Paralelas
22 Capítulo 20 - Nirvana
Riley
Uma longa fila de carros se formava na entrada do estacionamento, enquanto aguardavam para entrar e se alocarem em suas respectivas vagas.
O drive-in não era muito grande, já que Crystal Falls tinha uma mísera população, mas parecia que todo mundo da cidade decidiu se reunir no mesmo lugar essa noite.
— Isso não faz sentido! — Observei Max atônita, tateando os bolsos a procura de seu celular. — Olha a posição da lua, as estrelas, não é mais dia. — Caminha em direção a janela, os braços erguidos em um misto de choque e frenesi.
— Isso é o que você menos acha que faz sentido? Sério? — Ironizei, franzindo o cenho em descrença. —Até porque a estreia de A Hora do Pesadelo 2 não te diz nada. — Apontei para o enorme telão do outro lado da rua.
— Isso é surreal. — Comentou.
Max encarava aquele novo universo com um brilho descomunal no olhar, embriagada com a simplicidade poética de um pequeno fragmento realista da cultura pop ganhando vida diante de nós.
— Hmm... Max? — Cutuquei seu braço com força. — Max. — Repeti firme, a tirando de seu frenesi.
— Quem são vocês? — Uma voz grave e desconhecida preencheu o ambiente e me colocou em estado de alerta imediato. — O que vocês estão fazendo aqui? — Insistiu.
Max desviou o olhar da janela e fitou o garoto do outro lado do corredor.
o olhar da janela a fim de encarar a pessoa que invadiu meu quarto, quando uma nova onda de choque me paralisou.
— Nós... — Não conseguia pensar em nada coerente para aquilo.
O que deveria ser meu quarto se transformou em um espaço completamente diferente.
Um beliche ocupava a parede do canto, as paredes tinham tons escuros e estavam cheias de posteres e adesivos colados em todos os cantos. Um gaveteiro enorme sustentava uma tv de tubo antiga, exatamente onde minha mesa de computador deveria estar e a cadeira giratória foi substituída por uma poltrona surrada e amarelada.
— Como vocês entraram aqui? — O cara de uns vinte e poucos anos inquiriu, empunhando seu taco de beisebol na linha do ombro.
— A gente...
— Hugo? — Max sussurrou, encarando o jovem rapaz a sua frente com mais interesse.
Ele franziu o cenho e recuou alguns milímetros para trás, abaixando a guarda por tempo o suficiente para que eu puxasse Max pelo braço e corrêssemos para fora do quarto.
Apesar de conhecer pouco da casa, não foi tão difícil chegar na saída principal, claro, sendo perseguidas por um desconhecido segurando um taco de beisebol em posição de ataque.
A adrenalina me consumiu por completo em um misto de êxtase e furor que fazia tempo que não sentia. Era tão bom me sentir viva.
Atravessamos a rua e corremos por mais alguns metros até Max reduzir a velocidade e voltar a fitar as luzes do drive in, imersa em seu próprio mundo pessoal.
— O que acabou de acontecer? — Perguntei a Max, ofegante.
— Não faço ideia. — Ergueu as sobrancelhas. — Mas acho que deu certo? — Indagou, boquiaberta.
— Isso já aconteceu outras vezes com você?
— Desse jeito? Não. — Respondi, pegando um punhado de pipoca na mão e comendo lentamente, saboreando o gosto amanteigado ao fundo.
— Como foi? — Max inclinou o corpo para a frente, abraçando os joelhos com um braço.
Pensei em mil maneiras de respondê-la, mas não consegui. Fazia muito tempo desde que falei isso para alguém além do meu terapeuta e digamos que a conversa não foi nada agradável. Nem mesmo Nicholas acreditava muito em mim, eu notava seu olhar de julgamento e preocupação, como se tivesse algo errado comigo.
— Não precisa falar, se não quiser. — Comentou após um breve momento de silêncio.
— Eu quero. — Respondi. — É só que...
— Traumas? — Gesticulou para que eu pegasse mais pipoca.
— Digamos que sim. — Respondi com um meio sorriso e uma risada abafada. — Eu sempre “via” coisas, não sei se posso dizer assim. Pessoas, lugares, coisas, qualquer coisa que não deveria estar ali, mas que eu via. — Não conseguia conter a ansiedade e a mão suando frio, em uma reação automática de medo do que Max iria pensar de mim. — Meu terapeuta acha que eu tenho esquizofrenia paranoide e que essas visões são quadros de um delírio.
— Há quanto tempo você passa por isso? — Perguntou, me fitando sem desviar o olhar.
— Acho que desde sempre.
Encarei a tela da televisão, me desvencilhando do olhar atento de Max que, por algum motivo, estava piorando minha ansiedade.
— Isso é muito novo pra mim. Ficamos lá quanto tempo?
— Hmm... Alguns minutos? — Franziu o cenho. — Mais do que Seattle, fato. — Constatou.
— É um alívio saber que não sou maluca. — Comentei, afundando o corpo no sofá. — Obrigada. Por isso. — Sorri com um misto de nervosismo e confiança.
— É bom saber que alguém além dos meus amigos confia em mim. — Admitiu em uma sinceridade mórbida. — Você precisa aprender a controlar isso. Talvez você consiga passar mais tempo na dimensão e os “efeitos colaterais” diminuam. — Murmurou, esfregando a barriga.
O enjoo realmente era desagradável, mas preferia muito mais isso do que a exaustão mental que sugava minha energia vital.
— Independente do que isso tudo seja ou signifique, estou feliz de ter você aqui comigo. — Sorri com um misto de nervosismo e ansiedade.
As bochechas de Max coraram e suas sardas ressaltaram sob a pele rubra, pega de surpresa pelo comentário.
— Imprevisível e densa. — Murmurou, procurando mudar de assunto.
— Isso soa familiar. — Arqueei o tronco em sua direção, pendendo algumas mechas de cabelo na lateral do rosto, procurando a lembrança em um caótico emaranhado de memórias turvas.
— A noite do arcade, em Seattle, quando defini você e sua trupe de palhaços. — Resmungou, refrescando minha memória. Apesar do álcool e de todas as influências daquela noite, conseguia recordar vagamente do diálogo que tivemos.
— Você me deixou meio puta aquela noite.
— Por quê? — Franziu o cenho, os lábios entreabertos.
— Você só disse isso sobre mim e sumiu.
— Uma das primeiras lembranças que tenho de você foi aquela briga que você teve com a Sophie, no meio do refeitório. Lembra? — Me encarou no fundo dos olhos, repentinamente. Odiava quando Max fazia isso e eu perdia a linha de pensamento.
— Como poderia esquecer? — Me perguntava até quando isso iria me perseguir, não foi a primeira briga que tive com Sophie, mas certamente foi uma das últimas, já que, desde então, Nick tenta cortar qualquer contato mais ácido entre nós.
— Você vive em uma dualidade entre tentar ser aceita e bancar a diplomática, evitando conflitos, e ser completamente reativa, pronta para fazer o mundo engolir o que você tem a dizer.
— A dualidade sempre foi uma constante na minha vida, mas acho que todo mundo passa por isso, não? — Repliquei.
Eu era um livro tão aberto a ponto de conseguir me ler com tanta facilidade ou ela realmente era uma ótima observadora? Aliás, Max reparava em mim? Senti meu estomago revirar de ansiedade.
— Parece mais intenso, tipo uma briga interna entre suas personalidades. — Tombou a cabeça de lado, sem desviar seus olhos castanhos de mim. E então, tem as vezes que você só desliga e some do mundo. É quando você tem essas “alucinações”?
— Sei lá... — Sibilei. — As vezes me perco nas minhas lembranças e quando me dou conta...
— O tempo está correndo e você percebe que estava só no piloto automático. — Completou.
— Tipo isso.
Max assentiu, enquanto eu me perdia em meus próprios pensamentos por um momento. Era verdade que eu buscava a algum tipo de aceitação e ser só mais uma pessoa normal, mas também não queria abrir mão de quem eu era e essas visões não tornavam as coisas mais fáceis.
—É como se existisse uma guerra constante entre a pessoa que eu sou e a pessoa que eu acho que devo ser para ser aceita. —Admiti — E me afundar nos meus pensamentos é como uma válvula de escape dessa realidade.
Ela levou a mão até o meu queixo, afagando gentilmente meu rosto e disse:
— Talvez seja hora de parar de se preocupar tanto com o que pensam de você. Se você não pode ser você mesma, então não vale a pena. Seus verdadeiros amigos vão te aceitar do jeito que você é.
Senti um misto de gratidão e tristeza ao ouvir aquelas palavras. Sabia que Max estava certa, mas era difícil ignorar as vozes que me diziam constantemente que eu não era boa o suficiente.
Mas, pior que tudo, era perceber que minha amizade com o Nicholas não era mais a mesma que tínhamos quando éramos crianças, mas era desconfortável a ideia de nos afastarmos, especialmente quando percebia que além dele não existia mais ninguém. Eu estava completamente sozinha e admitir isso não era nada fácil.
— Tenho medo de ficar sozinha. — Disse, a voz falhando. Era a primeira vez que falava sobre isso com alguém. — Acho que é por isso que eu tolero tanta coisa.
— Olha, posso não ser muita coisa, mas... — Sorriu com o canto do lábio. Senti minhas mãos suarem frio e um tremor na espinha.
— Você é muito mais do que imagina. — Sussurrei, o coração acelerando ao término da frase.
Meu celular começou a vibrar no chão ao meu lado, seguido de uma música do Alice in Chains que servia de toque há alguns anos.
— A vida imitando a arte com maestria. — Max comentou, com uma risada baixa.
Encarei o nome do meu pai na tela e lembrei que tinha um horário de toque de recolher a seguir, se não quisesse acrescentar mais um motivo pra ficar sem meus eletrônicos por um mês.
— Preciso ir. — Não contive o desânimo na voz. — Meu pai vai me matar se eu demorar. — Resmunguei.
A última coisa que eu gostaria de fazer agora era voltar para casa e ter outra daquelas conversas que sempre tenho com os meus pais quando não cumpro com alguma coisa.
— Quer que eu peça pra minha mãe te levar de carro, ou...? — Sugeriu.
— Não precisa. — Disse. — Consigo chegar a tempo. — Completei, para parecer menos rude.
— Boa sorte, então.
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