Notas iniciais
Boa leitura pessoal!

Eu acabava de me trocar após um banho pela manhã, para acabar com o sono, quando ouvi alguém dizer atrás de mim.

— O seu tempo aqui está acabando — eu me virei e constatei que era Ren.

Ele estava sentado em cima da minha cama, sua cauda balançava preguiçosamente, seus olhos violeta brilhavam, e sua expressão estava muito séria, se é que é possível para um gato ter uma expressão assim.

— Mas eu ainda não consegui descobrir o que eu preciso mudar — argumentei — se você pudesse me dizer seria bem mais fácil.

— Sim seria bem mais fácil — ele concordou — mas não teria valor nenhum se eu fizesse isso — afirmou.

— Se pudesse pelo menos me dar uma dica — eu pedi.

— Não será necessário — ele afirmou — você será capaz de enxergar por si mesmo.

Ele levantou-se e se encaminhou para a janela.

— Eu apenas vim lhe avisar isso — disse e sentou-se na janela — até logo — ele disse e pulou para trás pela janela.

Eu olhei-o assustado e corri em direção a janela olhando para baixo para ver onde ela estava, mas ele tinha sumido.

Suspirei e andei para fora do quarto indo para a cozinha afim de tomar o café da manhã. Ao adentrar o ambiente encontrei Sakura como sempre preparando o café, Sarada em sua cadeirinha tentando comer sozinha, mas dessa vez Sasuke estava lá, por um momento eu parei na porta ainda surpreso.

— Bom dia! — a voz de Sakura me despertou.

— Bom dia! — respondi e fui me sentar.

Sasuke me olhou rapidamente e murmurou um bom dia, voltando a prestar atenção em sua refeição.

Servi-me de suco, peguei algumas torradas, e estava comendo quando Sakura voltou a falar.

— Logo você voltará para casa — ela disse me olhando.

— Sim em poucos dias — eu disse.

— Você já deve estar sentindo falta de casa — ela disse provando o suco.

— Humhum — eu murmurei — "nem tanto — pensei".

— Ele não poderia ficar aqui para sempre não é mesmo — Sasuke se pronuncia.

— Vou sentir sua falta — ela me diz com olhos cheios de carinho e sinceridade.

— Hum — murmurei.

Depois dessa pequena conversa voltamos a nos concentrar no café, e diferente das outras vezes, este foi seguido de um silêncio, pensei que fosse pela presença de Sasuke, quase não me lembro das vezes em que tomamos café ou fizemos alguma refeição juntos.

— Estou indo — Sasuke disse e levantou-se.

— Mas já? — Sakura perguntou.

— Itachi quer me obrigar a tirar férias — disse — e quer que eu me encontre com ele em sua sala antes.

— Mas querido isso é ótimo — ela diz sorridente.

— Sim — ele diz colocando o paletó – estarei de volta para o almoço — informou e saiu.

— Isso não é ótimo Sarada? — Sakura fala animada para a filha — papai vai ficar mais tempo conosco.

******

Depois de tomarmos café e Sasuke ir para a empresa, Sakura se encontrava mais animada que o habitual e fazia planos sobre os preparativos para o almoço. Ela não parava de falar e imaginei que ela estaria planejando um banquete e presumi que tudo isso se deve ao fato de que Sasuke irá almoçar conosco.

Ele não havia demorado muito e logo estava de volta como disse e novamente durante o almoço com todos sentados a mesa aquela imagem de família feliz me pareceu tão estranha, não digo que foi ruim, mas a presença de Sasuke era muito distante. Ele conversava pouco e até mesmo Sakura e Sarada ficaram mais tímidas, muito diferente da forma que costumavam ser, sempre com risadas e conversas bobas.

Após o almoço ficamos tranquilos na sala, Sasuke se encontrava deitado em um dos sofás, Sakura e Sarada no chão, entretidas com algum brinquedo de montar. E eu da poltrona no canto observava toda a cena, na minha cabeça era como se o Sasuke não se encaixasse ali, eu sei que eu e ele somos a mesma pessoa, no entanto, há algo nele que eu não gosto.

******

Pela tarde Sasuke saiu e foi ao supermercado comprar ingredientes para fazer uma lasanha no jantar. Sakura se encontrava em seu escritório, Sarada estava adormecida na sua manta que foi estendida no tapete felpudo da sala mais cedo, enquanto estava assistindo a algum desenho infantil na televisão e eu estava sentado no banco do pequeno jardim enquanto colocava meus pensamentos em ordem. Porém algum tempo depois os mesmos foram interrompidos ao escutar a campainha.

Levantei-me e entrei novamente pensando que talvez pudesse ser Sasuke que esquecera a chave, entretanto quando me aproximava da sala escutei vozes e conclui que Sakura já atendera a porta. Passei pela sala e notei que Sarada ainda continuava dormindo. Aproximei-me e me assustei ao ver quem era, estava mais magro, seus olhos apresentavam olheiras profundas, seus cabelos agora ralos estavam quase todo branco, sua estrutura alta e imponente agora se encontrava tão frágil, quase não pude reconhecê-lo, mas o nome veio logo a minha mente.

“Fugaku”

— Olá Sakura! – o escutei dizer.

— Senhor Fugaku! – ela exclamou surpresa – há quanto tempo, entre, por favor – ela deu passagem a ele.

— Sasuke está em casa? – perguntou receoso.

— Não, ele foi fazer compras, mas não demorará – ela informou – você gostaria de falar com ele? – ela perguntou.

— Hoje vim para conversar com você – ele disse sério.

— Então entre – e assim ele fez.

— Oh! – ele exclamou ao me ver – Olá! – ele me cumprimentou.

Eu simplesmente acenei com a cabeça.

— Este é Ayato, um primo que está passando um tempo conosco – ela informou.

Foi um breve cumprimento.

— Vamos nos sentar no jardim para podermos conversar melhor – ela sugeriu.

Ele afirmou com a cabeça e a seguiu.

Fiquei curioso sobre o que ele estaria fazendo aqui, Sasuke e ele não tem uma boa relação, até mesmo no meu tempo é assim, então o que ele queria conversar com Sakura?

Assim esperei um tempo e fui atrás deles no jardim para escutar o que ele tinha a dizer. Sentei-me perto da porta de acesso onde eles não poderiam me ver, mas eu podia escutá-los sem problemas.

Conversa no jardim

Fugaku e Sakura sentaram-se no pequeno banco o jardim, ele a olhou e suspirou cansado.

— E minha neta? – ele perguntou desviando o olhar para a grama.

— Ela está dormindo agora – ela sorriu de forma singela, se essa era a forma que ele se sentia melhor de iniciar a conversa ela seguiria.

— Ela se parece tanto com ele — seus olhos brilharam tristemente e um tímido sorriso surgiu em seus lábios.

Seus olhos vagaram distantes enquanto ele continuava olhando para o chão.

— Eu errei tanto com ele, com todos eles na verdade – ele disse – mas Sasuke era o mais novo ainda não entendia bem as coisas. Eu deveria ter sido um bom pai, um bom exemplo para ele – sua voz ficou embargada – ele deveria me admirar.

Sakura apenas permanecia em silêncio o escutando.

— Mas ao invés disso eu os decepcionei. Eu os afastei de mim – sua voz era chorosa – quando Mikoto e eu nos separamos eu fui contra, mas – ele fungou – ela estava certa, ela tinha que se afastar ou eu os destruiria – lágrimas começaram a rolar por seu rosto – eu machuquei as pessoas que deveria proteger – ele soluçava devido ao choro – e por causa disso, minha esposa me deixou, meu filho mais velho me expulsou de sua vida e o Sasuke – ele suspirou.

Sakura esperou que ele se recuperasse para continuar.

— Há alguns anos eu tentei mudar, me casei novamente, Itachi já era maior de idade e não me permitia entrar em contato, então eu quis que pelo menos o Sasuke ainda fizesse parte da minha vida, afinal ele é meu filho – suspirou – porém eu voltei a beber e o Sasuke voltou a presenciar tudo aquilo eu o ridicularizei tantas vezes, tratei-o da pior forma e por minha culpa o Sasuke se tornou o que é hoje – ele virou-se para Sakura – me desculpe, eu realmente sinto muito por ter feito isso com ele, com vocês.

Sakura ficou surpresa com o que ele disse.

— Senhor Fugaku, por favor, você não prec... – ele a interrompeu.

— Sim preciso – ele afirmou – Mikoto me contou o que está acontecendo – ele a olhou sério – sobre os problemas que ele vem tendo com a bebida, sobre como ele sempre tenta ficar o máximo de tempo fora de casa.

— Ele é uma boa pessoa – Sakura afirmou – mas ele não me deixa aproximar, ele sempre se afasta.

— Eu sei filha – Fugaku colocou sua mão sobre a dela – eu quero ajudá-lo, não quero que ele termine como eu e machuque vocês.

Sakura sorri docilmente para ele.

— Obrigada – ela lhe diz sincera – espero que vocês possam se entender e se perdoar.

— É tudo o que eu mais quero minha filha – ele diz.

Dentro de casa

Então a minha relação com o meu pai só piora no futuro. Sasuke ainda tem uma raiva muito grande dele e o culpa por tudo o que aconteceu. E em grande parte eu concordo. Eu estava refletindo sobre a conversa que eles tiveram quando ouvi barulhos o lado de fora e imaginei que eles pudessem estar entrando, então me levantei e sai dali rapidamente.

******

No início da noite Sakura convidou Fugako para tomar um café, que logo foi aceito. Sentamos-nos à mesa após Sakura ter levado Sarada para dormir em seu quarto. Fiquei impressionado com o quão diferente o meu pai estava. A imagem que eu tinha dele no meu tempo é completamente diferente.

Conversar com ele agora parecia mais fácil, tenho poucas lembranças felizes de nós juntos quando eu ainda era pequeno, fomos nos distanciando com o passar do tempo e não ter ele por perto passou a ser algo muito natural. Não me lembro da última vez que rimos juntos, era diferente estar com esse “novo pai”.

A conversa estava fluindo muito bem, o clima era bastante confortável, porém tudo foi interrompido com a chegada de alguém no vestíbulo.

— Sakura ouvi uma voz diferente quem está ai? – de repente a pessoa entra na cozinha onde nos encontrávamos e sua expressão tranquila mudou para uma expressão de raiva – o que ele faz aqui? – esbravejou.

— Sasuke! – Sakura exclamou.

Olhei de um para o outro esperando o que aconteceria.

— Eu já te disse que não viesse a minha casa – Sasuke disse bravo.

— Sasuke não precisa agir assim – Sakura tentou dizer.

— E você quantos vezes eu já disse que não o quero aqui dentro – brigou com ela.

— Não precisa falar com ela assim – Fugaku tentou – eu quero conversar com você, mas não atende minhas ligações e sua mãe me disse que ... – foi interrompido.

— Então quer dizer que você e minha mãe agora são amigos? – sorriu e desdém.

— Me escute eu preciso lhe dizer – novamente ele o interrompeu.

— Eu não quero ouvir nada que venha de você – ele esbravejou fazendo com que o mais velho se calasse.

A imponência de Sasuke de porte alto e atlético contrastava ainda mais com a de seu pai, que parecia pequeno e frágil em comparação.

— Quero que saia da minha casa – ele disse sério.

— Sasuke, por favor, você não pode – Sakura diz.

— Agora – ele a ignorou e estendeu o braço indicando a saída.

A cozinha se encontrava em silêncio, então Fugaku moveu-se em direção a saída sem dizer uma única palavra. Apenas lançou um rápido olhar para Sakura e em seguida para mim e depois saiu.

— Como você pode fazer isso? – Sakura questionou.

— Saia – ele disse voltando-se para mim.

— Mas ... – me interrompeu.

— Mandei sair – e me fuzilou com olhar.

Rapidamente me levantei e sai da cozinha e fui a sala de estar em direção a escada onde me sentei. As vozes alteradas podiam ser ouvidas de onde estava.

Dentro da cozinha

— O que deu em você? – Sakura perguntou.

— O que deu em mim? – Sasuke perguntou – quantas vezes vai ser preciso que eu diga que não quero aquele homem aqui?

— Aquele homem é o seu pai – ela disse.

— Nós temos conceitos bem diferentes do que é um pai – ele disse e ia saindo quando ela lhe segurou a mão.

— Não vá – pediu – nós temos que conversar sobre isso.

— Não temos nada para conversar – ele disse sério.

— Sim nós temos – ela afirmou séria também – e quero que pare de fazer isso.

— De fazer o que? – ele perguntou.

— Isso, de me afastar desse jeito – ela diz – vamos sentar e conversar Sasuke.

— Eu não afasto você – ele reclamou.

— Sim você faz – os olhos dos dois se encontraram.

— Por que toda essa insistência? – ele questionou – eu não fico incomodando você, porque não me deixa em paz.

— Isso não se chama incomodar Sasuke, mas sim preocupar, eu me preocupo com você – ela diz.

— Pois eu nunca pedi para que se preocupasse comigo – ele gritou.

Surpresa ela lhe soltou a mão, seus olhos verdes se abriram em surpresa.

— Isso não é algo que se peça – ela gritou.

— Pois guarde sua preocupação – ele disse.

— Eu te amo e me preocupo com você – ela gritou.

— Então pare de me amar – ela gritou de volta.

Assustada ela o olhou, e grossas lágrimas rolaram por seu rosto.

— Você finalmente disse – ela riu em meio a um sorriso triste e os olhos verdes tomados pelas lágrimas – e você acha que eu não tentei, em alguns momentos eu queria que todo esse sentimento que tenho por você sumisse, desaparecesse, por que é tão difícil amar você – sorriu tristemente.

— Sakura eu ... – ela o interrompeu.

— Eu estou cansada de me machucar Sasuke – ela disse – eu tentei, mas eu não consigo mais amar pelos dois.

Sasuke se calou.

— Eu realmente achei que nós poderíamos ser felizes, mas – ela suspirou e olhou diretamente nos olhos dele – diga-me Sasuke, se não tivéssemos a Sarada você ainda teria se casado comigo?

Sasuke a olhou surpreso pela pergunta e abriu a boca para começar a falar mas ela o interrompeu.

— A verdade, por favor – ela pediu.

Ele a olhou, mas logo desviou seu olhar.

— Sinto muito – foi a única coisa que ele disse.

Ela sentiu as lágrimas se intensificarem e se dirigiu a porta da cozinha, mas antes de sair parou e disse sem virar-se para ele.

— Obrigada por ser sincero – e saiu.

Sala de estar

Eu ainda estava sentado na escada quando Sakura passou pela porta de acesso a cozinha rapidamente em direção a porta de entrada e me levantei para alcançá-la.

— Sakura – chamei-a segurando sua mão.

Quando ela virou-se para mim, pude ver seu nariz e olhos vermelhos e seu rosto banhado pelas lágrimas.

— O que aconteceu? – eu perguntei.

Ela se desvencilhou cuidadosamente de minha mão.

— Desculpe querido – ela envolveu meu rosto com as duas mãos e me deu um beijo na testa, em seguida afastou-se e saiu fechando a porta atrás e si.

Fiquei parado surpreso pelo que aconteceu, ouvi o barulho de carro e pela janela vi o carro vermelho de Sakura se afastar e só sai do meu devaneio quando Sasuke saiu da cozinha em direção a escada, fui atrás dele e o segurei pelo braço.

— O que aconteceu? – perguntei, mas me surpreendi quando olhei em seu rosto e me deparei com seus olhos vermelhos, mas ele se soltou bruscamente e subiu me deixando surpreso.

“Mas o que foi isso?” foi o que eu pensei.

******

No meio da noite fui acordado por um barulho, sentei-me na cama para escutar melhor e percebi que era o toque do telefone, não demorou para que ele parasse de tocar indicando que alguém atendeu. Poucos minutos depois a porta do meu quarto foi aberta e a luz foi acesa, o que fez com que eu tapasse meus olhos pela claridade.

— Vista alguma coisa, vamos sair – ele disse e saiu.

Fiquei um pouco confuso e procurei o relógio no criado mudo. Olhei e vi que passava um pouco da meia noite e meia, assim apressei-me e vesti uma bermuda jeans e uma blusa azul escura de manga curta e tênis.

Sai do meu quarto e desci até a sala, logo Sasuke desceu também e estava com Sarada no colo que segurava o seu ursinho.

— Aonde vamos? – eu quis saber.

Ele simplesmente me ignorou e indicou para que eu saísse logo de casa, ele saiu também em seguida trancou a casa e seguiu em direção ao seu carro ainda em silêncio. Fui atrás dele e após colocar Sarada em sua cadeirinha me indicou para que eu sentasse ao lado dela, assim ele deu a volta no carro indo do lado do motorista, sentou-se e partiu com o carro.

— Para onde estamos indo? – voltei a repetir a pergunta.

— Calado – ele disse.

— Mas ... – eu comecei a falar, mas ele me interrompeu.

— Eu disse CALADO – ele disse sério.

Assim permaneci o resto do caminho em silêncio e Sarada logo adormeceu em sua cadeirinha ao meu lado.

Minutos depois estranhei o caminho ao qual ele estava seguindo, em direção a algumas luzes onde se encontrava um pequeno grupo de pessoas reunidas. Ele estacionou próximo ao local e desceu do carro tendo o cuidado de deixar as janelas abertas por causa de Sarada que dormia no veículo.

Olhei pela janela e não me senti bem, abri a porta do carro e sai com os olhos fixos na imagem a minha frente, Eu não percebi mais nada ao meu redor, não vi os policiais conversando com Sasuke de um lado, não notei as poucas pessoas curiosas que olhavam na mesma direção que eu. A minha frente eu só via aquele tão conhecido carro vermelho destruído e uma manta estendida no chão cobrindo algo que parecia ser uma pessoa.

Notas finais
Espero que tenham gostado.