Paralelas

21 Capítulo 19 - Tentativa e erro


Max

— Nós já tentamos de tudo! — Apertei as mãos em negação, a voz saindo num quase estridor contido. — Estou quase sugerindo de pegarmos o carro dos meus pais e irmos para Seattle. — Deslizei a mão pelas mechas do meu cabelo.

— Como se fosse fácil. — Riley riu com deboche. — Devemos aceitar que eu sou louca e você estava chapada demais aquela noite. Indução é algo real, sabia? — Ela se sentou ao meu lado na cama.

Riley mordia o lábio inferior timidamente e rangia o maxilar com frequência. Não sabia o quão desconfortável era para ela estar na minha casa, mas sua expressão era tão clara.

Pedi para minha pequena caixa de som começar a tocar uma música qualquer da playlist e a luz colorida da pequena bolinha branca ligou, respondendo ao meu pedido e dando início a última playlist que estava escutando.

O instrumental suave de um piano deu início e melodia que logo foi acompanhada por uma bateria lenta e bem rítmica, demarcando um compasso crescente e trazendo abertura para que outros instrumentos entrassem.

Apesar de não ser uma composição extraída dos anos 80 e 90, igual a maioria das músicas que tinha salvado, os efeitos trabalhavam para trazer à tona essa aura clássica e nostálgica.

Acompanhei o ritmo com batidas sincronizadas no chão, tocando o assoalho de madeira com a ponta do tênis. Maneei a cabeça e absorvi cada frase sonora do blues que ousava despontar e me rendi a pequenos movimentos com o tronco.

Estar perto da Riley era completamente inesperado, mas tê-la no meu quarto era ainda mais surreal. Talvez porque eu nunca tenha feito o tipo de pessoa que só chegava e falava sobre o meu desejo e vontade de ficar com alguém.

Quer dizer, é fácil você só perguntar se a pessoa quer te beijar, quando você sabe que nunca mais irá vê-la na vida, mas quando você quer impressionar alguém é diferente.

Quanto mais a Riley era inserida no meu mundo, mais caótico as coisas se tornavam dentro de mim.

Será que ela gostava de alguma coisa e queria aprender mais, ela se identificava com algo ou só tolerava isso tudo porque precisava da minha ajuda?

Quanto mais eu pensava sobre isso e trazia à tona uma enxurrada de dúvidas, mais a música servia de uma válvula de refúgio.

Os acordes rasgavam meu peito em uma combustão de emoções. Cantarolei o refrão de pé, seguindo para a minha mesa e pegando um baseado bolado escondido dentro de uma latinha de metal, que ficava guardada na última gaveta do gaveteiro surrado.

Riley me fitava da cama, o olhar semicerrado de curiosidade ou julgamento?

Abri um meio sorriso quando nossos olhos se cruzaram e desviei logo em seguida, as bochechas quentes e coradas de vergonha.

Alguém como ela não se apaixonaria por alguém como eu. Riley era boa demais para mim e ela tinha uma vida muito certa para se meter nisso. As coisas só dariam certo pra mim quando eu fosse pra longe de Crystal Falls e ninguém soubesse quem eu era ou o que eu supostamente fiz.

E Riley teria sua vida perfeita onde quer que fosse, sem precisar se esconder.

— Você se importa? — Perguntei por educação, erguendo o baseado em sua direção, sem conter a estranheza na minha voz pela preocupação que nunca tive.

— Não, se você me der um pouco. —Arqueei uma sobrancelha, surpresa com sua resposta.

Se espreguiçou e estendeu a mão, esperando que eu fosse até ela. Ela parecia tão despreocupada e descontraída, como naquela noite em Seattle.

Acendi o baseado rapidamente, tragando algumas vezes até o fogo pegar de maneira uniforme.

— Você é uma caixinha de surpresas. — Entreguei um pouco da minha melhor erva pra ela, controlando as mãos tremulas com a ansiedade repentina que fez meu coração bater descompassado.

Estava ficando cada vez mais difícil estar perto de Riley sem transparecer como ela me afetava.

— O que as pessoas acham de mim? — Franziu o cenho, esboçando certa preocupação. —Por que todo mundo se surpreende com cada coisinha que eu faço? — Tragou fundo, prendendo o ar em seus pulmões por um longo tempo antes de soltar e preencher o meu quarto com o cheiro típico de erva queimada.

— Sei lá. — Respondi.

Poderia sugerir uma série de coisas, como o grupo de amigos que ela tinha e a relação defensiva que eles nutriam, sempre se atacando e com uma resposta seca e grossa pra cada pergunta, ou como Nicholas gostava de se mostrar o garoto prodígio e o sonho de qualquer garota, mesmo sendo um hipócrita por trás.

Mas não, eu não falaria sobre essas coisas como se precisasse lidar com o ciúme e a frustração que era não ser o senhor perfeitinho que estava ao lado dela todo dia.

— É sério, Max. — Grunhiu em uma frustração profunda. Era muito comum ver esse olhar perdido em Riley, como se ela procurasse constantemente as respostas para suas perguntas internas. — Eu não era assim. Eu acho. — Ela puxou o ar mais uma vez antes de devolver o baseado para mim em meio a uma crise de tosse.

— Você... — Sentei-me na outra ponta da cama, de frente para uma Riley perdida em seu mar de pensamentos. — Costumava ser mais livre. — Me esforcei pra lembrar minhas primeiras impressões sobre ela desde que me fui parar em Crystal High. — Você nunca pareceu a garota que ia parar na detenção por uma bolinha de papel. — Não iria perdoá-la tão cedo por isso. —Mas você não parecia ser uma pessoa muito diplomata.

— Como assim? — Arqueou as sobrancelhas.

— Você tá sempre procurando um equilíbrio nas coisas, como se quisesse explodir, mas controlasse cada decisão. — Especialmente quando você está perto do Nicholas, mas não vou completar com essa parte. — Uma parte de você quer se jogar, mas a outra te barra.

Riley permaneceu em silêncio, limitando-se apenas a pedir um pouco mais do meu baseado.

— Quando foi a última vez que você fumou? — Indaguei ao ver sua segunda crise de tosse em menos de cinco minutos. Ela cerrou os lábios em uma linha firme, tensionando o maxilar. — Tá brincando que é sua primeira vez, né?! —Indaguei exasperada, maneando a cabeça em uma espécie de choque.

— Você acha que o Nicholas é uma pessoa fácil? — Começou a rir com a minha reação exagerada. — Eu não posso fazer muita coisa por conta dos remédios... E eu faria cada merda se pudesse, mas o Nick as vezes parece uma extensão dos meus pais. Mas eu não o culpo, ele já viu algumas das minhas crises e sei que não foi uma coisa muito legal de presenciar. — Era a primeira vez que Riley se abria mais sobre ela e sua relação com ele.

— Por que você só não faz o que quer? —Sabia que era uma pergunta simples de mais para uma série de empecilhos complexos, mas, ainda assim, a fiz esperando uma resposta.

— Beber é a única coisa que eu posso fazer. — Desviou o assunto — Mas desde Seattle ele anda em estado de alerta. — Riley afundou as costas na cama, me encarando de canto de olho.

— Dá pra entender por que ele me odeia. — Murmurei baixo.

Se o Nicholas soubesse que a Riley estava ficando chapada no meu quarto ele me mataria, ainda mais levando em conta o quão puto ele já estava comigo por ter me aproximado de Riley.

— Ele odeia todo mundo que se aproxima demais. — Semicerrei o olhar e a encarei por tempo o suficiente para fazer meu rosto corar de novo. — Mas você tá no topo da lista. — Riu, a voz rouca e baixa me deixando em um estado catatônico.

— Muito obrigada. — Retribui com um sorriso satisfeito. — Não julgo o ciúme que ele tem de você.

— Ele não tem ciúmes de mim. Não faz sentido, só somos amigos. — Replicou com naturalidade, como se essa informação fosse tão clara e óbvia quanto a luz do sol.

Talvez ela não soubesse o que especulavam dos dois ou talvez soubesse, mas tentava relevar o máximo possível, como se isso não a afetasse. A menos que...

— Por que duas pessoas não podem estar juntas sem necessariamente estarem juntas?

As pessoas são uma bosta, em grande maioria. E adoram distorcer tudo da maneira que convém, especialmente quando veem um casal tradicional. — Me esforcei para parecer o mais descontraída possível e espantar o desânimo que preencheu seu rosto. — Mas olha, sem bad vibes se você quiser fumar comigo.

— Eu não deveria estar fazendo isso. — Pegou o pequeno cigarro da minha mão e levou até os lábios levemente rosados.

— Quem se importa, não é mesmo? — Dei de ombros e aumentei o som um pouco mais quando The Cult começou a tocar.

Riley ergueu os olhos e abriu um meio sorriso com a careta que fiz logo em seguida do comentário.

Retomei a dança, balançando a cabeça e os ombros, cantarolando trechos da música a plenos pulmões, como se quisesse espantar cada pensamento negativo, dúvida e caos que me consumia.

— Max! — Em um sobressalto, Riley se coloca à minha frente e corre para a janela com um olhar atônito, apontando para o lado de fora.

— O que foi? — Pergunto no mesmo tom, dando algumas passadas para alcançá-la.

— Você não está vendo isso? — Indaga incrédula.

— Vendo o que? — Encaro a rua vazia do lado de fora, nada anormal. — O que eu deveria estar vendo? — Inquiri impaciente.

— Nada, idiota. — Replicou com uma gargalhada que tentava disfarçar uma pontada de frustração e amargor.

— Vai se foder, Stevenson. — Revirei os olhos.

— Você deveria ter visto sua cara. — Disse entre risos. —Max DuBois sendo feita de otária por Riley, isso é um marco na minha vida, sabia?

Estava pronta para responder Riley à altura, quando me deparo com o horizonte atrás dela completamente diferente do que havia visto há pouco.

— Não adianta usar o mesmo jogo contra mim, você é melhor do que isso.

— A que horas voltamos para casa? — indaguei.

— Por volta das cinco horas, no máximo cinco e meia — respondeu ela, franzindo a testa, intrigada com minha pergunta.

Riley seguiu o olhar na direção dos meus olhos e virou-se para encarar a janela ao lado. Assim como eu, uma onda de incredulidade dominou seu rosto e seu corpo enrijeceu imediatamente.

— O que está acontecendo? — Seus lábios moveram-se lentamente e as palavras mal saiam de sua boca. — O que é isso tudo?

— É um drive-in. — Respondi o obvio, sem palavras com o que via do outro lado da rua. — Que fechou no começo dos anos 90.