Paralelas
14 Capítulo 13 - Fuga
Notas iniciais
Max
— Você acha isso uma boa ideia? — Riley indagou ao meu lado, segurando o guidão da bicicleta vermelha de Sadie.
— Posso me resolver com ela depois. — Comentei.
Seu cadeado não era um dos melhores e estar completamente enferrujado não transmitia segurança alguma. Mas quem se importaria em roubar uma bicicleta em um estacionamento de escola?
Isso nunca foi um problema para Sadie, apesar de ser motivo de suas reclamações diárias, todas as vezes que ela deixava de pegar carona comigo ou com Noah para vir de bicicleta.
Para a minha sorte, ela ainda não havia trocado de cadeado e eu era a pessoa interessada em pegar sua bicicleta por algumas horas.
— Max, não é melhor você falar com ela? — Insistiu.
— Relaxa, Stevenson. — Resmunguei. — Nem parece a mesma pessoa que acertou o Cory ontem.
Prendi o cadeado embaixo de um dos meus pés e puxei a corrente com força para a direção oposta. Apesar de velho, soltar aquela bicicleta estava mais difícil do que pensei que seria.
— Me ajuda aqui. — Pedi. Riley apoiou a bicicleta no poste e posicionou suas mãos ao lado das minhas, forçando a corrente com mais força.
O estalar do ferro se rompendo e caindo no chão anunciou nossa vitória.
— Vamos! — Passei as pernas por cima da bicicleta e me posicionei rapidamente, começando a pedalar para longe da escola.
Riley seguiu alguns metros atrás de mim antes de me alcançar e pedalar ao meu lado.
— Você é muito maluca! — Disse alto, uma risada tomando conta de nós duas.
— Você ainda não viu nada. — Repliquei.
Entramos em um acesso para uma via menos movimentada, cercada por postes de distribuição de energia de ambos os lados, rumo as colinas, perto de onde acontecia as festas da fogueira que costumava vir com Sadie e Noah.
— Quer apostar uma corrida? —Indaguei, as pedaladas mais rápidas.
— Para onde? —Notei seu franzir de cenho pelo espelho quebrado da bicicleta.
— Você verá. — Dobrei a velocidade com a qual pedalava a bicicleta, estimando que chegaríamos lá em pouco mais de quinze minutos naquele ritmo.
Riley vociferou algo incompreensível, mas foi sua careta pelo espelho que me fez cair numa crise de risos. Ela parecia determinada a me ultrapassar e me vencer, mesmo sem saber para onde ir.
Ela encurtou nossa distância diversas vezes no trajeto, mas minha mudança repentina de rota e alguns desvios tirava sua velocidade.
Tinha vantagem o suficiente para desperdiçar alguns segundos ligando a caixinha de som que Sadie havia grudado em sua bicicleta e pareá-la com meu celular, deixando minha playlist favorita dos anos 80, reproduzindo em um tom alto o suficiente para que apenas nós duas ouvíssemos.
Criei uma teoria pessoal sobre como Riley fez aquilo em Seattle acontecer, mas precisava de um ambiente neutro e favorável para testá-la.
A resistência do vento suave em nossos corpos fazia meus cabelos ricochetearem em mexas desgrenhadas na minha face. Minha camisa de botões aberta acompanhava em uma dança ritmada, voando atrás de mim.
Ergui os braços e me permiti ser abraçada pelo frescor dessa tarde de outono, inesperada e tão cheia de vida que nem em meus melhores sonhos poderia apreciar algo tão sincero quanto isso.
Cantarolei alto o refrão da música e reduzi a velocidade para ficar ao lado de Riley.
Observei seu rosto corado e como suas maçãs reforçava o rubro escuro de seu cabelo repicado, por baixo daquela touca preta.
A fitei com um olhar contemplativo e curioso. Perguntava-me o que se passava naquela cabeça, por trás de sua face serena.
Acredito que, tanto quanto eu, Riley precisava dar um tempo e se afastar da angústia que era viver sob as sombras do nosso trauma. Ver seus dentes a mostra, em um sorriso descontraído e os ombros relaxados era gratificante.
Peter tinha razão em dizer que eu estava com medo.
E longe de todos, era mais fácil admitir que meu medo se dava pelo fator de não me achar tão boa quanto Nicholas e queria tanto ser ele e ocupar seu lugar que deixava de lado o que realmente importava: quem eu sou de verdade.
Riley nunca teve a oportunidade de me conhecer de verdade, nunca foi tão presente na minha vida quanto estava sendo nos últimos dias. Se essa era a chance que eu sempre quis ter com ela, não podia desperdiçá-la por uma insegurança boba.
No fim, não importa se meu sentimento for recíproco ou não, desde que eu possa estar com ela.
Por um breve momento, entendi como Nicholas sentia-se ao seu lado. Riley era tão encantadora que era quase impossível não se apaixonar por ela.
— Chegamos. — Freei bruscamente na base mais alta da pequena colina, há poucos metros de onde ficava a fogueira e o que restou dos destroços de um armazém antigo. — Ver o pôr do sol aqui é ainda melhor. —Comentei, o pé apoiado no chão e a bicicleta meio inclinada.
— Podemos ficar. — Sugeriu, a respiração ofegante em resposta à subida íngreme. — Se você não tiver outros planos para essa tarde.
— Cla-claro. — Gaguejei em resposta, surpresa com sua ideia.
Riley deixou sua bicicleta azul marinho de lado, apoiada no gramado próximo ao tronco de uma árvore e se sentou alguns passos a frente, em um montinho cheio de grama verde e seca.
Deixei a bicicleta de Sadie no mesmo local e me sentei ao seu lado, cruzando as pernas na frente do corpo e apoiando meu queixo nos joelhos.
— A cidade até parece bonita. — Comentou ao mirar em detalhes o horizonte que se erguia à nossa frente. — Mas parece ainda menor do que realmente é. —Não estávamos tão distantes de Crystal Falls, mas observar a cidade, com um raio de pouco mais de 2km, daqui de cima era como observar um pequeno formigueiro de pessoas.
— É bom ter um lugar para fugir de vez em quando. — Inspirei e expirei lentamente, deleitando-me do frescor e a umidade do ar.
— Obrigada por ter me trazer até aqui. — Disse sincera, seu lábio erguido em um meio sorriso de agradecimento.
Assenti com a cabeça e retribui o mesmo sorriso, deitando-me de costas sob a grama fria e observando o céu parcialmente nublado acima de nós.
O sol já havia se posto entre as árvores e o tom avermelhado do céu estava dando lugar para os degrades de azul. A lua crescente despontou no horizonte ao lado de sua fiel estrela Sirius e o cair da noite se tornou iminente.
— Se o tempo é relativo e o passado, presente e futuro coexistem simultaneamente, essas visões ou déjà vus seriam uma espécie de portal para outras dimensões. — Riley repetia o que havia entendido da nossa conversa mais cedo.
— Sim, é como se você conseguisse ver a interpolação do tempo, estar aquém do seu presente. — Joguei as palavras no ar. — É surreal.
— Mas qual é a diferença entre viajar no tempo e esses portais? — Isso era uma boa pergunta, mas era tão difícil encontrar as respostas certas para situações que não passavam de teorias.
— Eu diria que em um dos casos você pode alterar o fluxo da história e interagir e no outro você apenas vislumbra, como um observador e nada mais.
— Isso explicaria o que eu senti na campina, antes de me perder do grupo... — Murmurou quase inaudível.
— Espera, isso aconteceu lá? — Inquiri.
— Acontece com mais frequência do que eu gostaria. —Admitiu. — Mas é algo que também não tenho controle. — Choramingou. — Só me disperso em pensamentos e, quando me dou conta, já se passou tanto tempo.
— Honestamente, não sei o que acontece com você, nem se estamos indo pelo caminho certo, mas é a teoria mais consistente que temos no momento. — Rangi os dentes em frustração.
Essa história estava completamente longe de chegar em seu desfecho.
— Por aqui. — Riley fez uma curva para entrar na rua de sua casa.
Quanto mais a noite caia e a lua era encoberta pelas densas camadas de nuvens, mais dependíamos unicamente da iluminação dos postes de luz das vias públicas.
— Talvez seu poder exija algum tipo de conexão. E é por isso que você precisa sentir algo intenso e intrínseco para divagar pelo espaço tempo, seja numa projeção astral ou física. — Ponderei, o cenho franzido em dúvida e frustração. — Precisamos tentar replicar suas emoções de Seattle e ver o que acontece. — Se eu estivesse certa e meu plano funcionasse, teríamos uma base sólida para sustentar qualquer teoria que fosse.
—Ah, merda. — Esbravejou. — Não lembrava que era hoje... — Soltou uma forte lufada de ar, seus ombros tornaram a ficar tensos como de costume.
Segui o seu olhar e encontrei Reed sentado no primeiro degrau da escada de sua casa, batendo o pé impacientemente, enquanto segurava o celular nas mãos.
Trinquei o maxilar instintivamente, descontente com a interrupção e sua presença desagradavelmente inesperada.
— Acho melhor ele não me ver com você. — Parei de pedalar e guinei a bicicleta na direção por onde estávamos vindo.
— Não tem problema. — Sussurrou, mas não conseguia esconder a dúvida em sua voz. — Ele vai descobrir, uma hora ou outra.
— Você já tem problemas demais para lidar hoje. — Deixei subentendido nosso possível acréscimo de dias na detenção por termos faltado hoje sem dar nenhuma justificativa plausível. — Não precisa de mais um. — Completei ríspida.
—Max! — Afastei-me tão rápido dela que seu grito pareceu um sussurro distante.
Não queria confrontar Nicholas hoje, muito menos que as memórias de uma tarde tão reconfortante como essa fossem substituídas por seu tom inquisitivo e ameaçador.
Mas quem eu queria enganar? Poderíamos ter milhares de dias contemplando o pôr do sol no alto da colina ou Riley enfrentando qualquer um que se metesse em seu caminho, mas a realidade ao final do dia sempre seria a mesma.
No final do dia, Riley voltava para sua vida normal ao lado de Nicholas e eu ia me esconder em meu quarto ou na fogueira, fazendo de tudo para esquecer que, no fim, não havia esperança.
Eu era Max. A assassina impiedosa da cidade.
E não tinha nada que eu pudesse fazer que apagaria a história que foi escrita.
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