Paradoxo

1 A história que você nunca conhecerá


Notas iniciais
Olá, olá! Bem, este é o primeiro capítulo. Não vou me demorar muito aqui, só desejar uma boa leitura!

***

Névoa.

Aquele tipo de atmosfera só poderia ser relacionado a névoa. Nublada, incerta, arrepiante...fria. Melancólica e monocromática. Perturbadora.

Dois vultos cortavam o borrão, porém igualmente indefinidos. Um dos vultos era negro como a escuridão que os rodeava em meio à névoa; o outro um misto de cores claras e escuras.

Ventava. Era a única explicação para ter movimento em um lugar tão frio, tão intimidante.

As duas formas agora se mexiam, como em uma dança ensaiada e guiada através da incerteza da névoa que se abria por onde as figuras passavam. Como cortinas sendo abertas para dar início a um espetáculo.

E a cena era familiar. Mesmo sem distinguir as formas, sem tecer o ambiente, sem ouvir a trilha sonora... Era como se aquilo fosse tão natural quanto respirar.

E, tão aleatória e abstratamente como se tocou, a breve cena se esvaiu em escuridão novamente.

***

Ikebukuro, 22 de abril de 2002.

Em um modesto apartamento em Ikebukuro, um despertador toca. Dito dispositivo mal sabe do perigo que corre ao executar sua função até ser completamente estilhaçado por um firme punho no criado-mudo de um certo barman.

Dita pessoa celebra o feito com um baixo e rouco praguejar antes de rolar em sua humilde cama para encarar seu desbotado teto. Demora mais alguns minutos em um estado de transição entre desacordado e desperto, desconectando-se do sonho que mais tarde tentaria lembrar, para o homem perceber que o despertador só queria assisti-lo em cumprir seus horários. Infelizmente, tarda ao sujeito perceber isso. Olhos cor de avelã arregalam-se ao extremo quando finalmente o faz.

Merda! Em um estalo, o loiro está de pé, atrapalhando-se para vestir seu uniforme diurno antes de tropeçar até a cozinha. Enquanto o café é passado, quase arranca a porta da geladeira para reunir ingredientes para uma torrada — tradicionalmente seu café da manhã desde que começou a trabalhar em turno inverso.

Dez minutos depois, após acabar de se arrumar, o homem corre porta afora até o depósito de móveis.

— Heiwajima, estávamos aguardando você. Pode subir. — o chefe da equipe de mudanças cumprimenta o loiro e torna a dirigir-se aos outros funcionários: — Hibari, você dirige. Nagato fica atrás pra receber a mobília daqui a pouco. Os outros venham comigo para pegar os últimos itens do depósito.

E com um bater de palmas, todos os empregados se ocupam em seguir as instruções dadas. Alguns seguem o chefe da equipe, enquanto um sobe na traseira e dois dão a volta no veículo pesado e sobem na dianteira. Duas portas batem em uníssono e os dois funcionários designados se acomodam nos assentos. Hibari suspira e comenta:

— Acordou com o pé esquerdo?

Heiwajima, embora não estando no melhor dos humores por causa do sentimento desconfortável causado pelo sonho melancólico, desabafa em um suspiro:

— Dormi meio mal.

O outro empregado simpatiza com um resmungo de compreensão e gira a chave na ignição. A relação de Heiwajima com seus colegas de trabalho é limitada a poucas palavras de gentileza por educação, perfeitamente cabível a seu temperamento explosivo. Mesmo assim, a pergunta descompromissada do colega não o incomoda em nenhum sentido.

Passados alguns minutos, dois empregados voltam carregando um sofá de dois lugares e são ajudados pelo que ficou para trás a encaixá-lo no compartimento lotado do caminhão. Um ruído estrondoso e duas batidinhas na superfície metálica depois, o veículo arranca e se dirige à casa do próximo cliente.

O passado de Heiwajima Shizuo não pode ser considerado trágico, diferentemente dos passados das infelizes vítimas de sua fúria irrestrita. Considerada uma benção por muitos, sua força monstruosa o amaldiçoa desde o dia em que arrancou a geladeira de sua cozinha da tomada e tentou acertar o irmão com ela. Seu pavio curto somado ao limitador pifado de seu cérebro o torna uma máquina mortífera ambulante, mesmo que contra sua vontade.

Uma maldição dupla: além de machucar seus entes queridos, rende-lhe um valor salgado de indenizações mensalmente. E é por esse motivo que, mesmo tendo voltado ao meio-dia do serviço de frete, o fortíssimo de Ikebukuro agora ajeita a gravata borboleta diante do espelho antes de enfrentar o caos de fim de expediente das ruas rumo a seu próximo emprego.

O bar é elegante e sofisticado, mas nada tão refinado o ponto de ser considerado um estabelecimento luxuoso. Ao entrar pela entrada de funcionários, o loiro é cumprimentado pelos colegas e chefe e segue em silêncio para trás do balcão.

— Desse jeito você vai acabar com a cara toda enrugada ainda antes dos 30, Shizuo-kun.

Shizuo desprende a atenção do copo que esfrega com um pano e seus olhos castanho-amarelados encontram outro par, mais escuro e familiar.

— Tom-senpai. Há quanto tempo.

O mulato sorri e se senta em um banco ao balcão.

— Não tinha certeza se você estaria aqui hoje, mas que bom que acertei. — Tom apoia os cotovelos na superfície lisa e entrelaça os dedos em frente ao queixo — E já disse pra parar de me chamar de “senpai”, não estamos mais no colégio.

— Estou aqui todas as noites, Tom-san. — o barman esclarece, corrigindo-se, mas logo adiciona: — A trabalho, claro.

A honestidade do loiro diverte o moreno, que ri brevemente enquanto Shizuo desliza um copo pelo balcão e serve uma dose de uísque para seu velho senpai. Depois de alguns momentos em silêncio enquanto o mais velho beberica seu drinque, o loiro se entrega com um suspiro.

— O que lhe aflige, Shizuo? — Tom enfim indaga, pondo seu copo de volta na superfície com um tilintar do gelo.

Mesmo que tenha se negado e evitado pensar sobre aquilo o dia inteiro, o barman sabe exatamente o que lhe deixou tão perturbado desde a manhã. Aquele sentimento melancólico transformou-se em um sentimento de vazio ao longo do dia que o fez sentir-se como se estivesse fazendo tudo em vão, ou para uma causa incompleta. Porém não é algo que se explica facilmente, e o homem demora mais alguns minutos para formular uma resposta. Tom aguarda pacientemente e até se surpreende quando a frase vem mais cedo do que o esperado:

— Tom-san...Já sentiu que tem algo faltando em sua vida, sem saber o que é?

O moreno de dread locks conhece seu amigo bem o suficiente para saber que algo aconteceu, já que ele parece nunca pensar — ou pelo menos verbalizar — sobre questões tão profundas quanto essa.

— Bem...atualmente, seria uma dama... — ri em tom brincalhão para tentar amenizar o clima e então pigarreia — Mas procuro sempre alcançar meus objetivos, mesmo que os meios não sejam lá tão prazerosos. Se bem que eu acho que ninguém nunca se sente completo...

Mais um longo silêncio decorre enquanto o mais novo parece absorver e processar o que seu ex-senpai lhe forneceu. Entretanto, antes que Tom possa retomar o assunto ou mudá-lo, uma linda mulher se senta ao balcão no banco adjacente e pede um drinque, o que Shizuo silenciosamente assente com a cabeça e navega pelas prateleiras em busca dos componentes de tal bebida.

Minutos depois o barman volta com o Bloody Mary perfeitamente composto e o coloca em frente à moça, que sorri timidamente e sussurra um ‘obrigada’. À medida que o bar começa a encher, Tom se ocupa em iniciar e manter uma conversa descontraída com a moça enquanto o loiro cruza o corredor detrás do balcão inúmeras vezes de um lado a outro, selecionando e servindo licores e outros destilados pela extensão do mármore.

Tão absorto está em seu trabalho que só percebe que o assunto da conversa entre seu amigo e a linda morena ao seu lado era nada menos que “o barman fofo que me serviu” quando a conta dela vem com oito números a mais que o necessário, abaixo de sua assinatura. E, é claro, quando o moreno vai fechar sua própria e começa a falar sobre ela.

— Vai ver seu vazio seja mesmo uma garota, Shizuo. Dê uma chance a ela e a si mesmo. — põe a mão no ombro do loiro, fitando-o com um olhar gentil detrás de seus óculos — Você mudou muito desde a época do colégio.

Embora não muito motivado a seguir o conselho do amigo, o loiro sente-se honrado pela preocupação de Tom.

— Obrigado, Tom-san. Vou tentar. — finalmente responde com um sorriso sutil no rosto ao entregar a nota fiscal ao seu antigo sênior de escola.

Algumas horas depois de uma das poucas pessoas que Shizuo pode chamar de “amigo” ir embora, ele se despede de seu chefe e limpa o balcão uma última vez antes de enfiar as mãos nos bolsos e encarar o ar úmido da madrugada de volta para casa.

Observando o ar de seus pulmões dançar no ar acima de seu nariz ao expirar, o homem mais forte de Ikebukuro se sente mais deslocado do que o normal naquele distrito caótico da cidade que nunca dorme. Algo não está certo; simplesmente falta algum sentido no cotidiano dele que Shizuo sente jazer no inquietante sonho da manhã passada.

Por ora, a única saída é ir para casa e tentar voltar àquele universo gelado, melancólico...

...E estranhamente nostálgico.



Ikebukuro, 25 de abril de 2002.

No intervalo do trabalho diurno, recostado à lateral do caminhão de mudanças em frente a uma lanchonete, o loiro é surpreendido por uma voz animada:

— Oh! Shizuo! Que coincidência!

O tom de voz é irreconhecível para o fortíssimo de Ikebukuro, visto que pertence a um dos poucos componentes de seu círculo de amigos. Vira-se para o moreno de óculos trajando um jaleco e acena com a cabeça.

— Yo, Shinra. Há quanto tempo.

O médico clandestino sorri para o amigo e se aproxima depois de ter a confirmação sobre a identidade dele.

— O que aconteceu? Você não estava trabalhando naquele bar a algumas quadras de sua casa? — o mais novo indaga, inclinando a cabeça para ressaltar a confusão.

— Sim, ainda trabalho lá. — o mais alto confirma, lançando um olhar para trás de si — Mas peguei outro emprego para pagar as contas pendentes.

— Ah, entendo. — Shinra ri levemente e torna a fitar o loiro — Você anda dormindo bem? Está com os olhos meio inchados...

Shizuo parece um pouco surpreso com o comentário, mas enquanto pensa na razão por trás de suas sonecas interrompidas, avista o motorista do caminhão voltar de dentro da lanchonete.

— Ah, ando tendo uns sonhos estranhos... Escuta, Shinra, preciso ir. Foi bom ver você.

— Ahhh, espera! — antes que o barman possa dar outro passo, o médico agarra a parte de trás de sua camisa — Celty e eu vamos fazer uma janta especial para amigos sábado à noite, queria saber se você poderia ir. Faz tempo que vocês não se veem...

Fora os convites de seus colegas para encher a cara sextas à noite, Shizuo nunca é convidado a nada; justamente por não ser bem-vindo em lugares em geral. Embora Shinra seja um de seus poucos amigos, o loiro sabe que a amizade deles está longe de ser uma amizade convencional, onde dois amigos saem para beber e falar sobre mulheres. Além disso, o médico tem sua própria vida, seu próprio emprego, sua própria esposa. Esposa essa que também faz parte da limitada lista de pessoas que apreciam a companhia do homem mais forte de Ikebukuro.

De qualquer forma, mesmo que não acostumado a demonstrar, Shizuo sente-se acender por dentro à oferta de uma reunião de amigos.

— Claro, Shinra, valeu. Mas agora realmente preciso ir...

— Ah, sim, sim! Desculpa! — Shinra sorri com todos os dentes e abana os braços atrapalhadamente antes de acenar uma despedida ao amigo, que já sobe no assento do carona e bate a porta com moderada força — Te esperamos lá, hein! Vamos convidar o Kadota também!

A nova informação finalmente arranca um leve sorriso do barman.

— Até mais, Shinra!

O motor ruge e Shinra é deixado a sós com a fumaça do caminhão.

***

Embaçado.

A umidade no ambiente embaçava os sentidos e a lucidez dentro do sonho, mas a coerência lentamente se reintegrava.

Os dois vultos desfocados agora ganhavam contorno, embora ainda predominantemente indistinguíveis.

Duas sombras. Dois homens. Dois corações batendo. A batida acelerada de um par de corações ressoava à distância como se a cena estivesse submersa.

Como se em transição de uma pintura impressionista para uma expressionista, uma pincelada se destaca.

Um sorriso.

E como tentativa de responder ao mistério daquele fenômeno todo, o sorriso se deforma em três sílabas mudas:

Izaya

***

Ikebukuro, 26 de abril de 2002.

De todas as repetições do sonho daquela segunda-feira, essa definitivamente foi a mais clara. Ao contrário do esperado, Heiwajima Shizuo acorda calmamente, demorando-se em revelar as íris cor de avelã à manhã do último dia útil da semana. O nome ainda assombra seus lábios.

Durante a meia hora que o homem leva a se arrumar e a deixar seu apartamento em direção ao local designado, aquelas três sílabas nunca pronunciadas são tocadas e rebobinadas infinitamente em sua cabeça. Shizuo só é tirado de seu transe quando chega ao armazém e é cumprimentado pelos colegas. Acena em resposta e se encarrega de empilhar as caixas e levá-las ao compartimento do caminhão de mudanças.

— Noite ruim? — pergunta uma voz detrás do loiro, e este não se incomoda em tentar lembrar o nome do dono dela.

— Sonhos conturbados. Só isso. — responde, dando de ombros.

— Hm. — o outro ergue as sobrancelhas e prensa os lábios em compreensão, anunciando o fim da conversa.

Horas mais tarde, o loiro enxuga copos de vidro detrás de um balcão polido com uma expressão tão concentrada que sua mente acaba divagando.

— Shizuo-kun, você anda distraído ultimamente...

— Como assim? — o barman desprende o olhar do pano e fita seu chefe com uma expressão ainda séria, mas confusa.

— Bem, para começar, você está limpando um copo descartável. Há cinco minutos.

Um silêncio se estende nos breves segundos em que o fortíssimo de Ikebukuro pisca inúmeras vezes e olha para baixo. É verdade. Praguejando contra si próprio, Shizuo amassa o copo plástico e pisa com força no pedal da lata de lixo para livrar-se dele.

— Aconteceu alguma coisa, Shizuo-kun? — a preocupação profissional do chefe não lhe oferece o conforto de uma possível compreensão, então o loiro prefere chacoalhar a cabeça negativamente e chamar seu intervalo.

Outro mau hábito do peculiar habitante de Ikebukuro é interpretar o papel de chaminé ambulante quando incomodado ou irritado. O movimento de pescar a carteira e o isqueiro do bolso das calças e acender a ponta do cigarro na boca é tão automático para Shizuo quanto enterrar seu punho nas fontes de sua irritação — quando possível, claro. Entretanto, este não é o caso, então o barman opta por inflamar seus pulmões com câncer enrolado em papel.

Heiwajima Shizuo, o “monstro” de Ikebukuro, não é do tipo supersticioso. A única coisa que segue fielmente é a própria intuição, e raramente ela o falha. E, neste caso, sua intuição, desde aquela manhã de segunda-feira, vem lhe sussurrando que aquele sonho significa algo. Além do mais, um nome tão distinto, tão único como “Izaya” não poderia ser fruto de um sonho — ou pesadelo — comum. Quase como uma premonição de uma memória; um paradoxo de reminiscência e expectativa.

Mas quando o loiro volta a seu trabalho depois do quarto cigarro, deixa as teorias de lado até o fim do expediente.

Ikebukuro, 27 de abril de 2002.

— Ah! Que bom que você veio, Shizuo-kun! — o médico cumprimenta o amigo alegremente antes de focar o olhar nos círculos escuros abaixo dos opacos olhos castanho-amarelados — Nossa, você parece péssimo! O que aconteceu?

A personalidade bizarra de Shinra é tão conhecida por Shizuo quanto a personalidade sincera e justa do loiro é conhecida pelo moreno de óculos. Esses fatos acabam por anular qualquer máscara que um deles pudesse tentar manter perante o outro.

— Pesadelos. — o mais velho responde, esboçando um sorriso apologético ao adentrar o apartamento do médico clandestino — Não ando dormindo muito bem.

— Tão intensos assim? — Shinra franze as sobrancelhas e pressiona os lábios em uma fina linha, levando a mão ao queixo — Eu posso te receitar algum remédio para ajudar com isso, se quiser.

— Obrigado, mas não. — Shizuo dispensa, jogando-se ao sofá com um suspiro — Não gosto da ideia de ter que usar químicos para conseguir uma noite decente de sono.

— Diz o cara que não tem um osso no corpo que ainda não tenha sido quebrado... — tão logo zomba se arrepende, sob o olhar mortal lançado direcionado a si pelo amigo — Okay, okay, desculpa. Psicologia não é exatamente minha área, mas quer falar sobre esse sonho?

Antes que o barman possa responder, entretanto, leves passos são ouvidos no corredor. Os dois homens voltam a cabeça em direção à porta que leva aos quartos e encontram a mítica dullahan trajando um vestido solto preto até os joelhos, realçando o verde de seus olhos no rosto delicado adornado por mechas castanho-avermelhadas.

— Ah! Celty, você está maravilinda esta noite! Nem maravilhosa, nem linda, nem fabulosa... Ah, simplesmente não há palavras para descrever sua imponente belez—gh-! — as declarações incondicionais de amor do médico tarado são interrompidas por um golpe em seu abdome, repetido algumas vezes até a fada irlandesa julgar seguro deixá-lo sozinho. Em seguida, dirige sua face lindamente esculpida a fitar o loiro sentado na sala de estar.

— Oi, Shizuo! Há quanto tempo. — sorri ternamente ao ver o amigo, mas logo assume uma expressão apreensiva ao notar o cansaço estampado em sua cara — O que houve? Não me diga que algum familiar morreu!! Kasuka-kun está bem?!

A preocupação da lenda urbana incita um pudico sorriso no rosto desbotado do barman, que logo trata de esclarecer:

— Celty, calma. Só ando tendo sonhos desagradáveis, nada demais.

A dullahan parece um pouco cética, querendo protestar, mas o sorriso cansado de Shizuo, embora a preocupe, a faz entender que o que o amigo precisa é de apoio, e não perguntas que aparentemente nem ele sabe responder. Por fim, Celty suspira, se aproximando e pousando uma mão no ombro do barman suavemente:

— Não vou te pressionar, mas se quiser conversar, sabe que sempre pode falar comigo e com Shinra, né? — sorri carinhosamente, desferindo uma pontada de ciúmes no anfitrião.

— Obrigado, Celty. — o loiro sorri de canto para a amiga, em seguida olhando para o médico que já mostra indícios de um bico de irritação — Mas acho que você deveria dar mais atenção àquela criança ali que você chama de namorado.

A lenda urbana pisca algumas vezes antes de corar levemente e virar-se para fitar o moreno, que sorri estupidamente quando seus olhares se cruzam. Celty balança a cabeça com um suspiro, fazendo com que Shinra estampe uma expressão cômica de mágoa em seu rosto.

Vendo aquela cena toda, Shizuo acaba tirando sua consciência do sonho perturbador. O nome ainda ecoa em sua mente, incessantemente, como uma sequela para castigá-lo. Por que, entretanto, o homem mais forte de Ikebukuro não conseguia imaginar.

Tirando-o de seus pensamentos nublados, a campainha toca.

— Ah! Deve ser o Kadota! — Shinra alegra-se novamente e dirige-se com um sorriso até a porta, que abre com um leve rangido. — Bem-vindo!

— E aí, Shinra? — o outro moreno sorri sutilmente de volta, encaixando a expressão perfeitamente em seu semblante robusto.

— Entre, entre! Shizuo chegou há pouco, também! — disse, gesticulando apartamento adentro — Vocês dois coloquem o papo em dia enquanto eu e o amor da minha vida acabamos de cozinhar o fruto de nossa ternura~

Kadota revira os olhos enquanto a porta é fechada atrás de si, logo depois encontrando olhar desbotado do loiro no sofá, que faz uma breve saudação com a mão com um sorriso amarelo. Celty e Shinra dirigem-se à cozinha em meio a declarações de amor e agressões físicas leves.

— Shizuo! Há quanto tempo! — sorri genuinamente, dando tapinhas no ombro do amigo antes de juntar-se a ele no sofá — Como vai a vida? Você não me parece lá muito bem... — franze o cenho em preocupação quando nota as olheiras do barman.

— Estou bem, só ando dormindo pouco por conta de uns sonhos meio estranhos... — Shizuo coça a cabeça timidamente, desacostumado a toda aquela preocupação.

— Ah, entendo... — o moreno balança a cabeça pensativamente, olhando para nenhum ponto específico no chão antes de tornar a fitar o loiro — Às vezes ajuda se você discute-o com alguém. Se precisar...

Novamente, Shizuo sorri timidamente. O desconforto infligido pelo sonho-pesadelo lentamente é substituído pelo conforto de saber que pode contar com seus amigos, mesmo achando que não merece tal tratamento.

Sua força sempre acaba ferindo seus entes queridos. Heiwajima Shizuo aprendeu isso por experiência, chamada comumente de “tentativa e erro”. Desde pequeno, seu controle era limitado e, em algum ponto da vida, parou de se importar. Consequentemente, decidiu afastar-se das pessoas, mesmo que querendo justamente o contrário, para evitar machucá-las.

Mesmo assim, algumas pessoas permaneceram em sua vida: Kasuka, Shinra, Kadota, Celty, Tom... Assim como Shizuo, não são pessoas comuns, porém longe de serem “monstros” como ele. Até Celty, uma criatura mítica, se comporta mais civilizadamente do que o loiro.

De qualquer forma, o barman não rejeita a companhia dos amigos; pelo contrário: é grato pela amizade deles, e a valoriza mais do que a própria vida, até.

— Obrigado, Kadota. — responde, finalmente, com um sorriso acanhado que o faz parecer mais jovial em contraste à aparência abatida de ultimamente.

— Disponha. Amigos são pra isso, afinal! — Kadota dá um empurrão descontraído na lateral do amigo com o ombro, parecendo satisfeito com o efeito de suas palavras.

É nesse clima de confraternização que o anfitrião aterrissa, trajando um avental sobre sua roupa casual e um par de luvas de cozinha.

— O jantar está pronto! Vamos comer!

Enquanto os dois convidados sentam-se à mesa, os anfitriões dispõem algumas panelas e travessas sobre a mesa. A fumaça subindo em espirais dançantes pelo ar carrega o cheiro delicioso de espaguete à bolonhesa, sugerido pela dullahan ao ter assistido um programa de culinária uma semana atrás. Além do cheiro delicioso, a aparência já era o suficiente para dar água na boca, e logo todos os presentes já se serviam e devoravam avidamente a refeição.

Shizuo, porém, ainda sente-se incomodado pelo nome. Onde já ouvira ele antes? Parecia familiar. Será que foi um colega nosso? Se for o caso...

— Shinra, o nome “Izaya” lhe soa familiar?

O loiro imediatamente se arrepende da pergunta ao ouvir um garfo cair estridentemente sobre o prato, lhe rendendo um sobressalto que o faz levantar a cabeça, alarmado. Todos parecem ter a cabeça virada em sua direção com a mesma expressão, estáticos: os olhos arregalados, as feições tensas, uma dor sufocante nos olhos.

Depois de longos momentos em silêncio, Shinra engole em seco e troca um olhar significativo com Kadota, que pigarreia, olhando para seu prato antes de virar-se novamente a Shizuo:

— Lembro de já ter ouvido esse nome. Acho que era alguém da escola. Por que pergunta? — o moreno parece estranhamente tenso, contrapondo sua expressão forçadamente indiferente.

O sentimento inquietante agora quase sufoca o barman, então antes que acabe arruinando ainda mais o clima sereno, coça a cabeça e dá de ombros nervosamente.

— Ah... por nada, não. — força mais uma garfada da massa agora insossa garganta abaixo — Só ouvi por aí e me soou familiar.

A aura antes leve do ambiente parece arrastar todos os presentes para debaixo da terra, fazendo com que Shizuo tenha vontade de bater a cabeça contra a parede até um dos dois quebrar. Provavelmente seria a parede.

— Pois é. — Kadota confere Shinra, que morde o lábio inferior com o olhar fixo na comida à sua frente, ignorando até o olhar preocupado a mão de Celty sobre a sua — Vou levar meu prato para a cozinha, alguém mais já terminou?

— Pode deixar que eu levo o meu. — Shinra se pronuncia, com um sorriso forçado, e levanta-se com o prato metade cheio — Desculpe, minha linda Celty, mas não estou com muita fome. Prometo que vou comer mais da sua deliciosa comida depois. — dirige um olhar apologético a Shizuo antes de ir com Kadota à cozinha.

Ver o humor do médico afundar tão bruscamente faz o peito do loiro apertar-se e contorcer-se dolorosamente, mesmo sem saber o motivo. Quer perguntar, mas com aquele tipo de expressão e clima, não se atreve nem a dirigir a pergunta a Celty.

E é a pergunta descuidada que abruptamente encerra o ânimo da noite. Após tirarem a mesa, Shizuo sente-se esmagado pelo desconforto e a ponto de por para fora a janta inteira, então desculpa-se e despede-se dos outros nervosamente antes de ser levado à porta pelo anfitrião.

— Desculpa por perguntar, Shinra. Eu juro que não foi por mal. — se lamenta pela enésima vez.

— Não é nada, só algumas lembranças que prefiro não trazer à tona... — Shinra sorri com os lábios cerrados, e o loiro consegue perceber a melancolia por trás dos olhos geralmente alegres e vívidos.

— Sem problemas. De novo, desculpa. — baixa o olhar para o chão, mas ergue-o novamente quando sente a mão do amigo em seu ombro.

— Já disse que não tem problema, Shizuo-kun. — sorri agora genuinamente, ainda que sutil.

Pelo menos esse gesto cala o barman, que sorri apologeticamente de volta e acena uma última vez para os outros dentro do apartamento antes de entrar no elevador do prédio. Seu destino não é seu apartamento, entretanto, porque o homem sabe que não vai dormir aquela noite.

***

Vozes.

Ao invés de batidas de coração, agora duas vozes cortavam o silêncio, embora abafadas. Reconhecia uma delas: grossa, grave, gutural. Um tom familiar de raiva; puro ódio transbordando por sua garganta, vibrando insultos pelo ar.

A outra era arrastada, mais fina. Cantarolada, confiante, cortante. Instigava os nervos de quem a ouvisse, como se penetrasse na pele e tencionasse os músculos da vítima do timbre dançante.

As figuras também eram mais delineadas, e agora Shizuo conseguia se enxergar no sonho. Corria avidamente atrás de uma outra figura; um borrão escuro que se fundia às sombras da noite. Estranhamente, porém, conseguia focá-la como se fosse o único motivo de sua existência. Com isso, percebia alguns traços peculiares: o contorno esguio, ágil; um vago odor desconcertante, pontas de pelos claros flutuando em suas vestimentas esvoaçantes pelo movimento...

Os arredores também se definiam. Arranha-céus, concreto, ruas, veículos, luzes...avenidas, ruelas, becos... todos elementos passageiros em seu campo de visão, rapidamente deixados para trás como se em um filme infinito.

Lua.

Uma imponente lua cheia banhava as sombras da metrópole, marcando o céu privado de estrelas.

De repente, o cenário congela. A silhueta escura, de costas, lentamente se vira, mas Shizuo não tem tempo de ver sua face. Novamente, os lábios se partem; mas dessa vez, uma voz ressoa alta e clara na transição entre sonho e realidade:



Shizu-chan.

***

Ikebukuro, 30 de abril de 2002.

— IZAYA!

O chamado é tão automático e desesperado que clareia toda e qualquer dúvida que o loiro possa ainda deter sobre o sonho: ele definitivamente significa algo. Principalmente se levar em conta o estado irritado em que acordou ao som de uma simples palavra.

Olhando pelo lado bom, quanto mais clara a premonição — chamar de sonho é subestimá-lo -, mais perto Shizuo sente-se de descobrir a origem do “vazio” lhe assombrando. Por outro lado, o sono faz-lhe falta.

Desde que aquele sonho tocou em seu sono pela primeira vez, vem sendo repetido todas as noites, cada vez mais nitidamente. Talvez realmente devesse falar com alguém, colocar para fora; mas algo o impede. Sente como se fosse pessoal demais para envolver terceiros.

Shizuo mal tem forças para levantar-se e cambalear até o banheiro, mas quando segura com força a cerâmica fria da pia para manter-se firme perante o espelho, espanta-se:

Seu corpo todo treme violentamente.

Tenta forçar-se a parar, mas falha miseravelmente, achando a solução de tomar uma ducha quente para acalmar os nervos.

Mesmo depois de meia hora no banho, continua tenso. Seu estômago revira-se e reclama ruidosamente, seja pela comida que não consegue fazer seu cérebro se concentrar em digerir ou pela falta da mesma. O que está acontecendo...?

O relógio de parede — o único que se salva em sua casa — tortura-lhe avisando que é muito cedo para ir trabalhar. Decide, mesmo assim, que será levado à loucura se permanecer naquele apartamento claustrofóbico por muito mais tempo, e sai de casa sem ter comido nada.

Perambula pelas ruas desertas de Ikebukuro, cerrando os punhos ao reconhecer o mesmo cenário do sonho. Tenta identificar referências exatas da paisagem dele, mas acaba frustrado pela inexatidão de suas memórias. As únicas coisas claras em sua mente são o nome da figura misteriosa e uma distorção do seu próprio nome, pronunciada por aquela voz inquietantemente familiar incessantemente em seu cérebro. Quando se dá conta, já acabou com a carteira de cigarros que comprou logo depois de deixar seu apartamento.

Não demora a notar, em um relógio na rua, que já pode tentar distrair-se com o trabalho. Praticamente se arrasta até o armazém, como um morto-vivo, mas consegue manter uma postura decente ao se deparar com o chefe.

Este, porém, não se convence.

— O que diabos aconteceu com você, Heiwajima?! — franze o cenho e arregala os olhos para a figura acabada do loiro, que mantém uma expressão desconcertada estampada.

— Não ando dormindo direito, só isso. — dá de ombros, pronto para passar pelo chefe quando este o barra e o fita com uma expressão severa.

— Do jeito que você está, mesmo com sua força, vai acabar vacilando. Vá para casa e tente dormir um pouco, pelo amor de Deus.

O argumento do chefe é provado imediatamente, quando Shizuo simplesmente o encara inexpressivo por alguns instantes, só então parecendo registrar as palavras.

— Não posso matar trabalho por causa disso, senhor...

— Não é “matar”, estou te dispensando do trabalho. Agora xô, vai pra casa. — o homem abana as mãos vagamente e vira-se para a entrada do armazém: — Okay, homens! Nakota, você vem comigo. Akira, vai ajudar o Hiragi...

Deixado sozinho em questão de segundos, o barman pisca várias vezes antes de massagear a ponte do nariz com o polegar e o indicador, sentindo uma dor de cabeça ameaçar seus últimos resquícios de paz.

Resolve, a contragosto, aceitar a oferta de Shinra e confiar seu sono à medicina. Caminha calmamente até o apartamento do médico clandestino e bate à porta do segundo andar. Quem responde é a dullahan.

— Shizuo? Shinra não está aqui, o que-- — o olhar esmeralda pousa nos olhos gastos e inchados do barman — O QUE ACONTECEU?! AGORA REALMENTE PRECISAMOS CONVERSAR! — e já se encontra empurrando o loiro porta adentro sem praticamente esforço algum.

Prepara um chá às pressas enquanto o amigo acomoda-se na sala de estar e absorve seus arredores, passando a chacoalhar a perna incessantemente como substituição de um cigarro. Não poderia possivelmente incomodar o casal impregnando o cheiro de fumaça no apartamento.

— Conte-me o que está acontecendo, Shizuo. Pode me falar tudo. — Celty o fita do outro lado da mesinha de centro, onde pousa uma xícara quente de chá verde.

E então Shizuo suspira e descarrega todo o conteúdo do seu inconsciente das últimas semanas para os ouvidos da amiga. Como começou, a sensação que lhe transmite, a progressão da nitidez dos elementos da cena, o sorriso, a voz, os nomes... E a irlandesa parece devorar cada palavra com seus olhos ternos.

— Hoje foi o mais real. O mais nítido. E aí meu nome...é meu nome, né? “Shizu-chan”...por algum motivo, me dá nos nervos, mas parece tão familiar... — finaliza, encarando o copo de chá que acabou em suas mãos, agora já com o conteúdo na metade.

O apartamento todo permanece em silêncio por um tempo incontável até que Celty levanta-se e contorna a mesa para sentar-se ao lado do loiro. Parece tentar cruzar as informações recebidas com outras em sua cabeça repleta de memórias.

— Eu não sei muito sobre a história, mas... — começa em um tom baixo, receoso, mas ainda assim audível — Sei que, na época do ensino médio, Shinra tinha um amigo. Não costumava falar muito dele, mas me lembro de ter ouvido falar de Izaya.

Shizuo imediatamente levanta a cabeça e fita a dullahan, mas esta não encontra seu olhar.

— Talvez tenha sido no segundo ou terceiro ano, não lembro bem, mas Shinra de repente passou umas boas semanas estranhamente quieto, e depois nunca mais mencionou o nome do suposto “amigo”. — Celty finalmente torna a olhar o loiro, mas logo desvia o olhar novamente, como se incerta no que fala — Na época, resolvi não perguntar, achando que pudessem ter se envolvido em uma briga. Mas aquele dia, na mesa, Kadota parecia saber de alguma coisa também e, sinceramente, nunca vi Shinra tão abalado. Me pergunto o que esse “Izaya” deve ter feito para causar reações tão extremas tanto em Shinra quanto em Kadota...

Embora tenha suas próprias dúvidas, o loiro sabe do que a amiga está falando. Realmente, é chocante ver seus dois amigos com expressões tão fora do comum; é natural que cause não só desconforto, mas curiosidade.

— Mas isso são só especulações! — a dullahan se precipita, abanando as mãos freneticamente — O que eu realmente sei é o que ouvi de Shinra. E, sinceramente, prefiro não saber mais, se vai deixá-lo tão abalado...

Celty baixa o olhar aflito para suas mãos pousadas no colo, e Shizuo toma a postura como limite de sua insistência.

— Obrigada, Celty. — pousa a própria mão sobre a da amiga, forçado um meio sorriso quando esta torna a fitá-lo — Não queria incomodá-la. Vim aqui pelos remédios que o Shinra mencionou...

Leva alguns instantes para a anfitriã concluir sobre o que o homem está falando, mas logo assente com uma breve interjeição de entendimento e some nos corredores do apartamento. Retorna poucos minutos depois com uma caixinha de comprimidos.

— Estes são bem fortes, — explica — mas como você é você, vai funcionar normalmente.

Shizuo escuta as instruções com cuidado e agradece polidamente antes de se despedir de Celty e retirar-se para seu cárcere privado. No caminho de volta, tenta calar a voz infinitamente ecoando em seus ouvidos.

Abomina a ideia de usar remédios para dormir, uma coisa supostamente natural, mas acaba se rendendo para não prejudicar seus empregos. Tão logo chega em casa, enche um copo d’água e toma três comprimidos de uma só vez antes de desabar na cama de solteiro.

Pela primeira vez em muito tempo, afunda em um sono sem sonhos.

— Aqui está. — o barman loiro deposita um martini de maçã sobre o balcão gentilmente.

— Obrigado. — Tom sorri, encarando por tempo demais o rosto do amigo para o gosto do mesmo — Você parece detonado. O que aconteceu?

Shizuo agita um recipiente de metal fechado nas mãos por alguns segundos e segue despejando o conteúdo do mesmo em um copo alto, adicionando gelo e finalizando com um canudo personalizado. Antes de voltar para responder o ex-senpai, entrega o drinque solicitado a uma pessoa na ponta do balcão.

— Ando tendo alguns pesadelos. — se debruça sobre o balcão com os braços cruzados, fitando a superfície lisa e reluzente distraidamente.

— Pesadelos? — o moreno parece surpreso — De que tipo? Algum ente querido morre neles?

— ...Não. — responde, por fim, com um suspiro, depois de Tom quase ter desistido de obter uma resposta — Mas lembra daquele sentimento de vazio que falei da última vez em que nos vimos? — o amigo assente — Acho que esses sonhos são a fonte dele. O problema é que... — se empurra do balcão e recolhe uma taça vazia abandonada um pouco adiante em sua extensão — Não consigo me lembrar dele totalmente. Só alguns pedaços ficam frescos na minha cabeça quando acordo.

Na verdade, Tom não imaginava que Shizuo fosse realmente desabafar daquele jeito, então passa a ouvir tudo ávida e atentamente, intrigado com o comportamento mais aberto do amigo.

— Pedaços...?

— É. — se afasta para lavar a taça na pia e retorna com um pequeno pano para secá-la — Vozes, cenários, nomes...

— Nomes? — indaga o homem de dread locks do outro lado do balcão, portando uma expressão entre curiosa e confusa — Que tipo de nomes? Gente que você conhece?

O barman tem os olhos cor de avelã fixos na louça em suas mãos.

— Aparentemente, é um conhecido de um amigo meu. E o outro, bem... — junta as sobrancelhas, fuzilando o vidro com seu olhar — ...”Shizu-chan.”

Ambos ficam em silêncio por alguns instantes; o som alto da música e da conversa alheia preenchendo o espaço deixado por suas vozes. De súbito, o mais velho cai na gargalhada, fazendo o loiro corar de leve, fosse de raiva ou vergonha. Algumas pessoas ao redor viram-se para olhar torto para o homem de terno e óculos, agora segurando o estômago e abafando a risada na manga do blazer sobre o balcão.

— Q-qual é a graça?! — pergunta o amigo, levemente incomodado.

— Sh-Shizu-chan...hahaha...parece o apelido de uma garota no ensino médio! Hahahahaha! — continua rindo por mais alguns segundos, acabando por finalmente cessar a risada, mantendo apenas um sorriso como vestígio dela — Perdão. Mas alguém já tinha lhe chamado assim antes?

— Não... — Shizuo suspira, depositando a taça seca na prateleira e voltando a debruçar-se no balcão — O mais perto foi “Shizuo-chan”, e o infeliz acabou indo parar no pronto-socorro. — Tom balança a cabeça em desaprovação.

— De qualquer forma, se você vem tendo esses sonhos com frequência, talvez devesse consultar um psiquiatra para investigá-los a fundo. — sugere o mais velho, tomando um gole de seu drinque negligenciado pelo surto de risos.

— Mas o sonho anda acontecendo cada vez mais claramente. — justifica o loiro — Acho que logo, logo vou chegar a uma resposta definitiva.

Tom, diante da surpreendente calma e maturidade do amigo, não pode evitar sorrir.

— Espero que sim. — bebe mais um generoso gole da bebida — E se precisar, pode contar comigo para desabafar. Sempre.

Os amigos trocam um olhar e sorriem sutilmente, mas Shizuo logo dá as costas para mexer com qualquer coisa nas prateleiras, quebrando o contato visual pela timidez.

Sim, sente que a verdade está para bater às portas de sua alma a qualquer momento.

***

Nitidez.

Lentamente, como um céu nublado após a chuva, a realidade transparecia e exercia sua penosa nitidez onde quer que viesse à tona.

De repente, tudo fazia sentido. Os passos. O ritmo acelerado do coração. O cheiro. A adrenalina. A raiva. O ódio. O escárnio. O sorriso debochado. As placas de trânsito deformadas. A noite. O vento. A Lua. A cidade. O casaco de pelos. A perseguição.

A pulga.

IIIIIIIIIIIIIZAAAAAAAAAAAAAAYAAAAAAAAAAAAA!!

O familiar grito de guerra ressoa pelas ruas de Ikebukuro, ricocheteando nas janelas dos prédios comerciais e shopping centers.

Como resposta, o moreno maldito ri.

Um som que eriça os pelos da nuca; um som perigoso, afiado, intimidante. Uma melodia irritante aos ouvidos do loiro trajando seu usual uniforme de barman — o mesmo da realidade que parece de outra dimensão perto desta sendo vivenciada agora. Aquela sensação, aquela emoção ardente, aquele odor insuportável assombrando seu distrito...

Mas esta realidade faz sentido. Shizuo persegue a pulga desgraçada, corre ela de Ikebukuro como tem que fazer frequentemente porque o desgraçado não sabe quando parar.

Passam horas e horas no jogo frenético de gato e rato, onde um simples passo em falso pode custar a vida. Entretanto, aquela rodada específica tem um fim divergente.

Ao virar uma esquina e se deparar com um beco, o loiro sorri ferozmente, como um predador que acaba de encurralar sua presa. Seu sorriso se esvai, entretanto quando sua “presa” facilmente escala um muro usando encanamentos, grades e caixas de ar condicionado.

— Izaya! Volta aqui, sua pulga desgraçada! — agarra firmemente um segmento de cano preso ao muro e com pouco esforço o arranca da parede. Desfere uma rebatida, usando a encanação como um taco, mas acaba acertando o muro do edifício adjacente — Fica parado pra eu te surrar, porra! — agora ergue o metal acima de sua cabeça e desce-o com toda a força sobre o informante de Shinjuku, que usa a evasão para chegar ao topo da construção de dois andares.

Quando vai arremessar o metal já completamente deformado, percebe o moreno olhando para o céu. De sua posição no solo, Izaya cobre parcialmente a lua.

— Olha, Shizu-chan! — chama em tom de riso e, quando se vira, a lua delineia sua silhueta, mas projeta sombras em sua face — É uma chuva de meteoros! — mantém um sorriso parcialmente fascinado, o resto dele sendo preenchido por arrogância — Normalmente não se dá para ver da cidade, já que as luzes ofuscam o brilho dos corpos celestes.

De fato, pontos claros rasgavam o céu acima de suas cabeças. Entretanto, em meio à fúria, a encarnação da violência negligencia o espetáculo.

— Hah? Cala a boca e desce logo aqui, seu infeliz! — aperta o metal em sua mão, sentindo a superfície fria cortar sua palma.

— Você sabia, Shizu-chan? — o moreno ri, ignorando as ameaças do barman e passando a se equilibrar na beirada do telhado — Os humanos têm essa mania de chamar meteoros de “estrelas cadentes”. Talvez porque soe mais poético. — dá de ombros, continuando a andar descontraidamente ao longo da beira com a cabeça erguida e os olhos fechados para o céu — Enfim, eles têm essa lenda de que você pode fazer um desejo se vir uma.

Subitamente, para de se mover e abre os olhos, encarando o céu de um breu absoluto. Após alguns instantes em que Shizuo o analisa meticulosamente, tentando descobrir o que o maldito está planejando, Izaya lentamente abaixa a cabeça para fitar o inimigo.

— Shizu-chan, faça um desejo.

O mero som da voz do informante é o suficiente para recordar o loiro de todo o caos trazido à sua vida por conta daquele mesmo ser podre pedindo que faça um maldito desejo. Se pelo menos aquele desgraçado ficasse longe de sua vida... Nem precisava morrer, só... se só desaparecesse de sua vida... Não, melhor ainda...



Eu queria nunca ter te conhecido,
Orihara Izaya!



***

Ikebukuro, 4 de maio de 2002.

Orihara Izaya.

A peste que assola sua vida. Como pôde se esquecer?

Aliás, por onde anda esse verme?

Agora inquieto e com um mau pressentimento sobre a ausência do informante — seus períodos de reclusão sempre foram procedidos de caos e 99% das vezes envolvia o desgraçado -, Shizuo não desperdiça tempo em saltar da cama imediatamente e vestir a primeira roupa que encontra; coincidentemente, seu terno de barman.

À medida que apura o passo pelas ruas do perigoso e sufocante distrito de Ikebukuro, seu mau pressentimento cresce. Sente-se como se prestes a afundar em uma armadilha, em uma escuridão profunda de que sabe só o informante ser capaz de tramar. Tch, está dando muito crédito ao filho da puta, Shizuo.

Bate à porta de quem julga ser a pessoa mais próxima de um amigo que o infeliz pode ter.

Quase desiste de sua resolução quando a porta é atendida e a figura que surge na porta parece tão abatida quanto ele há alguns dias. Seu ódio é ainda mais atiçado quando lembra quantas noites passou sem sono por causa do informante. Até nos meus sonhos aquele desgraçado me inferniza! Cego pela fúria, o loiro vocifera:

— Cadê aquela praga, Shinra?

Saindo do caminho para não ser pisoteado, o médico clandestino franze o cenho em confusão ao homem visivelmente furioso.

— Shizuo? O que está fazendo aqui? E do que está falando? — fecha a porta e torna a fitar o barman.

— Não se faça de idiota, Shinra! — Shizuo rosna, fuzilando o amigo com o olhar — Você tem que saber do paradeiro da pulga!

— Pulga? Shizuo, eu não estou entendendo! — o moreno já começa a se irritar pela falta de educação e incoerência do outro e eleva sua voz também.

— Pelo amor de Deus, Shinra! — em um impulso, surra a parede ao seu lado, fazendo o doutor retrair-se — IZAYA! Estou falando de Izaya, porra!

O nome parece esfaquear o amigo, cuja expressão aparenta transfigurar de irritação para total devastação imediatamente. Pensando melhor, a expressão não é completamente estranha a Shizuo. Vagamente recorda-se de também ser relacionada a Izaya. Mas memórias de duas realidades se chocam e se fundem em sua mente em uma amálgama de emoções turbulentas, não deixando fôlego para raciocinar corretamente.

— Por que você quer saber dele do nada, Shizuo?! Você nem o conhece! — a voz de Shinra vacila, alarmando o loiro suficientemente para que sua cegueira se dissipe e possa responder algo mais coerente.

— Como assim não o conheço?! Eu definitivamente vou matar aquela praga hoje, eu juro! Exterminá-la da face da Terra de uma vez por todas! — os olhos amarelo-queimados acendem-se como brasa pelo calor do ódio.

— Matar? Izaya? — gradualmente, a cor se esvai da face do moreno.

— Óbvio! Aquele desgraçado já infernizou demais a vida alheia! — o rosnado beira a bestialidade.

— Shizuo, você não pode matá-lo! — não soa como uma súplica, mas como uma impossibilidade.

— E por que não?! Você nem se impor—

— PORQUE ELE ESTÁ MORTO, SHIZUO!

O impacto das palavras clareia de vez sua mente, calando todas as memórias que até então atiçavam-lhe as emoções. Quando encontra sua voz novamente, depois do que parecem horas, pergunta, hesitante:

— O-O quê?

A respiração do amigo o espanta, sendo entrecortada por um soluço engasgado. É aí que percebe que o brilho artificial dos olhos do moreno não vem da lente de seus óculos.

— Há exatos 8 anos atrás, Orihara Izaya se jogou do topo do Sunshine 60.

Notas finais
Então, alguém já quer meu fígado? *riso nervoso* Deixem suas impressões e comentários para que eu possa melhorar ainda mais! '3' Obrigada por lerem!! ~Akuma