Paradoxo
2 A história que você nunca conheceu
Notas iniciais
Algumas coisas na vida são simplesmente inconcebíveis.
Apenas inimagináveis, inacreditáveis, inaceitáveis.
A ideia chega a ser tão absurda que torna a remota possibilidade de realmente acontecer quase nula, embora real--
Invisível.
Talvez essa seja a melhor palavra para descrever os sentimentos e emoções que se acumularam e se fundiram para derivar um efeito bola de neve em um garoto de 17 anos.
Bola que se estilhaçou ao atingir um muro; bola cujos pedaços evaporaram e dissiparam-se no ar, por mais improvável, inacreditável, inconcebível que fosse.
E no fim, aquela existência se esvai para persistir somente na memória de alguns...
Amargamente.
Ikebukuro, 4 de maio de 2002.
— Do que você está falando, Shinra...?
O barman, intitulado monstro de Ikebukuro, ainda fita, incrédulo e apreensivo, o amigo de infância. Este cerra os punhos e o encara de volta com irritação.
— Do que você está falando, Shizuo?! — a voz ecoa estranha ao ouvido do mais velho, enlaçada por uma raiva que o dito homem não julgava Shinra ser capaz de abrigar sequer por um minuto — Você invade a minha casa, sem consideração ALGUMA por qualquer plano que eu possa ter, começa a gritar insultos sobre alguém que nem conhece e ainda por cima me ameaça! Quem você pensa que é?!
Shizuo usa o tom do médico como sinal para se acalmar, engolindo em seco e relaxando os punhos ao lado de seu corpo.
— Desculpe. Eu só... — as palavras gradualmente se desvanecem, assim como o fervor do ódio dentro de si. Logo um vago sentimento de culpa preenche o lugar deixado.
Alguns minutos depois de as palavras morrerem nos lábios do loiro, Shinra recupera a respiração e limpa os olhos com os nós dos dedos. Entretanto, sua expressão usual não volta à face.
— Como...você o conhece, Shizuo? Ele... — engole pesadamente — ...se foi...há tempos. Nunca te falei dele, tenho certeza. — ergue o olhar para estreitar os olhos castanhos sequelados para o amigo — Também tenho certeza de que não o conheceu no ensino médio, e estudei com você no fundamental...
O furacão de memórias e emoções não permite que a mente do barman estacione tempo suficiente para que ele possa formular uma resposta coerente. O silêncio externo, entretanto, aumenta a suspeição de Shinra.
— O que ele te fez pra você chegar aqui e querer matar ele, assim, do nada? — a voz do doutor soa quase ofendida, o que faz o loiro suar nervosamente.
O que diabos está acontecendo aqui? Izaya... Como assim? Lembro nitidamente daquele merda arruinando minha vida até bem depois do ensino médio... Shizuo enfrenta um conflito interno, alheio aos arredores mesmo quando o moreno continua falando, exigindo uma resposta. Algo está errado... Shinra deve estar conspirando com aquele verme para tirar uma com a minha cara... Os olhos cor de caramelo focam no anfitrião, que agora veste uma carranca de irritação e impaciência por ser ignorado. Não... Shinra não é um ator bom o suficiente para fingir todas aquelas expressões...
— Shizuo, ou você me responde ou eu chamo a polícia pra te tirar da minha casa.
A ameaça arranca o homem da linha de raciocínio à qual se agarrava desesperadamente.
— Desculpa... Shinra, eu... Nem eu sei bem o que aconteceu... — sem focar o olhar em um ponto específico, Shizuo junta as sobrancelhas em um misto de concentração e frustração.
Os olhos castanho-escuros do mais novo analisam minuciosamente a linguagem corporal do convidado por trás dos óculos. Shinra suspira, fechando os olhos e empurrando a armação nariz acima.
— Como assim, Shizuo? — a voz do médico exala exasperação — Não me diga que você simplesmente viu a foto dele em algum canto e não foi com sua cara.
— Não é isso... Bem, quer dizer, não foi em uma foto. — sentindo o olhar escrutinizador do outro, continua apressadamente: — Digo, eu não fui com a cara dele logo na primeira vez que nos vimos, em pessoa.
— Shizuo—
— Shinra, me escuta. — o loiro assume um tom firme — Eu sei que vou soar totalmente pirado, mas eu colocaria minha mãe no fogo pela verdade do que eu vou contar.
— Você quis dizer mão... — com um longo suspiro, Shinra finalmente torna a fitar o amigo de infância, cruzando os braços — Então vá em frente e teste minha paciência, se não é o que você esteve tentando fazer desde que invadiu meu apartamento.
A nuance sarcástica da voz do moreno queima a garganta do barman. Este engole em seco e pigarreia antes de começar a narrativa.
— Desde algumas semanas atrás, venho tendo uns sonhos estranhos... Sempre acordo inquieto, nervoso, como se estivesse me esquecendo de algo importante. No começo, eles eram bem vagos; só borrões e sombras. Depois passei a escutar vozes no sonho, aí me veio aquele nome, Izaya. — Shizuo pausa para confirmar a atenção do ouvinte — Os sonhos ficaram cada vez mais claros, mas ainda não me significavam nada. Hoje de manhã acordei e me veio uma avalanche de memórias, definitivamente minhas e absolutamente reais... — trinca os dentes ao ter a cabeça atacada por uma dor entorpecente na tentativa de separar as memórias — Mas essas memórias não condizem com a realidade que você está me contando.
Durante uma margem de alguns minutos para possíveis acréscimos, Shinra processa as informações jogadas a seus ouvidos. Alternando o peso do corpo sobre seus pés, abre a boca cautelosamente:
— Está me dizendo, basicamente, que... — o médico franze o cenho e prensa os lábios, digerindo a ideia prestes a vocalizar — Você tem memórias de uma pessoa que nunca conheceu?
Entre recém-desperta curiosidade e incerteza, o mais novo ergue as sobrancelhas ao amigo. Depois de uma pausa enfática, Shizuo responde com a única certeza que tem em meio àquele caos mental:
— ...Sim.
O anfitrião assente com a cabeça lentamente, acabando por continuar balançando-a por um bom tempo. Finalmente, descruza os braços e caminha até o sofá, onde senta-se inclinado para a frente com os cotovelos nos joelhos e dedos entrelaçados perante os lábios.
— Conte-me mais.
Ikebukuro, 5 de maio de 2002.
Na manhã seguinte, o mundo parece surreal aos olhos do barman que, de acordo com suas memórias, já nem mais possuiria tal emprego. Tendo tido a noite inteira para refletir, agora as ideias se tornam mais concretas em meio à confusão.
As verdades se contrastam e contradizem entre a realidade e a memória de Heiwajima Shizuo. O meio que o homem acha para não ser levado à loucura é comparar cada detalhe das duas dimensões em sua cabeça.
Por exemplo, o fato de, na realidade atual, Celty ter sua cabeça.
Esse fato ter relação com a existência de Izaya adiciona uma nova brasa ao ódio do loiro pelo informante. Entretanto, a labareda logo enfraquece ao lembrar-se do sonho.
Embora não saiba dizer se o sonho é mais uma parte das memórias emergidas ou apenas um truque de sua mente — ou do destino, ele ironiza -, Shizuo não o despreza. Foi ele que trouxe as recordações de volta a si, afinal. Mesmo que seja uma alucinação, deve significar algo.
O maior choque entre os dois mundos, entretanto, é a presença ou ausência de um encontro que o barman prefere esquecer. Ao que parece, no mundo atual, ele nem teve que se dar a esse trabalho.
Shizu-chan, faça um desejo.
Eu queria nunca ter te conhecido, Orihara Izaya!
A diferença-mãe entre as duas dimensões.
Ao mesmo passo que o mau pressentimento presente em seu peito desde o primeiro sonho, sua curiosidade aumenta; culminando em uma única pergunta:
O que o suicídio da pulga tem a ver com a gente nunca ter se conhecido?
— Shizuo, tem certeza de que não sonhou com essa outra dimensão?
— Absoluta! — o loiro rosna com um início de irritação ameaçando invadir sua voz.
— Tá bom, tá bom! Não precisa ficar bravo. — Shinra suspira, ajeitando os óculos pela enésima vez ao reclinar-se no sofá — Acho que você nem teria tanta criatividade para inventar uma história tão comple—Acredito em você.
Deixando o médico se safar do insulto apenas com um olhar irritado, o barman gesticula para que ele dê seu veredicto.
— Bem... O que eu acho que pode ter acontecido é que... — o moreno hesita como se fosse negar a própria lógica com suas especulações — Talvez em algum universo paralelo, ou em outra encarnação, vocês possam ter se conhecido. — ri nervosamente, balançando a cabeça levemente — Não acredito que estou admitindo essa possibilidade... Mas talvez, também, o curso do tempo possa ter sido revertido e o passado, alterado. E, com isso, o futuro se desenvolveu diferentemente.
— Você só pode estar brincando. — Shizuo arregala os olhos, incrédulo.
— Não estou. Posso estar louco, mas não estou brincando.
— Shinra, isso é coisa de filme!
— Shizuo, estou dando uma opinião tão séria quanto você diz serem verdadeiras essas memórias!
O mais velho se cala, fitando o médico clandestino diretamente até perceber que não está piscando.
— Olha, isso é tudo muito estranho, e, ironicamente, fenômenos inexplicáveis não são minha área. — o moreno sorri relutantemente — O único ser sobrenatural que me interessa é minha amada Celty, embora não possa negar que essa situação é bem curiosa.
Ignorando o adjetivo desnecessário, o mais velho reorganiza as informações daquela tarde mentalmente. Ao fim da divisão de dados, uma pergunta vem à cabeça:
— Por que Izaya se matou?
Imediatamente após ter deixado a perguntar deslizar por seus lábios, o homem se arrepende. O olhar sombrio retorna às feições do amigo, mas este parece menos impedido de falar sobre o assunto agora.
— Ninguém sabe ao certo. Não deixou nenhuma carta, segundo os familiares.
Embora não quisesse forçar, Shizuo captou um fragmento da informação implícita.
— E o que você acha?
O doutor trava o olhar nos olhos castanho-amarelados do barman, surpreso. Depois, torna a baixá-lo ao chão.
— Eu não sei. Eu achava que conhecia Izaya. Achava que podíamos ser considerados algo como amigos. — a risada amarga que emite arranha o coração do loiro — Parece que estava errado. Bem, Izaya sempre foi o tipo de cara que guarda tudo para si e esconde muito bem o que sente, então acho que não posso ficar lamentando muito. Ainda assim...
— Obrigado. — Shizuo se levanta subitamente e tira os cigarros do bolso no caminho para a porta da frente, cortando os pensamentos do médico — Não precisa falar mais nada.
Shinra fita o convidado em silêncio por alguns instantes antes de sorrir de canto.
— Obrigado. — despede-se. Porém, antes que Shizuo atravesse a porta, o anfitrião chama: — Ah, mas Shizuo...
O homem para em frente à entrada e vira-se para ouvir o amigo de infância.
— O que pretende fazer agora?
Até agora, o loiro não tem uma resposta à pergunta do amigo. Sua mente esteve tão ocupada em organizar os fatos que não teve tempo de assumir uma posição ou objetivo em meio ao choque de realidades. Pelo menos foi livrado da exigência de uma resposta imediata pela tentativa do médico em descolar uma biópsia do cérebro do amigo que sucedeu a pergunta.
Somente uma coisa é inesperadamente certa: Shizuo não está satisfeito com a ausência de Izaya.
Sim, está aliviado por não ter que lidar com o informante nas ruas de Ikebukuro diariamente; em paz por não ter que usar a tão odiada violência com tanta frequência; contente por ainda ter seu emprego.
Porém, o que perturba a calma de seu espírito é o suposto motivo pelo qual o moreno não está mais no mundo.
Pela visão do barman, Izaya amava a si sobre tudo e todos. Como poderia ele ter tirado a própria vida, então? E, de alguma forma, a apresentação dele a Shizuo por Shinra teria evitado isso no mundo tecido pela reminiscência.
Somando o mau pressentimento dos sonhos à lógica, uma inquietude germina no peito do homem mais forte de Ikebukuro. Sendo uma pessoa bem transparente, esse novo sentimento de constante nervosismo não passará despercebido por seus colegas de trabalho — embora provavelmente não será comentado — nem por seus chefes.
Uma ideia é altamente persistente, afinal.
Ikebukuro, 7 de maio de 2002.
No dia após a terceira noite passada em claro sem nem se incomodar em tentar descansar, Shizuo ouve seu nome sendo chamado do outro lado de uma avenida, na volta do primeiro emprego. Não ouve de primeira, entretanto, por estar com a capacidade de raciocinar debilitada tanto pela falta de sono quanto pelo sobrecarregamento do cérebro.
— Yo, Shizuo! — Kadota se aproxima, checando ambos lados antes de atravessar a pista.
— E aí, Kadota. — o loiro responde um aceno da cabeça.
— Shizuo, você não parece nada bem... — o moreno franze o cenho, fazendo uma careta ao olhar o amigo dos pés à cabeça — Ainda não consegue dormir?
— É... — o outro suspira.
— Pesadelos? — Kadota ergue as sobrancelhas solidariamente.
— Insônia, pesadelos...É uma dor de cabeça explicar. — ele dispensa, juntando as sobrancelhas ao sentir uma pontada da dita cuja.
— Não gosto dessa solução, mas talvez você devesse pedir a Shinra uns tranquilizantes... — o amigo sugere com justificada hesitação.
— Já pedi.
— E então?
— Só tomei uma noite. — resmunga, massageando a ponte do nariz — Noite passada não conseguiria dormir nem se tomasse duas caixas daqueles remédios.
— Aconteceu mais alguma coisa?
Quando Shizuo torna a fitá-lo, percebe o semblante de Kadota tenso.
— Tem alguma coisa a ver com Izaya?
Quando o loiro supera sua surpresa com a perspicácia do amigo, já é tarde demais para negar. Ao invés disso, então, corre uma mão pelos cabelos tingidos com outro pesado suspiro. O moreno adota isso como uma confirmação.
— Shinra me contou... o que aconteceu.
Por um momento, Kadota simplesmente o encara, mas logo baixa o olhar e recolhe as mãos para dentro dos bolsos com um murmúrio de apreensão.
Novamente, Shizuo pega-se comparando as duas dimensões em sua cabeça. Em suas memórias, Kadota também conhecia Izaya, mas não era exatamente próximo do informante. A diferença neste caso seria o tempo de convivência dos dois.
Na realidade atual, Kadota e Izaya teriam se conhecido por pouco tempo. Mas então por que teria o amigo ficado abalado com a morte de alguém que mal conheceu? Teria algo a mais que o loiro não consegue enxergar?
Embora relutante, o mais velho se vê vocalizando um pedido.
— Kadota... Tudo bem se eu perguntar uma coisa?
Os olhos castanho-escuros encontram os cor de âmbar novamente.
— Sobre Izaya? — o moreno parece ligeiramente surpreso — Claro, eu acho. Mas não sei muito sobre ele. Não éramos muito próximos.
— Exatamente isso. — o barman destaca firmemente.
— Isso o quê?
— Você não era muito próximo dele, certo?
— Não. — confirma — Shinra nos apresentou no começo dos nossos dias no ensino médio, mas Izaya quase nunca vinha para as aulas.
Shizuo engole o nó em sua garganta antes de cautelosamente formular sua pergunta:
— Então... Por que fica tão incomodado com isso até hoje?
Kadota é drenado de qualquer expressão ou emoção aparente ao considerar a pergunta do amigo, deixando apenas uma expressão neutra como sinal de desconforto. Finalmente, cede com um suspiro.
— Podemos ir para outro lugar? Este não é o melhor lugar para falar disso.
Como se só agora percebesse o ambiente onde se encontravam — a calçada de uma rua razoavelmente movimentada -, o loiro acena com a cabeça e se põe a andar ao lado do amigo até seu lugar determinado como apropriado.
Tal lugar consiste em nada mais, nada menos que um pequeno parque perto de seu prédio. Se tratando do começo da tarde de um dia semana, poucas pessoas circulam pelo local. Embora possa imaginar que o lugar não é exatamente a noção do amigo de apropriado, este não se manifesta contra. Ao invés disso, senta-se em um banco de madeira desgastada com um suspiro.
— Por que isso me incomoda tanto até hoje, hm... — Kadota repete, tentando ganhar mais tempo para uma resposta.
Enquanto o outro compõe sua resposta, Shizuo tenta distrair-se com o cenário; mas qualquer parte da paisagem parece descolorir em comparação a suas memórias. Shinra considerou a possibilidade de serem apenas recordações de sonhos muito marcantes, mas o loiro soube desde o momento em que elas vieram a ele como um tsunami que eram reais. Mesmo que mentalmente, cada vez que revê ou repassa alguma memória consegue sentir na pele as emoções e sensações vividas. Internamente, seus sentidos lutam contra seus sentimentos ao absorver seus arredores.
Kadota finalmente o desprende de sua reflexão:
— Talvez eu me culpe um pouco pela morte dele.
O mais alto pisca algumas vezes antes de fitar o amigo, que mantém os olhos presos ao céu... Como se silenciosamente procurasse a alma perdida nele. Antes que precise de incentivo, entretanto, continua:
— Izaya era o tipo de pessoa que vivia uma ilusão de que era intocável; inatingível. Achava que sentimentos comuns não afetariam um observador como ele. O pior é que ele achava que escondia isso perfeitamente, quando na verdade era mais transparente do que imaginava. Dava pra ver quando ele conversava comigo, às vezes, que possui algum tipo de arrependimento ou angústia por trás daquele egocentrismo todo.
A revelação de Kadota choca Shizuo. Ele sabe que o amigo não tem por que mentir, mas a verdade é igualmente inconcebível. A questão é se aquele sentimento foi causado pela ausência do loiro na vida do informante ou se ele já o possuía no universo das memórias.
— Mas, embora tenha percebido, eu nunca tentei descobrir o que o afligia. E, quando soube o que aconteceu, só... — o moreno engole pesadamente — Acho que fiquei com um peso na consciência, não sei.
Por alguns instantes, tudo o que se ouve são os pássaros cantando e a metrópole rugindo aos arredores do parque. Internamente, porém, o barulho é bem maior para ambos homens ali.
— Você faz alguma ideia do que o levou a fazer aquilo? — o barman finalmente se manifesta, inclinando a cabeça em direção ao amigo.
— Como eu disse, nunca tentei descobrir. — Kadota suspira longamente, retornando o olhar — Mas acho que ele deve ter percebido que não era intocável... — baixa a voz no fim da frase, voltando a seus devaneios. O clima quase os leva ao chão de tão pesado que se tornou, dando uma pista para que Shizuo encerre o assunto.
— Obrigado, Kadota. — o loiro está de pé em um pulo, enfiando as mãos nos bolsos — Desculpa te fazer falar sobre isso. E, acho que você sabe, mas não é sua culpa.
As palavras do amigo fazem o moreno rir resignadamente.
— Valeu, Shizuo. Ah, mas afinal... — Kadota fita o mais alto, sem se mover do banco onde está sentado — Por que o interesse repentino?
Depois de uma discussão tão pesada, a última coisa que o barman quer é ter que explicar seu atual conflito mental. Surpreendentemente, consegue formular uma resposta razoavelmente satisfatória e verdadeira:
— Lembrei que o conheci, só isso.
Ikebukuro, 8 de maio de 2002.
Quanto mais Shizuo procura encontrar o motivo por trás do suicídio de Izaya, mais parece se afastar do informante que julgava conhecer.
Não só isso, mas sua curiosidade e ansiedade crescem gradativamente dentro de si, deixando de lado a culpa por um tempo. Na lista de deixados de lado também estão o sono e a fome, ao que parece.
Pela manhã, no trabalho, o barman analisa possíveis fontes de respostas, porque perguntas ele já possui de sobra. Dentre seus conhecidos, quem melhor poderia conhecer Izaya, em sua opinião, seriam Shinra e Kadota, mas já extraiu tudo o que pôde deles. Depois disso viriam, talvez... Mairu e Kururi.
Em suas memórias, tem registrada a informação de que o informante não era muito próximo das irmãs; mas, se tem alguém que possa ter observado seu dia-a-dia, seriam as gêmeas Orihara.
O problema maior é como chegar a elas. Não se lembra de ter as conhecido na realidade atual, nem faz ideia alguma de onde achá-las. Do jeito que a morte de Izaya influenciou a vida das pessoas próximas a si, quem dirá o que mais pode ter mudado?
Com sorte, o que as meninas podem ter em comum em ambas realidades seria a obsessão por Hanejima Yuuhei. Cruzando os dedos, o barman se agarra a essa esperança e tece um plano mentalmente.
O sinal de que a curiosidade realmente está lhe afetando se manifesta na forma de um telefonema a seu irmão em pedido de um favor.
Ikebukuro, 11 de maio de 2002.
A confirmação do compromisso de seu fia de folga chega a Shizuo através de uma ligação de Kasuka.
— Nii-san, estou com elas.
Sem nem se incomodar em responder, sabendo que a chamada já foi encerrada, o homem se apressa porta afora, andando a passos largos a seu destino: um singelo café na periferia do distrito.
Alguns dias atrás, quando criou coragem para pedir ao irmão o favor de sua vida, não esperava que o moreno inexpressivo não lhe questionasse sobre nenhum aspecto do pedido bizarro de arranjar uma reunião com duas de suas fãs. A única coisa que verbalizou foi uma vaga repreensão pelo loiro se interessar em meninas mais novas, mas o mais velho tinha praticamente certeza de que era uma péssima tentativa de brincadeira.
A mente do barman trabalha a todo vapor na caminhada pelas ruas sempre lotadas de Ikebukuro. Como se sentiriam as gêmeas ao serem lembradas da morte do irmão? Tendo visto as reações inusitadas dos conhecidos comuns a ele e Izaya, Shizuo não detém mais expectativa alguma.
O que mais choca o homem, entretanto, é visual: as gêmeas sentadas próximas a Kasuka do mesmo lado da mesa são idênticas, mas indubitavelmente as Oriharas. Trajam vestes iguais, um macacão jeans por cima de uma camisa amarela, e possuem cabelos castanhos lisos até abaixo dos ombros, partidos para o mesmo lado.
Ao notar a aproximação do irmão mais velho, o moreno sussurra algo para as duas garotas, que lançam um olhar curioso simultaneamente ao recém-chegado.
— Ah, ele é mesmo parecido, né, Mairu? — uma delas confirma com a outra, e Shizuo imediatamente deduz quem é quem, embora a personalidade esteja drasticamente fora de sintonia com a de suas memórias.
— Sim, pelo visto a beleza é de família! — a outra ri, sendo seguida pela gêmea.
— Olá, nii-san. — Kasuka acena com a cabeça polidamente, mantendo sua expressão neutra de sempre.
— E aí, Kasuka. — retribui o aceno, sentando-se sozinho no lado oposto da mesa — Como vão, Kururi, Mairu?
As garotas congelam e entreolham-se, perguntando em um incrível uníssono:
— Como sabe nossos nomes?
Após a tontura inicial, o loiro disfarça:
— Alguém me falava sobre vocês há um tempo.
O sangue de todos Oriharas é afiado, ele observa quando as gêmeas estreitam os olhos em suspeição.
— Tá, então. Vou direto ao ponto, já que isso envolve essa pessoa.
A cessão do homem parece dissipar o ceticismo das duas tempo o suficiente para que suas próximas palavras sejam levadas a sério:
— Vim perguntar sobre o irmão de vocês.
Kasuka esboça uma expressão de apreensão, só perceptível ao irmão, mas Mairu e Kururi parecem apenas surpresas.
— Iza-nii? — checa Mairu, inclinando a cabeça para o lado.
— O que tem ele? — Kururi pisca, imitando o gesto da irmã.
— Bem, eu o conheci no passado, mas só recentemente descobri que ele... — Shizuo coça a cabeça, tentando formular a frase do jeito mais suave possível — Não está mais aqui.
As morenas piscam, inexpressivas. Então trocam um olhar e dão de ombros em invejável sincronia.
— Bem, se é só isso...
— ...e Yuuhei-san nos pediu tão educadamente...
— ...para que ajudássemos você...
— ...não vemos por que recusar!
Estonteado pela alternância de discurso, o loiro respira fundo antes de tentar novamente descobrir o que vem lhe assombrando a consciência nos últimos dias.
— Vocês sabem...por que Izaya fez aquilo?
Enquanto o Heiwajima mais novo apenas serve como objeto de negociação na conversa, escutando tudo impassível, o mais velho sente todas as fibras de seu corpo contraírem-se em expectativa. As Oriharas trocaram outro olhar, ainda sem expressão nos rostos.
— Não fazemos ideia. — finalmente respondem juntas, balançando a cabeça frustradamente.
O barman sente sua respiração escapar em um suspiro audível, e logo pragueja contra o sinal de irritação não intencional.
— Iza-nii não era muito próximo da família, sabe. — Kururi se pronuncia.
— Nenhum de nós via muito nossos pais, e Iza-nii acabava cuidando da gente a maior parte do tempo. — Mairu adiciona.
— Como estavam sempre viajando, sobrava para nós as tarefas domésticas.
— Iza-nii era um péssimo cozinheiro! — Mairu torce o nariz ao mencionar e a irmã completa com uma careta.
— Realmente, para um cozinheiro, ele era um ótimo poeta!
Ambas gargalham à memória do irmão, fazendo Shizuo pensar em como as reações podem diferir de pessoa para pessoa. Porém, de repente ambas abruptamente cessam as risadas e assumem uma expressão mais melancólica, se não fúnebre.
— Mas... Quando soubemos da morte dele...
— ...nos sentimos muito sozinhas...e culpadas...
O peito do loiro parece compactar às palavras das meninas.
— ...por não ter perguntado...
— ...o que havia de errado...
— Vocês perceberam que tinha algo de errado?
A voz do barman corta o ar e sobrepõe o tom fraco das gêmeas, adicionalmente fazendo com que ambas ergam o olhar para Shizuo.
— Sim... — Mairu começa, e logo olha espantada para a irmã por não ter se pronunciado ao mesmo tempo. De qualquer forma, morde o lábio e continua, tornando a fitar o mais velho — Iza-nii começou a ficar estranho do fim de seu primeiro ano até...
— Seu aniversário. — Kururi completa alternativamente.
— Ah, verdade. — a outra sorri amargamente — Aquele dia era o aniversário dele...
O detalhe impacta Shizuo duramente. Comumente, a celebração do nascimento de alguém é um fato comemorável, não lamentável e menos ainda mórbido. Teria algo acontecido com o informante coincidentemente naquela data ou teria sido proposital?
— Se importam em me dizer em que sentido de estranho? — o homem pergunta cautelosamente.
As duas parecem hesitar por um momento, reconquistando sua sincronia perfeita ao virarem-se para Kasuka, no aguardo por uma asseguração.
— Nii-san é uma pessoa boa. Deve ter ficado chocado com as notícias e agora sente-se mal.
A resposta do irmão mais novo deixa o Heiwajima mais velho com um peso na consciência. Se ele sequer imaginasse as coisas horríveis que eu disse...
— Se Yuuhei-san diz... — as gêmeas suspiram e abraçam cada uma um braço do ator simultaneamente.
— Bem, Iza-nii nunca teve muitos amigos... — Mairu começa.
— ...mas nunca pareceu se importar muito... — Kururi continua, e assim passam a se alternar novamente.
— ...sempre preferia ficar em casa...
— ...lendo alguma coisa...
— ... ou falando com alguém no telefone.
— Mas no final do primeiro ano do ensino médio...
— ...começou a ficar mais quieto...
— ...como se estivesse deprimido com alguma coisa.
— Não comia mais tanto quanto antes...
— ...o que já era pouco.
— Em casa, parou de falar tanto conosco...
— ...e passou a escrever um tipo de diário.
— Diário? —Shizuo franze o cenho, recusando a ideia absurda de Orihara Izaya ter realmente confiado suas mágoas a um pedaço de papel.
— Sim, um tipo de diário onde ele relatava os eventos do dia. — Kururi responde, acenando a cabeça para realçar a confirmação.
— A gente chegou a dar uma espiada nele logo quando Iza-nii começou a escrever nele, mas não tinha nada demais. — Mairu faz um leve beicinho.
— E depois ele acabou escondendo melhor, então não achamos mais. — Kururi finaliza.
A outra gêmea parece lembrar-se de alguma coisa assimetricamente à irmã:
— Ah! No dia em que ele... — engole o gosto amargo na garganta e decide que a continuação da frase não altera a compreensão da mesma — Lembro de ter visto ele sair bem cedo, quando fui pegar água na cozinha, com o diário.
— Então por isso ninguém nunca o encontrou... — Kururi conclui.
— Vocês tem alguma ideia de onde ele pode estar? — o loiro pergunta esperançosamente, mas para sua decepção, ambas sincronizadamente negam com a cabeça.
Correndo uma mão pelas mechas tingidas, Shizuo perde toda a motivação de investigar o motivo ao imaginar em quantos lugares diferentes aquele diário pode estar – supondo que este esteja, realmente, em algum lugar.
— Olha a hora, Kururi! — a exclamação da menina arranca o barman de sua reflexão — Precisamos ir pra casa!
— Verdade. Que pena! — a irmã resmunga, e ambas abraçam Kasuka mais uma vez ao mesmo tempo.
— Eu chamo alguém para levar vocês pra casa. Obrigado por virem hoje. — o ator sorri educadamente às Oriharas, fazendo menção de levantar-se.
— Kasuka, Mairu e Kururi... Muito obrigado, e desculpe o incômodo. — o Heiwajima mais velho se desculpa, também levantando de sua cadeira.
— Não foi nada. Além disso, tivemos um encontro com nosso querido Yuuhei-san, então tudo ótimo! — ambas sorriem empolgadamente, dissolvendo qualquer angústia que poderia ter sido levantada anteriormente.
— Nii-san, já volto. Quero falar com você.
Então ele quer respostas afinal, Shizuo sorri resignadamente, assistindo ao irmão telefonar para o agente e despachar as gêmeas com um abraço e um aceno. Quando retorna, sua expressão continua vazia.
— Então, provavelmente quer saber por que esse assunto do nada, né? — o loiro suspira, mas a resposta imediata o surpreende.
— Na verdade, não.
— Então, sobre o que quer falar comigo? — o barman franze as sobrancelhas, confuso.
— Você não parece muito bem, nii-san. — Kasuka estende uma mão ao rosto do irmão, traçando as profundas olheiras do mesmo — Aconteceu alguma coisa?
Com seu caos particular, não passou nem perto da cabeça de Shizuo a ideia de contar toda a história para o irmão. Normalmente, o moreno o ouvia em silêncio e parecia sempre saber o que fazer para acalmá-lo. Quando estava prestes a abrir a boca para resumir os acontecimentos, entretanto, um telefone toca.
— Lamento, nii-san... — o ator checa o visor, exibindo o mais meticuloso traço de irritação em suas feições delicadas — Preciso ir agora. Me ligue mais tarde para conversarmos.
— Nah, não tem problema. — o mais velho dispensa com um sorriso afetuoso — Obrigado de novo, Kasuka.
— Disponha, nii-san.
Um breve aceno de cabeça depois, o moreno se dirige à porta do estabelecimento, de onde corre para a limusine que encosta bem a tempo de não ser barrada por uma enxurrada de repórteres.
Mesmo depois de todos terem ido embora, Shizuo permanece imóvel, encarando nenhum ponto em particular, eliminando e adicionando possibilidades para o esconderijo do diário.
Finalmente sai do café quando o sol começa a pintar o horizonte com tons rubros. Já sabe onde procurar primeiro.
Ikebukuro, 12 de maio de 2002.
Sunshine 60.
O holofote de Ikebukuro; um de seus símbolos de imponência.
Um prédio que deteve o título de maior prédio da Ásia por 7 anos no passado, com 240 metros de altura. Até hoje conhecido por seu amplo observatório.
Parado à beira do deck de observação ao ar livre, Heiwajima Shizuo tem uma breve noção da sensação de poder que estar a tal altura poderia ter conferido a seu inimigo no passado. O vento gélido lembra-o exatamente de onde se encontra. Tendo sido palco de seu suicídio, o barman imaginou que o prédio pudesse fornecer-lhe alguma pista, mas frustrou-se ao ver-se deparado com apenas concreto e vento.
Faz algumas tentativas de interrogatório com alguns zeladores do local, mas falha em comunicar-se com eles. Depois, passa a procurar possíveis esconderijos no telhado, nas paredes, nos compartimentos de tubulação e geradores. A atividade suspeita acaba rendendo-lhe uma advertência dos guardas do local.
Desmotivado e decepcionado, o loiro passeia pelas ruas, identificando pontos onde, em suas recordações, teria enfrentado Izaya. Levado pela reminiscência, quando dá por si, Shizuo está seguindo caminhos e tomando atalhos aos quais teria se habituado por conta da pulga.
Uma das rotas, mais profundamente enterrada nas memórias, o guia por ruas estreitas e cheias de pequenas lojas até desembocarem em uma avenida aberto, sem muito movimento. Mesmo de um ângulo diferente, o homem reconhece o prédio detrás do muro baixo de tijolos.
Colégio Raira.
Antiga Academia Raijin, ele se corrige.
As nuvens correndo fugidias pelo céu destacam a amplitude da área da escola, mas a razão pela qual Shizuo para a fim de observar, mesmerizado, é psicológica.
Em ambas realidades, Izaya estudou ali. Em uma delas, sobreviveu. Sem dúvida, o colégio desempenha um cenário importante naquele quebra-cabeça paradoxal.
Por ser domingo, o homem mais forte de Ikebukuro não encontra dificuldades nem testemunhas ao pular o muro e caminhar até o prédio das salas de aula. Será uma longa busca.
Depois de virar dois prédios de ponta cabeça em busca de qualquer pista sequer sobre o objeto procurado, Shizuo deixa-se desabar sobre um banco no pátio. O sol de fim de tarde banha-lhe a face, contornando as feições abatidas do homem.
A busca foi ineficaz, mas ao longo do caminho mais memórias vieram à tona. Mesmo sendo poucas as vezes em que fora à sala do então futuro informante em suas memórias, soube identificar o exato lugar que o garoto ocupava: a fileira mais próxima da janela, na penúltima carteira. Infelizmente, como era de se esperar, o diário não se encontrava guardado nela. Pensando melhor agora, nem teria bem sentido Izaya ter ido à escola para esconder seu diário se encerraria sua vida de qualquer forma.
Mas... e se ele quisesse que o diário fosse encontrado?
Izaya, afinal, não era uma pessoa de se conformar com sua dor. Prefere espalhar como uma nova praga até que todos estejam tão miseráveis quanto ele. Estaria orgulhoso de si mesmo se conseguisse dar uma olhada na cara do inimigo agora.
Julgando infrutífero demorar-se em um lugar incerto, o Heiwajima se levanta, espreguiçando-se longamente e fazendo uma careta ao ouvir todo o seu corpo estalar.
Entretanto, ao deixar o olhar vagar pela extensão de um dos prédios, seus olhos castanho-amarelados fixam-se em uma específica janela aberta, dentro da qual esvoaça uma cortina.
— Shizu-chan parece tão inofensivo daqui de cima... — o moreno ri, apoiando a bochecha em uma mão enquanto estende a outra janela afora, comparando o loiro à distância com o polegar — Como uma formiga, ne?
— Desce aqui de uma vez, seu desgraçado! — o outro rosna de volta, fazendo-se ouvir alta e claramente.
— Descer? — Izaya sorri debochadamente — É você quem quer me matar, Shizu-chan. Então você que suba se quiser sequer tentar.
— Ora, seu--! Eu vou te matar, I-za-ya!!
Quase pode ver a cena acontecendo.
A biblioteca.
Mairu e Kururi mencionaram que o irmão passava as tardes lendo e estudando em casa, afinal. Então, se tivesse algum lugar preferido para matar aula na escola, seria um lugar repleto de livros e silêncio, certo?
Antes que se dê conta, Shizuo já corre escadas acima, ocasionalmente tropeçando e cambaleando. A porta da biblioteca teoricamente está trancada, mas isso não impede o homem de abri-la, para a infelicidade do patrimônio. E, ao pisar dentro dela, de alguma forma simplesmente sabe que achou o lugar certo.
Se depara com um cenário vagamente familiar, mas não muito explorado. Algumas poucas mesas se dispõem paralelamente em frente às janelas, enquanto que na outra metade do espaço estendem-se as prateleiras recheadas de conhecimento até a parede.
Embora o recinto não seja muito grande, possui toneladas de livros. Conhecendo Izaya, porém, o loiro não espera que tenha simplesmente jogado seu diário por aí ao acaso. Se quisesse que alguém encontrasse-o, talvez já o tivessem feito. Ainda assim, o homem não perde a esperança.
Caminhando pelas infindáveis carreiras de livros, Shizuo esforça-se em pensar em algum esconderijo específico, baseando-se no seu conhecimento sobre o informante – o que ultimamente tem descoberto ser praticamente nulo.
Kadota disse, na última vez em que se encontraram, que Izaya considerava-se um observador. De acordo com suas memórias, pode afirmar que se lembra dele acompanhado de um complexo de superioridade.
Mas por que alguém egocêntrico como Orihara Izaya cometeria suicídio? Na outra dimensão, o informante parecia prezar sua vida mais do que o suficiente para querer sobreviver o máximo que conseguisse.
Inicialmente, à lembrança da menção de uma das gêmeas de um possível princípio de depressão, o homem dirige-se à seção de autoajuda. Mesmo depois de checar cada livro dela, entretanto, não tem sucesso.
Em seguida, pensando melhor, caminha até a seção de drama ou tragédia. Se seus pensamentos registrados eram melancólicos ou amargurados, talvez tivesse guardado como um romance ou algo do tipo.
Errado de novo, Shizuo se frustra, cruzando os braços ao se recostar em uma das prateleiras. Seu cérebro nunca foi tão abusado quanto nas últimas semanas – ou será que já faz um mês? Novamente deixa os olhos percorrerem o cenário aleatoriamente, e novamente eles pousam em um ponto específico.
— Eu amo todos os humanos, sem exceção. Não é um amor verdadeiramente puro o meu?
Psicologia.
Reunindo toda a esperança ainda pulsante no corpo, o barman corre os dedos pelas capas ora duras, ora encouraçadas. Uma delas, na prateleira mais alta, está gasta e solta, e desliza pela verdadeira capa do livro ao ser retirado de seu lugar de descanso. Shizuo sente seu sangue trancar nas veias ao ler o título original escrito artisticamente à caneta na superfície bordô.
Paradoxo.
Ikebukuro, 13 de maio de 2002.
Embora sua mente esteja exclusiva e unicamente atrelada à leitura do recém-adquirido artefato, o barman se obriga a ir trabalhar. No meio do dia, entretanto, conclui que teria sido melhor não ter o feito.
Mal se despede adequadamente dos colegas do emprego diurno antes de travar uma corrida desenfreada contra o tempo até seu apartamento. Tranca a porta por dentro apressadamente enquanto chuta os sapatos na entrada.
Shizuo agarra o diário na cabeceira, negligenciado por ele mesmo na noite anterior devido ao sono inesperado que lhe atingiu com tudo; provavelmente devido ao alívio de ter encontrado a fonte das respostas que procura.
Com mãos trêmulas, o homem vira a primeira página e começa uma leitura apreensiva.
17/10/1993
Primeiro registro.
Sabe como os humanos adoram gabar-se de suas vidas ou contar sobre seu dia para as outras pessoas? Considere isto um tipo de relato, apenas escrito sem destinatário específico.
Afinal, minha vida é brilhante demais para ser admirada ao invés de invejada, então não tenho com quem debatê-la. Até porque Shinra nunca me deixa falar, discursando e declarando seu amor por sua futura esposa. Honestamente, não sei por que ainda ando com ele.
Não, eu sei. É basicamente porque ninguém mais está disposto a conversar comigo. Simplesmente não acompanham meu raciocínio.
Hoje não tenho nada de muito especial para relatar, então encerro minha introdução por aqui. Prefiro pensar nesta estupidez de reportar meu dia-a-dia como uma autobiografia, e este é o primeiro capítulo.
Adeus.
As gêmeas estavam certas; os primeiros registros não apresentam nada fora do comum. O loiro apenas corre os olhos pelas páginas até que um registro chama sua atenção:
28/10/1993
Li em certo livro – cujo gênero prefiro não comentar – que, certas vezes, o melhor jeito de descarregar emoções negativas é passá-las adiante, seja para alguém ou para algo.
Achei a escrita adequada para o meu caso, mas não tenho a alma de um poeta para espremer algo lindo a partir de minhas angústias.
Sendo assim, este é apenas um meio de refletir ou debater comigo mesmo questões que me afligem. Talvez, se isto realmente for reconhecido como uma autobiografia algum dia, as pessoas se surpreenderão com a complexidade de meus problemas. Até lá, uso este caderno como registro de pensamentos.
Humanos são bem curiosos para mim. Agem das formas mais inesperadas em situações extremas; nunca falham em me entreter. Mas, até certo ponto, são estupidamente previsíveis. Logo, eu deveria ser capaz de usar essa previsibilidade a meu favor, certo?
Porém, ando enfrentando certa dificuldade em me relacionar ou sequer me comunicar com outras pessoas. Não me incomoda muito, só fico desapontado com minhas próprias habilidades. Afinal, prefiro apenas observar esses comportamentos peculiares.
Mas talvez eu possa dedicar um tempo a descobrir qual é a falha em minha comunicação para futura referência...
Não é surpreendente que Izaya tinha problemas de relacionamento; principalmente com sua personalidade perturbada daquele jeito. O que é mesmo de se estranhar é o fato desses problemas também estarem presente na realidade memorial de Shizuo. O familiar mau pressentimento borbulha dentro do loiro ao virar a página e deparar-se com uma escrita mais forte e agressiva.
09/11/1993
Monstro.
Foi a primeira vez que me chamaram disso na vida. Já ouvira cruel, horrível, mau, etc etc., mas foi a primeira vez que me chamaram de monstro.
Humanos são contraditórios. Dizem que querem morrer, não acham mais sentido na vida, mas se ofendem quando alguém tenta aproveitar-se de sua miséria. Cômico, não?
Infelizmente, não consigo sorrir genuinamente no momento. Não quando essa palavra ainda arde em meus ouvidos por razões que desconheço.
Detesto não saber de alguma coisa. Ficar no escuro, andando à deriva, é sempre um pesadelo para mim. A cada dia que passa, fico mais inquieto com minha incapacidade de estabelecer algum tipo de relação com alguém. Sequer consigo engajar em uma conversa com um indivíduo sem que me olhem nervosamente, o brilho do medo em seus olhos.
Monstro... Sou rotulado de monstro mesmo dedicando tanto meu tempo a esses humanos...
O que todos têm que eu não tenho, ou vice-versa?
Shizuo surpreende-se com a pergunta. Inegavelmente, os relatos são de Orihara Izaya, como declara a contracapa, mas aqueles pensamentos não fecham com a personalidade traçada em sua mente.
À medida que continua a ler a decadência dos pensamentos do garoto, o loiro se pega arfando por ar ao segurar a respiração por muito tempo. Sente cada palavra de agonia pinicar sua pele, infiltrar seu peito, espalhar-se como veneno.
12/12/1993
Meus pais vieram para casa hoje apenas para anunciar que não nos verão até ano que vem, consequentemente desejando um feliz Natal e Ano Novo antecipado.
Mairu e Kururi parecem chateadas, mas sei que elas vão se manter ocupadas. Quanto a mim, nunca dei muita importância a essas comemorações.
Além disso, não consigo me imaginar rodeado por pessoas e alegria quando não importa o que eu faça, não consigo me aproximar de ninguém. Aliás, ultimamente parece que até Shinra está se distanciando. Kadota, então, passa dias sem me direcionar uma palavra sequer.
Minha natureza é tão...trágica assim? Destinada à estática, trancada à mudança...
Me recuso a aceitar isso. Na verdade, me recuso a aceitar que possa estar sentindo algo tão patético como dor ou solidão, se é assim que chamam esse desconforto no peito.
O diário se fecha nas mãos do homem antes que ele registre em seu cérebro que o fez. Sua cabeça gira loucamente, deixando-o desorientado o suficiente para que corra até o banheiro e esvazie o conteúdo do estômago no vaso.
Quando sua garganta para de arder com bile, inala longas tragadas de ar para parar a tontura e o mal-estar fazendo-o suar incessantemente. Algo nas palavras do informante o atinge violentamente, baixando uma culpa insustentável sobre Shizuo.
Mesmo assim, se obriga a voltar ao quarto e continuar a leitura. O próximo relato que o choca data de março do ano seguinte.
24/03/1994
Não converso com ninguém há dias.
Falar, até falo com minha irmãs. Mas uma conversa decente não tenho há 4 dias.
Shinra e Kadota andam passando os intervalos de almoço em outro lugar. Acho que com minha ausência frequente, mesmo quando apareço no colégio, não notam. Shinra disse há algumas semanas que ia me apresentar a um amigo, mas aparentemente abandonou a ideia quando parei de aparecer por lá.
Olho as pessoas e não vejo mais entretenimento. Vejo apenas lembretes ambulantes da pessoa horrível que me dizem ser.
Não, que sou.
Ninguém mais parece ser tão repulsivo a ponto de evitarem sequer olhar para si. Ninguém mais parece ser isolado, temido, rejeitado como eu.
Isso é o que eu ganho por amar humanos.
E, amando-os, quero que se sintam bem.
Então, que tal se eu livrasse a humanidade de uma existência tão abominável quanto a minha?
Ikebukuro, 17 de maio de 2002.
Covardia.
Shizuo não tem coragem de ler o último relato.
Não tem coragem de comer nada. Não tem coragem de comparecer ao trabalho naquela situação. Não tem coragem de dormir, sabendo que seu sono será assombrado pelas palavras tão sinceras e íntimas de Izaya, cravadas em sua pele dolorosamente.
Também não tem coragem de atender aos telefonemas, nem responder às mensagens dos entes preocupados com sua saúde.
Mas a carga que foi despejada sobre si o impedia de sequer levantar da cama.
Shizuo salvara Izaya na outra realidade.
Isso é um fato inegável, evidenciado no contraste gritante entre suas memórias e a dimensão dolorosamente sequelada vivida atualmente.
Quando a noite cai, o barman finalmente arruma a coragem necessária para levantar-se e vestir seu uniforme típico antes de sair com um único destino em mente.
Precisava ir até o fim. Devia isso a Izaya.
O observatório já está fechado, mas o loiro senta-se na mureta à beira do telhado do prédio. Abre o diário na última página preenchida.
04/05/1994
Olá, olá!
Este é meu último registro. Depois disso, não terei mais necessidade de descarregar emoções, porque serei apenas pó (se alguém se incomodar em me cremar).
Depois de meses refletindo e andando em círculos, conclui que minha existência não é apreciada o suficiente neste mundo. Logo, estou deixando-o.
Me pergunto se vai ter alguma matéria sobre mim amanhã, ou se vão simplesmente jogar meu corpo do cais. Hahahaha, seria engraçado se um turista infeliz passasse por ali bem na hora em que meu corpo estivesse boiando na água.
Não sei o que me espera além da vida. Entretanto, também não sei o que me espera dentro dela. Me considero um cientista, e este é um experimento para descobrir o que me espera além desta vida, já que já vi uma prévia do que me espera nela.
Se alguém encontrar este registro algum dia, espero que seja de alguma utilidade. Ou que pelo menos lhe faça refletir.
Orihara Izaya está saindo. Ciao~
O vento uiva suavemente, agitando os cabelos desgrenhados e descoloridos no ar. Alguns fios prendem-se nas lágrimas silenciosas que correm pelas bochechas do inimigo do homem que nunca foi informante de Shinjuku. Pelo menos não nesta realidade.
Não lamenta seu passado. Não lamenta a realidade atual.
Lamenta a história que nunca conheceu, e nunca conhecerá realmente.
Lamenta o pedido imprudente que fez naquela noite irrefutavelmente real sob uma estrela cadente, mesmo que alheio à possibilidade de tornar-se real e às consequências do mesmo.
E, em meio às lamentações soluçadas, ergue os olhos inflamados ao céu, onde feixes de luz cortam a escuridão, distante da agonia do homem e da cidade.
Shizu-chan, faça um desejo.
A voz do informante ressoa calmamente em seus ouvidos, e Shizuo esboça um sorriso amargo, implorando à meia-voz aos astros acima:
— Queria uma chance de conhecer Orihara Izaya.
Fale com o autor