um sobressalto com o tintilar agudo da bicicleta. —Eu fiquei preocupado pra caralho!
— Fui dar uma volta, pai. — Revirei os olhos e cuspi a última palavra, soando mais defensivo do que descontraído e amigável.
—Riley, é sério. — Semicerrou o olhar, a testa franzida e o maxilar trincado bem demarcado. — Você não respondeu a mim nem o seu pai o dia todo, tem ideia das coisas que pensamos?
— Eu fiquei sem bateria. — Menti.
Max me manteve ocupada e dispersa o bastante para esquecer do mundo real. E, a essa altura, meu pai já deveria estar sabendo que faltei na detenção, o que piorava ainda mais a situação.
Joguei a bicicleta no gramado, próximo à entrada da garagem, com força e marchei para a entrada de casa, parando de frente para Nicholas, que me encarava com um olhar de desaprovação.
— Está tudo bem por aqui? — O ranger suave da porta preencheu o silencio que havia ficado entre nós, a voz rouca do meu pai surgindo em sequência.
O odor amadeirado da casa se misturou com o cheiro de legumes refogado com carne, em um misto de sabor e conforto que despertou uma fome voraz em mim.
Comer foi mais uma das coisas básicas que esqueci enquanto estava com Max.
— Sim. — Resmunguei— Só estou com fome. — Completei, esperando que servisse como desculpa para justificar o meu humor ácido.
— Onde você ficou a tarde toda? — Encostado na beirada da porta e bloqueando propositalmente a passagem, meu pai me fitava friamente.
— Tive alguns imprevistos na detenção.
— Não foi o que eu fiquei sabendo. — A rouquidão de sua voz quase desaparecia quando ele falava firme. — Ligaram da escola, acho melhor conversarmos antes de vocês jogarem. — Franziu o cenho. Era só nesses momentos em que as marcas de expressão da idade se faziam presentes no rosto de Ryan e delatavam seus quase cinquenta anos.
— Não pode ser depois? — Pedi. — Depois do jantar, pelo menos? — O cheiro da comida estava bom demais para ser ignorado e deixar algo tão saboroso assim para depois era um crime, especialmente quando cada centímetro do meu corpo implorava por um pouco de alimento.
— Tudo bem, vamos comer antes que esfrie. — Concordou.
— Isso está delicioso. — Disse entre uma garfada e outra no refogado. — Você se superou dessa vez, pai. — Um pequeno sorriso sincero surgiu pela primeira vez naquela noite, mas não o bastante para disfarçar o mal humor que havia tomado conta de mim, desde que cheguei em casa.
— Está espetacular, senhor Stevenson. — Nicholas acrescentou, devorando a comida na mesma voracidade que eu.
— Obrigado. — Sorriu em retribuição. — Riley, seu comportamento tem sido muito caótico nos últimos dias. — Disse, os dedos entrelaçados e o queixo apoiado nas mãos sobre a mesa.
— Pai, te falei que foi sem querer. — Respondi firme, não queria ter mais uma dessas conversas com ele. — E hoje me distrai com outras atividades, desculpa. — Tentei mentir, mas era difícil quando Ryan me encarava daquela forma e quando minhas bochechas roseavam em resposta.
— Você sabe o que a doutora Carlson diz sobre isso. — Fez menção a uma das minhas últimas consultas, a qual ela deixou bem claro que “comportamentos estranhos” deveriam ser observados e relatados.
— Pai, eu não...
— Riley, você tem que agradecer que não te colocamos de castigo. — Esbravejou, interrompendo a minha fala. — Um diálogo é o mínimo que você nos deve.
— Nos deve? — Repeti, a respiração profunda e o coração descompassado.
— Sim, sua mãe vem para casa hoje e achamos melhor conversarmos juntos. — Foi por isso que ele não relutou tanto em deixar o assunto para depois do jantar. Teríamos um “momento em família”, que agradável.
— Tudo bem. — Dei-me por vencida, após constatar que não tinha outra escolha, senão lidar com a reprovação dos meus pais e mais uma série de conversa-sermão.
— Fazia um tempo que não te via assim... — Nicholas murmurou assim que Ryan deixou a sala de jantar e seguiu para a cozinha com alguns recipientes vazios.
— Assim como? — Ergui os olhos o bastante para fitá-lo ao meu lado, mantendo o rosto abaixado em direção a mesa, enquanto acabava com o resto que havia sobrado do refogado.
— Desde sua última internação você vem agindo de maneira impulsiva e inconsequente. — Ele estendeu o braço na minha direção, os dedos milimetricamente afastados das minhas mãos.
— Você sabe que são ciclos, não é? — Respondi, um pouco áspera.
Tinha a fase isolada e completamente antissocial, a fase em que passava a maior parte do tempo deprimida, as de euforia e excitação e a estabilidade que mais soava como um ócio sem fim.
Talvez fosse a adolescência e os hormônios descontrolados ou o excesso de remédios que eu tomava, quase como um ratinho de laboratório, na tentativa falha de encontrarmos a dose ideal que me manteria em total equilíbrio.
Como um morto vivo.
— Onde você passou a tarde toda? — Indagou mais uma vez, a voz mais contida e menos inquisitiva.
— Precisei dar uma volta. — Não era de todo mentida.
Senti o celular vibrar no casaco. Tateei o bolso e apertei o pequeno aparelho retangular na mão, contendo a notificação.
— Você podia ter me chamado.
— Queria ficar sozinha. — Suspirei. — Acho que tenho sugado muito do seu tempo, Nick. — Apesar de tentar desviar o foco do assunto, isso era uma conversa que precisava ter com ele. — Você mal tem encontrado seus amigos.
Nicholas nunca precisou sacrificar suas amizades e as coisas que gostava de fazer para estar comigo, já que ele sempre dava uma forma de me incluir no meio e deu certo, por um tempo.
— Nossos amigos. — Corrigiu.
— Seus, Nicholas. São seus amigos.
— Para com isso, Riley. — Maneou a cabeça em frustração.
— Nick, Sophie era o mais próximo que eu tinha de uma “amiga” — Fiz as aspas no ar. — E depois de toda aquela história com Raphael, ela e o resto do grupo começou a me rejeitar. O que aconteceu na campina só foi mais um motivo para se afastarem de vez. — Afundei o corpo na cadeira, sentindo o abraço gélido e duro da madeira.
— Você está escolhendo isso.
O otimismo — ou teimosia de Nick — era insuportável em algumas situações, especialmente quando tentava me convencer que era uma escolha minha me afastar de todos e não uma consequência das minhas atitudes passadas, muito menos o desconforto que sentia quando tentava me adaptar a eles.
— Que seja! — Ergui os braços em resposta, pondo um ponto final no assunto. — Escolha ou não, eu cansei de tentar me encaixar.
Nick nunca entendeu o que eu queria dizer com isso e hoje não seria diferente. Ele nunca precisou fingir ou tentar ser alguém que não era só para se sentir incluído. As pessoas gostavam dele e a imagem que ele transmitia reforçava isso.
Na sua utopia de mundo, tudo era possível desde que eu estivesse disposta a engolir meu “orgulho” e deixar de lado as pequenas coisas, porque, segundo seu ele, eram insignificantes demais para serem levadas em consideração.
Revirei os olhos com algumas lembranças que reforçavam sua postura omissa. Tipo quando caminhamos pela estrada deserta no meio da noite em que fomos para Seattle e essa nem foi uma das minhas atitudes mais impensadas de autodefesa. Mas relembrar cada um dos outros momentos não ajudava em nada.
Não sei como conseguimos ser amigos por tanto tempo, levando em conta nossas diferenças de perspectiva e personalidade. Talvez o equilíbrio entre duas forças opostas fosse a resposta, mas não era convincente o bastante.
Imaginar meu mundo sem ele era estranho e sova muito mais vazio e solitário do que já era. Ao mesmo tempo, penso que se saísse da zona de conforto que era sua amizade poderia encarar o fato como a oportunidade perfeita para desbravar o colégio e o mundo online dos jogos a procura de novas pessoas.
Soltei uma risada desacreditada.
Tinha plena ciência de quem eu era e sabia que essa possibilidade estava longe de acontecer. Mas...
Maneei a cabeça em negação e mudei de assunto.
— Não estou muito a fim de jogar hoje. Tudo bem se só assistirmos o filme? — Perguntei.
— Beleza, já vou colocar para não perdermos muito tempo. — Nick pulou da cadeira em um sobressalto. — Você tira o resto da louça enquanto isso? — Apontou para os nossos pratos sujos que restaram na mesa.
— Pode deixar.
Organizei os pratos e os talheres em uma pequena pilha e me encarreguei de levá-los até a cozinha, onde meu pai organizava as panelas e esvaziava os recipientes que usou para preparar o jantar, antes de colocá-los na lava-louças.
— Pai? — Falei, colocando a louça na pia ao lado. — Obrigada. — Agradeci com um sorriso sincero no rosto.
Não passar as tardes com a casa exclusivamente para mim era uma ideia que me incomodava, mas vê-lo parado atrás da ilha da cozinha, recolhendo os restos de comida de um jantar que ele se esforçou para fazer era reconfortante.
Antes de Nick e sua família se mudarem para cá e sua casa virar meu segundo lar, fui criada por babás, na maior parte do tempo. O que me fez ter um déficit na relação de carinho, proximidade e companheirismo que a maioria dos filhos tinham com os pais, mas isso nunca importou tanto. Gostava da minha independência.
O silêncio, a atenção e esses pequenos gestos eram a forma que meus pais costumavam dizer “eu te amo” e, para mim, era o bastante.
Ryan retribuiu meu comentário com seu sorriso largo e os dentes a mostra, sem deixar de lado o típico ar de seriedade que já fazia parte de sua personalidade.
Chegando na sala, encontrei Nick estendendo nossa coberta xadrez no sofá maior e afofando algumas almofadas que usaríamos. Encontrei nosso jogo de tabuleiro aberto na mesa de centro, aguardando as cartas e as peças serem distribuídas e organizadas em seus respectivos lugares.
Semanalmente, nos encontrávamos para uma noite de filmes de terror antigo e jogos de tabuleiro. Essa era nossa forma largar a tecnologia de lado e nos desconectarmos um pouco do mundo virtual.
Max realmente me fez deixar o mundo de lado e esquecer de todas as responsabilidades e consequências que minhas ações trariam.
Não contive o sorriso que abriu ao me lembrar da vista que tive do pôr do sol com ela mais cedo. Foi tão sereno e acolhedor, como se a vastidão do mundo se limitasse naquele momento e nada mais.
Era fácil me perder quando estava com ela que soava como se vivêssemos em um espaço-tempo completamente diferente do resto do universo.
— Riley? — Nick me despertou dos meus pensamentos. — Pronta? — Parado de pé na frente do sofá e segurando um pedaço da coberta, ele esperava eu me sentar para me cobrir e se posicionar ao meu lado, como sempre.
Assenti com um pesar e me joguei no estofado macio, cruzando as pernas logo após tirar o tênis, e agarrando uma almofada em um abraço apertado.
Mais uma vibração veio do bolso do meu casaco.
Espero que tenha sobrevivido. Não quero encarar mais uma semana com a professora Howard sozinha. Ela é insuportável.
Li as mensagens que Max havia enviado em uma das minhas poucas redes sociais e não pude evitar morder o lábio inferior para conter uma risada com a ideia de vê-la encarar aquela situação sozinha.
Apesar de desejar que o filme demorasse tempo o suficiente para meus pais esquecerem de mim, ansiava pela manhã seguinte com um frio na barriga inexplicável.
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