Paralelas

13 Capítulo 12 - Teoria


Max

— Ei, Max? — Era distante o som da voz de Noah, apesar de estar ao meu lado no refeitório. — Max! — Disse mais alto.

— Ela está em outro mundo. — Ouvi o resmungar seco de Sadie à minha frente e seu revirar de olhos. — O que ela tem de tão especial? — Encarou Riley a algumas mesas de distância de nós e inquiriu.

— Nick parece ser mega apaixonado pela Riley. — Noah apontou.

— Mega? Ele é real gosta dela, a maneira como ele a olha o entrega. — Violet comenta.

Soltei um longo suspirar. Era nítido o quanto Nicholas Reed era apaixonado por Riley. Qualquer um nessa escola ou a quilômetros de distância concordaria com isso, bastava ver como ele a olhava e não restava nenhuma dúvida. No entanto, ela nunca pareceu retribuir da mesma forma.

Stevenson nutria um sentimento terno por ele, imagino que por inúmeros fatores como a amizade de longa data e a confiança que ele emanava para ela, mas ela não parecia vê-lo da mesma forma como ele gostaria.

Ou talvez fosse no que gostaria de acreditar.

— É só uma questão de tempo.

— Aposto que eles vão ficar até o próximo baile de primavera.

— E eu aposto que eles irão voltar das férias namorando. — Violet estende o braço para Noah.

— Feito.

— Cala a boca! — Vociferei, os dentes rangendo uns nos outros em uma notável raiva. — Qual é o problema de vocês? — Olhei para Riley uma última vez e encontrei Nick afastando uma mexa de cabelo de seu rosto, suas maçãs corando em resposta e junto de um largo sorriso se abriu.

Ela era feliz com ele.

Trocar de lugar com Nick era tudo o que eu mais queria de tempos em tempos, não apenas por Stevenson, mas pela simplicidade de ser quem ele era, sem que ninguém o chamasse de aberração, sem medo. Ser só ele e nada mais. Existir sem que fosse um ato de resistência diário.

Foda-se. Murmurei internamente.

Sai do meu lugar e marchei para o outro lado do refeitório, passando próximo à mesa dos dois, rumo às arquibancadas do campo. Não passaria a próxima hora de aula trancada em uma sala com ele, ouvindo o quão inteligente ele era em álgebra num geral.

Procurei o número de Peter na minha lista de contatos favoritos e liguei sem hesitar. Coloquei meus fones de ouvido e ouvi sua voz do outro lado no terceiro toque.

Oi, está tudo bem?

Não ache estranho se a Sadie e o Noah não aparecerem para jogar qualquer dia desses. — Resmunguei sem controlar a entonação da raiva.

Acho que alguém não está de bom humor hoje. — Gargalhou com meu comentário.

­­— Você se lembra daquela garota?

— Max... — Peter fez uma longa pausa e suspirou — Você fala de muitas garotas. Como você espera que eu me lembre de uma em específico?

— Você é péssimo. — Revirei os olhos, acompanhando sua gargalhada e deixando de lado um pouco do meu nervosismo anterior. — A Riley, a garota da campina. — Esperei ele processar a informação antes de continuar. — Ela começou a conversar comigo, do nada, e isso está acabando comigo... —Trinquei o maxilar.

Estava distante o bastante do refeitório para não ouvir as vozes de ninguém, além de alguns garotos jogando no gramado de fora. Mas a voz de Nicholas e o comentário do Noah e da Sadie não paravam de me assombrar.

— Vivo numa dualidade de ser completamente irracional quando ela está por perto e de pensar e repensar demais em inúmeras coisas.

— Você parece estar com medo, Max. — Maneei a cabeça em negação. —Não adianta mentir para você mesma. —Apesar de não estar presente para ver minhas reações, Peter me conhecia há tempo o suficiente para ser assertivo.

— Não faz sentido. —Resmunguei.

Gostar de alguém não faz muito sentido mesmo. — Comentou mais para si do que para mim, sua mágoa com Tyler ainda era muito recente. — Só seja quem você é e aproveita o que você está sentindo, sem medo do que pode acontecer.

— Melhor viver e sofrer com as consequências do que ser assombrado por algo que você não fez... — Murmurei a filosofia pessoal que usava sempre que tinha um dilema para resolver.

Nossas conversas fluíam com tanta facilidade e Peter me deixava tão confortável que mal via o tempo passar. A essa altura, encontrava-me sentada na arquibancada, longe de todo mundo e dos olhares curiosos.

Balancei uma das pernas de um lado para o outro enquanto apoiava o cotovelo no joelho contraído.

— Você tem razão. — Conclui, por fim, após um momento de reflexão silenciosa.

Depois você me paga essa terapia com uma skin de jogo.

— Achei que minha alegria fosse o bastante para você. —Repliquei com uma risada, ele não perdia uma oportunidade de aumentar sua coleção de conteúdo personalizado.

Uma skin nova também. — Completou.

Pensarei a respeito.

— Max? —Uma voz familiar rompeu meu diálogo com Peter, vindo da base da arquibancada.

Endireitei meu corpo e estreitei os olhos para visualizar com mais clareza quem era e encontrei Riley parada há alguns degraus abaixo de mim, seus olhos azuis ainda mais claros e curiosos, refletindo o brilho do sol que escapava pelas nuvens do dia nublado.

— Mais tarde conversamos. — Disse para Peter. — No horário de sempre. — Completei e encerrei a ligação.

— O que você está fazendo aqui? — Riley colocou o pé no primeiro degrau, decidindo se viria até onde eu estava ou não.

— Estou contemplando a natureza. — Ergui os braços e apontei para o ambiente pacífico e silencioso que nos cercava.

— Posso ficar aqui? — Indagou, mais um passo na minha direção. Assenti com a cabeça e apontei para que Riley se sentasse ao meu lado.

— Como você fugiu do Nicholas? —Ergui uma sobrancelha curiosa pela sua resposta.

— Já te disse que ele não fica em cima de mim o tempo inteiro. — Revirou os olhos.

— Eu estive pensando sobre o que conversamos ontem. — Riley fez um gesto com as mãos para que eu prosseguisse. — Existem algumas teorias a respeito do passado, presente e futuro coexistirem ao mesmo tempo. Cada uma com sua peculiaridade, mas com o mesmo embasamento da relatividade. — Passava horas pesquisando e aprendendo sobre essa teoria de Einstein e qualquer coisa relacionada a multidimensionalidade. — Em tese, não estamos presos no agora e sim flutuando pelo espaço tempo.

Nossa conversa durante a detenção e o que eu vi em Seattle apenas fomentaram meu desejo de estudar e conhecer mais teorias sobre isso. Existiam diversas ideias soltas corroendo meu interior e adorava um bom quebra-cabeças.

— Envelhecemos, temos uma vida completa, passamos por inúmeros ciclos, mas o passado nunca nos abandona. É como se ele ficasse perdido em algum lugar e só não soubéssemos como acessá-lo.

— Mas eu acho que não sai dos anos 80. — Comentou com uma risada incrédula. — Nem você.

— Sim, mas se o seu passado não deixa de existir, o passado universal, num todo, também não. — Mordi o lábio inferior, suprimindo um sorriso involuntário ao observar a face levemente corada de Riley. — Também serve para o futuro e explicaria os paradoxos. — Completei. — O futuro não existe sem o seu passado, mas o seu passado foi modificado por alguma atitude que você teve no futuro. Está tudo conectado e um depende do outro.

— Por que comigo? — Riley esboçava uma frustração inerente. — Existem tantas vertentes quando se fala em viagem no tempo e tudo não passa de teorias e possibilidades.

— É o melhor que eu tenho para você. — Suspirei, empática com sua reação. — Pelo menos, você não tem algum distúrbio mental, eu acho. — Ri baixo. —A grande pergunta é: qual é o gatilho que te faz viajar no tempo? — Essa indagação me deixou completamente dispersa o dia todo, além de ter arrancado boas horas de sono da noite anterior. — O que você sentiu em Seattle?

— Só lembro dos calafrios quando andei por aquela rua e da dor de cabeça lancinante quando você foi embora. É o máximo que me recordo.

— Como se tivesse rompido a conexão... —Murmurei baixo. —Mas antes disso, o que você sentiu? — Riley franziu o cenho e assentiu em negativo. —Tudo bem. — Aspirei desapontada.

— Aconteceu outras vezes. Entretanto, não sei se existe um padrão. — Bufou e permaneceu em silêncio, como se decidisse se contaria o que vinha a seguir ou não. — Costumava ver algumas coisas com mais frequência. — Fez uma pausa longa novamente. — Lembro do medo tomar conta de mim, mas de estar completamente hipnotizada pela cena. Meus pais começaram a me levar no psiquiatra depois que não consegui mais esconder e algumas marcas se tornaram visíveis.

— O que aconteceu? —Indaguei, apesar de saber a resposta que receberia. Riley deu de ombros e se esticou na arquibancada, as costas recostando no assento atrás de nós.

— Tenho uma teoria pessoal.

— Que seria?

—Alguns acreditam em energia, outros em atração ou destino. Eu acredito que é o mesmo nome para a mesma coisa e que o mundo compartilha uma conexão única. — Tentei explicar o nó no meu cérebro da forma mais objetiva, para que Riley entendesse. — Dèjá vus teriam o bônus de ser um portal extrassensorial para algo que você já viveu em algum momento ou outra dimensão, as memorias seriam portais para o passado. — Gesticulei as aspas no ar. — E o futuro seria o vislumbre de uma divagação distante. — Completei.

— Passado, presente e futuro juntos, mas separados por uma sintonia? — Tombou a cabeça de lado e me fitou, os olhos esverdeados penetrando meu interior.

— Sim. —Concordei.

— Isso é uma loucura.

— Eu sei. —Abri um sorriso torto.

— Você é louca. —Soltou uma leve gargalhada.

— E você pediu minha ajuda. — Ergui os braços em minha defesa. — Já se arrependeu?

— Não.

— Ainda tem tempo. — Apesar de soar uma brincadeira, meu comentário escondia um fundo triste de verdade.

Sabia que, a qualquer momento, Riley poderia mudar de ideia e se tornar aquela pessoa distante que sempre foi, por mais que eu desejasse o contrário, era uma possibilidade que não podia descartar.

— Acho que está na hora de voltarmos. —Trinquei o maxilar, ignorando o breve silêncio que se formou entre nós.

Com o sinal anunciando o término daquela aula, pulei da arquibancada no chão e me posicionei na pista lateral de corrida. Era hora de irmos para a penúltima aula do dia com a senhora Romero.

Queria emendar essa próxima aula com a última e enrolar aqui fora até o horário da detenção, mas se a senhora Romero visse que eu e Riley matamos sua aula juntas, com toda certeza ganharíamos mais alguns dias na detenção.

Não era uma ideia desagradável.

— Riley? — Falar seu nome e encontrá-la olhando para mim era um pequeno detalhe que fazia meu coração bater descompassado. — Você se importaria em passar mais uma semana pintando aquele cenário horroroso? — Ergui a sobrancelha, a mão estendida e o corpo em reverência, aguardando sua resposta.

— Me leva para longe daqui. — Apertou firme minha mão, seu toque quente despertando o mesmo êxtase de ontem.

Retribui com um sorriso torto, completamente perdida em seu olhar e suas bochechas rosadas.

Notas finais
Escrever esse capítulo foi um tanto quanto complicado, especialmente quando quero me basear nas teorias da relatividade, mas tecer algumas modificações pertinentes para a história. Tentei ser o mais objetiva e descomplicada o possível, porque esse assunto é de dar nó na cabeça, então espero que tenha feito sentido para os leigos e seja fiel para aqueles que tem mais afinidade com isso. Mas, apesar dos pesares, não se prendam muito ao funcionamento desse universo, porque tudo irá se encaixar em algum momento, e sim na simplicidade dos detalhes que permeiam a vida e o presente de cada um dos personagens. Nos vemos no próximo capítulo :)