Paraiso Imperfeito
41 Tempo de Mudanças
Notas iniciais
“Só quem perdoou na vida sabe o que é amar” – Pe. Fábio de Melo
O sol já se punha em Konoha, e a maioria dos seus habitantes abrigava-se da chuva, alheios ao novo perigo que ameaçava a vila oculta da folha.
O shinigami em sua nova forma não era amedrontador, mas tão pouco seu poder era visível para a maioria das pessoas. Aquele demônio não disseminava seu terror através de elementos da natureza, ele não controlava o vento, a terra, o fogo, a água, nem o chacra, seu poder era bem pior. O que muitos chamavam de deus da morte podia brincar com a alma de todos os seres vivos, e isso era o pior poder que poderia existir.
Naquele momento, todos podiam sentir o mal estar e a sombra negra invadindo seus corações e mentes. Mesmo sem saber, todos alimentavam o shinigami com seus pecados mais íntimos.
— Não é surpreendente como os seres humanos podem ser tão malignos e ao mesmo tempo inocentes? – a voz de Konohamaru havia mudado, se tornando mais grave e baixa ainda que suas palavras fossem claras o bastante para que Hanabi pudesse ouvi-las alguns passos distante.
Foi com angustia que ela se deu conta de que o demônio havia tomado conta do corpo de seu amigo novamente, e dessa vez bem no meio da vila. Ela esperou o ataque como da última vez, mas este não veio, o shinigami no corpo de Konohamaru parecia se divertir olhando a vila ao seu redor, o que não podia ser um bom sinal. Rezou para que o jovem ninja retomasse seu corpo logo, pois tinha medo de que a vila da folha não fosse suportar mais um ataque.
— A natureza ambígua dos humanos me fascina completamente. – o demônio continuou seu monologo, parecendo ignorar completamente a postura defensiva da kunoichi – Ao contrário dos outros animais, que tem a alma completamente pura, os humanos tem as almas manchadas por seus pecados. Mas até mesmo a alma mais sombria, tem uma pequena parte de pureza. Assim como a alma mais pura, sempre tem uma mancha escura indicando que em algum momento seu coração inocente foi tocado pela maldade. É fascinante sem duvida, não existe outra espécie como vocês.
— Que bom que nossas falhas lhe entretenham. – Hanabi ironizou, finalmente parecendo chamar a atenção do Shinigami que novamente lhe mostrou um sorriso frio.
— Eu diria que elas dão um gosto ainda mais saboroso as almas.
— Então é isso, resolveu sair para fazer uma boquinha?
— Assim que o pirralho colocou os pés aqui novamente, eu me fortaleci. Uma vila ninja tão suja quanto esta, onde cada um dos habitantes esconde não apenas uma pequena mancha, mas uma alma tão cheia de pecados foi um prato cheio para mim. Eu sei que lhe contei que sua irmã é uma das exceções, é verdade, mas como eu também já disse, até a alma mais pura tem suas manchas. – gargalhou.
— Sabe, eu espero mesmo que não fique falando muito sobre Hinata quanto Naruto chegar aqui. Ele é bastante possessivo. – A Hyuuga disse, vencedora, mas o demônio não pareceu se abalar.
— Você também está sentindo sua chegada? – ironizou – E não apenas ele...
Como Hanabi temia, ao olhar ao redor notou que eles não estavam mais sozinhos. Pessoas começavam a sair de suas casas, e ainda que reconhecessem o neto do Sandaime, logo podiam sentir o poder maligno do demônio.
— Já estão com medo habitantes de Konoha? Eu nem me apresentei ainda!!
Apesar de ouvir a voz, Hanabi não podia ver a boca de Konohamaru se movendo e então com um novo olhar ao redor, ela notou que o Shinigami falava com todos em uma conexão mental. Ela só podia imaginar que não apenas com aquele pequeno grupo, mas podia apostar que toda a vila estava sobre sua influencia agora.
— Eu sou o Shinigami, eu sou o juiz e o carrasco, e está na hora dos seres humanos serem julgados por seus pecados.
E Hanabi tinha razão. Naquele momento, todos podiam ouvir as palavras do Shinigami e ainda ver em sua mente, as imagens que ele quisesse que não eram nada boas. A morte batia em suas portas novamente, dessa vez na forma do próprio Deus da Morte.
— Eu posso sentir o medo de vocês. É tão sublime. – a criatura cantarolava quase em êxtase – Até mesmo os bravos ninjas, estão aterrorizados com a possibilidade de serem sufocados por seus pecados. Se acham tão fortes, tão independentes e esquecem que não passam de bobas criações dos deuses. Estupidas criações que se acham tão poderosos, mas não passam de meros brinquedinhos nas mãos de deuses como eu. – ele andou até Hanabi e tocou sua face, rindo quando a mesma se afastou – Temam povo de Konoha, pois até sua preciosa nove caudas pode virar-se contra vocês agora mesmo se assim eu decidir.
E a imagem da Kyuube destruindo Konoha encheu a mente de todos na vila.
— Oe! Sabe que é falta de educação falar dos outros pelas costas! – a voz de Naruto trouxe alivio e surpresa para Hanabi, mas o Shinigami permanecia inabalável.
Junto com o ninja loiro estava Hinata que imediatamente aproximou-se da irmã certificando-se que ela estava bem.
— Eu não sei o que fez para Konohamaru, mas é melhor parar de tentar assustar a todos usando o corpo dele! – Naruto disse irritado, sabendo muito bem como o final daquela história acabaria.
— Sua preocupação com o pirralho é tocante, Uzumaki, mas eu posso ver sua mente e sua alma manchada de sangue.
— Então deve saber que é melhor não mexer com as pessoas que eu amo. – o loiro deu um pequeno sorriso feroz enquanto liberava parte do poder como um aviso.
— Eu sou mais forte que você, não importa que pacto possa ter feito com o demônio raposa. Eu sou mais forte que todos.
— O que você quer? – Hinata perguntou
O Shinigami pensou por um instante, e então respondeu, displicentemente:
— Eu quero você. – Disse então para o choque de todos — Sim, líder do clã Hyuuga. De sua alma a mim e eu pouparei a vida de toda a vila!
— NANI? – Naruto já estava pronto para luta em questão de segundos, o que pareceu apenas divertir ainda mais o outro demônio.
— Bakas!!!!! – o Shinigami zombou – Não se preocupe Uzumaki, eu não quero a alma de sua preciosa Hyuuga. Vocês dois morrerão, assim como todos dessa vila. Ora, ora, e temos mais convidados. E um Uchiha, que surpresa! Eu bem que senti o cheiro de traidores. – provocou virando de costas para olhar Sasuke que aproximava-se com Sakura ao seu lado.
— Logo todos os ninjas de Konoha estarão aqui. – A rosada disparou enquanto ao seu lado o Uchiha olhava para Naruto, ambos preparando-se para uma luta.
— Ninguém é capaz de me deter minha querida.
— Se isso fosse verdade, você não teria sido selada a muitos anos atrás. – Naruto rebateu e ficou sério – E faremos isso novamente se assim for necessário.
— Não!!!! – o grito de Hanabi foi desesperado. Ela já havia pesquisado sobre o Shinigami e sabia o que havia acontecido ao hospedeiro no último selamento.
Nesse momento todos puderam sentir suas mentes ficando pesadas. Em algumas partes da vila, algumas pessoas sofriam com cruéis dores que a fariam se debater de desespero, até mesmo ninjas tinham suas mentes invadidas pela tortura mental do Shinigami.
Naruto podia sentir Kurama debater-se freneticamente dentro do seu corpo, enquanto ele tinha lembranças de suas próprias palavras horas antes:
“- Eu não sou aquele garoto por quem você se apaixonou.”
“- Eu era parte do monstro”
“- Eu deixei a raposa tomar conta de mim e deixaria que ela destruísse tudo.”
O remorso. O medo. A fúria. Ele podia sentir tudo misturado dentro dele, até sentir uma mão sobre a sua. Ele não precisou olhar para saber que era sua Hinata. Ela mesma sofria com o peso dos seus próprios pecados e ainda sim não iria deixar Naruto afundar-se nos dele.
E foi o que lhe deu força para levantar, percebendo só então que havia caído como vários ao seu redor.
Do outro lado, Sasuke fazia o mesmo e os dois se entreolharam com cumplicidade.
— Já chega Shinigami! – O Uchiha falou
— Eu ainda nem comecei Uchiha. Vamos ver o que você fará quando tiver que encarar seus maiores pecados.
— Nós já os encaramos. E vamos encará-los todos os dias. Nossos erros vão nos assombrar cada dia da nossa vida.
— ...Mas não vamos deixar que os erros do passado acabem com a nossa vida. – Naruto continuou e olhou para uma Hinata tão surpresa com suas palavras quanto o Shinigami que cuspiu com desdém.
— Aaahh claro! Agora o momento em que os humanos gostam de chamar de redenção. Se fazem de arrependidos, bonzinhos, mas então não demora muito para voltarem a mostrar a real essência podre e corruptível. Eu vejo como vocês podem ser tão tolos e manipuláveis, como podem ir contra seus próprios princípios para alcançarem objetivos fúteis...como o amor, por exemplo. – ele olhou para Hinata de cima a baixo e depois para Naruto que se pos na frente dela de forma protetora – Ah o perfeito cavalheiro e...argh.... – ele engasgou ao sentir o gosto do próprio remédio e ter sua mente invadida.
Não exatamente a sua mente, mas a do seu hospedeiro, que parecia ter sido acordado e agora lutava para voltar ao controle, e apenas uma kekei genkai poderia fazer isso.
— Você está cego. – Ele acusou olhando para os olhos opacos de Sasuke Uchiha e o mesmo apenas sorriu.
— Felizmente ele não é mais o único Uchiha na vila. – A voz de Sayuri foi ouvida e todos viram seu sharingan ativo, Kiba ao seu lado sempre.
O shinigami tentou sobrepor sua vontade ao de ninja novamente, mas Konohamaru surpreendeu por sua tomada rápida de controle e luta contra a dominação do demônio que a cada segundo se viu mais longe do controle daquele corpo.
— Vamos Konohamaru. Lute. – Naruto disse com firmeza, aproximando-se do ex pupilo, o único que sabia realmente o que o mesmo estava passando.
— É apenas questão de tempo até que eu volte. Você sabe disso. – Foi o último aviso do demônio da morte antes de finalmente voltar para a escuridão da sua prisão.
Naruto viu os olhos negros clarearem até tornarem-se chocolate e soube que o ninja estava de volta.
— Sensei...
— Hei garoto, bem vindo a festa.
— O q-que...houve? – o mais novo perguntou ainda com as lembranças embaçadas.
A última coisa que se lembrava era treinar com Iruka-sensei e então...
— Iruka-sensei!!! – ele arregalou os olhos e deu um passo, mas foi imediatamente detido pelo corpo de Naruto – E-eu o machuquei, sensei...ele precisa de ajuda.
— Eu o achei e ele já está sendo cuidado pela Hokage. – Naruto disse baixo e calmamente, mas não demorou muito para que Konohamaru notasse os cochichos ao redor.
O povo a essa altura, livres do domínio do shinigami já se aproximavam temerosas. E Naruto sabia exatamente o que os aldeões faziam quando estavam assustados.
“-Mais um monstro em Konoha...”
“- Nós nunca ficaremos seguros...”
“-Ele deveria ser expulso”
“-Estou tão cansado desses monstros andando entre nós...”
Os sussurros maldosos, logo se tornaram acusações ferinas.
— O garoto é um perigo!!
— Ele precisa ser preso!
— Ele é mais perigoso que a raposa!
— Vocês todos enlouqueceram? – Hanabi surpreendeu a todos com sua explosão – É do neto do Sandaime que estão falando!!!!
— Ele quase nos matou!
— Bobagem!!! Vocês me enojam com tanta covardia!!
— Hanabi! – Hinata segurou a irmã, antes que a mesma resolvesse ela própria partir para cima dos aldeões.
— Eles estão certos afinal. – Konohamaru murmurou, cabisbaixo. – Eu não deveria estar aqui...
— Não se atreva a ser um covarde! – Hanabi ralhou aproximando-se e chamando a atenção do rapaz
As acusações não pararam e apenas ganharam mais força a medida que mais pessoas aproximaram-se.
— Você devia ir ao hospital ser examinado. – Sakura disse ao mais novo e soltou um gritinho surpreso ao sentir algo gelado em sua costa. Em choque percebeu que era lama.
— O monstro não precisa de hospital!!! Ele precisa ser preso!!
— Ela está do lado dele! Afinal todos sabem que ela é apaixonada pelo traidor!
— MAS QUE PALHAÇADA!!!! – Agora era a Haruno que estava furiosa, mas acabou sendo contida pelo Uchiha.
— Ainda sente remorso por quase ter destruído essa vila de merda, jiinchuriki! – Sayuri provocou, mas foi calada quando um pouco de lama a atingiu bem na cabeça. – Agora sim, vocês vão morrer. – ela rosnou, para um grupo que imediatamente hesitou aterrorizado, mas Kiba que também havia sido sujo de lama, a segurou.
Não demorou muito para que o grupo todo fosse alvo de acusações e disparos de lama. Naruto e Sasuke protegeram Hinata e Sakuram quando Konohamaru não aguentou mais e deu um passo a frente separando-se do grupo e vendo entristecido a multidão parar amendrontados.
— Eles não tem culpa de nada. Eu sou o culpado e vou embora. – Disse baixinho com os olhos no chão — Eu só...p-peço perdão pelo mal que causei... – ele não conseguiu mais falar, sentindo sua garganta entalada com a tristeza, enquanto limpou os olhos sem mais conseguir conter as lágrimas, até ser surpreendido por uma mão em seu ombro.
Ao olhar para cima viu Naruto lhe sorrir.
— Ta tudo bem garoto.
— Mas Naruto-sensei...
Naruto olhou para as pessoas com seriedade e se abaixou pegando um pouco de lama no chão, e diante do olhar de todos jogou em sua própria cabeça empapando seus cabelos loiros até que os mesmos estivessem marrons.
— Estão satisfeitos? Ou será que preferem que eu crave uma adaga em minha garganta?
Depois de um curto período de silencio hesitante, um dos aldeões se manifestou.
— Não nos entenda mal Naruto-san. – o homem disse – Não temos nada contra você. Afinal, você é o herói do mundo shinobi.
— E dias atrás tentei destruir a vila não pela primeira vez, e esse garoto sozinho foi quem salvou vocês e agora estão todos contra ele. O Shinigami, como todos agora já devem saber, é um demônio com um poder incrível e que conseguiu se infiltrar na mente de todos sem problema. Se ele estivesse selado em qualquer outra alma, já iria ter saído e destruído a nossa vila, mas novamente Konohamaru é o único forte o suficiente para mantê-lo preso. E vocês o odeiam por que o temem. – Naruto continuou olhando para todos com seriedade e firmeza — Konoha tem um passado manchado por tantas injustiças, e ainda sim teimamos em continuar odiando. Eu não estou dizendo para que esqueçam o que aconteceu, mas que tentem de verdade dar uma chance de dessa vez reconstruirmos a vila da folha em paz de verdade. Sem mais espaço para preconceitos e rancor.
Todos olharam ao redor parecendo em duvida, mas no fundo realmente tocados pelas palavras do ninja loiro que continuou:
— Se estiverem dispostos a isso, então vão para casa agora, vejam se seus entes queridos estão bem, e então procurem seus vizinhos e vejam se eles também não precisam de ajuda. – ele continuou surpreendendo a todos – Mas se não quiserem, então eu me ponho a disposição de vocês para pagar essa divida, seja da maneira que for.
Ele esperou, assim como seu pequeno grupo, com a respiração suspensa algum tipo de ataque, mas nada veio.
Para seu alivio, e surpresa, o discurso realmente teve algum efeito, pois aos poucos as pessoas foram se dispersando e voltando para suas casas. O loiro sorriu e seu olhar imediatamente se cruzou com o de Hinata que também tinha um pequeno sorriso nos lábios além um olhar orgulhoso.
— Naruto-sensei...obrigadooo!! – Konohamaru choramingou o abraçando de surpresa e fazendo todos rirem.
— Naruto-bakaaaa você me emocionou! Disse palavras tão bonitas. – Sakura disse, esfregando os olhos marejados, igualmente emocionada enquanto abraçava Sasuke.
— Eu achei meio dramático. – Sayuri não perdeu a oportunidade de alfinetar e Kiba entrou na dela.
— Naruto sempre gostou de chamar atenção.
— Dobe. – Sasuke estendeu a mão que Naruto aceitou e eles sorriram cúmplices.
— Teme. Vejo que finalmente se acertaram! – comemorou olhando para o velho novo casal e foi quando ele finalmente enlaçou sua noiva pela cintura e lhe deu um beijinho nos lábios que ainda tinha rastros de lama e fez a herdeira franzir o nariz e rir baixinho.
— Você foi incrível.
— Eu não sei por que parece tão surpresa com isso! – ele brincou recebendo um ar de zombaria dos amigos ao redor.
Infelizmente, o momento foi interrompido por um grito de Hanabi.
— KONO!!!
E eles viram o jovem Sarutobi no chão desmaiado nos braços da Hyuuga em pânico.
***
— Eu soube o que fez para defender Konohamaru. – Tsunade comentou uma hora mais tarde, quando havia chamado Naruto em particular em sua sala e ele finalmente aceitou e agora estava sentado displicentemente no sofá da sala – Eu devo dizer que estou orgulhosa. – ela o viu revirar os olhos – Mas não estou surpresa. – Satisfeita, ela então recebeu um pequeno sorriso sincero do mesmo.
— Obrigada, vovó.
Foi a vez dela revirar os olhos, mas ignorou o apelido devido as circunstancias deveras satisfatórias.
— Mas como soube?
— Kakashi viu tudo.
— Aquele sensei!! Bem que podia ter ajudado!! – Naruto bufou frustrado, mas sua atenção imediatamente desviou-se quando a Hokage lhe serviu um copo com sake. – Shizune sabe que está bebendo no trabalho? – ele não perdeu a chance de provocar e a loira bufou com desdém.
— Até o Hokage precisa de um tempo para relaxar. – ela rebateu e então completou – Você vai aprender isso.
Naruto deu um sorriso pequeno para o copo em sua mão, sabendo exatamente do que a loira estava insinuando e que por todos os últimos dias ele tentou negar, mas que agora parecia um desejo latente que havia voltado com força total para seu coração.
Com um olhar compartilhado entre os dois, eles brindaram em silencio antes de tomarem suas respectivas bebidas com calma.
— Então como está Konohamaru? – Naruto perguntou.
— Apenas drenado física e mentalmente. Algumas horas de descanso e ele logo estará novinho em folha.
***
O jovem ninja foi abrindo os olhos devagar, piscando atordoado enquanto as lembranças voltavam aos poucos. Frustrado, ele ainda sim não estava preparado para ver Hanabi Hyuuga sentada na cadeira ao seu lado.
— Resolveu acordar. – Ela disse com seu usual tom enfadado, ainda que seus braços cruzados no peito e seu suspiro preocupado dissessem o contrário – Como se sente?
— Enjoado, cansaço, chocado por você estar aqui... – brincou, divertindo-se ao ver o bico se formando nos lábios da menina.
— Baka! Não se ache tanto. Só estou esperando Hinata falar com Neji.
— Oh, ele está aqui...havia esquecido – Konohamaru lembrou-se do atentado contra a vida do ninja – Bem, mais um motivo de surpresa você estar aqui e não lá com seu amado. – ironizou, mas riu com a expressão enfezada da garota. Seu riso, contudo, foi morrendo aos poucos com a realização dos últimos acontecimentos – Eu machuquei alguém? Como está Iruka-sensei? – perguntou em um fio de voz, olhando para as próprias mãos.
— Não. Iruka-sensei foi apenas desacordado e já está em casa.
— Menos mal. Espero que ele ainda queira continuar meu treinamento. – tentou brincar, mas seu riso saiu débil.
— Vocês pretendem sair da vila de novo?
Antes que Konohamaru pudesse responder, eles ouviram batidas na porta antes que uma jovem loira entrasse o quarto sem nenhum pudor.
— Kaori...
O nome fez Hanabi imediatamente ficar tensa e lançar um olhar vazio para a nova visita.
— Como você está?
A Hyuuga pigarreou sem conseguir – ou querer – esconder seu enojamento.
— Bem, eu tenho mais o que fazer agora. Se me derem licença.
— Hanabi... – Konohamaru a chamou quando a mesma já abria a porta – Obrigado.
O rosto pálido da garota corou de modo que Kono só podia achar adorável, enquanto a via sair sob o olhar desconfiado e com uma pontinha de desgosto da princesa, que finalmente a sós com o jovem, aproximou-se mais da cama.
— Então acho que você já sabe o que eu sou. – o ninja concluiu preocupado.
— Bem, ficou fácil depois de ouvir aquela coisa na nossa cabeça. E a Yamanaka também me explicou outras coisinhas sobre demônios e Jiinchuriikis.
— Eu entendo se ficar com medo de mim.
— Se eu estivesse com medo de você, obviamente eu não estaria aqui. – ela rebateu rapidamente, sua lógica pegando o rapaz de surpresa.
— Então...
— Na verdade, eu achei de bom tom, já que eu descobri um segredo seu, que eu também fosse sincera com você sobre mim.
— Eu não entendi...
— Eu sei que não. Você é bonitinho, mas não é dos mais espertos.. – ela zombou dando tapinhas no rosto do ninja de leve, e fazendo ambos rirem.
— Você é engraçada, princesa. – ele ironizou perdendo o modo que Kaori desviou o olhar, sem graça diante do apelido acidental.
— Não sou. – ela disse baixinho
— O que? Uma princesa? – ele continuou brincando e ela suspirou voltando a olhá-lo.
— Não. Engraçada.
Konohamaru riu, mas algo no modo dela falar finalmente chamou sua atenção.
— Kaori...
— Pois é, meu nome é Kaori, princesa do país do fogo. – disse de uma só vez e esperou por alguma reação do ninja que não veio – Kono-kun?
— N-nani? – foi apenas o que ele conseguiu dizer depois de um tempo. – Desde quando?
— Bem – ela deu um risinho constrangido, enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha — desde que eu nasci.
— Uau...isso é...bizarro... – disse no impulso, até notar ter sido as palavras erradas ao ver o olhar chocado dela – Quer dizer...de uma forma...legal, sabe!! Com certeza explica muita coisa. – ele riu coçando a nuca de forma desajeitada – Uau, eu nunca tinha beijado uma princesa.
— Tem mais uma coisa...
— O que pode ser? Você é casada por acaso? – ironizou
— Noiva, na verdade. – ela disse para o maior choque do ninja — Do kazekage de Suna.
— NAAAAAAAAANIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII?????????
Dessa vez, muito provavelmente, todos ouviram o grito do ninja incrédulo.
— VOCÊ É NOIVA DO KAZEKAGE? EU BEIJEI A NOIVA DO KAZEKAGE!!!!!! – Agora ele estava realmente em pânico.
— Não é para tanto sabe!! – Kaori resmungou, diante do ataque histérico do ninja – Não é como se tivéssemos algum relacionamento.
— Como assim? – Apesar de ainda muito abalado, Konohamaru foi se acalmando aos poucos.
— Bem, é o que chamamos de casamento por contrato. Uma longa e tediosa história que não tem nada de romântica. – a princesa ironizou abaixando a cabeça, até sentir a mão dele em seu queixo a obrigando a olhá-lo.
— Acho que ninguém é perfeito né.
A princesa riu, sincera e feliz dessa vez e em um gesto inesperado jogou-se nos braços do rapaz, e em um gesto mais surpreendente ainda lhe deu um beijo que ele não hesitou em aprofundar, afundando suas mãos nos longos cabelos dela e a puxando mais contra si.
O que nenhum deles percebeu é que atrás da porta, uma certa Hyuuga os observava do corredor e depois de um segundo de choque com a cena, seguido por um grunhido desgostoso e uma série de xingamentos mentais pouco decorosos, ela saiu pisando duro.
Ao dobrar o primeiro corredor, entretanto, acabou esbarrando em outra pessoa que vinha em sentido contrário.
— Mas que droga. – A Hyuuga resmungou, furiosa e preparada para mandar alguém para um lugar pouco educado, até reconhecer a mestre das armas a olhando com preocupação.
— Gomene Hanabi-san! Você está bem?
— Tenten-san... – a mais nova hesitou, ainda surpreendida com a preocupação de sua antiga inimizade. – S-sim...e-estou bem...gomenasai...e-eu estava d-d-distraida... – ela corou ao ouvir o risinho da moça – O que? – grunhiu já irritada.
— Gomene. Apenas, eu nunca pensei que veria Hanabi Hyuuga corada e gaguejando como Hinata. – disse simplesmente, mas logo percebeu seu erro ao ver a expressão nada agradável da outra e pigarreou rapidamente mudando de assunto. – A propósito, foi uma boa luta a sua. – ela disse novamente surpreendendo Hanabi.
— Você viu..?
— Claro. Acho que toda Konoha viu, e a sua vitória foi...uau! Incrível! Parabéns.
— Arigatou. – A Hyuuga murmurou agora realmente constrangida, pois não estava preparada para isso.
— E já que estamos conversando sinceramente, eu nunca pude te pedir perdão...Então... – mas antes que a morena pudesse continuar, a mais nova balançou a cabeça negativamente em um suspiro.
— Nós duas sabemos que fui eu quem começou essa batalha sem propósito.
— Ainda sim, o que eu fiz acabou se tornando muito mais grave. E-eu estou muito arrependida...
— Eu também.
As duas se entreolharam e sorriram. Não haveria choro, abraços ou pedidos de perdão verbal, mas ali com acenos de respeito, as duas fortes kunoichis selaram a paz entre si.
— Ele está no terceiro quarto a direita. – Hanabi então disse de repente e Tenten piscou confusa.
— Nani?
— Neji. Você veio visitá-lo, eu suponho. – ela esclareceu já se afastando.
— Sim! Sim. Mas, e você?
— Eu tenho coisas para fazer agora. – A Hyuuga disse com um aceno de desdém nas mãos, sem deixar de caminhar – Ele pode sobreviver algumas horas sem mim. – desdenhou.
Tenten não pode deixar de rir e pensar o quanto as coisas pareciam estar mudando.
Neji deixou a leitura de lado ao ouvir dois toques lentos na porta.
— Pode entrar.
A primeira coisa que ele viu foi a face risonha da mestre de armas.
— Hei, me disseram que tem um paciente se fingindo de doente para não voltar a trabalhar. – ela brincou antes de finalmente entrar no quarto e se aproximar do hyuuga sentado na cama – Como você está?
— Depois de retirarem o veneno, estou apenas em observação. Provavelmente sairei mais tarde ou amanhã cedo.
— Já sabem quem fez isso? – ela perguntou baixinho, visivelmente preocupada.
— Não é realmente um mistério. – ele respondeu evasivo – Hinata já está cuidando disso.
— Quem diria, Hinata e Hanabi cuidando de você. – Tenten provocou – As coisas realmente estão mudando. – murmurou o pensamento que tivera minutos atrás.
— Talvez elas tomem o rumo certo agora. – ele disse a olhando com atenção e ela sorriu pequeno.
— Talvez. – concordou – Alias, Lee mandou lembranças e que você não perca sua força da juventude. – brincou, mas logo notou a expressão calma do Hyuuga se tornar irritada, de forma muito semelhante a outra hyuuga instantes atrás – Ele não tem muito tempo agora que virou um bom partido de Konoha. Graças a mim, devo acrescentar. – completou com orgulho, rindo da careta do amigo – Ele até arrumou uma namorada, acredita?
Nessa parte Neji se tornou mais atento as palavras da kunoichi.
— E quem seria?
— Uma garçonete do restaurante. Ela é muito simpática e eu me certifiquei de que fosse uma boa garota, com a cabeça no lugar para que ela cuidasse bem do nosso doce, mas lesado, Rock Lee. – tagarelou, calando-se ao ouvir uma risadinha baixa do ninja. – Uau, um sorriso! Estamos melhorando.
— Estou feliz que tenha vindo. – ele disse sincero, tocando a mão dela que não pode deixar de sorrir, sentindo seus olhos ficarem marejados.
— Eu estava realmente preocupada. Não vim antes por que...não queria...atrapalhar...
— Isso não aconteceria. Somos um time ainda.
— E amigos. – ela completou
Neji admirou o rosto da kunoichi enquanto sentia os já habituais sintomas de quando estava na presença dela, ao mesmo tempo em que pensava que nem tudo havia mudado.
Assim, dois dias se passaram...
Dentro do clã Hyuuga, mudanças começavam a se firmar. Hinata surpreendeu a todos, ao acusar parte do antigo conselho de traição e atentado contra a vida de Neji, retirando seus títulos.
— Eu indico minha irmã Hanabi, Neji e Akihiko como novos membros do conselho do clã. – ela anunciou na reunião daquele dia, surpreendendo até mesmo os três jovens que até aquele momento não tinham ideia por que haviam sido chamados aqui. Como esperado, uma serie de burburinhos por parte dos outros membros começou, mas a líder não pareceu se abalar.
— Hinata-sama, você deve considerar que os três ainda são muito jovens. Sua irmã principalmente.
— Eu considero ações melhores que idade. E os três já provaram mais de uma vez sua força, sua dignidade e principalmente sua lealdade a mim. O que foi mais do que outros membros provaram, apesar de suas idades já avançadas. Assim, mais alguma questão? – Diante do silencio de todos, ela se voltou para os três – E quanto a vocês aceitam?
— Será uma honra. – Akihiko disse fazendo uma reverencia – Obrigado pela confiança.
— Você a mereceu. Como todos vocês.
***
Mas as mudanças não era apenas dentro do clã Hyuuga. Konoha inteira passava por um período de reestruturação e reabilitação, tanto externamente – aos poucos as casas e prédios destruídos pela Kyuube já estavam completamente refeitos – quanto internamente – após o incidente com o shinigami e o discurso de Naruto, os habitantes da vila da folha mudavam aos poucos de atitude. Parecia que finalmente Konoha havia encontrado a verdadeira paz...
...ou tanta paz quanto uma vila ninja pode ter.
— Mas que merda! Uchiha e Inuzuka, levem um grupo de apoio para a vila a oeste. – o chefe provisório de policia disse para os dois subalternos – Parece que um grupo de renegados acham que podem saquear as cidades sob a nossa proteção.
— Panacas. Posso acabar com eles sem precisar de reforço. – A uchiha disse animada com uma luta.
— São muitos e o reforço é para proteger os civis e garantir que eles não fugiram. Quero o relatório amanha na minha mesa. – disse sério fazendo os dois revirarem os olhos – E nenhuma morte de preferência ou necessidade de acompanhamento psiquiátrico, Uchiha.
— Sem graça.
O loiro deu um sorriso sacana antes de sair, como todas as tardes, para o local que todos já sabiam.
— Então, quem prender mais paga o jantar? – Kiba provocou fazendo a garota rir mais animada.
— Espero que esteja com grana, cachorro.
***
— Como se sente? – Sakura perguntou com preocupação, enquanto analisava os olhos do seu paciente mais carrancudo.
— Entediado. Com fome.
— Baka! Se você ajudasse, os testes não demorariam tanto. – ela resmungou dando um soquinho no Uchiha, antes de pegar alguns remédios.
— É obvio que o tratamento está funcionando, Sakura. – ele resmungou.
— Como pode ter tanta certeza?
— Por que eu posso ver essa ruguinha no meio da sua testa.
— Teme... – ela resmungou, quando ele a puxou para o seu colo. – Estamos no meu local de trabalho. Tenha modos.
Mas ele a ignorou e beijou seus lábios sabendo que ela se derreteria no mesmo instante, de fato como aconteceu.
— Você ainda vai ter que fazer outro teste amanhã. – ela disse com os lábios grudados nos dele, divertindo-se quando ele resmungou e se afastou. – A culpa é completamente sua por ter interrompido o tratamento.
— E aquelas enfermeiras não estão nem um pouquinho felizes por verem meu sofrimento dia após dia não é?! – ele ironizou, lançando um olhar para o corredor onde podia ver algumas das medicas que ele aterrorizou lhe lançando olhares vingativos.
Sakura riu.
— Bem, eu achei que você devia isso a elas. Logo você poderá voltar ao trabalho.
— Graças a você.
— E nunca se esqueça disso, quando estiver próximo de cansar de mim. – ela disse de brincadeira, mas ao virar-se notou que ele havia se aproximado e enlaçou sua cintura.
— Isso não vai acontecer tão cedo. – garantiu antes de voltar a beijar a rosada e novamente senti-la se derreter em seus braços.
Próximo deles, um coro de “aaahhhh” melosos foi ouvido, mas os dois nem se importaram presos demais no mundo próprio deles.
***
— Cheguei vovó.
Tsunade olhou para o aprendiz com irritação, mas naquele momento não tinha se quer condições de estender o braço e jogar o vaso mais próximo na cabeça daquele petulante. E tudo por que Shizune estava a aterrorizando desde aquela manhã com centenas de documentos que ela deveria assinar antes da chegada de Naruto.
— Já chega!!! – A loira rosnou depois de mais uma folha, e a secretária a olhou prestes a retrucar, mas foi impedida – Naruto chegou e isso quer dizer que o seu expediente acabou!! E com isso o meu sofrimento também... – ela resmungou para si mesma.
— Hokage-sama! Ainda há relatórios que você precisa dar uma olhada, posso ficar mais alguns minutinhos..
— NÃÃÃO!!! – A Hokage nunca pareceu tão aterrorizada em sua vida, mas logo tentou recompor-se diante do olhar zombeteiro do loiro – Quer dizer, eu não quero que se atrase para seu encontro. Kami sabe que você precisa – completou para a completa mortificação da mais nova.
— Uuuuhh Shizune-san tem um encontro... – Naruto cantarolou malicioso, divertindo-se com a vergonha da secretária.
— Naruto-san!!!!! – ela choramingou o fazendo rir.
— É brincadeira, shizune-san! Por favor, divirta-se! Eu ajudo a vovó a terminar o trabalho.
— Eu não sei se você é confiável! – ela olhou para os dois que tinham idênticos olhares de falsa inocência, mas por fim suspirou – Mas Kakashi vai estar passando a qualquer instante... – ela pensou em duvida, ainda que corada – Por outro lado, é meu trabalho e ele entenderia...
— VAI!!!!!! – Tsunade e Naruto disseram ao mesmo tempo, praticamente expulsando a jovem da sala.
— Espere, ela vai se encontrar com kakashi-sensei? – Naruto finalmente se deu conta e teve como resposta uma risada debochada da loira recostada na mesa.
— Ele finalmente teve coragem de chamá-la para sair. Ela quase desmaiou exatamente como Hinata fazia quando era mais nova.
Naruto deu uma risadinha.
— Eu confesso que tenho saudade disso.
— Baka!!!
— Então acho melhor começarmos heim. – ele se espreguiçou e a loira imediatamente tomou uma postura mais tensa.
— Você está pronto? – ela perguntou seriamente, vendo o brilho obstinado nos olhos azuis do rapaz.
— Estou sempre pronto.
Então em questão de segundos os dois loiros haviam retirado toda a papelada de cima da mesa que agora estava coberta com sake, cigarros, petiscos e cartas. E uma hora mais tarde...
— EU VENCIII ! RÁ!!! – Naruto cambaleou completamente bêbado enquanto Tsunade, igualmente chapada, olhava irritada para sua mão perdedora.
— VOCÊ É UM LADRÃO!!!
— MÁ PERDEDORAAA!!
— EU QUERO REVANCHEE!!
— EU QUERO MAIS SAKE!!
— EU TAMBÉM!!!
***
Shikamaru parou em frente a floricultura Yamanaka e ficou ali, por alguns minutos, apenas observando a mulher loira ajeitando as prateleiras floridas.
Ela continuava graciosa, ainda que apenas quem a conhecia sabia do fogo que carregava por trás daqueles olhos azuis cristalinos. Fogo esse que havia se extinguido há algumas semanas e dado lugar a uma falsa serenidade no intuito de esconder seus reais sentimentos. Sim, Shikamaru não precisava ser um gênio para ver isso, ele apenas conhecia Ino muito bem.
Quando ela virou-se de repente e finalmente percebeu sua presença, um sorriso terno se abriu em seus lábios, mas não chegou ao seus olhos.
— Shikamaru, não tinha de visto.
— Eu sei. – ele deu de ombros e finalmente se aproximou, pegando o vaso de flores que ela segurava e o levando até o balcão. – Você está bem?
Ela cantarolou em resposta, enquanto começava a embrulhar o vaso em cima do balcão para uma encomenda.
— E você? Quando vai deixar de enrolar a princesa e marcar a data do casamento? – ela perguntou sem tirar os olhos do trabalho e Shikamaru ficou satisfeito ao ouvir uma pontinha de ironia.
— Não é como se ela estivesse com tanta pressa. De qualquer forma, ela colocou na cabeça que como princesa de Suna, o casamento tem que ser lá e já até convenceu meus pais a passarem uma temporada lá. Problemático – resmungou.
— Você vai aguentar.
— Ino. – ele chamou a contragosto. Havia ido ali para uma missão nada fácil, mas achou melhor que a loira soubesse o mais rápido possível – Recebemos uma carta hoje. Gaara chega amanhã e os pais da princesa também para o casamento.
Houve um momento de silencio em que Shikamaru esperou uma reação, mas tudo o que a loira fez foi balançar a cabeça e voltar a olhar para o vaso a sua frente. Parecia nem ao menos tê-lo ouvido, não fosse o pequeno tremor em sua mão enquanto tentava fazer um laço de fita.
— Eu sei que você não quer conversar sobre isso, mas eu acho que...
— Kaori vai ficar radiante ao saber que os pais dela estão chegando. – ela o interrompeu, sua voz mansa e baixa – Ela não fala, mas eu percebo que ela sente falta deles.
— Ino...
— Apesar de ser uma princesa e tudo mais, ela é muito jovem ainda. E já tão cheia de responsabilidades.
— Ino..
— É engraçado. Eu vejo muita semelhança entre ela e a sua noiva.
— Ino!!!! – Dessa vez o ninja foi incisivo e segurou os ombros dela como se para despertá-la do seu torpor deliberado.
Mas quando ela o olhou, ele finalmente percebeu seus olhos cheios de água e rapidamente deu a volta no balcão e a puxou para um abraço forte.
— Perdão. Eu fui insensível.
— Como sempre. – ela resmungou entre soluços, deixando suas lágrimas molharem a camisa do ninja, com um choro que ela guardava há algum tempo – Mas eu te perdoo. Eu sei que teve boas intenções.
Eles ficaram assim por um tempo, antes que ele voltasse a falar.
— O que vai fazer?
— Não se preocupe.
— Você sabe que isso é impossível. Você é minha amiga. – ele rebateu a afastando para que pudesse olhá-la nos olhos e limpar suas lágrimas – Eu sei que você vai tentar abafar tudo e fingir que não tem nada acontecendo. – ele completou a fazendo rir, por seus amigos a conhecê-la tão bem – Mas esse não é um plano aceitável dessa vez.
— Eu sei. – ela suspirou, finalmente se recompondo e libertando-se do seu abraço – Mas eu vou resolver. Eu já sei o que fazer. Eu só preciso pensar um pouco mais e me preparar antes que todos saibam.
— O que você está aprontando? – ele perguntou frustrado. Sabia que a loira tinha um plano, e cada célula do seu corpo dizia que não seria um bom plano.
— Você vai saber na hora certa. Mas eu prometo que vai deixar tudo no lugar.
— Isso não me deixa mais calmo. – ele fechou os olhos em um suspiro, então foi surpreendido com um novo abraço da kunoichi.
— Obrigada por se preocupar comigo.
— Baka. Alguém tem que tomar conta de você. Afinal é uma cabeça oca.
Mas apesar das palavras, ele a abraçou de volta, e apoiou o queixo no topo da cabeça dela, tentando decifrar, não pela primeira vez, aquele enigma que era Ino Yamanaka.
***
Na manhã seguinte, mal o dia havia clareado quando uma pequena comitiva chegava nos portões da vila da folha.
Shizune não era ninja, mas naquele momento, podiam tê-la confundido tamanha a rapidez em que ela cruzava a cidade em direção ao prédio da Hokage. Ela subiu as escadas esbaforida, e abriu a porta em um rompante.
— HOKAGE-SAMA!! – gritou, e qual não foi a sua surpresa ao ver a sala completamente bagunçada.
Garrafas de sake amontoadas na mesa, junto com cartas, e no sofá ninguém menos que Naruto Uzumaki roncando alto enquanto segurava frouxamente uma garrafa quase vazia. Na mesa, em meio a bagunça, a própria Hokage dormindo profundamente.
Revoltante. Com uma veia saltada na testa, ela se lembrou das palavras dos dois que iriam terminar o trabalho e então o falso sorriso de inocência. Ela deveria ter imaginado.
De repente a garrafa que Naruto segurava se espatifou no chão e foi o bastante para os dois bêbados levantarem-se em um salto.
— Nani? Não se preocupe. Eu salvo a vila! – Naruto exclamou, atordoado
— Droga! Acho que pegamos no sono. – Tsunade resmungou finalmente acordando.
— A noite foi produtiva imagino. – Shizune ironizou e os dois loiros se entreolharam com idênticas expressões culpadas.
— Sabe o que é Shizune-san, nós trabalhamos muito e...bom, você sabe, até mesmo Hokages precisam relaxar. – Naruto riu coçando a nuca.
— Naruto poupe a saliva. Ela não vai acreditar em uma palavra. – A loira disse massageando as temporas já prevendo um piti da secretaria – A noite não deve ter sido tão boa, pra você chegar aqui a uma hora dessas. E ainda com essa cara.
Shizune bufou, lembrando-se do real motivo para ter ido até ali em seu dia de folga.
— Eu realmente não tenho tempo pra isso. Não com essa bagunça. Mas pra informação dos dois tarados, o encontro foi muito bem obrigada!! – ela finalizou corada, perdendo as expressões maliciosas dos loiros.
— Aee Kakashi- sensei não perdeu a prática pelo visto.
— Então o que raios você está fazendo aqui mulher? Por favor, você precisa de uma vida!
— O motivo que eu estou aqui é por que o Kazekage acaba de chegar na vila!!! E ele não está sozinho, a julgar pelas carruagens reais.
— Gaara está em Konoha. – Naruto murmurou surpreso, mas não tanto quanto a Hokage que franziu o cenho preocupada.
— O que ele faz de volta tão cedo?
— Eu não sei. Mas ele estará chegando aqui a qualquer minuto e vai encontrar essa grande bagunça!!! – ela disse já pegando alguns papeis na tentativa sem sorte de organizar a sala.
— Não se preocupe, Shizune-san. Kage Bushin!— e outros 4 Narutos chegaram para ajudar na faxina.
Eles terminaram em tempo Record, e sumiram no mesmo momento em que ouviram batidas na porta. Naruto tinha uma ultima garrafa a meio caminho da boca, quando foi fulminado pelo olhar da assistente.
— Nem pense nisso.
— Eu não posso estragar. Deve ser até uma ofensa aos deuses! – ele resmungou dando um ultimo gole e escondendo a garrafa ao mesmo tempo em que Shizune abria a porta.
— Kazekage-sama. – ela fez uma reverencia respeitosa.
— Gaara! – o loiro se aproximou do ruivo que surpreendeu-se ao vê-lo.
— Naruto. Não o esperava aqui tão cedo.
— Eu agora tenho algumas aulas com a vovó.
— Suponho que se refere a Hokage. – ele deu um meio sorriso notando a expressão fechada da loira atrás da mesa.
— Kazekage, eu não o esperava de volta tão cedo. – ela foi direta, a postura havia mudado e nem parecia a mulher irresponsável que Naruto conhecia muito bem. Ali, com o chapéu de Kage, ela tinha a postura de uma verdadeira líder.
— Eu espero não ser um incomodo. Mas tenho razões muito fortes para pedir uma nova mediação com a família real do fogo. Eu tomei a liberdade de trazê-los pessoalmente para tal.
Tsunade realmente surpreendeu-se ao ver o pai da princesa Kaori chegando com seu guarda costas e ele não tinha uma expressão nada boa.
Kami-sama a ajudasse, por que ela podia sentir cheiro de problemas. E um dos grandes.
***
Kaori abriu os olhos incomodada com a claridade, e espreguiçou-se lentamente antes de levantar. Contudo, imediatamente soube que havia algo de muito errado acontecendo.
Na cama ao lado, havia uma grande mala que Hime cheirava parecendo desconfiada. Nesse momento a porta se abriu e Ino yamanaka entrou trazendo mais algumas roupas recém passadas na quais ela colocou na mala, sem notar que a princesa já estava acordada.
Hime gemeu e recebeu um afago nas costas.
— Eu já disse que não posso levá-la por enquanto. Você vai ficar melhor aqui.
— Serva?
— Hei, já acordada tão cedo.
— O que está acontecendo?
Ino não respondeu de imediato, antes fechando a mala e então olhando-se no espelho de corpo inteiro. Só então Kaori notou que ela também já estava arrumada, mas não com suas roupas habituais de ninja, e sim com um conjunto confortável de calça e blusa. Os cabelos estavam soltos e eram penteados com delicadeza pela kunoichi grávida.
— Ino? – ela chamou baixinho com um péssimo pressentimento.
— O kazekage acaba de chegar em Konoha. – a loira disse em resposta, surpreendendo a princesa – Todos estão comentando.
Kaori achou que Ino estava com raiva, provavelmente fosse lhe pedir explicações por não ter contado da chegada do ruivo, mas esse embate não veio. Pelo contrário...
— Seus pais também vieram.
— Nani?
— Eu acho que o casamento vai ser adiantado.
A mais nova ainda tentava assimilar tudo, quando voltou a olhar para a mala em cima da cama.
— Essa mala é minha então? – concluiu, mas Ino a olhou com confusão e em seguida riu.
— Não. É minha. – diante do olhar de choque da princesa, ela respirou fundo e largou a escova, virando-se completamente para olhá-la – Eu estou indo embora Kaori.
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